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outubro 02, 2017

fotograma de "Cavalo de Turim" | Béla Tarr
PLAY Charlotte Gainsbourg | Beauty Mark

"Paro diante de cada ameaça de ruína para me examinar tal como sou. Justamente o que queria evitar. Mas trata-se sem dúvida de uma única maneira. Depois deste banho de lama conseguirei admitir melhor um mundo onde não seja uma nódoa. Que maneira de pensar a minha. Abrirei os olhos, ver-me-ei tremer, engolirei a minha sopa, olharei para o pequeno amontoado dos meus haveres, darei ao meu corpo as velhas ordens que o sei incapaz de cumprir, consultarei a minha consciência caducada, estragarei a minha agonia para a viver melhor, já longe do mundo que por fim se dilata e me deixa passar."
(...)

"E talvez esteja nesse ponto do seu instante em que viver é errar só e vivo no fundo de um instante sem limites, onde a luz não muda e onde os destroços são todos semelhantes. "
(...)

"Ou então é preciso termos toda a noite à nossa frente, para seguirmos as lentas quedas e ascensões do outros mundos, quando as há, ou para ficarmos à espera dos meteoros, e eu não tenho a noite toda à minha frente."

Samuel Beckett | Malone está a morrer | Dom Quixote

março 18, 2017

CASCANDO
1
fosse apenas o desespero da
ocasião da
descarga de palavreado

perguntando se não será melhor abortar que ser estéril

as horas tão pesadas depois de te ires embora
começarão sempre a arrastar-se cedo de mais
as garras agarradas às cegas à cama da fome
trazendo à tona os ossos os velhos amores
órbitas vazias cheias em tempos de olhos como os teus
sempre todas perguntando se será melhor cedo de mais do que nunca
com a fome negra a manchar-lhes as caras
a dizer outra vez nove dias sem nunca flutuar o amado
nem nove meses
nem nove vidas

2
a dizer outra vez
se não me ensinares eu não aprendo
a dizer outra vez que há uma última vez
mesmo para as últimas vezes
últimas vezes em que se implora
últimas vezes em que se ama
em que se sabe e não se sabe em que se finge
uma última vez mesmo para as últimas vezes em que se diz
se não me amares eu não serei amado
se eu não te amar eu não amarei

palavras rançosas a revolver outra vez no coração
amor amor amor pancada da velha batedeira
pilando o soro inalterável
das palavras

aterrorizado outra vez
de não amar
de amar e não seres tu
de ser amado e não ser por ti
de saber e não saber e fingir
e fingir

eu e todos os outros que te hão-de amar
se te amarem

3
a não ser que te amem

Samuel Beckett (1936) in As Escadas não têm Degraus  3 | Cotovia | 1990

janeiro 04, 2017

"Foi ela que me fez conhecer o amor. Ela tinha o modesto nome de Ruth, creio, mas não posso garantir. Talvez se chamasse Édith. Tinha um buraco entre as pernas, oh, não a abertura que sempre imaginara, mas uma fenda, e eu metia, de preferência, o meu membro supostamente viril lá dentro, não sem trabalho, e eu empurrava e arquejava até ao momento em que eu emitisse ou que a ela renunciasse ou que ela me suplicasse que desistisse. Um jogo estúpido, na minha opinião, e como tal cansativo, com o tempo. Mas prestava-me a ele com muito gosto, sabendo que isto era o amor, porque ela me tinha dito. " 

Samuel Beckett (1951) Molloy | Relógio d'Água | 2003

outubro 14, 2016

"Um homem como eu não pode esquecer, nas suas fugas, de que foge." 

Samuel Beckett (1951) Molloy | Relógio d'Água | 2003
"Gaber pôs-se a criticar com rabugice o nosso chefe, que o tinha feito levantar-se a meio da noite, no preciso momento em que ele se tinha posto em posição de fazer amor com a mulher." 

Samuel Beckett (1951) Molloy | Relógio d'Água | 2003

outubro 01, 2016


"Por vezes, há coisas que se impõem ao entendimento com a força de axiomas, sem que se saiba porquê." 

Samuel Beckett (1951) Molloy | Relógio d'Água | 2003

agosto 31, 2016

©raquelsav | Agosto2016| Mosteiro- Pitões das Júnias
"Por fim, foi à magia que coube a honra de se instalar entre os meus escombros e, ainda hoje, quando me passeio entre eles, descubro vestígios. Mas na maior parte das vezes trata-se de um lugar sem projecto nem limite, onde existem até materiais que me são estranhos, sem falar na sua disposição. E a coisa em ruínas, não sei o que é, o que foi, nem, por consequência, se não tratará menos de ruínas do que de uma sólida confusão de coisas eternas, se é que é esta a expressão correcta. É, em todo o caso, um lugar sem mistério, a magia abandonou-o, considerando-o sem mistério. E se não vou até lá de boa vontade, vou porventura com um pouco mais de boa vontade do que a outro lugar qualquer, surpreso e tranquilo, diria como um sonho, mas nem assim, nem assim. Mas este não é um desses lugares a que se vai, mas sim daqueles lugares onde, por vezes, nos encontramos sem saber como, e que não se abandonam quando se quer, e onde nos encontramos sem qualquer prazer, mas com menos desprazer, porventura, do que nos lugares de onde nos podemos afastar ao sentirmo-nos mal neles, lugares misteriosos, cheios de mistérios conhecidos. Escuto e oiço-me ordenar um mundo imóvel, em desequilíbrio, sob um dia frágil e calmo, sem mais, suficiente para o ver, compreendem, e também ele imóvel. E oiço murmurar que tudo se verga e curva, como sob o peso de fardos, mas aqui não há fardos, e também o solo, difícil de transportar, bem como o dia, para um fim que parece não existir. Pois que fim existe para estas solidões para quem a verdadeira claridade nunca existiu, nem o equilíbrio, nem a base, mas sempre essas cosias pendentes resvalando num aluimento sem fim, sob um céu sem memória de manhã, nem esperança de tarde. Essas coisas, que coisas, vindas de onde, feitas de quê?" 

Samuel Beckett (1951) | Molloy | Relógio d'Água | 2003

abril 15, 2016

©Irving Penn | Photo of Igor Stravinsky | 1948
"Só as palavras rompem o silêncio, tudo o resto se calou. Se eu me calasse, não deixaria de ouvir fosse o que fosse. Mas, se eu me calasse, voltariam outros ruídos, os ruídos que as palavras não me deixam ouvir, ou que deixaram realmente de se ouvir. Mas calo-me, acontece, não, nunca, nem por um segundo. Também choro, sem parar. É uma torrente ininterrupta, de palavras e lágrimas. Tudo sem reflectir. Mas falo mais baixo, de ano para ano um pouco mais baixo. Talvez. Mais devagar também, de ano para ano mais devagar. Talvez, não dou conta. As pausas seriam portanto mais longas, entre as palavras, as frases, as sílabas, as lágrimas, confundo as palavras com as lágrimas, as minhas palavras são as minhas lágrimas, os meus olhos são a minha boca. E deveria ouvir, a cada breve pausa, se há silêncio como eu digo, ao dizer que só as palavras o rompem. Mas não, é sempre o mesmo murmúrio, fluido, sem hiato, como uma única palavra sem objectivo e portanto sem significado, porque é o objectivo que dá significado às palavras. Sendo assim, com que direito, não, desta vez sei onde quero chegar, e paro, dizendo, Nenhum, nenhum."

Samuel Beckett (1958) | Novelas e Textos para Nada | Assírio&Alvim | 2006

abril 08, 2016


Samuel Beckett em Berlim, 1969

"Hoje, temos motivos para supor que Samuel Beckett é o escritor por excelência, no qual outros autores dramáticos e outros romancistas descobrem o reflexo concentrado dos seus combates e privações. Monsieur Beckett é métier - até à última fibra do seu ser compacto e esquivo. Não há nele um único movimento perceptivelmente inútil, um único gesto de ostentação, uma única concessão - ou, pelo menos, concessão detectável - ao ruído das imprecisões do mundo."

George Steiner (1968)
Extraterritorial, Relógio D'Água, 2014

novembro 06, 2015


 ©Thomas Hoepker. PT 1964 Trás-os-Montes
"É tão fácil aceitar, tão fácil recusar, quando se ouve o apelo, tão fácil, tão fácil. Mas, para nós, desjanelados, no calor do nosso sangue, do nosso silêncio, para nós, que não podíamos ouvir o vento, nem ver o sol, que apelo podia chegar-nos, do tipo de tempo de que gostávamos, senão o da falsa aceitação, da falsa recusa?"

Samuel Beckett (1953)
Watt,  Assírio&Alvim, 2005

outubro 27, 2015

"Watt preferia ter de lidar com coisas de que não sabia o nome, embora também isso lhe fosse penoso, a ter que lidar com coisas cujo nome, o nome comprovado, já deixara de ser o nome delas, para ele. É que, para uma coisa de que não sabia o nome, sempre podia esperar que havia de aprender-lhe o nome, um dia, ficando sossegado. Mas não podia esperar o mesmo no caso de uma coisa cujo verdadeiro nome cessara, súbita ou gradualmente, de ser o verdadeiro nome para Watt."

Samuel Beckett (1953)
Watt,  Assírio&Alvim, 2005

setembro 26, 2015

[#1] De ler alto

  "Vendo-se sozinho, sem nada de especial que fazer, Watt meteu o indicador no nariz, primeiro na narina esquerda, depois na narina direita. Mas, esta noite, não havia macacos no nariz de Watt.
    Passados breves momentos, porém, o cavalheiro reapareceu, a Watt. Vinha com roupa de viagem e trazia bengala! Mas nenhum chapéu na cabeça, nem nenhuma mala na mão.
    Antes de sair, fez a seguinte breve declaração.
   Oh! Veio tudo ter comigo outra vez, não há dúvida. Esse olhar! Esse desperto vazio cansado! O homem chega! Trazendo atrás dele todos os caminhos escuros, todos, todos dentro dele, os longos caminhos escuros, na sua cabeça, aos seus flancos, nas suas mãos e pés, e fica sentado no lusco-fusco vermelho, de dedo no nariz, à espera de que rompa a aurora. A aurora! O sol! A luz! Ah! Os longos dias azuis para a cabeça dele, para os seus flancos, e os estreitos trilhos para os seus pés, e toda a claridade para tocar e colher. Pela erva fora os estreitos caminhos musgosos, ossudos das raízes velhas, e as árvores espetadas, e as flores espetadas, e os frutos pendentes, e as borboletas brancas exaustas, e os pássaros sempre diferentes, voando como flechas a esconder-se. E todos os sons, que não significam nada. E, depois, à noite, o descanso da casa quieta, deixa de haver estradas, deixa de haver ruas, refugiamo-nos deitando-nos junto à abertura duma janela, chegam os pequenos sons que não pedem nada, não mandam nada, não explicam nada, não propõem nada, e a curta necessária noite vai acabar já, e o céu azul de novo vai vir sobre todos os lugares secretos sempre diferentes, mas sempre simples e indiferentes, sempre meros lugares, sítios de um frémito para lá do ir e vir, de um ser tão ligeiro e livre que é como o ser do nada. Como eu sinto tudo isso de novo, passado tanto tempo, aqui, aqui, e aqui, e nas minhas mãos, e nos meus olhos, como uma face erguida, uma face oferecida, toda confiança e inocência e candura, todo o velho solo e medo e fraqueza que se oferecem, para serem enxaguados com uma esponja e perdoados! Ah! Ou nunca senti isso até agora? Agora, que já não há garantias? Não me surpreenderia. Tudo perdoado e curado. Para sempre. Num momento. Amanhã. Seis, cinco, quatro horas ainda, da velha escuridão, do velho fardo, a clarear, a clarear. É que veio alguém, para ficar. Ah! Todos os velhos tempos conduziram a isto, todos os velhos meandros, as escadas sem um único patamar para uma pessoa se alçar, agarrando-se ao corrimão, contando os passos, a febre dos caminhos mais curtos por sob as longas pálpebras do céu, os caminhos bravios dos campos em que os nossos mortos caminham junto a nós, no cascalho escuro a última curva que se dobra de novo para a pequena cidadezinha, os encontros que cumprimos e os encontros a que faltámos, todas as delícias da mudança de lugar, urbana e rural, todos os existus e redditus,  encerrados e terminados. tudo conduzindo a isto, a este crepúsculo em que um homem de meia-idade está sentado a masturbar a bicanca, esperando o romper da aurora. (...)"

Samuel Beckett (1953)
Watt,  Assírio&Alvim, 2005

setembro 15, 2015

"Mas aqui estava outra coisa que Watt nunca havia de saber, por não ter prestado a devida atenção ao que se passava à sua volta. Não é que esse conhecimento fosse de algum préstimo para Watt, ou de algum dano, ou lhe causasse algum prazer, ou algum desprazer, que não era nada disso. Mas achou estranho pensar nessas pequenas mudanças, os pequenos ganhos, as pequenas perdas, as coisas que se acrescentam, as coisas que se tiram, a luz dada, a luz tirada, e todas as vãs oferendas à hora, estranho pensar em todas essas pequenas coisas que se agregam ao que chega, ao que está, ao que se vai, estranho não saber nada delas, nada das que existiam desde que ele existia, nada do momento em que tinham vindo, e de como tinham vindo, e como era tudo então comparado com o antes, nada do tempo que tinham perdurado, e como tinham perdurado, e que importava isso, nada do momento em que se tinham ido, e de como tinham ido, e de como era tudo então comparado com o antes, antes de terem vindo, antes de terem ido."

Samuel Beckett (1953)
Watt, Assírio&Alvim, 2005

julho 30, 2015


"Mas, na noite do Pavilhão Skinner, não havia nenhum desses apoios. Nem ódio para lhe aguçar o amor, nem pontapés do mundo que não era o seu, nem uma carícia, mesmo ilusória, do que mundo que poderia sê-lo. Era como se os microcosmopolitanos lhe tivessem fechado a porta na cara."

Samuel Beckett
Murphy, Assírio&Alvim, 2003

Baricentro ou ponto de equilíbrio do triângulo



"- Sentem-se os dois aí, à minha frente - disse Neary -, e não percam a esperança. Lembrem-se que não há triângulo, por mais escaleno que seja, que não tenha um arco de círculo qualquer a atravessar os chamados pontos de intersecção. Lembrem-se também de que um dos ladrões foi salvo.
- As sacanas das nossas medianas - disse Wylie -, se é que se pode dizer assim, encontram-se em Murphy.
- Fora de nós - disse Neary -, fora de nós.
- Na luz exterior - acrescentou Miss Counihan."
Samuel Beckett
Murphy, Assírio&Alvim, 2003

"As mulheres são, de facto, extraordinárias, (...) Nunca matam totalmente a coisa que amam, receando que a sua paixão pela respiração artificial fique sem objecto."
Samuel Beckett
Murphy, Assírio&Alvim, 2003

"Por conseguinte, o conflito, tal como a obsessão de Murphy o simplificava e pervertia, opunha, de uma forma absolutamente fundamental, o grande mundo e o pequeno mundo. (...)
Como dizia Arnold Geulinex, no seu belo belgo-latim: Ubi nihil vales, ibinihil velis."
    Mas não bastava não querer nada onde não valia nada, nem sequer chegar ao extremo de renunciar tudo o que fosse exterior ao amor intelectual, que era o único em que podia amar-se a si mesmo, porque em mais parte nenhuma era digno de ser amado. Nunca tinha bastado, e nada fazia crer que alguma vez pudesse bastar. (...) Faltavam-lhe os meios para ser um."
Samuel Beckett
Murphy, Assírio&Alvim, 2003

julho 28, 2015

"Intensificou freneticamente os seus ataques por baixo da mesa. E Murphy viu surgir um espectro no grande cemitério de todos os seus eu, onde já restava muito pouco espaço."


Samuel Beckett
Murphy, Assírio&Alvim, 2003

julho 17, 2015

"Que busto! - Exclamou, por fim, como que galvanizado por esse ponto das suas reflexões . - Onde tudo é centro e nada é circunferência!"


Samuel Beckett
Murphy, Assírio&Alvim, 2003

julho 16, 2015

" - A vantagem desta concepção - disse Wylie - é que, ao perdermos a esperança de que as coisas possam melhorar, também perdemos o medo de que piorem. Sabemos que continuarão a ser o que sempre foram.

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-A humanidade é uma nora com dois alcatruzes. Enquanto um desce para se encher, o outro sobre para se esvaziar."

Samuel Beckett
Murphy, Assírio&Alvim, 2003