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fevereiro 13, 2017

©raquelsav | Montes | Fevereiro 2017


PLAY Chico Buarque | Construção

E, no entanto, a mão que fixo não é a que ergues.

outubro 13, 2016

©raquelsav
Sussurras-me o Outono ao ouvido
e sorrimos da ironia:
sabemos que só há vida para além do Inverno.
Sete arcos por nove de claustro:
nasce a ruína da pedra,
cresce o espaço, geograficamente estrangeiro.

Adormeço nesse simulacro jugular.

Sonho com o Inverno
e,
onde te adivinho, nasce a flor.

outubro 04, 2016

©raquelsav | Agosto 2016 | Santa Maria do Bouro
PLAY John Cage | In a landscape

Imagem atrás de imagem,
folhas de livro:
eu e tu nelas,
como paisagens
indefinidas.


agosto 31, 2016

©raquelsav | Agosto2016| Mosteiro- Pitões das Júnias
"Por fim, foi à magia que coube a honra de se instalar entre os meus escombros e, ainda hoje, quando me passeio entre eles, descubro vestígios. Mas na maior parte das vezes trata-se de um lugar sem projecto nem limite, onde existem até materiais que me são estranhos, sem falar na sua disposição. E a coisa em ruínas, não sei o que é, o que foi, nem, por consequência, se não tratará menos de ruínas do que de uma sólida confusão de coisas eternas, se é que é esta a expressão correcta. É, em todo o caso, um lugar sem mistério, a magia abandonou-o, considerando-o sem mistério. E se não vou até lá de boa vontade, vou porventura com um pouco mais de boa vontade do que a outro lugar qualquer, surpreso e tranquilo, diria como um sonho, mas nem assim, nem assim. Mas este não é um desses lugares a que se vai, mas sim daqueles lugares onde, por vezes, nos encontramos sem saber como, e que não se abandonam quando se quer, e onde nos encontramos sem qualquer prazer, mas com menos desprazer, porventura, do que nos lugares de onde nos podemos afastar ao sentirmo-nos mal neles, lugares misteriosos, cheios de mistérios conhecidos. Escuto e oiço-me ordenar um mundo imóvel, em desequilíbrio, sob um dia frágil e calmo, sem mais, suficiente para o ver, compreendem, e também ele imóvel. E oiço murmurar que tudo se verga e curva, como sob o peso de fardos, mas aqui não há fardos, e também o solo, difícil de transportar, bem como o dia, para um fim que parece não existir. Pois que fim existe para estas solidões para quem a verdadeira claridade nunca existiu, nem o equilíbrio, nem a base, mas sempre essas cosias pendentes resvalando num aluimento sem fim, sob um céu sem memória de manhã, nem esperança de tarde. Essas coisas, que coisas, vindas de onde, feitas de quê?" 

Samuel Beckett (1951) | Molloy | Relógio d'Água | 2003

julho 21, 2016

julho 20, 2016

[#3] manual de sobrevivência

@raquelsav | Algés | 8 Julho 2016

junho 30, 2016

©raquelsav | 29 de Junho 2016 | Exposição "Avesso" de Ana Vidigal

 R   E   C   O   M   E   Ç   O

rima com

A   V   E   S   S   O

junho 26, 2016

©raquelsav | Junho 2016
PLAY Tigran Hamasyan & The Yerevan State Chamber Choir | Luis i Luso Full Concert

(Em)quanto te elevas e um fio e um rasto e os deuses moribundos e cansados. E tu sobes em montanhas inclinadas de ouro e há luz e há luz. E os deuses fazem-se morros e as montanhas precipitam-se e o ouro e a luz voam como pássaros pelas escarpas. Jazem rochas cristalinas e élitros de besouro imóveis para te ver passar. E sobes e sobes e a montanha desce. (Em)quanto te elevas e um fio e um rasto e um silêncio. (Em)quanto te elevas e um mundo a ficar pequeno.

junho 05, 2016

[#1] Manual de instruções para Homens sem fé

©raquelsav | Jun 2016
O caminho mais rápido para alcançar o céu é seguir a sua cruz.

maio 20, 2016

 
©raquelsav | navegante |2015

"Ulrich levantou-se e esticou os braços, admirado com os seus devaneios. A menos de dez passos dele, do outro lado da parede, estava o cadáver do pai, e só agora reparou que à sua volta havia um formigueiro de gente que parecia sair do chão e se entregava a várias tarefas na casa morta, mas que continuava viva. Mulheres velhas estendiam tapetes e acendiam novas velas, ouvia-se martelar nas escadas, traziam flores para cima, enceravam o chão, e agora toda essa actividade se estendia também até ele: havia pessoas que estavam a pé tão cedo porque precisavam de fazer ou de saber qualquer coisa, e a partir desse momento a azáfama não parou. A Universidade precisava de ter informações sobre o funeral, um ferro-velho, discretamente, queria saber se havia roupas para vender, um alfarrabista da cidade fez-se anunciar, com muitas desculpas, em nome de uma firma alemã, oferecendo-se para adquirir uma obra jurídica rara que deveria encontrar-se na biblioteca do defunto, um padre representante da paróquia, pedia para falar com Ulrich para esclarecer explicações, outro procurava um piano barato, um agente imobiliário deixou o cartão, para o caso de quererem vender a casa, um funcionário aposentado ofereceu-se para escrever endereços nos envelopes, era um constante vaivém de gente entrando, saindo, perguntando, reclamando por escrito ou oralmente o seu direito à existência a estas horas da manhã, tudo objectivamente relacionado com a morte acontecida. Ao portão da casa, o velho criado tentava enxotar os que podia, e lá em cima Ulrich tinha de receber os que conseguiam entrar. Nunca imaginara que havia assim tanta gente esperando delicadamente pela morte dos outros, nem que os corações batem mais depressa quando o outro deixa de bater. Estava espantado, veio-lhe a imagem do escaravelho morto na floresta, e de outros escaravelhos, formigas, pássaros e borboletas esvoaçantes a aproximarem-se dele"


"O jornalista deu-se por satisfeito, já tinha o número de linhas necessário. Ulrich espantou-se com o montinho de cinzas que é tudo o que resta da vida de um homem. Para cada informação recebida, o jornalista tinha na manga fórmulas de seis a oito cavalos: grande sábio, aberto ao mundo, político prudente e criativo, talento universal e assim por diante; decerto não morria ninguém há muito tempo, e as palavras estavam enferrujadas e sedentas de aplicação. Ulrich pensou ainda um pouco; gostaria de ter dito mais alguma coisa de bom sobre o pai; mas o cronista, que já arrumava os instrumentos de escrita, tinha-se limitado a perguntar por factos, e o resto era como se quiséssemos agarrar no conteúdo de um copo de água, mas sem o copo."

Robert Musil (1880-1942) | O Homem sem Qualidades - Livro Segundo | Dom Quixote | 2008 | 2.ª Ed. |Trad. João Barrento

maio 17, 2016

A fome num prato vazio

©raquelsav | "Sarrado"

maio 11, 2016

maio 10, 2016

maio 09, 2016

Onde há tristeza, há esperança

@raquelsav | "Sarrado" | Maio 2016
PLAY J. S. Bach | Erbarme dich : St. Matthäus Passion

Mesa posta
à conquista do pó:
até ao lavar do prato
é refeição.

maio 04, 2016

©raquelsav | "Sarrado" | Maio 2016
PLAY Chico Cesar, Lenine, Paulinho Moska, Zeca Baleiro | O mundo

Podia ler nos homens o adensar do grito,
num canto que não chegou nem perto.
Podia tentar amanhã,
ou num dia em que a sorte não chegue tão tarde.


Não há vitória que não ponha fim à história...

©raquelsav | "Sarrado" | Maio 2016

abril 29, 2016

©raquelsav | "Sarrado" | Abril2016
PLAY At-Tambur | D. Fernando

abril 28, 2016

Sentiu falta de sentir falta

©raquelsav | "Sarrado" | Abril2016

janeiro 14, 2016

[#1] À distância de um teclado

©raquelsav2016. Work-in-Progress
PLAY Tchaikovsky Doll is ill, Op. 39 n.º7

Há gritos em corpos de abandono
e, constantemente, veias que arrebatam,
que cessam,
que despedem,
que lembram -
que existem para lembrar.

Há aromas, perfume do hábito,
impregnados nas veias que existem,
e lembram o abandono,
no corpo.

Há erros perenes e crónicos,
que insistem,
insistem,
que insistem
porque o corpo ama
porque o corpo cheira
mas não sabe abandonar.

Há tanto no corpo a querer amar,
amar a saudade de amar,
a saudade de ser em amar.

Há gritos em corpos de abandono,
amores subjectivos, adjectivos,
que não nasceram para crescer
que não nasceram para ser verbo
                                   [num grito].

dezembro 10, 2015

©raquelsav
"Medir a felicidade. Que dizer destes fogachos transitórios? Não chega a penitência. Aos que têm o fogo das trovoadas, a cal nas sepulturas, como exercício do fogo verdadeiro (do inferno para sempre). Um nada, que flutua em nós, controla o acaso ou perde a ocasião (irrepetível). Fazer contas e errá-las: a soma que se chama alma. A bom entendedor meia palavra basta. Quanto ao resto, os vultos a arderem no desenho, quem levanta a mão contra o nosso corpo e o nosso gado? Quem se antecipa a Deus?"

Carlos de Oliveira (1978)
Finisterra: Paisagem e povoamento, Sá da Costa, 1979