porque, às tantas, nem é uma questão de verdade. dessa até sabemos que não existe. quando muito é um problema de validade. de qualquer forma, a questão essencial reside na interpretação e não, propriamente, na existência. interpretação mais ou menos acérrima. e talvez a dificuldade até nem seja a falta de flexibilidade na aceitação de diferentes interpretações. será tão somente a cegueira ou a teimosia existencial, de várias as partes, que dificultam o dialogo. a doença das pessoas que pensam, sim, a doença das pessoas que pensam muito é uma espécie de cegueira e teimosia existencial. mas talvez eu esteja errada, talvez eu pense demasiado.
|Assim repito o nome e sinto ainda o incêndio no rosto :|| paul celan |Porque é com nomes que alguém sabe | onde estar um corpo| por uma ideia, onde um pensamento | faz a vez da língua.| herberto helder
maio 02, 2014
maio 01, 2014
POEMA CONCERTINA
(fole fechado)
poemaconcertina
(abre o fole)
POE M A C O N C E R TINA
(abre o fole mais um pouco)
P O E M A C O N C E R T I N A
(abre o fole mais mais um pouco)
P O E M A C O N C E R T I N A
(vá lá, assim não dá)
POEMA CONCERTINA
(por favor!)
anitrecnoc ameop
( :P nham nham nham nham nham :P)
assim, não há meio de (se) concertar!
PLAY
PLAY
https://www.youtube.com/watch?v=tw8Ac06BWas
Parece-me que o cão é louco. Só a loucura justifica que atente a vida nas rodas do meu carro todos os dias de manhã, à mesma hora, ou não? O limbo de audácia e medo com que (não) se atenta à vida encerra em si alguma lógica de loucura? Ou porque cão é cão, sem uso de razão, nem a loucura lhe assiste?
Mas se a razão depende de um número de casos tornados regra, talvez sejam os dias a ser loucos e não, propriamente, o cão. Mas certo é que o uso da regra não se afigura evidente neste caso. Não tanto pela evidência, ou pelo caso, mas mais pela regra em si. Pelo significado de r e g r a e tudo o que isso implica. À lógica canina não se aplicam raciocínios dedutivos.
De qualquer forma, a minha alma arraçada a enguia também não ajuda a esta coisa de fazer dos casos lei. O padrão é difícil de encontrar em espíritos esquivos. E isso nada tem a ver com o cão. Já esqueci o cão. Quer dizer, esqueci-o por agora. Todos os dias ele faz questão de me lembrar que existe. Que existe na bravura de ser cão que arrisca a vida nas rodas do meu carro. E ganha, ganha sempre, aquele cão. Por isso não o posso esquecer. Enquanto ele existir posso sempre dizer que ele é louco. Posso sempre esquecer a minha própria loucura. É essa a regra que nos salvaguarda da loucura. Não perder de vista alguém mais louco do que nós. Regra, sim, definida entre o medo e o esquecimento.
abril 21, 2014
são quatro ou cinco juro que não são mais| ou serão tantas que lhes perdi a conta?| noves fora e já se lhe veem o bucho e as tripas por não caber em si de contente|como se o mundo precisasse de lhe conferir as vísceras para saber de que é feita a sua felicidade| poupem-me|__sim é uma metáfora mas não precisava de o dizer pois não?__ |a mim pouco me importa quantas foram é-me igual ao litro ou ao decímetro cúbico|__ para os mais quadrados a medir fluídos__ |de qualquer forma a felicidade não carece de Técnico Oficial de Contas ou de agrimensor que a espartilhe para a medir|por isso não quero saber se foram quatro se mil|dependerá sempre de uma qualquer unidade antropomórfica|__ e por isso não padronizada__| ou seja quatro podem ser mil| e afinal tudo o que de melhor existe é mesmo incomensurável| desde que sei que entre o zero e o uno há um infinito desinteressei-me pela arte de contar| e pode dizer-se que não sou infeliz|
abril 16, 2014
abril 15, 2014
hoje apetecia-me gostar-te de mãos dadas como quem enleia uma réstia de cebolas ao firmamento do ano comum >>>>>>> e percorríamos com elas >>> as mãos >>> sem pudor >>> as mazelas do meu corpo que testemunham o passar dos anos bissextos >>> como eles >>> contávamos de quatro em quatro os beijos pela madrugada fora e quem sabe o que de nós descobriríamos então >>>>>>> entre um salto quântico da nossa saliva e um dedo que não se quer desembaraçar cabe um mundo
abril 08, 2014
Al Berto
| Vestígios |
| noutros tempos quando acreditávamos na existência da lua foi-nos possível escrever poemas e envenenávamo-nos boca a boca com o vidro moído pelas salivas proibidas - noutros tempos os dias corriam com a água e limpavam os líquenes das imundas máscaras hoje nenhuma palavra pode ser escrita nenhuma sílaba permanece na aridez das pedras ou se expande pelo corpo estendido no quarto do zinabre e do álcool - pernoita-se onde se pode - num vocabulário reduzido e obcessivo - até que o relâmpago fulmine a língua e nada mais se consiga ouvir apesar de tudo continuamos e repetir os gestos e a beber a serenidade da seiva - vamos pela febre dos cedros acima - até que tocamos o místico arbusto estelar e o mistério da luz fustiga-nos os olhos numa euforia torrencial Al-Berto Horto de Incêndio |
abril 07, 2014
Daniel Faria
Amarro dois degraus para não subir
Sozinho. Monto no meu cavalo- o meu cavalo
Não vai para minha casa
Medito sobre o rasto que não cabe no meu destino
Na nossa escada era difícil transportar os familiares defuntos
E os familiares enfermos- vê meu pai como me lembro
Como aprendi a amarrar as vergônteas das vides
A minha viagem é mais funda do que os rios
É mais funda a tua mão- vê como me lembro- ela sabe
Onde é que o meu corpo não suporta correntes
Amarro dois degraus para não subir
Daniel Faria (Poesia, Edições Quasi, 2006, p. 319)
Sozinho. Monto no meu cavalo- o meu cavalo
Não vai para minha casa
Medito sobre o rasto que não cabe no meu destino
Na nossa escada era difícil transportar os familiares defuntos
E os familiares enfermos- vê meu pai como me lembro
Como aprendi a amarrar as vergônteas das vides
A minha viagem é mais funda do que os rios
É mais funda a tua mão- vê como me lembro- ela sabe
Onde é que o meu corpo não suporta correntes
Amarro dois degraus para não subir
Daniel Faria (Poesia, Edições Quasi, 2006, p. 319)
abril 02, 2014
E, aliás, é tudo uma questão de colo.
Dos que nasceram sem colo e que por toda a vida o procuram, sem nunca o encontrar. Isto porque há colos grandes por esse mundo, mas nunca suficientemente maiores do que o colo onde não se nasceu. E há dos que nasceram com colo a mais, vivendo na ilusão do colo ser sempre tão grande que os ampara das quedas pela vida fora. E eles amadurecem e o colo fica sem espaço para abrigar a parte que cresce.
Não acho que possam existir colos à medida, são-o sempre em defeito ou em excesso. E por isso o jogo do equilíbrio é tão desenfreadamente mais grave no correr da idade.
A quem falta, um dia a mais de vida é um dia a menos que tem para o encontrar.
A quem excede, um dia a mais de vida é um centímetro de colo a menos porque os colos, desde que nascem, minguam até deixarem de existir, em algum dia, sem aviso.
É tudo uma questão de colo e de alma que, quando amadurece, só sabe endurecer.
abril 01, 2014
Camus
" (...) A escravatura, ah, isso não, nós somos contra! Que se seja constrangido a instalá-la em sua casa, ou nas fábricas, bom, está na ordem das coisas, mas gabar-se disso é o cúmulo.
Sei bem que não se pode passar sem dominar ou ser-se servido. Todo o homem tem necessidade de escravos como de ar puro. Mandar é respirar, não é desta opinião? E até os mais deserdados chegam a respirar. O último na escala social tem ainda o cônjuge ou o filho. Se é celibatário, um cão. O essencial, em resumo, é uma pessoa poder zangar-se sem que outrem tenha o direito de responder. «Ao pai não se responde», conhece a fórmula? Em certo sentido, ela é singular. A quem se responderia neste mundo senão a quem se ama? Por outro lado, ela é convincente. É preciso que alguém tenha a última palavra. Senão, a toda a razão pode opor-se outra: nunca mais se acabava. (...)»
CAMUS, Albert, A Queda, (trad. de José Terra) Editora Livros do Brasil, Lisboa, 1971.
março 30, 2014
Alexande O'Neill
PLAY "Poema do Desamor" TiagoBettencourt
Alexande O'Neill
Poema do Desamor
Desmama-te desanca-te desbunda-te
Não se pode morar nos olhos de um gato
Desmama-te desanca-te desbunda-te
Não se pode morar nos olhos de um gato
Beija embainha grunhe geme
Não se pode morar nos olhos de um gato
Não se pode morar nos olhos de um gato
Serve-te serve sorve lambe trinca
Não se pode morar nos olhos de um gato
Não se pode morar nos olhos de um gato
Queixa-te coxa-te desnalga-te desalma-te
Não se pode morar nos olhos de um gato
Não se pode morar nos olhos de um gato
Arfa arqueja moleja aleija
Não se pode morar nos olhos de um gato
Não se pode morar nos olhos de um gato
Ferra marca dispara enodoa
Não se pode morar nos olhos de um gato
Não se pode morar nos olhos de um gato
Faz festa protesta desembesta
Não se pode morar nos olhos de um gato
Não se pode morar nos olhos de um gato
Arranha arrepanha apanha espanca
Não se pode morar nos olhos de um gato
Não se pode morar nos olhos de um gato
março 29, 2014
António Ramos Rosa
Estar só é estar no íntimo do mundo
Por vezes cada objecto se ilumina
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim tão breve e tão profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos dá
a cintilante substância do sítio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono
fluvial e um núbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo
António Ramos Rosa
Poemas inéditos
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim tão breve e tão profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos dá
a cintilante substância do sítio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono
fluvial e um núbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo
António Ramos Rosa
Poemas inéditos
in http://mal-situados.blogspot.pt/search/label/antónio%20ramos%20rosa
março 28, 2014
Rigveda (1700-1100 a. C.)
nāsadīya sūkta
"Hino da Criação" (10.129)
1. [No início] não existia nem o existente nem o não-existente; não existia o espaço vazio nem o céu acima dele. O que havia então? Em que lugar? Quem zelava [por tudo]? Havia água [ou] o céu infinito? ||
2. Não existia então a morte nem a imortalidade. A noite e o dia não se distinguiam. [Mas] algo existia, sem ar, por própria vontade, [e] nada mais havai para além disso ||
3. No início o infinito estava oculto de escuridão; sem qualquer outro sinal, tudo isto era água. O espírito contido no nada pelo poder de Tapas surgiu ||
4. O desejo foi o primeiro a aparecer nele; eis a primeira origem do pensamentos. Os Rsis encontraram com sabedoria nos seus corações o elo entre o existente e o não-existente ||
5. Este pensamento desenvolveu-se. Existia em cima? Existia em baixo? Surgiram [então] os lugares de origem; surgiram os poderes. Houve um impulso em baixo; houve outro em cima ||
6. Quem realmente pode saber? Quem na verdade poderá dizer? Houve em dia origem? Deu-se a criação? Os deuses apareceram depois do universo ter sido criado. Quem então sabe de onde surgiu isto tudo? ||
7. Uma vez criação aparecida - talvez se tenha formado por si mesma ou talvez não - aquele que zela por ela, no mais alto dos céus, só ele sabe - ou será que não ||
(in Bhagavad-gita, Ésquilo trad. José Carlos Calazans, p. 286)
março 27, 2014
L. Wittgenstein
2.01231
Para conhecer um objecto tenho de conhecer não as suas propriedades externas mas todas as suas propriedades internas.
2.06
A existência e a não existência de estados de coisas é a realidade.
L. Wittgenstein, Tractatus Logico-Philosophicus
Para conhecer um objecto tenho de conhecer não as suas propriedades externas mas todas as suas propriedades internas.
2.06
A existência e a não existência de estados de coisas é a realidade.
L. Wittgenstein, Tractatus Logico-Philosophicus
março 25, 2014
Al Berto
Os Amigosno regresso encontrei aqueles
que haviam estendido o sedento corpo
sobre infindáveis areias
tinham os gestos lentos das feras amansadas
e o mar iluminava-lhes as máscaras
esculpidas pelo dedo errante da noite
prendiam sóis nos cabelos entrançados
lentamente
moldavam o rosto lívido como um osso
mas estavam vivos quando lhes toquei
depois
a solidão transformou-os de novo em dor
e nenhum quis pernoitar na respiração
do lume
ofereci-lhes mel e ensinei-os a escutar
a flor que murcha no estremecer da luz
levei-os comigo
até onde o perfume insensato de um poema
os transmudou em remota e resignada ausência
Al Berto, in A noite progride puxada à sirga, 1987, Antologia da Poesia Portuguesa do Sec. XII ao Sec. XXI, p. 1901
que haviam estendido o sedento corpo
sobre infindáveis areias
tinham os gestos lentos das feras amansadas
e o mar iluminava-lhes as máscaras
esculpidas pelo dedo errante da noite
prendiam sóis nos cabelos entrançados
lentamente
moldavam o rosto lívido como um osso
mas estavam vivos quando lhes toquei
depois
a solidão transformou-os de novo em dor
e nenhum quis pernoitar na respiração
do lume
ofereci-lhes mel e ensinei-os a escutar
a flor que murcha no estremecer da luz
levei-os comigo
até onde o perfume insensato de um poema
os transmudou em remota e resignada ausência
Al Berto, in A noite progride puxada à sirga, 1987, Antologia da Poesia Portuguesa do Sec. XII ao Sec. XXI, p. 1901
março 24, 2014
Daniel Faria
Labirinto III
No meio do caminho da nossa vida
No meio do poema, havia
Uma pedra onde reclinar a cabeça.
A mulher andava no meio das estradas
Por sobre o mundo tecendo e destecendo
Duas asas que o pai soldava para o filho.
No meio do filho estava o labirinto
E o touro de Ariadne puxado por um fio
Lavrando
No coração de Teseu tão manso
No meio da idade aonde existe
O primeiro sinal do solestício
Daniel Faria (Poesia, 2006, p.68)
No meio do caminho da nossa vida
No meio do poema, havia
Uma pedra onde reclinar a cabeça.
A mulher andava no meio das estradas
Por sobre o mundo tecendo e destecendo
Duas asas que o pai soldava para o filho.
No meio do filho estava o labirinto
E o touro de Ariadne puxado por um fio
Lavrando
No coração de Teseu tão manso
No meio da idade aonde existe
O primeiro sinal do solestício
Daniel Faria (Poesia, 2006, p.68)