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março 17, 2017

©Josef Koudelka | Lebanon (Beirut) From the series Chaos |1991

GRELHA DE LINGUAGEM

O círculo dos olhos entre as barras.

Animal vibrátil a pálpebra
rema para cima,
descobre um olhar.

Íris, nadadora, sem sonhos, e turva:
o céu, cinzento-coração, deve estar perto.

Oblíqua, no bico de ferro,
a apara fumegante.
Pelo sentido da luz
adivinhas a alma.

(Fosse eu como tu. Fosses tu como eu.
Não estivemos nós
sob uma mesma monção?
Somos estranhos.)

Os ladrilhos. Sobre eles,
bem juntas, as duas
poças cinzento-coração:
duas
bocas cheias de silêncio.


SPRACHGITTER

Augenrund zwischen den Stäben.

Flimmertier Lid
rudert nach oben,
gibt einen Blick frei.

Iris, Schwimmerin, traumlos und trüb:
der Himmel, herzgrau, muß nah sein.

Schräg, in der eisernen Tülle,
der blakende Span.
Am Lichtsinn
errätst du die Seele.

(Wär ich wie du. Wärst du wie ich.
Standen wir nicht
unter einem Passat?
Wir sind Fremde.)

Die Fliesen. Darauf,
dicht beieinander, die beiden
herzgrauen Lachen:
zwei
Mundvoll Schweigen.

Paul Celan (1959) in As Escadas não têm Degraus  3 | Cotovia | 1990
 

julho 17, 2015

from son to father

©Josef Koudelka. Self portrait
PLAY Tim Buckley Song to the Siren

a imagem foge ao espelho
numa exaltação de verdade
a imagem extingue-se
         (a verdade é um espelho que dói)

PLAY Jeff Buckley Dream Brother

junho 27, 2015

©Josef Koudelka-prague-1968
PLAY Rodrigo Leão Aviões de Papel

Como aviões de papel atirados a rios sem horizonte
que nadam, que nadam, que nadam
em pasta de papel.

junho 11, 2015


Josef Koudelka. CZECHOSLOVAKIA. Prague. 1964.
Theatre On the Balustrade. "King Ubu", a play written by the French playwright Alfred JARRY


ERIGIDAS SOBRE AS NOSSAS FÁBULAS

UMA SUMPTUOSA MORADA

III
Avancei mais do que me permitiam as pupilas. (Lá onde a obscuridade se torna em degraus gratuitos, vertigem roubada à vigilância.)

A idade da transparência habita a memória dos homens.
As guerras contribuem para o seu prestígio.

O teu cabelo é o halo alongado do meu desespero. (Será o teu rosto o astro de que a manhã nasceu?)

As mãos trepavam, selvagens, até à boca do abismo de que ninguém suspeitava ao passar, distraído pelas dobras ondulantes das horas iluminadas que estriam o céu.


Edmond Jabès
A obscura palavra do deserto - uma antologia, Edições Cotovia, 1991 

junho 01, 2015

©Josef Koudelka
A dança lê o espaço
E só onde pousa o corpo
Não é vazio.
Conhecereis o deslumbre
De um mundo que só existe 
A cada gesto.

Nuno Rocha Morais,
Últimos Poemas, Quasi Edições, 2009

maio 18, 2015

©Josef Koudelka. GREECE

PLAY Team Sleep Natalie Portman
"é preciso esquecer para andar, talvez assim se chegue, isto é, se consiga fixar o som aos sítios, não o deixar afastar-se, como a música do violoncelo que sai das janelas abertas da grande casa, e atravessa o jardim, só castanheiros nus e bancos molhados, para lhe chegar intacta aos ouvidos.
Está frio
e a melodia é um atalho para um nome que teima em esconder-se, quer dizê-lo, a música porém afasta-se, ou ele dela, ou um para um lado e a outra para outro, e o som dos passos cresce nesse hiato, também o do coração na cabeça"
Rui Nunes,
Os Olhos de Himmler, 2009, Relógio D'Água

maio 03, 2015

©Josef Koudelka. USA. California. 2000. Death Valley National Park

PLAY Tiago Bettencourt O Lugar

Já é noite e o frio
está em tudo o que se vê
Lá fora ninguém sabe
que por dentro há vazio
Em que todos há um espaço
que por medo não cedeu
Onde a ilusão se esquece
do que o tempo não previu
Já é noite e o chão
É mais terra pra nascer
A água vai escorrendo
Entre as mãos a percorrer
Todo o espaço entre a sombra
Entre o espaço que restou
Para refazer a vida
No que o tempo não matou
Mas onde tudo morre tudo pode renascer
Em ti vejo o tempo que passou
E o sangue que correu
Vejo a força que me deu
quando tudo parou em ti
A tempestade que não há em ti
Arrastando para o teu lugar
E é em ti que vou ficar
Já é noite e a sombra
Está em tudo o que se vê
Lá fora ninguém sabe
O que a luz pode fazer
Porque a noite foi tão fria
Que não soube acordar
A noite foi tão dura
E difícil de sarar
E onde tudo morre tudo pode renascer
Em ti vejo o tempo que passou
E o sangue que correu
Vejo a força que me deu
Quando tudo parou em ti
A tempestade que não há em ti
Arrastando para o teu lugar
E é em ti que vou ficar
Por que eu descobri a casa onde posso adormecer
Eu já desvendei o mundo e o tempo de perder
Aqui tudo é mais forte e há mais cor num céu maior
Aqui tudo é tão novo e pode ser amor
E onde tudo morre tudo volta a nascer
Em ti vejo o tempo que passou
E o sangue que correu
Vejo a força que me deu
Quando tudo parou em ti
A tempestade que não há em ti
Arrastei-me para o teu lugar
E é em ti que vou ficar.
Já é dia e a luz
Está em tudo o que se vê
Cá dentro não se ouve
O que lá fora faz chover
Na cidade que há em ti
Encontrei o meu lugar
E é em ti que vou ficar.
Josef Koudelka.CZECHOSLOVAKIA. Prague. 1967. Theatre Divadlo Za Branou (Beyond the Gate). 
"Nightingale for Dinner", a play written and directed by Josef TOPOL.

TAMBÉM NÓS QUEREMOS ESTAR
onde o tempo diz a palavra-limiar,
o milénio emerge da neve, remoçado,
o olhar errante
descansa no seu próprio espanto
e cabana e estrela
vizinhas se destacam no azul,
como se o caminho já estivesse percorrido.

Paul Celan, A morte é uma flor, Edições Cotovia, 1998
Josef Koudelka. CZECHOSLOVAKIA. Prague. 1965. Theatre Divadlo Za Branou (Beyond the Gate).
"Masks from Ostend", a play written by Michel de GHELDERODE and directed by Otomar KREJCA
AS BANDEIRAS GUARDAM AS APARÊNCIAS

Não prendas a elas o olhar,
não o afastes delas,
não pagues a portagem da ponte.

Os que são iguais respiram.

Paul Celan, A morte é uma flor, Edições Cotovia, 1998

maio 01, 2015

Santíssima Trindade

©Josef Koudelka. CZECHOSLOVAKIA. Prague. 1965.
Theatre Divadlo Na Zabradli (On The Balustrade)
PLAY Deftones Changes

"Estragon: Nascemos todos doidos. Alguns ficam doidos toda a vida"
Samuel Beckett
À espera de Godot,  Editora Arcádia

abril 07, 2015

©Josef Koudelka. CZECHOSLOVAKIA. Prague. 1966. Theatre Divadlo Za Branou (Beyond the Gate).
"The Three Sisters", a play written by CHEKHOV and directed by Otomar KREJCA
PLAY Goldfrapp Lovely Head

abril 04, 2015

©Josef Koudelka. CZECHOSLOVAKIA. Prague. 1965. Theatre Divadlo Za Branou (Beyond the Gate).
 "Masks from Ostend", a play written by Michel de GHELDERODE and directed by Otomar KREJCA

DA MITOLOGIA
    Primeiro era um deus da noite e da tempestade, ídolo negro e sem olhos, diante do qual saltavam nus e lambuzados de sangue. Mais tarde, nos tempos da república, eram imensos os deuses, com mulheres, filhos, camas desconjuntadas e raios que explodiam inofensivos. Por fim só os neuróticos supersticiosos carregavam no bolso pequenas estátuas de sal, representando o deus da ironia. À época não havia maior deus.
   Vieram então os bárbaros. Também eles tinham em alta estima o pequeno deus da ironia. Esmagavam-no sob os calcanhares, adicionando-o depois aos seus manjares.

Zbigniew Herbert (1924-1998)
(Trad. Rui Knopfli)
Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro, 2001, Assírio&Alvim

abril 02, 2015

 ©Josef Koudelka. CZECHOSLOVAKIA. Prague. 1965. Theatre Divadlo Na Zabradli (On The Balustrade).
"Waiting for Godot", a play written by Samuel BECKETT

Estragon: E, dizes tu, que tudo isso aconteceu ontem?

Vladimir: Aconteceu.

Estragon: Aqui?

Vladimir: Sim, aqui. Não reconheces o lugar?

Estragon: (numa exasperação súbita) Reconhecer? Reconhecer o quê? Tenho vivido toda a minha vida atolado no mesmo chiqueiro e vens tu agora exigir que eu distinga tonalidades na paisagem! (Olhando à volta). Olha está estrumeira! Nunca sai disto!

Vladimir: Calma! Calma! 

Estragon: Não me venhas para cá chatear com as tuas paisagens. Fala-me de esgotos!

Vladimir: Está bem, está bem, mas não me venhas dizer que isto (gesto) aqui é parecido com o Ribatejo! A diferença mete-se pelos olhos dentro.

Estragon: O Ribatejo! Quem falou aqui do Ribatejo?

Vladimir: Mas tu já estiveste no Ribatejo.

Estragon: Estás enganado. Nunca estive no Ribatejo. Tenho passado toda a porca da minha vida aqui, digo-te eu. Aqui, na Ribamerda.

Vladimir: A verdade é que estivemos os dois no Ribatejo. Punha as mãos no fogo. Andámos a vindimar para um tipo de que não me lembro o nome.

Estragon: (mais calmo)  Talvez. Não dei por nada.

Vladimir: Lá, tudo é verde.

Estragon: (exaltado) Já te disse que não reparei em nada.

                 Silêncio. Vladimir suspira fundo.

Vladimir: É difícil viver contigo, Gogo.

Estragon: Era melhor separarmo-nos.

Vladimir: Andas sempre a repetir isso. Mas acabas por voltar.

                  Silêncio.

Estragon: O melhor, de facto, seria eu matar-me, como o outro.

Vladimir: Qual outro? (pausa). Quem?

Estragon: Milhões doutros.

Vladimir: (sentencioso) Na vida, cada um tem que levar sua cruz ao calvário. (Suspira). Até morrer e ser esquecido.

Estragon: Entretanto, vamos tentar conversar sem nos irritarmos, já que não somos capazes de estar calados.

Vladimir: É verdade, somos como duas gralhas.

Estragon: É para não pensar.

Vladimir: Temos as nossas desculpas.

Estragon: É para não ouvir.

Vladimir: Temos as nossas razões.

Estragon: Todas as vozes mortas.

Vladimir: São como um sussurro de asas.

Estragon: De folhas.

Vladimir: De areia.

Estragon: De folhas.

                    Silêncio.  

Vladimir: Falam todas ao mesmo tempo.

Estragon: Cada uma para si mesma.

                  Silêncio.

Vladimir: Dir-se-ia que segredam.

Estragon: Murmuram.

Vladimir: Sussurram.

Estragon: Murmuram.

                  Silêncio.

Vladimir: Que é que elas dizem?

Estragon: Falam da vida delas.

Vladimir:  Não lhes basta terem vivido.

Estragon: Não podem fugir a falar disso.

Vladimir:  Não lhes basta estarem mortas.

Estragon: Não é suficiente.

                  Silêncio.

Vladimir:  É como um rumor de penas.

Estragon: De folhas.

Vladimir: De cinzas.

Estragon: De folhas.

                  Silêncio prolongado.

Vladimir:  Diz qualquer coisa!

Estragon: Estou a procurar.

                  Silêncio prolongado.

Vladimir:  (com angústia) Diz qualquer coisa, não importa o quê. Mas fala!

Estragon: O que vamos nós fazer, agora?

Vladimir:  Esperar por Godot!

Estragon: Ah, é verdade!

                  Silêncio.

Vladimir:  Isto é doloroso!


Samuel Beckett
À Espera de Godot, Teatro de Samuel Beckett, Editora Arcádia

abril 01, 2015

©Josef Koudelka. ITALY. 1982.



Rasgas as fúrias no vinco do papel.
Ruges de cor sem caninos que perfurem o grito.
Olhas sem sede ou olhos que se vejam.
Rende-te! Éum mero exercício de escrita e a minha mente está tão cansada de se escrever.
               

março 27, 2015

Dia Mundial do Teatro

©Josef Koudelka. CZECHOSLOVAKIA. Prague. 1965. Theatre Divadlo Na Zabradli (On The Balustrade). 
"Waiting for Godot", a play written by Samuel BECKETT.

"Pozzo:
Até eu mesmo teria grande prazer em me encontrar com ele. Nada me dá mais felicidade do que conhecer pessoas. Até mesmo a criatura mais insignificante é capaz de nos ensinar alguma coisa nova, de nos enriquecer com um pequeno nada, de nos revelar mais completamente a nossa própria felicidade. 
(...)

Pozzo: 
Já não está a chorar (Para Estragon). De certa maneira, você veio ocupar o lugar dele. (Em tom sonhador). As lágrimas choradas no mundo são uma quantidade imutável. Alguém começa a chorar aqui e nesse mesmo instante alguém deixa de chorar algures. E o mesmo acontece com o riso. (Rindo). Portanto, não há razão para lamentar a nossa geração, que de facto não é mais infeliz que as anteriores. (Silêncio). O melhor é não falar dela. (Silêncio). É certo que a população aumentou. "

Samuel Beckett
À Espera de Godot, Teatro de Samuel Beckett, Editora Arcádia

março 07, 2015

©Josef Koudelka. ITALY. Sicily. Caltanissetta. Butera. 2005. Holy Week.

"CapítuloXXXV: Protonotário Apostólico


Enfim, peguei dos livros e corri à lição. Não corri precisamente; a meio caminho parei, advertindo que devia ser muito tarde, e podiam ler-me no semblante alguma coisa. Tive idéia de mentir, alegar uma vertigem que me houvesse deitado ao chão; mas o susto que causaria a minha mãe fez-me rejeitá-la. Pensei em prometer algumas dezenas de padre-nossos; tinha, porém, outra promessa em aberto e outro favor pendente... Não, vamos ver; fui andando, ouvi vozes alegres, conversavam ruidosamente. Quando entrei na sala, ninguém ralhou comigo.

O Padre Cabral recebera na véspera um recado do internúncio; foi ter com ele, e soube que, por decreto pontifício, acabava de ser nomeado protonotário apostólico. Esta distinção do Papa dera-lhe grande contentamento e a todos os nossos. Tio Cosme e prima Justina repetiam o título com admiração; era a primeira vez que ele soava aos nossos ouvidos, acostumados a cônegos, monsenhores, bispos, núncios, e internúncios; mas que era protonotário apostólico? O Padre Cabral explicou que não era propriamente o cargo da cúria, mas as honras dele. Tio Cosme viu exalçar-se no parceiro de voltareta, e repetia:

– Protonotário apostólico!

E voltando-se para mim:

– Prepara-te, Bentinho; tu podes vir a ser protonotário apostólico.

Cabral ouvia com gosto a repetição do título. Estava em pé, dava alguns passos, sorria ou tamborilava na tampa da boceta. O tamanho do título como que lhe dobrava a magnificência, posto que, para ligá-lo ao nome, era demasiado comprido; esta segunda reflexão foi tio Cosme que a fez. Padre Cabral acudiu que não era preciso dizê-lo todo, bastava que lhe chamassem o Protonotário Cabral. Subentendia-se apostólico.

– Protonotário Cabral.

– Sim, tem razão; Protonotário Cabral.

– Mas, senhor protonotário, – acudiu prima Justina para se ir acostumando ao uso do título, – isto o obriga a ir a Roma?

– Não, D. Justina.

– Não, são só as honras, observou minha mãe.

– Agora, não impede – disse Cabral, que continuava a refletir, – não impede que nos casos de maior formalidade, atos públicos, cartas de cerimônia, etc., se empregue o título inteiro: protonotário apostólico. No uso comum, basta protonotário.

– Justamente, assentiram todos.

José Dias, que entrou pouco depois de mim, aplaudiu a distinção, e recordou, a propósito, os primeiros atos políticos de Pio IX, grandes esperanças da Itália; mas ninguém pegou do assunto; o principal da hora e do lugar era o meu velho mestre de latim. Eu, voltando a mim do receio, entendi que devia cumprimentá-lo também, e este aplauso não lhe foi menos ao coração que os outros. Bateu-me na bochecha paternalmente, e acabou dando-me férias. Era muita felicidade para uma só hora. Um beijo e férias! Creio que o meu rosto disse isto mesmo, porque tio Cosme, sacudindo a barriga, chamou-me peralta; mas José Dias corrigiu a alegria:

– Não tem que festejar a vadiação; o latim sempre lhe há de ser preciso, ainda que não venha a ser padre.

Conheci aqui o meu homem. Era a primeira palavra, a semente lançada à terra, assim de passagem, como para acostumar os ouvidos da família. Minha mãe sorriu para mim, cheia de amor e de tristeza, mas respondeu logo:

– Há de ser padre, e padre bonito.

– Não se esqueça, mana Glória, e protonotário também. Protonotário apostólico.

– Protonotário Santiago, acentuou Cabral.

Se a intenção do meu mestre de latim era ir acostumando ao uso do título com o nome, não sei bem; o que sei é que quando ouvi o meu nome ligado a tal título, deu-me vontade de dizer um desaforo. Mas a vontade aqui foi antes uma idéia, uma idéia sem língua, que se deixou ficar quieta e muda, tal como daí a pouco outras idéias... Mas essas pedem um capítulo especial. Rematemos este dizendo que o mestre de latim falou algum tempo da minha ordenação eclesiástica, ainda que sem grande interesse. Ele buscava um assunto alheio para se mostrar esquecido da própria glória, mas era esta que o deslumbrava na ocasião. Era um velho magro, sereno, dotado de qualidades boas. Alguns defeitos tinha; o mais excelso deles era ser guloso, não propriamente glutão; comia pouco, mas estimava o fino e o raro, e a nossa cozinha, se era simples, era menos pobre que a dele. Assim, quando minha mãe lhe disse que viesse jantar, a fim de se lhe fazer uma saúde, os olhos com que aceitou seriam de protonotário, mas não eram apostólicos. E para agradar a minha mãe, novamente pegou em mim, descrevendo o meu futuro eclesiástico, e queria saber se ia para o seminário agora, no ano próximo, e oferecia-se a falar ao “senhor bispo”, tudo marchetado do “Protonotário Santiago”."


Joaquim Maria Machado de Assis (Rio de Janeiro 1839-1908)
Dom Casmurro, Abril Cultural, 1978

março 04, 2015

[#6] Estou a escrever-te de um país distante

©Josef Koudelka. ITALY. 2006
     "Aqui vivemos todas de nó na garganta. Sabes tu que, apesar de muito jovem, ainda fui mais jovem noutros tempos, e dá-se o mesmo com as minhas companheiras. O que quer isto dizer? Qualquer coisa encobrirá, com certeza horrível.
     E no tempo, como te disse, em que ainda éramos mais jovens, sentíamos medo. Houve quem se aproveitasse da nossa confusão. E nos dissesse: "Pronto, vamos enterrar-vos. Chegou o momento". Pensávamos, de facto, que nessa mesma noite podiam enterrar-nos, se fosse chegado o momento de fazê-lo.
     E não se ousava correr muito: ofegantes, no final de uma carreira, chegarmos ao pé da cova já aberta e nem tempo sobrar para uma palavra, sem nenhum fôlego.
     Diz-me: que segredo existe, na verdade, a tal respeito?"

Henri Michaux, Estou a escrever-te de um país distante, Hiena Editora, 1986
(tradução de Aníbal Fernandes)