Mostrar mensagens com a etiqueta #transfinito. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta #transfinito. Mostrar todas as mensagens

maio 01, 2014

estava capaz de me cansar de ti
só para
           enfim
                     descansar
                                     um pouco

(volto já)

Parece-me que o cão é louco. Só a loucura justifica que atente a vida nas rodas do meu carro todos os dias de manhã, à mesma hora, ou não? O limbo de audácia e medo com que (não) se atenta à vida encerra em si alguma lógica de loucura? Ou porque cão é cão, sem uso de razão, nem a loucura lhe assiste?

Mas se a razão depende de um número de casos tornados regra, talvez sejam os dias a ser loucos e não, propriamente, o cão. Mas certo é que o uso da regra não se afigura evidente neste caso. Não tanto pela evidência, ou pelo caso, mas mais pela regra em si. Pelo significado de r e g r a e tudo o que isso implica. À lógica canina não se aplicam raciocínios dedutivos.

De qualquer forma, a minha alma arraçada a enguia também não ajuda a esta coisa de fazer dos casos lei. O padrão é difícil de encontrar em espíritos esquivos. E isso nada tem a ver com o cão. Já esqueci o cão. Quer dizer, esqueci-o por agora. Todos os dias ele faz questão de me lembrar que existe. Que existe na bravura de ser cão que arrisca a vida nas rodas do meu carro. E ganha, ganha sempre, aquele cão. Por isso não o posso esquecer. Enquanto ele existir posso sempre dizer que ele é louco. Posso sempre esquecer a minha própria loucura. É essa a regra que nos salvaguarda da loucura. Não perder de vista alguém mais louco do que nós. Regra, sim, definida entre o medo e o esquecimento.

abril 16, 2014

e se procuro a liberdade é porque ela me simplifica

abril 15, 2014


hoje apetecia-me gostar-te de mãos dadas como quem enleia uma réstia de cebolas ao firmamento do ano comum >>>>>>> e percorríamos com elas  >>> as mãos  >>> sem pudor  >>> as mazelas do meu corpo que testemunham o passar dos anos bissextos >>> como eles >>> contávamos de quatro em quatro os beijos pela madrugada fora e quem sabe o que de nós descobriríamos então >>>>>>> entre um salto quântico da nossa saliva e um dedo que não se quer desembaraçar cabe um mundo

abril 02, 2014

E, aliás, é tudo uma questão de colo.

Dos que nasceram sem colo e que por toda a vida o procuram, sem nunca o encontrar. Isto porque há colos grandes por esse mundo, mas nunca suficientemente maiores do que o colo onde não se nasceu. E há dos que nasceram com colo a mais, vivendo na ilusão do colo ser sempre tão grande que os ampara das quedas pela vida fora. E eles amadurecem e o colo fica sem espaço para abrigar a parte que cresce.

Não acho que possam existir colos à medida, são-o sempre em defeito ou em excesso. E por isso o jogo do equilíbrio é tão desenfreadamente mais grave no correr da idade.

A quem falta, um dia a mais de vida é um dia a menos que tem para o encontrar.

A quem excede, um dia a mais de vida é um centímetro de colo a menos porque os colos, desde que nascem, minguam até deixarem de existir, em algum dia, sem aviso.

É tudo uma questão de colo e de alma que, quando amadurece, só sabe endurecer.

março 09, 2014

arqui-te-crua

©raquelsav

PLAY A Naifa - Émulos

sono. muito sono
e ainda agora acordei.
não estou certamente determinada
sobre os émulos do chão em que aterro
ou do letargo da noite ou da vigília da insónia:
em nenhum há paixão que adivinhe vida
conseguisse eu entender porque saltei,
ou não saltei, por o entender

sangue. muito sangue

na guelra da força que chora bruta por dentro
tão erraticamente imanente 
tão erraticamente crua
pavoneando-se orgânica entre a matéria sentida e a matéria pensante,
lugar que habito perfeitamente líquida e imprescíndivel

leis. muitas leis
das que se escrevem na conjugação dos verbos nus:
ter ser estar querer roubar saltar foder ir voltar beber etc.
no tempo oral e na pessoa da liberdade.
leis geometricamente imprecisas, medidas de luz e breu
onde não se adivinham, reluzentes,
os pigmentos do ser e do mundo 
que se espalham noutros mundos
sem direitos a remissões e agradecimentos

firme. muito firme
o pé que pisa as migalhas que deixei cair por direito
descrevo- passo a redundância- arqui-te-crua a casa 
em espaço tão higiénico, de não se querer viver
ou banho que não lava esta urgência felina: escrever o mundo sobre a forma de paixão, num poema esfoliante do corpo e da ideia que me assola

não confio não confio não confio 
em mim

continua desenhadamente na minha ideia
a confusão:
ideia criadora? ideia canibal?
ideia da razão e da sua mecânica concreta:
      puta que se vende por meia tuta

hoje habito o contraditório
na urgência felina do mundo- o meu. esclareça-se:
recôndito lugar sem chave
não a encontro
não a descubro
não a deixo descobrir, na luz 
do breu nasce o medo de o tornar maior:  
       o mundo- o meu. esclareça-se.

palavra. pouca palavra
sem palavra que se adivinhe
nas indefinidas formas da conjugação verbal dos verbos nus e crus

fui. fomos
voltei. voltámos
fui. fomos
e bebemos (juntos) do silêncio