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abril 06, 2015

1.
Mas tu existes.
Os dias somam ruína à ruína
E o a vir multiplicará
A miséria.
Apodreço não adubando a terra
E cada dia somado a cada hora
Não completa o tempo.
Sei que existes e multiplicarás
A tua falta.
Somarei a tua ausência à minha escuta
E tu redobrarás a minha vida.

Daniel Faria,
Poesia, Quasi, 2006 

fevereiro 09, 2015

©raquelsav. Tomar
PLAY Mercedes Sosa Gracias a la vida

Procuro o lento cimo da transformação 
Um som intenso. O vento na árvore fechada 
A árvore parada que não vem ao meu encontro. 
Chamo-a com assobios, convoco os pássaros 
E amo a lenta floração dos bandos. 
Procuro o cimo de um voo, um planalto 
Muito extenso. E amo tanto 
A árvore que abre a flor em silêncio.
Daniel Faria, Poesia, Quasi, 2006

dezembro 25, 2014

©Daniel Blaufuks "Dos dias perdidos", 2014

PLAY Bach Mass in B minor - BWV232- Agnus Dei

É por isso que adormeço numa luz em movimento
E escolho um espaço para ver o espaço de frente
A sua cor de silêncio nocturno e desenho
Uma maneira quieta de estar nele tranquilo

Há nesse espaço uma fonte, um animal que desperta
Uma criança que navega com as próprias mãos.
Bebo com as mãos juntas.

Há uma voz que bebo. Há um espaço entre as mãos mas não perco
A sede. A água multiplica-se porque a tiro do coração
Que escuta.

Há um espaço no corpo que pode ser um lugar.
À sombra posso olhá-lo até o ver
Posso tocar as chagas no corpo

E posso beber dele morrendo
Nele como quem entra de tanto
O desejar.

Daniel Faria,  Poesia
@Daniel Blaufuks - O  saco de fruta, 2013 - da série "Um mundo igual a este mas ligeiramente diferente"

PLAY Bruckner Os Justi Meditabitur

Há muitos metros entre um animal que voa
E a escada que desço para me sentar no chão
Mas basta-me um quadrado de sossego
Para a distância absoluta

Está para além do que se vê a janela onde me debruço definitivo
Não é uma aparição
Nem se pode alcançar sem se ir em frente caindo

Só no fim da paisagem estou de pé como um pára-quedista que desce
Suspenso como os santos num arroubo místico
Erguido como um anjo em suas asas
E sinto-me ser alto como um astro. Nevem
Como se fosse um homem 
Que levita

Daniel Faria, Poesia

abril 07, 2014

Daniel Faria

Amarro dois degraus para não subir
Sozinho. Monto no meu cavalo- o meu cavalo
Não vai para minha casa
Medito sobre o rasto que não cabe no meu destino

Na nossa escada era difícil transportar os familiares defuntos

E os familiares enfermos- vê meu pai como me lembro
Como aprendi a amarrar as vergônteas das vides

A minha viagem é mais funda do que os rios

É mais funda a tua mão- vê como me lembro- ela sabe
Onde é que o meu corpo não suporta correntes

Amarro dois degraus para não subir


Daniel Faria (Poesia, Edições Quasi, 2006, p. 319)

março 24, 2014

Daniel Faria

Labirinto III

No meio do caminho da nossa vida
No meio do poema, havia
Uma pedra onde reclinar a cabeça.

A mulher andava no meio das estradas
Por sobre o mundo tecendo e destecendo
Duas asas que o pai soldava para o filho.
No meio do filho estava o labirinto

E o touro de Ariadne puxado por um fio
Lavrando
No coração de Teseu tão manso
No meio da idade aonde existe
O primeiro sinal do solestício

Daniel Faria (Poesia, 2006, p.68)

março 23, 2014

daniel faria

Não levantemos os homens que se sentam à saída
Porque se movem em seus carreiros interiores
Equilibram com dificuldade uma ideia
Qualquer coisa muito nítida, semelhante
A uma folha vazia
E põem ninhos nas árvores para se libertarem
Da gaiola terrível, invisível muitas vezes
De tão dura
Não nos aproximemos dos homens que põem as mãos nas grades
Que encostam a cabeça aos ferros
Sem outras mãos onde agarrar as mãos
Sem outra cabeça onde encostar o coração
Não lhes toquemos senão com os materiais secretos
Do amor.
Não lhes peçamos para entrar
Porque a sua força é para fora e a sua espera
É a fé inabalável no mistério que inclina
Os homens por dentro
Não os levantemos
Nem nos sentemos ao lado deles. Sentemo-nos
No lado oposto, onde eles podem vir para erguer-nos
A qualquer instante


Daniel Faria (Poesia, 2006, p. 127)

março 21, 2014

daniel faria


Sunam (2 Rs 4, 8-37)

O absurdo pode sempre visitar-te quando quiser
Tens um lugar para ele. Em cada dia uma nova entrada.
Tens a memória e sobre o banco à tarde
A mulher. Vamos construir - disse - um quarto no terraço
Quatro paredes de tijolo e uma lâmina ao centro
Uma cadeira, uma mesa. A bilha
Ficará connosco e beberá aqui.

O absurdo pode sempre visitar-te quando estiveres no campo
E o teu filho te disser: a minha cabeça
Pondo a mão sobre a nuca, tendo largado a foice.
O absurdo pode sempre parar à tua porta
Com o teu filho sobre o jumento pardo
Pode sempre visitar-te no rosto da mulher
- Era meio-dia sobre os meus joelhos -
E chamarás. Abrirás em cada dia
Uma nova entrada por onde possa visitar-te
Sentar-se aí ao teu lado. Onde costumas envelhecer.

Daniel Faria (Poesia,  2006, p. 157)

março 18, 2014

daniel faria

Explicação da Ausência

Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa irrompeu
Em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
E o a vir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
Nem se cumpriu
E a espera é não acontecer- fosse abertura
E a saudade é tudo ser igual.

Daniel Faria (Poesia, 2006, p. 110)

março 14, 2014

Daniel Faria

Acontecera que as coisas se destruíssem sem que nelas sobrevivesse
E era tarde.
Sozinho em tempos não fora a falta de ninguém
E o que doía não tinha o quisto da doença
Só o espaço sereno das coisas que se deixam.
Acontecera que nada se fizera fora
Do coração.
Acontecera que passara a noite a abrir os olhos
Para não se interromper
A estender a mão para estar vivo
E certo de que nem ele próprio se abeiraria de si mesmo
Pois ocupara-se rigorosamente de ausentar-se.
Mesmo se caminhara muito devagar
Sem outro meio para esperar que o visitassem.
Ele que é agora o que nunca repousou
O que nunca encontrará o sítio do sossego
A não ser que haja o equilíbrio na vertigem
Uma luz parada no meio da voragem.


Daniel Faria (Poesia, 2006, p.76)

março 13, 2014

Daniel Faria

Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
De quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
De quem já só por dentro se ilumina
E surpreende
E por fora é
Apenas peso de ser tarde. Como é
Amargo não poder guardar-te
Em chão mais próximo do coração.


                                 Daniel Faria (Poesia, 2006, p. 78)



Na impossibilidade da amizade ter um fim,
continuar a amar é dizer adeus.
                                                 Daniel Faria 

Daniel Faria

Ando um pouco acima do chão
Nesse lugar onde costumam ser atingidos 
Os pássaros
Um pouco acima dos pássaros
No lugar onde costumam inclinar-se
Para o voo

Tenho medo do peso morto
Porque é um ninho desfeito

Estou ligeiramente acima do que morre
Nessa encosta onde a palavra é como pão
Um pouco na palma da mão que divide
E não separo como o silêncio em meio do que escrevo

Ando ligeiro acima do que digo
E verto o sangue para dentro das palavras
Ando um pouco acima da transfusão do poema

Ando humildemente nos arredores do verbo
Passageiro num degrau invisível sobre a terra
Nesse lugar das árvores com fruto e das árvores
No meio dos incêndios
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede
Porque ando acima da força a saciar quem vive
E esmago o coração para o que desce sobre mim 

E bebe

Daniel Faria (Poesia, 2006, p. 39)

março 12, 2014

Daniel Faria


Separei os braços
Exilei o coração

Doeu-me tanto
que não sei chorá-lo

Daniel Faria (Poesia, 2006, p. 391)


Nas pálpebras
da noite
Chorei
cadências
que me ensinaram
que o Amor    Ama-se

Assim teus
Olhos.
Daniel Faria (Poesia, 2006, p. 9)

março 05, 2014

Daniel Faria

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.


Daniel Faria
Poesia
Quasi edições


in http://mal-situados.blogspot.pt/search/label/daniel%20faria