maio 15, 2014

acordo no sono em alvorada,
             às mãos do nosso encontro.
creio no eco da tua voz
             em acalentar o estio da noite alta.

somos nós. nós somos em estio.
na noite alta onde somos, nós.

somos no vazio,
            por não podermos ser,
no encontro da voz da noite alta,
            onde ser não podemos.

acordamos no sono,
             em silêncio de alvorada,
             às mãos do nosso encontro.

ambos sabemos da noite.
aconteceu nascermos depois da hora,
no silêncio e no vazio, de fora,
momento exacto do sono feito estio.


maio 11, 2014

Auto-retrato


PLAY James: "Five-O"

Há uns meses atrás escrevi:

A atitude fenomenológica de quem se auto-retata, de quem procura desprender-se de si e entender-se à (na) sua imagem.
A atitude pornográfica de quem, sorrateiramente, fotografa e expõe o momento em que o si se desprende:
- do ser em "corpo e alma" e se assume sob a forma de imagem;
- do que é para passar, também, a ser na imagem que constrói de si.
Mas a imagem é só uma e ilustra apenas um momento. Quantos momentos são necessários para nos definirmos? Quantos momentos deveremos assumir para passarmos a ser? 
O que permite, então, a fenomenologia entender quando reparte em momentos, em auto-retratos momentâneos, o todo? De quantos auto-retratos necessitamos para construir o álbum da nossa vida e torná-lo a expressão do nosso ser, um ser que se quer uno, mesmo após tanta partição?
Quanto desse ser construímos em função desse álbum que vamos compondo? Quanto dele podemos manipular para passarmos a rever-nos na imagem do que queremos ser e parecer?
Do que somos feitos afinal? Do que nascemos e construímos?
Questiono os direitos de autor, do autor dos nossos autoretratos que queremos preservar, da imagem, em si, que queremos manter pura e intocável enquanto nos vamos (re)definindo... como pode esse autor, que somos nós, libertar-se deste labirinto fractal de quem desenha o desenho e se vê e (re)vê nele, em espiral infinita?
(9/01/2014)

Alguns meses depois...

A questão não se prende tanto com o "ser" ou "não ser", mas antes com o "ir sendo" ou "não sendo"!

maio 09, 2014

só se chora à noite, depois da cara lavada.
apenas e só à noite, de cara lavada.
só se chora à noite apenas e só.
sem ninguém para assistir.
e à noite só se chora entre o desmaquilhante e o tónico que antecede o creme hidratante.
apenas e só.
só se chora à noite, no silêncio.
apenas e só depois da cara lavada.

antónio franco alexandre



1.
ligeiramente suspenso pensei: nunca mais
poderei esquecê-lo, as longas, secas
estradas; os passos na água, nus,
e a perfeita esfera dos versos;
o instante em que o céu é redondo e
inútil,
são-me memória deste chãos, deste cuspo
espantado, no silêncio aberto das coisas.

mudo de rosto para ver-te. nenhum deus
te possui. o caule
do vento te cobre.
e descemos a luz, a transparência
os corredores solenes da lembrança
onde dormidas fúrias anoitecem.
confio na muda boca, ó gume fulvo
de ninguém!

as palavras existem no intervalo das palavras.
nenhuma imagem é o permanente futuro dos corpos
quando se enlaçam, quando se sonham
a colina e a água,
a cidade e o rosto
móvel da multidão apaixonada,
que se afasta correndo para o lado da terra
onde jamais arderam.
antónio franco alexandre
Segundas Moradas, 
in Poemas, pp. 299-300

maio 06, 2014

havia uma certa pedagogia que alimentava a ideia de que pensar muito sobre as coisas não só era a atitude correcta, como a que produziria felicidade... dei por mim a fazer uma "construção", um entendimento próprio sobre o amor, ou o conceito de amor... e de que é que isso me serviu? possivelmente para ter mais dificuldade em amar, achava eu que poderia amar melhor se o processo fosse mais consciente. tipo amar menos mas amar melhor.

e a dúvida que resta é se esta mensagem foi, ou não, gerada automaticamente, por um qualquer gerador de Spam.

maio 05, 2014

carregamos a existência todos os dias. todas as semanas, às segunda-feira,  insistimos na dieta. dizemos que hoje é que vai ser diferente. que tudo vai mudar. mas um espírito denso sofre de obesidade mórbida. não há banda gástrica que lhe resolva o excesso de peso.
mesmo assim não acabamos os dias à porta do cemitério. não abandonamos o corpo à espera do dia derradeiro no local mais prático aos donos do nosso cadáver. não desistimos. a internet está cheia de dietas milagrosas. benzemo-nos à Herbalife e à Depuralina... e afinal, daqui a pouco, é segunda-feira e tudo irá ser diferente. 

maio 03, 2014

chovam telhas de xisto em céus cinzentos 
e nasçam pés de sardinheiras rosas nos tectos mais próximos
eu olharei para tudo como se o fizesse pela primeira vez
não estranharei um mundo ao contrário.

profecia

PLAY radiohead · paranoid android

estranhei a ausência. pela primeira vez, em tempos que não sei determinar, mas vários, ele não se cruzou comigo hoje de manhã. será que o cão morreu?

se o cão não se cruzar comigo amanhã, amanhã ou amanhã, não poderei permanecer segura da sanidade que me resta. o mais certo é vir mesmo a enlouquecer, de uma vez.
o cão era louco. um louco mais louco a disfarçar a minha loucura.

a desordem de não me ter cruzado com o cão hoje já produziu efeitos. tudo o que sinto é tédio a correr nas veias. se o cão não se atravessar no meu caminho talvez a vontade seque de uma vez. e nem o Schopenhauer me poderá valer.

o esvoaçar da borboleta irá gerar o caos. eu sei. irei rebolar até secar e deixar de querer. e não mais a lógica da paixão será para o meu alcance, não mais.

se o cão não regressar, se o cão morreu serei desordem que endurece e se eterniza num corpo de vontades sem alma que o decore.

acho que o cão não irá voltar. acho que sequei a vontade. não há loucura que me reanime. não há cão que me acorde.

o cão morreu, e eu com ele, mesmo que o corpo insista em permanecer.


maio 02, 2014

poeiras

porque, às tantas, nem é uma questão de verdade. dessa até sabemos que não existe. quando muito é um problema de validade. de qualquer forma, a questão essencial reside na interpretação e não, propriamente, na existência.  interpretação mais ou menos acérrima. e talvez a dificuldade até nem seja a falta de flexibilidade na aceitação de diferentes interpretações. será tão somente a cegueira ou a teimosia existencial, de várias as partes, que dificultam o dialogo. a doença das pessoas que pensam, sim, a doença das pessoas que pensam muito é uma espécie de cegueira e teimosia existencial. mas talvez eu esteja errada, talvez eu pense demasiado. 

maio 01, 2014

só não revelo os 100tidos porque os desconheço!
não tenho nada de meu, menos ainda, na ordem das centenas.
SEMtidos e COMtidos?
serão!
mas meus?  com certeza que não!

POEMA CONCERTINA
(fole fechado)
poemaconcertina
(abre o fole)
POE M A C O N C E R TINA
(abre o fole mais um pouco)
P  O  E  M  A    C  O  N  C  E  R  T  I  N  A 
(abre o fole mais mais um pouco)
P   O   E   M   A     C   O   N   C   E   R   T   I   N   A  
(vá lá, assim não dá)

POEMA CONCERTINA
(por favor!)
anitrecnoc ameop
( :P nham nham nham nham nham :P)

assim, não há meio de (se) concertar!

PLAY


https://www.youtube.com/watch?v=tw8Ac06BWas
estava capaz de me cansar de ti
só para
           enfim
                     descansar
                                     um pouco

(volto já)

Parece-me que o cão é louco. Só a loucura justifica que atente a vida nas rodas do meu carro todos os dias de manhã, à mesma hora, ou não? O limbo de audácia e medo com que (não) se atenta à vida encerra em si alguma lógica de loucura? Ou porque cão é cão, sem uso de razão, nem a loucura lhe assiste?

Mas se a razão depende de um número de casos tornados regra, talvez sejam os dias a ser loucos e não, propriamente, o cão. Mas certo é que o uso da regra não se afigura evidente neste caso. Não tanto pela evidência, ou pelo caso, mas mais pela regra em si. Pelo significado de r e g r a e tudo o que isso implica. À lógica canina não se aplicam raciocínios dedutivos.

De qualquer forma, a minha alma arraçada a enguia também não ajuda a esta coisa de fazer dos casos lei. O padrão é difícil de encontrar em espíritos esquivos. E isso nada tem a ver com o cão. Já esqueci o cão. Quer dizer, esqueci-o por agora. Todos os dias ele faz questão de me lembrar que existe. Que existe na bravura de ser cão que arrisca a vida nas rodas do meu carro. E ganha, ganha sempre, aquele cão. Por isso não o posso esquecer. Enquanto ele existir posso sempre dizer que ele é louco. Posso sempre esquecer a minha própria loucura. É essa a regra que nos salvaguarda da loucura. Não perder de vista alguém mais louco do que nós. Regra, sim, definida entre o medo e o esquecimento.

abril 21, 2014

são quatro ou cinco juro que não são mais| ou serão tantas que lhes perdi a conta?| noves fora e já se lhe veem o bucho e as tripas por não caber em si de contente|como se o mundo precisasse de lhe conferir as vísceras para saber de que é feita a sua felicidade| poupem-me|__sim é uma metáfora mas não precisava de o dizer pois não?__ |a mim pouco me importa quantas foram é-me igual ao litro ou ao decímetro cúbico|__ para os mais quadrados a medir fluídos__ |de qualquer forma a felicidade não carece de Técnico Oficial de Contas ou de agrimensor que a espartilhe para a medir|por isso não quero saber se foram quatro se mil|dependerá sempre de uma qualquer unidade antropomórfica|__ e por isso não padronizada__| ou seja quatro podem ser mil| e afinal tudo o que de melhor existe é mesmo incomensurável| desde que sei que entre o zero e o uno há um infinito desinteressei-me pela arte de contar| e pode dizer-se que não sou infeliz|

abril 16, 2014

e se procuro a liberdade é porque ela me simplifica

abril 15, 2014


hoje apetecia-me gostar-te de mãos dadas como quem enleia uma réstia de cebolas ao firmamento do ano comum >>>>>>> e percorríamos com elas  >>> as mãos  >>> sem pudor  >>> as mazelas do meu corpo que testemunham o passar dos anos bissextos >>> como eles >>> contávamos de quatro em quatro os beijos pela madrugada fora e quem sabe o que de nós descobriríamos então >>>>>>> entre um salto quântico da nossa saliva e um dedo que não se quer desembaraçar cabe um mundo

abril 08, 2014

podem chamar-lhe realidades
até pode parecer que o são 
chego a suspeitar que realmente existam
por vezes até sinto apalpar a realidade
mas depois
nasce o poema

Al Berto

Vestígios
 
noutros tempos

quando acreditávamos na existência da lua

foi-nos possível escrever poemas e

envenenávamo-nos boca a boca com o vidro moído

pelas salivas proibidas - noutros tempos

os dias corriam com a água e limpavam

os líquenes das imundas máscaras



hoje

nenhuma palavra pode ser escrita

nenhuma sílaba permanece na aridez das pedras

ou se expande pelo corpo estendido

no quarto do zinabre e do álcool - pernoita-se



onde se pode - num vocabulário reduzido e

obcessivo - até que o relâmpago fulmine a língua

e nada mais se consiga ouvir



apesar de tudo

continuamos e repetir os gestos e a beber

a serenidade da seiva - vamos pela febre

dos cedros acima - até que tocamos o místico

arbusto estelar

e

o mistério da luz fustiga-nos os olhos

numa euforia torrencial


Al-Berto
Horto de Incêndio

abril 07, 2014

Daniel Faria

Amarro dois degraus para não subir
Sozinho. Monto no meu cavalo- o meu cavalo
Não vai para minha casa
Medito sobre o rasto que não cabe no meu destino

Na nossa escada era difícil transportar os familiares defuntos

E os familiares enfermos- vê meu pai como me lembro
Como aprendi a amarrar as vergônteas das vides

A minha viagem é mais funda do que os rios

É mais funda a tua mão- vê como me lembro- ela sabe
Onde é que o meu corpo não suporta correntes

Amarro dois degraus para não subir


Daniel Faria (Poesia, Edições Quasi, 2006, p. 319)

abril 02, 2014

E, aliás, é tudo uma questão de colo.

Dos que nasceram sem colo e que por toda a vida o procuram, sem nunca o encontrar. Isto porque há colos grandes por esse mundo, mas nunca suficientemente maiores do que o colo onde não se nasceu. E há dos que nasceram com colo a mais, vivendo na ilusão do colo ser sempre tão grande que os ampara das quedas pela vida fora. E eles amadurecem e o colo fica sem espaço para abrigar a parte que cresce.

Não acho que possam existir colos à medida, são-o sempre em defeito ou em excesso. E por isso o jogo do equilíbrio é tão desenfreadamente mais grave no correr da idade.

A quem falta, um dia a mais de vida é um dia a menos que tem para o encontrar.

A quem excede, um dia a mais de vida é um centímetro de colo a menos porque os colos, desde que nascem, minguam até deixarem de existir, em algum dia, sem aviso.

É tudo uma questão de colo e de alma que, quando amadurece, só sabe endurecer.