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outubro 13, 2016

[#11] palimpsesto

- E agora? Continuas a achar que música não é poesia?
- Oh yeahh!

outubro 10, 2016

[#10] palimpsesto

- Música é poesia.
- Que fofinho. "É fogo que arde sem se ver", é coração a rimar com paixão.
- Música e poesia são as expressões mais próximas dos sentimentos e emoções...
- Eu também sou muito eficiente a bater claras em castelo, à mão, esclareça-se.
- Não se pode falar contigo.
- Poder até podes...
- Desde quando és tão chata?
- Ácida e corrosiva?
- Sim.
- Desde o fundo, muito ao fundo, à esquerda. Sempre à esquerda, mas ao fundo.
- Volto noutro dia?
- Para me dizeres que a música e a poesia é ferida que dói e que se sente, como quem come batata quente?
- Por que é que tens de ser do contra?
- Não é o caso. Não sou contra. Só não partilho do nível de profundidade do buraco. Acho que cavei mais de buraco e meio.
- E viraste à esquerda, como quem se enterra?
- Não foi bem assim. Vou cavando e deixando umas cavilhas à esquerda.
- Para quando regressares?
- Não tenciono regressar.
- Para alguém te seguir?
- Só se fosse louco.
- Então, para que raio deixas as cavilhas?
- Sim, para isso.
- Volto noutro dia?
- Noutro dia não serei melhor. Já terei escavado buraco e dois meios.
- Dois buracos, queres tu dizer.
- Não. Buraco mais meio buraco mais meio buraco.
- Não percebes nada de matemática.
- Tanto, como tu de música e poesia.
- Não mistures tudo no mesmo buraco.
- É esse o teu problema. Não escavaste o suficiente.
- E tu?
- Eu ainda não encontrei água. E não espero encontrar luz.
- Um dia explicas-me?
- Duvido! Mas podes sempre lançar-te uma Escada Estreita entre o Ar e a Perfeição.
(....)
- Volto noutro dia, definitivamente.
- É tudo uma questão de advérbios de modo, de cavilha e acordeão.
- Acordeão?
- Sim, do diabo.
- E onde é que eu vou encontrar isso, convenientemente?
- Escavando, escavando muito, muitamente.

_______________

PLAY João Pedro Oliveira | L'Accordéon du Diable

maio 30, 2016

[#9] palimpsesto

- Talvez um dia entendas que sempre foste fome e sede em estado terminal.
- Mais valia acabar com a vida.
- Ou com a morte: mais valia acabar com a morte.
- De qualquer forma, eu lá sou pessoa de entender!
- Nisso tens razão. Não és pessoa de entender, de viver, de morrer.
- Concordo.
- Nem parece teu. Desde quando? Desde quando és pessoa de concordar?
- Eu, agora, concordo com tudo.
- Ou com nada! Concordar com tudo é como concordar com nada.
- Talvez seja melhor magoares-me como quem me belisca.
- Eu? Eu não sou pessoa de magoar. Mas posso sempre gritar, tentar acordar-te.
- Eu adormeci eternamente.
- Adormeceste ou acordaste?
- Adormeci, no dia em que acordei, adormeci.
- Isso é porque não sabes romper com o passado.
- Já te disse que não acredito em passado.
- Acreditas e tudo o que sobra é cobardia: não queres é rompê-lo.
- Se eu acreditasse nele, saberia como o romper.
- A sério? E isso seria como?
- Com os dentes. Só se pode romper com os dentes.
- Até deixar marca?
- Sim, especialmente a marca. Até deixar sangue. Veia. Fractura exposta.
- Tão exposto assim, não há como fazê-lo passado.
- Por isso não acredito nele.
- Acreditas em quê, podes dizer-me?
- Não!
- Porquê?
- Porque vou mudificar.
- Agora até erros ortográficos dás?
- Não é erro, muito menos ortográfico.
- Modificar escreve-se com um O.
- Sim, um O tão redondo como tu: nunca aprenderás a ler para além da letra que aprendeste.
- E tu continuas fome e sede em estado terminal.
- Mudificar: acto de ficar muda.
- O quê?
- _______________________. -
[Gesticulo como quem puxa, imaginária e continuamente, um fio de palavras da garganta: fosse a torrente de pensamentos tão fácil de estancar].
- Definitivamente: fome e sede em estado terminal!

abril 29, 2016

[#8] palimpsesto

- Deus só podia estar muito entediado.
- No dia em que foste concebida?
- Tens uma piada. Não! No dia em que inventou este lugar.
- Porquê?
- Porquê? Ainda perguntas porquê? Ele só pode ter inventado a Conservatória do Registo Civil no intervalo entre a criação do herpes e das hemorróidas.
- Só tu!
- Só eu? Já deste conta do tempo que passou?
- Para ser franco, não. Deixas-me escrever?
- Desculpa, eu calo-me.

PFuuuu - suspiro fundo e longo de tédio, esclareça-se- Há quem escreva. Eu prefiro pensar. Quantas correntes de pensamento interrompo com o acto da escrita? Escrever é uma forma de atrasar o pensamento. Musil cria a figura de um bibliotecário que nunca leu um livro mas que sabe tudo sobre os milhares de livros que organiza - importante é ter uma ideia geral, diz, lê-lo seria perder-se no seu conteúdo. Possivelmente, também ao pensamento interessa a ideia geral. Compreendê-lo seria pará-lo, esmiuçá-lo, perder a sua forma, em detrimento de um micro-contorno, impedi-lo de andar. E escrever é sempre uma forma de compreender o pensamento. Mas uma coisa é certa, o André escreve que se desunha. Adoro quando posso aplicar a palavra desunha numa frase, quase tanto como resvalar.

- A sério, desunha?
- Esqueço-me do teu dom. Isso funciona a quantos metros de distância?
- Quanto mais perto melhor. Queres experimentar sentar-te ao meu colo?
- Ao teu colo? Na Conservatória?
- Era um bom título para um filme pornográfico.
- Pois eu não acho que o disfarce de funcionária da Conservatória tenha grande interesse.
- E o que é que tem interesse, para ti?
- Muita coisa.
- Diz lá.
- Depenar patos com parafina.
- O quê?
- Estou a pensar como é que se depenam patos com parafina. Será que se banha o pato por inteiro ou se borrifa o bicho de parafina?
- Não faço ideia, mas se acendesses o isqueiro ficava depenado e tostado de uma vez só.
- Acho que não percebes nada de depenar patos.
- Pois não, eu só sei depenar mentes.
- No teu colo?
- O pato?
- Sim, o pato.
- Mas por que te interessa depenar patos com parafina?
- A mim? Nada! Eu até sou vegetariana.


março 14, 2016

[#7] palimpsesto

- Utopia.
- Disseste alguma coisa?
- O que é utopia?
- Vai ao dicionário ou pergunta ao More.
- A sério, o que é utopia?
- Eu sei que é a sério. Nunca te vi a brincar.
- Então, diz lá.
- Lá, si, dó.
- Falaste em utopia - explica.
- Utopia é amares uma ideia.
- Amaste uma ideia?
- Não percebo o teu espanto: é mais fácil amar uma ideia do que uma pessoa.
- Não sei se concordo.
- Quero lá saber se concordas! Uma ideia é uma formulação sobre a realidade. A realidade, o concreto, é o que é.
- Amar-te como a ti mesma?
- Levo muito a sério a dica de amar o próximo- sou o mais próximo de mim que consigo arranjar.
- Isso não é um tédio?
- Não, se a utopia alimentar o que em ti desconheces. É isso que te faz amá-la.
- Deve ter sido a definição de amor mais egoísta que alguma vez ouvi.
- E, no entanto, deve ter sido a mais realista que conheceste.
- Realista? Amar uma utopia?

Ambos bebemos do riso.

- Usaste o verbo no passado, no outro dia.
- Não ligo nada a tempos verbais. Tudo o que existe é presente.
- P r e s e n t e- o que vem depois do passado e antes do futuro.
- Não, o concreto é presente. E não acho que exista uma relação de ordem no tempo tão definida como me querem fazer acreditar.
- Então, andamos todos enganados?
- Não quero saber o que os outros acham. Digo-te que só é possível viver no presente e que passado e futuro são sinónimos no meu dicionário.
- Como se o sentido não importasse!
- O sentido, como o tempo,  é uma invenção, interessa aos Números Reais e pouco mais. Além disso, gosto mais de Números Complexos,  descrevem melhor a realidade. Por isso não têm relação de ordem.
- Detesto quando falas coisas que eu não alcanço.
- Só disse que os Números Complexos são mais reais dos que os Reais porque, além dos Reais, englobam neles os Números Imaginários. Para captarmos, com um mínimo de rigor, a complexidade da realidade precisamos de muitas ferramentas imaginárias.
- Já estás a divagar.
- Nem pensar. Raciocínio dedutivo no seu melhor!
- Pensa comigo: andar para trás é passado e andar para a frente é futuro. É simples, tens de concordar!
- Andar para trás ou para a frente é não estar parado e só isso interessa.
- Então, presente é estar parado?
- Sim. O presente é a velocidade instantânea, e o futuro e passado a velocidade média, uma aproximação ilusória.
- Por isso é que o presente é uma utopia?
- Sim.  Quando o tempo pára, quando nada mais existe, é quando nós podemos e sabemos amar.
- Então, só é possível amar uma realidade paralela?
- Não. Só é possível amar uma utopia. Somos demasiado fracos para amar o que nos incomoda. E a realidade incomoda-nos.
- Então, preferes amar um imaginário belo?
- Não é por ser belo. É por ser único. Amei, amo e amarei um presente único que se prolonga, que se estende sem sentido - tão cheio de belo como de horrível. Onde um incómodo é pretexto de entrega. E não é de todo imaginário, ainda que viva numa ideia.
- Uma utopia, portanto.
- Sim, uma concreta e absurda utopia.

janeiro 29, 2016

[#6] palimpsesto

--> - Então?
- Já disse que não!
- Como não?
- Apaguei. Rasguei tudo. Lixo!
- Ahahah. Então e o "Ontem, a distância que criámos entre o que fomos e o imaginário que passamos a ser. Ontem- a palavra que branqueia o tempo e faz vacilar a dúvida e o erro que somos..."?
- Queres parar?
- Ah! Só tu é que me podes humilhar, é isso?
- Não me interrompas! Estou farto de te ouvir. 
- É tão aborrecido quando a bola passa para o nosso lado, não é?
- Não é nada disso! 
- Então o que é? "Ontem, a distância que criámos entre o que fomos e o imaginário que passamos a ser". És tão prosaico! Tão bonitinho!
- Pouco me importa o que achas ou deixas de achar. Mas dispenso diminutivos!
- Então explica.
- Pensei que não fosse preciso.
- Tu é que sabes ler as pessoas, eu não. Sou uma perfeita egocêntrica, que não ouve ninguém a não ser a si própria!
- "ouve" com ou sem "h"?
- Olha é com "c" - couve!
- Era só para não cairmos no ridículo de nos pormos a escrever meta-textos.
- Como aquela música, la-la-la-la-la?
- Qual música?
- Uma dos The Gift.
- Lembras-te de cada cromo.
- Nem é das piores. Ainda é do tempo em que a Sónia Tavares não se resumia a uma Ágata Gourmet.
- Romana, queres tu dizer?
- Isso, isso.
- Vou pôr no YouTube, espera um segundo.
- Desde que não seja a Gaivota.
- PLAY
- O que raio tem esta música que ver com a nossa conversa?
- Schiuu.
- Ahh, já entendi. Às vezes fazes umas associações de ideias interessantes, reconheço.
- Somos tão banais, não somos?
- Sim, somos um lugar-comum tão medíocre: Graças a Deus.
- A sério? Acreditas em Deus?
- É um modo de dizer. Sou da opinião do Musil, a este respeito.
- Quem é esse?
- Esquece.
- Como se isso fosse possível. Se me conhecesses, "esquecer" seria um verbo que jamais usarias comigo. Saberias da sua inutilidade - consigo ser muito teimosa.
- Dá-me um minuto. Hum, está aqui, vou ler-te:
      "Até aí, "Sua Majestade" era para ele uma fórmula sem conteúdo mas ainda em uso, tal como se pode ser ateu e, apesar disso, dizer "Graças a Deus"."

- "Ontem, a distância que criámos entre o que fomos e o imaginário que passamos a ser".
- Queres parar com isso?
- Só quando me explicares.
- Foi e continua a ser o maior enigma da minha vida.
- Ficou sem solução? Foi um erro?
- Fiz o melhor que pude. O melhor que sabia.
- E chegou?
- Se tivesse chegado, não estaríamos a falar nisso agora, não achas?
- Há qualquer coisa de sádico na natureza do ser humano, não há?
- Chama-se amor.
- Além de prosaico és lírico? Então, fodemos ou ficamos?
- Nunca amaste?
- Amei uma vez.
- E foi um erro?
- Não! Foi uma utopia. Contente?
- Porque haveria de estar contente?
- Gostas de me humilhar.
- O amor é uma humilhação?
- O amor não, a utopia talvez.
- E fizeste o melhor que soubeste?
- Não! 
- Porquê?
- Porque nada fiz! 
- Chega de sermos óbvios?
- Qual é o teu número afinal?
- Pode ser o último!
- Porventura não serei assim tão chata!
- Tens mais de ridícula do que de chata. Tens noção quão absurdo é inventares estes diálogos, não tens?
- Esta espécie de meta-solilóquios? Heit! deixa a minha meta-cabeça em paz e vamos foder.
- Foder a mente?
- Não, a memória! Ou o que dela resta.
- Engana-me, então: PLAY   
- Tens noção que isso é jogo sujo, não tens?
- Tão ridícula, meu Deus. Já devias estar tão habituada! Ajoelhaste-te? Agora, já sabes como termina a história!

agosto 20, 2015

[#5] palimp­sesto

- Tu é que pediste para ler.
- Achas que li? Afinal, não vesti os óculos.
- A cegueira é tão conveniente, não é?
- E tu sabes o que tens estampado no rosto, não sabes?
- Sim. A clarividência inclui-me.
- Ah, és um metafísico, portanto.
- E tu, uma palerma.
Inspirámos em uníssono. Ambos, ruidosamente, forçando a exalação de um ar, em ambos, saturado.
(_________________)
Rompeste o silêncio:
- Vens renovar?
- Claro. Renovar é tudo o que está ao nosso alcance. Já tudo foi criado.
- Pelo menos há a esperança de que a fotografia saia melhor.

Creio que nos encontrámos. Não são fáceis os encontros. Um encontro nasce dessa força capaz de romper o egoísmo. E nós somos tão aleatórios para sermos síncronos.

- Posso pedir-te uma coisa?
- Diz.
- Acaba de escrever o poema que estavas a escrever. Eu não te interrompo, eu não olho mais para ti.
- Posso tentar. Mas quero que olhes tão perfeitamente para mim.

agosto 17, 2015

[#4] palimp­sesto

"Ourém, Conservatória do Registo Civil, 11 de Agosto de 2015

     - Olá, estás boa?  - Silêncio.
    André, vê se te convences! Eles não te ouvem. Estão demasiado distantes de si para te poderem ouvir. Queres escrever um coral a quantas vozes? Não te chegam as tuas? E que pergunta escusada é essa? Não vês que não? Resta-te assim tanto tempo de vida que o possas gastar em perguntas inúteis? Pergunta-lhe o que lhe faz lembrar o cheiro desta casa; se já sentiu a fúria do vento a subir-lhe pelas pernas; se, pela manhã, bebeu o café ou se o degustou; se se lavou do banho da noite; se hoje já se masturbou... enfim, pergunta-lhe algo que a possa fazer sentir-se viva. V   I   V  A.  Já sabes as respostas, de qualquer forma!

   Ontem- a distância que criámos entre o que fomos e o imaginário que passamos a ser. Ontem- a palavra que branqueia o tempo e faz vacilar a dúvida e o erro que somos...

    Foda-se! Não consigo. É que não consigo concentrar-me! Basta!
   Por que é que tens de vir ter comigo com esses olhos lânguidos? É um pedido de socorro, é?  Eu só quero escrever de mim, para mim, sobre mim. Eu só quero poder desenhar uma gaveta fechada, para não ter de ver o que nela se encerra. Não quero ver. Não quero ver-te. Desaparece. Desaparece-me. Mas quem te deu autorização para entrares assim? Já disse que não me interessas, porra! Por que é que tenho de arcar com os teus dilemas de síndrome pré-menstrual? Quero lá saber dos teus excessos de testosterona. Queres o quê? Queres que eu te chame falsa, idiota? Queres que te arranque essa máscara ridícula com que enganas meio mundo e, quase, a ti? Ou preferes que esconda a minha mão debaixo da tua saia? Deixa de ser idiota. A única coisa verdadeira em ti são essas unhas. Autenticadas pela micose que nem fazes questão de esconder. Ostentas orgulho nelas porquê? Porque são feias e fracas? E por que raio as cortas rente e não as pintas como as outras gajas? Por que não as cobres de verniz-gel, a condizer com a tua dissimulação? Sabes o que isso é, ao menos, verniz-gel? Oh pá, deixa-me em paz. Eu só quero escrever de mim, para mim, sobre mim. Já disse. Pára de me fixar com esse olhos brilhantes. Vens renovar o quê? O cartão que te dá um número? O mesmo número de sempre? O número onde te escondes de borrasca em borrasca? Tens medo de quê, afinal? De admitir que o que tens te chega e sobra à tua pobre ambição? Que vagueias como quem vive? Por que fazes tanta questão de te boicotar? Por que negas despir-te?  Por que merda é que não queres ser feliz? Que enfado lírico! Estou farto de ti. De todos os outros iguais a ti. Farto do mundo. Larguem-me, porra. Eu leio-vos a milhas. Deixem-me em paz. Só quero paz! Só quero distância.

    Não acredito. Deixaste cair a porra do lápis de propósito, só para testar os meus dotes de Don Juan? És tão previsível!"

- Desculpa, posso?


agosto 14, 2015

[#3] palimp­sesto

- Sim, tens razão. Desculpa. Eu não faço ideia do que escreveste. Usei a palavra verborreias por mero exercício lexical. Enfim, para exercer o meu direito literário ao uso de palavreado acessório.
- Ah, afinal não sublinhas, apenas. Também escreves.
- Só escrevinho.
- És escritora?
- Não, deus me livre. Amo demasiado as palavras para querer ser escritora.
- Eu empresto-te o meu lápis, se quiseres. Este é dos que escreve.
- Esquece. Não preciso de criar matéria para exacerbar a minha mediocridade. Deixa-me ler o que escreveste.
- Não trouxeste os óculos.
- Eu não uso óculos.
- Claro que usas. Tu é que não sabes.
E li, sem óculos. Mastiguei a custo. Degluti em disfagia. Não engoli.
Senti que o tempo parou. Que parámos nós nele. Numa linha de tempo cru. Num espaço como nunca antes, real.
- Então, não sublinhas?
- Ordinário.

agosto 13, 2015

[#2] palimp­sesto

Hoje, voltei. Voltei a antes de ontem. O dia em que escrevias no bloco verborreias da tua memória, empilhando palavras como quem perfila tijolos numa parede sem fundações. Mas fui eu que deixei cair o lápis.
"Desculpa, posso?"- perguntavas.
E eu pensei que poder até podias mas que as minhas unhas estavam uma miséria e que a depilação já tinha dias.
"Não te preocupes com as unhas, só quero apanhar o teu lápis." - adivinhaste?
[O corpo da mulher, na sua perspectiva de mulher, há-de ser sempre uma vertigem. ]
Num movimento brusco, escondi os dedos, como se calçasse meias-pontas mas sem a candura de um elevé. Entregaste-me o lápis.
- Obrigada. Este não serve para escrever. Só serve para sublinhar.
Continuaste a escrever. E eu a sublinhar.

agosto 12, 2015

[#1] palimp­sesto

PLAY Radiohead Paranoid Android

Ontem, vi-te. Fui à Conservatória do Registo Civil e conheci-te. Renovavas o nome. Patenteavas o desespero, nessa imitação barata a que chamas vida.
"Que mais me irá acontecer?" - dizias.
E eu senti o cheiro da borralha, dos ossos desfeitos em fogo, quando a cinza, semi-apagada, nem de fertilizante serve.
A memória intersticial não dá para mais, principalmente se as urgências do corpo se sobrepõem a determinações literárias:
"Podia jurar que nunca te vi mais gordo". - disse.
"Ah, deve ser dos medicamentos, fizeram-me engordar"- brincaste.
Tudo o que senti foi vergonha. Não tanto por não te ter reconhecido mas porque o mais que me apetecia era foder-te ali, como se não houvesse amanhã. Não sei se me leste o pensamento ou se o murmurei, descuidadamente, mas juro que te ouvi dizer:
"Hoje, sim. Agora. Não me resta amanhã".
Aguardámos em silêncio na bicha. Renovámos os cartões.
- Prazer em conhecer-te.
- O prazer foi todo meu!
- Todo, não!
E sorrimos, em jeito de despedida.