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setembro 07, 2015

©Daniel Blaufuks
    "Não basta ser sincero. Não basta ser sincero uma vez, mas sempre. Para que a nossa vida não fique sendo apenas o reflexo de determinado momento em que fomos sinceros. São tão diferentes as idades da vida de cada um que quem não vai por essa diferença é porque parou numa delas. As idades da vida não se passam por alto: ou se vivem ou ficam por viver. Ou se gasta a sinceridade de cada idade da vida, ou ela toma o incremento de um organismo dentro do nosso organismo, uma excrescência, uma protuberância, um tumor, um tumor maligno, ruim, um cancro!
    Não basta ser sincero toda a vida. Depois de tudo ainda é necessário que a nossa sinceridade seja perigosa. Perigosa para o mesmo e para a sociedade. Não deixemos a sociedade assentar arraiais sem primeiro ter reconhecido pessoalmente a cada um. A ver se, por fim, ela deixa de se ofender com o nosso sincero caso pessoal. A ver se ela acaba por uma vez com aquilo de dar mostras bem duras de ter ficado ofendida com a nossa sinceridade. Ou terá de ser sempre assim? Para ela, a nossa sinceridade será sempre a impertinência de um extraviado, a loucura de um isolado?!"

José de Almada Negreiros (1938)
Nome de Guerra, Assírio&Alvim, 2004

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"Sentir-se próximo dos que vêem, não porque começa a ver mas porque os arrasta - aos que vêem - para o campo onde todos são cegos."

Gonçalo M. Tavares (2010)
Matteo perdeu o emprego, Porto Editora, 2010

agosto 18, 2015

©Daniel Blaufuks. Passos em Volta

    "Deus principia a inspirar-me terror. A minha unidade, sobretudo. A unidade fechada e imóvel. O universo passa bem sem mim, e o terror é uma inspiração sem mácula, dentro do que se pode alcançar.
    Não, não está ninguém junto à porta."

Herberto Helder (1963)
Os comboios que vão para Antuérpia in Passos em Volta, Assírio&Alvim, 2009

abril 20, 2015

©Daniel Blaufuks - Mão com espelho, da série "O ofício de viver", 2010
PLAY dEUS Keep you close

"(...) Mas ele ama uma ilha, avista-a
cada noite ao adormecer, sonha com ela
muito, seus fatigados membros cedem
uma dor forte quando apaga os olhos.
Um dia partirá da velha aldeia
e num estranho barco, sem pensar,
navegará. Sem emoção a casa
será abandonada e depois os cantos húmidos
com a flor do limo, a vinha murcha;
os livros, amarelos. Ninguém nunca
saberá quando morreu, a fechadura
ir-se-á cobrindo de um longínquo pó."

Francisco Brines (Trad. José Bento)
Antologia da poesia espanhola Contemporânia, Assírio & Alvim, 1986

fevereiro 08, 2015

©Daniel Blaufuks
PLAY Linda Martini Lição de Voo N.º1
Eu sei que não porque sim e, no entanto, cansa-me a transpiração de permanecer. Sei o que vejo quando as nuvens se movem em fuga motora e arrastam esta tontura de pés fixos. Mais não serei que a incerteza aberta à máscara que se me emplastra à cara. E o rosto está feito nisto: um conjunto de músculos presos de olhar de cima, em sorriso viciado e mecânico. Seria mais justo deixar cair as máscaras, ou admiti-las singular, afinal, e descer do palco em expressão definitiva e una. Mas eis, então, perante ele- o rosto - o que apresentaria ele nu? Uma tontura? Um devaneio? Uma ilusão? Rostos nus são nuvens em fuga-  perfeitas e inalcançáveis as formas. Longe, será sempre longe, a medida da distância entre rostos nus que se reconhecem. Efémero será o tempo que mede o encontro das nuvens em metamorfose. Mas o cansaço nasce, mesmo, na transpiração de permanecer em céu limpo.

fevereiro 01, 2015

[#2] Manual de desistência

©Daniel Blaufuks. Mulher deitada, da série "O ofício de viver", 2010


   "Não há dúvida de que é inútil e prejudicial lamentarmo-nos perante o mundo. Resta saber se não é igualmente inútil e prejudicial lamentarmo-nos perante nós próprios. Evidentemente."
Cesare Pavese,  O Ofício de Viver. Cotovia
PLAY Pere UbuGolden Surf II

Emprestar o corpo à realidade
que não o despe.
Entreter as horas
e inventar unidades de tempo:
torná-lo mais curto.

Aguardar o próximo encontro:
do corpo
com outro corpo
(que, já nu, o saiba despir).

dezembro 25, 2014

©Daniel Blaufuks Da solidão, da série "O ofício de viver", 2010



"Onde, reduzidos a pequenos chacais, nós nos comemos em riso. Em riso de dor - e livres. O mistério do destino humano é que somos fatais, mas temos a liberdade de cumprir ou não o nosso fatal: de nós depende realizarmos o nosso destino fatal. Enquanto que os seres inumanos, como a barata, realizam o próprio ciclo completo, sem nunca errar porque eles não escolhem. Mas de mim depende eu vir livremente a ser o que fatalmente sou. Sou dona da minha fatalidade e, se eu decidir não cumpri-la, ficarei fora de minha natureza especificamente viva. Mas se eu cumprir meu núcleo neutro e vivo, então, dentro de minha espécie, estarei sendo especificamente humana."
Clarice Lispector, A paixão segundo G.H.
©Daniel Blaufuks "Dos dias perdidos", 2014

PLAY Bach Mass in B minor - BWV232- Agnus Dei

É por isso que adormeço numa luz em movimento
E escolho um espaço para ver o espaço de frente
A sua cor de silêncio nocturno e desenho
Uma maneira quieta de estar nele tranquilo

Há nesse espaço uma fonte, um animal que desperta
Uma criança que navega com as próprias mãos.
Bebo com as mãos juntas.

Há uma voz que bebo. Há um espaço entre as mãos mas não perco
A sede. A água multiplica-se porque a tiro do coração
Que escuta.

Há um espaço no corpo que pode ser um lugar.
À sombra posso olhá-lo até o ver
Posso tocar as chagas no corpo

E posso beber dele morrendo
Nele como quem entra de tanto
O desejar.

Daniel Faria,  Poesia
@Daniel Blaufuks - O  saco de fruta, 2013 - da série "Um mundo igual a este mas ligeiramente diferente"

PLAY Bruckner Os Justi Meditabitur

Há muitos metros entre um animal que voa
E a escada que desço para me sentar no chão
Mas basta-me um quadrado de sossego
Para a distância absoluta

Está para além do que se vê a janela onde me debruço definitivo
Não é uma aparição
Nem se pode alcançar sem se ir em frente caindo

Só no fim da paisagem estou de pé como um pára-quedista que desce
Suspenso como os santos num arroubo místico
Erguido como um anjo em suas asas
E sinto-me ser alto como um astro. Nevem
Como se fosse um homem 
Que levita

Daniel Faria, Poesia

dezembro 23, 2014

Daniel Blaufuks

©Daniel Blaufuks Panorama de Veneza, da série "O ofício de viver, 2010



"Aborda a perda de poder da foto, a sua área de intervenção privilegiada. Que meio melhor ampara esta memória do mundo?

Cada vez sinto mais que a única arte que tem o poder de mudar o mundo é a literatura. O problema é que cada vez menos pessoas lêem livros, mas será talvez a única que consegue condensar isso, ou uma parte disso.

Defende que o livro é, de facto, o último resistente. Por outro lado, na mostra somos desafiados a visualizar o seu conteúdo, as letras, as palavras.
Sim, do que gostava é que as pessoas saíssem da exposição com vontade de comprar os livros do Perec, do Sebald e outros escritos. Mas estas são transformações também dos próprios livros, tentar olhar para estes escritores não só como escritores, mas como artistas que trabalharam o meio da palavra, tal como outros usam a plasticina. Usaram-na para algo mais vasto que a literatura. São questões lançadas para as quais não espero ter resposta, nem espero que o pública a tenha. Não é necessário resposta para todas as questões."

http://www.ionline.pt/artigos/mais/daniel-blaufuks-unica-arte-tem-poder-mudar-mundo-literatura/pag/-1

Walt Whitman

©Daniel_Blaufuks_Mão com espelho, da série "O ofício de viver"*, 2010
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Já disse que a alma não é mais do que o corpo,
E disse que o corpo não é mais do que a alma,
E nada, nem Deus, é maior para uma pessoa do que ela própria,
E quem caminha duzentos metros sem amar caminha amortalhado para o seu próprio funeral,
E eu ou tu que não possuímos um centavo podemos comprar o melhor que a Terra contém,
E olhar com um só olho ou mostrar um feijão na sua vagem desconcerta a aprendizagem de todos os tempos,
E não há ofício nem emprego em que um jovem não possa converter-se em herói,
E não há delicado objeto que não possa servir de eixo às rodas do universo,
E digo a todos os homens e mulheres: que a tua alma permaneça tranquila e serena ante um milhão de universos.
E digo à humanidade: não sintas curiosidade por Deus,
Porque eu que tenho curiosidade por tudo não sinto curiosidade por Deus,
(Não há palavras que possam definir a paz que sinto em relação a Deus e à morte.)Escuto e contemplo Deus em cada objecto, ainda que não O entenda minimamente.Nem entenda que possa existir alguém mais maravilhoso do que eu próprio.

Por que é que desejaria ver Deus melhor do que este dia?
Vejo algo de Deus em cada uma das vinte e quatro horas, e vejo-o em cada momento que passa.
Vejo Deus no rosto de homens e mulheres e no meu próprio rosto ao espelho.
Encontro cartas de Deus espalhadas pela rua, todas assinadas com o seu nome,
E deixo-as onde estão pois sei que vá para onde for,
Chegarão sempre outras pontualmente.

Walt Whitman, Canto de mim mesmo. BI.045

* inspirado pelos diários de Cesare Pavese