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maio 23, 2016

ladrão que rouba a ladrão... não precisa pedir perdão
PLAY Rauelsson | Fluvial

"A viagem é a procura desse nada de nada, dessa pequena vertigem para lorpas..." 
Louis-Ferdinand Céline | Viagem ao fim da noite | Ulisseia | 2010

Não basta encomendar almas,
coçar a orelha como quem descobre o corpo à cabeça,
enquanto impomos à outra mão que nos ampare a trepidação da viagem.

Falta-nos coragem.
Sabemos que nos falta coragem.
Sabemos que a queda não será a mesma se a mão nos acompanhar.
Por isso, não sabemos como a largar,
não sabemos como embalar o corpo na dança comum,
impor-nos sem força, sem leis, sem gravidade,
na massa ligeira dos outros, que dançam.

É à noite, sozinhos e sós, que galvanizamos o desembaraço e lemos poesia
como quem bebe, por osmose,
do desespero comum dessa herança humana.
É à noite, sozinhos e sós, que guardamos a nossa parcela de sabedoria,
que a empoleiramos, quinhão após quinhão,
que,  silenciosamente, ficamos à espera.

E esperamos, infinitamente, dia após dia, que alguém nos compreenda.
E esperamos, infinitamente, dia após dia, que esse alguém sejamos nós.

Mas como podemos desejar andar um pouco acima do chão,
se não sabemos ler a explicação das árvores, dos pássaros,
de todas as moradas que nos foram vedadas no parto,
por nascermos sem pernas, sem olhos, sem ouvidos, sem alma?

Não basta, por isso, encomendar pernas, olhos, ouvidos e almas,
desejar ser o expoente que eleva a Diáspora da Dor,
escancarar a boca como quem sorri,
se nem mijar de cócoras no pinhal sabemos,
se nem o cabelo entrançamos, por falta de elástico,
se nem o corpo sabemos entregar à dança comum.

Somos todos,
somos tantos, tantos na mesma carruagem,
empilhados a aguardar o fim da viagem:
quando nada nos garante que a bruxa nos abra a porta,
mesmo que sejamos os primeiros a chegar.

junho 25, 2015

O sal da terra

©Sebastião Salgado. Poço de petróleo em chamas no Kuwait. 
PLAY Trailer O sal da terra

"Eu sempre receara ficar mais ou menos vazio; não ter, em suma, qualquer razão séria para existir. Naquele momento, perante factos estava bastante ciente do meu zero individual. Num meio tão diferente daquele onde tinha hábitos mesquinhos, foi como se me dissolvesse instantaneamente. Sentia-me perto de já não existir, muito simplesmente. Por isso, mal me tinham deixado de falar das coisas familiares, eu descobrira que nada me impedia de afundar numa espécie de irresistível tédio, numa espécie de adocicada, de assustadora catástrofe de alma. Uma aversão."

Louis-Ferdinand Céline
Viagem ao fim da noite, Ulisseia, 2010

janeiro 16, 2015

"Com as palavras todo o cuidado é pouco, têm um ar inofensivo, as palavras, de forma alguma um ar perigoso, antes de aragem leve, de suaves sons de boca nem quentes nem frios e facilmente captados se nos chegam pelo ouvido, pelo enorme tédio cerebral cinzento e mole. Não desconfiamos delas, das palavras, e a desgraça acontece.
Palavras há que se escondem entre as outras como calhaus. Nada de especial as distingue, mas no entanto aí estão elas a fazer tremer toda a vida que temos, inteira, no auge e no declínio... Então é o pânico.... Uma derrocada... Por lá ficamos como enforcados, acima das emoções... Foi uma tempestade o que chegou, o que passou, demasiado forte para nós, tão violenta que nunca a julgaríamos possível só com sentimentos..... Com palavras todo o cuidado é pouco, concluo eu."

"A viagem é a procura desse nada de nada, dessa pequena vertigem para lorpas..."

Louis-Ferdinand Céline Viagem ao fim da noite, Ulisseia, 2010

[um livro ou uma espécie de tratado, um manual de (não) sobrevivência...]

novembro 01, 2014

©raquelsav.2014.Ponte.das.3.Entradas

PLAY Ornatos Violeta Como Afundar

Há pessoas que encontramos nas palavras. Também sei que há palavras que são lugares. E fixam-se palavras e palavras e palavras, que se vão tornando lugares, das pessoas, em nós.

No silêncio do lugar, a denúncia da ausência de rituais. Na viagem, no intervalo das coisas, na não-palavra, na casualidade - o vazio maior. 

Mas é a expectativa que torna tão longas as noites, os dias, e alheios os rumos da viagem. Porque a palavra, a verdadeira, sempre se revela na beleza das coisas que encontramos e a beleza, em defeito de partilha, adensa o vazio em nós.

Não tenho dúvida: quando a palavra não nasce mas renasce da memória, ainda que vazios, os lugares não deixam de o ser...  porque há palavras que são a ponte entre nós e o outro lado da vida, quando um mundo só não basta.


"Eu senti o amor tocar no avesso da saudade
E com ela a dor de não chorar
(...)
A noite entrou de passagem
Sem nos levar
Boa viagem
Boa viagem
E é como afundar nosso mundo em dor
E não querer acordar
E tu não vês?"