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dezembro 31, 2015


PLAY The Doors People are Strange

LARANJA COR DE SANGUE
Está tão escuro que o fim do mundo pode estar próximo.
Convenço-me que vai chover.
Os pássaros no jardim estão silenciosos.
Nada é o que parece,
Nem nós mesmos.

Na nossa rua há uma árvore tão grande
Que podemos esconder-nos todos nas suas folhas.
Nem precisamos de roupas.
Sinto-me tão velho como uma barata, disseste.
Imagino-me passageiro de um navio-fantasma.

Agora nem um suspiro lá fora.
Se alguém abandonou uma criança no nosso patamar,
Deve estar a dormir.
Tudo está a vacilar na borda de tudo
Com um sorriso polido.

É porque há coisas neste mundo
Sem qualquer solução, disseste.
Nesse instante ouvi a laranja cor de sangue
Rebolar pela mesa e com um baque 
Cair no chão rachada ao meio.

Charles Simic (1938 - )
Previsão de tempo para utopia e arredores, Assírio&Alvim, 2002

setembro 27, 2015

©Harry Gruyaert. Mali. Town of Gao. 1988. Terrace of a local hotel.

PLAY PJ Harvey The dancer

MOLDURA VAZIA
Em toda a parte te encontro ansiando por emoldurar
Uma parte modesta da Sua imensidade,
Significando, suponho, uma data de céu
Da variedade azul e sem nuvens,
Sobre o velho cemitério, por exemplo,
Ou sobre a nova lixeira da cidade
Além da qual fica um campo e três espantalhos.

Um deles podia ser monge alemão, Eckkart,
Dizendo: "Se alguém nada procura,
Que direito tem a queixar-se de nada achar?"
Certo. Não havia um único melro
Vigiando o milho verde,
Por isso elevámos um pouco a moldura
Até onde o silêncio diz tudo.

Charles Simic (1938 - )
Previsão de tempo para utopia e arredores, Assírio&Alvim, 2002