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outubro 01, 2016

fevereiro 16, 2016

fevereiro 12, 2016

©Willy Ronis Venise, Fondamenta Nueva, 1959

"Mas isto ajudara Diotima a descobrir em si a conhecida doença do homem contemporâneo, a que se chama civilização. É uma condição frustrante, cheia de sabão, ondas hertezianas, a excessiva linguagem cifrada das matemáticas e da química, a economia política, a investigação experimental e a incapacidade de convivência simples mas elevada entre homens. E também as relações da nobreza de espírito, que ela conhecia, como a nobreza social, que exigiam a Diotima grande prudência e, apesar de alguns êxitos, lhe traziam grandes decepções, pareciam-lhe cada vez mais ser características não de uma época de cultura mas de um tempo de mera civilização.
     A civilização era, assim, tudo aquilo que o seu espírito se sentia incapaz de controlar. Incluindo, desde há bastante tempo, e acima de tudo, o seu próprio marido. 

      Os seus sofrimentos revelaram-lhe todo um mundo, e descobriu que tinha perdido uma coisa que até aí não sabia propriamente que tinha: uma alma.
      O que é uma alma? É fácil defini-la pela negativa: é aquilo que se esconde quando falamos de séries algébricas.
      E pela positiva? Ao que parece, ela furta-se a todas as tentativas de definição por essa via. É possível que tivesse havido em tempos em Diotima alguma coisa de primordial, uma sensibilidade intuitiva, nessa altura envolta no vestido escovado e mais que escovado da correcção, a que agora chamava alma.
(...)
Também pode ser que esse fundo primordial em Diotima seja definível de forma mais exacta como um não-sei-quê de silêncio, ternura, devoção e bondade que nunca encontrou o caminho certo e que, no cadinho do acaso em  que o destino nos molda, resultou na forma ridícula do seu idealismo."

Robert Musil (1880-1942)
O Homem sem Qualidades, Dom Quixote, 2014 (4.ª Ed.)
(Trad. João Barrento)