e depois é esta urgência inaudita da pele na pele, da minha e da tua, entenda-se. a boa notícia é que o cão não morreu. apareceu meio combalido e à distância, a medo. ele sabe do rubor do encontro após as distâncias. mas seja a vergonha o mal maior. essa pelo menos diz das peles que se encontraram.
|Assim repito o nome e sinto ainda o incêndio no rosto :|| paul celan |Porque é com nomes que alguém sabe | onde estar um corpo| por uma ideia, onde um pensamento | faz a vez da língua.| herberto helder
maio 17, 2014
Rui Nunes
"vieste com sinais de antiga alegria. E vi que não tinhas sido mais do que um trajecto, o percurso onde te transformaras num estrangeiro. Mas o que amei em ti foi a possibilidade de todos os caminhos por onde poderias ter ido e onde sempre te reconheceria. Isso, antes de saber que o meu destino era a realização de uma morte antecipada
e depois? nós temos a consciência de que não somos génios, do assim assim que somos, aborrecemos algumas palavras e delas nos rimos, e dos directores gerais da cultura, seus mansos servidores, e de outros sábios que mijam e cagam como nós, de calças abaixo, sentados nas sanitas, sem espanto de Alexandre, aliás sem nenhum espanto, monocórdicos e graves, que têm no futuro um caixão de primeira e um epitáfio ou um poema em memória de." (pp. 46-47)
"não te podia odiar, e era esse o castigo, porque te tornaras indiferente como lugar nenhum, e o que havia em ti era anterior aos meus olhos, estavas como se ninguém nunca te tivesse olhado, na desatenção dos que não esperam nem concebem quem os espere, perguntava-me o que me tinha levado a construir-te com materiais tão precários e a resposta era a outra pobreza que era a minha" (p.49)
Rui Nunes, "Os Deuses da Antevéspera", 1990
e depois? nós temos a consciência de que não somos génios, do assim assim que somos, aborrecemos algumas palavras e delas nos rimos, e dos directores gerais da cultura, seus mansos servidores, e de outros sábios que mijam e cagam como nós, de calças abaixo, sentados nas sanitas, sem espanto de Alexandre, aliás sem nenhum espanto, monocórdicos e graves, que têm no futuro um caixão de primeira e um epitáfio ou um poema em memória de." (pp. 46-47)
"não te podia odiar, e era esse o castigo, porque te tornaras indiferente como lugar nenhum, e o que havia em ti era anterior aos meus olhos, estavas como se ninguém nunca te tivesse olhado, na desatenção dos que não esperam nem concebem quem os espere, perguntava-me o que me tinha levado a construir-te com materiais tão precários e a resposta era a outra pobreza que era a minha" (p.49)
Rui Nunes, "Os Deuses da Antevéspera", 1990
Rui Nunes
"A boca é um útero estéril, receptáculo onde o futuro se extingue. Vêem os dedos a seda mais quente e os olhos a implosão da curva, arco que torna inúteis as palavras, as desfaz no pranto da saliva, matéria anónima onde nos respiram os outros. E ascendo pelo breve presente furioso, os músculos contraídos, e na tua boca deponho quanto de teu. O duplo aquário repleto de água original.
Dormir, é rápido. Mas a vigília, a grande construtora de idos
deste-me um murro na cara. E assim descobri os meus limites. Com precaução toquei a boca dolorida: era a minha, inchada, palpitante. Sentia-a pela primeira vez. Pediste-me: Bate-me. Respondi-te: não. E deixei-te perdido na recusa. Mas tu voltaste a agredir-me. E a pouco e pouco eu subia à minha integridade, à totalidade do meu ser. Percebia todos os sítios de mim e vivia essa plenitude com alegria
Dormir, é rápido. Mas a vigília, a grande construtora de idos
deste-me um murro na cara. E assim descobri os meus limites. Com precaução toquei a boca dolorida: era a minha, inchada, palpitante. Sentia-a pela primeira vez. Pediste-me: Bate-me. Respondi-te: não. E deixei-te perdido na recusa. Mas tu voltaste a agredir-me. E a pouco e pouco eu subia à minha integridade, à totalidade do meu ser. Percebia todos os sítios de mim e vivia essa plenitude com alegria
no entanto, depressa te apercebeste da minha felicidade e me obrigaste a atravessar o campo.
Se a meu lado me exigem a verdade, eu digo-a, mas o que digo é só a verdade exigida, aquela que é por ordem de quantos me fizeram a consciência e esperam hoje que eu cumpra como me estava reservado." (p.10)
"Recomeço. A vida é um instante dilatado à medida da vida" (p.13)
"Recomeço. A vida é um instante dilatado à medida da vida" (p.13)
Rui Nunes, "Os deuses da antevéspera", 1990
maio 16, 2014
Florbela Espanca
PLAY X - Carminho - Tiago Bettencourt
X
Eu queria mais altas as estrelas,
Mais largo o espaço, o sol mais criador,
Mais refulgente a lua, o mar maior,
Mais cavadas as ondas e mais belas;
Mais amplas, mais rasgadas as janelas
Das almas, mais rosais a abrir em flor,
Mais montanhas, mais asas de condor,
Mais sangue sobre a cruz das caravelas!
E abrir os braços e viver a vida,
— Quanto mais funda e lúgubre a descida
Mais alta é a ladeira que não cansa!
E, acabada a tarefa... em paz, contente,
Um dia adormecer, serenamente,
Como dorme no berço uma criança!
X
Eu queria mais altas as estrelas,
Mais largo o espaço, o sol mais criador,
Mais refulgente a lua, o mar maior,
Mais cavadas as ondas e mais belas;
Mais amplas, mais rasgadas as janelas
Das almas, mais rosais a abrir em flor,
Mais montanhas, mais asas de condor,
Mais sangue sobre a cruz das caravelas!
E abrir os braços e viver a vida,
— Quanto mais funda e lúgubre a descida
Mais alta é a ladeira que não cansa!
E, acabada a tarefa... em paz, contente,
Um dia adormecer, serenamente,
Como dorme no berço uma criança!
maio 15, 2014
acordo no sono em alvorada,
às mãos do nosso encontro.
creio no eco da tua voz
em acalentar o estio da noite alta.
somos nós. nós somos em estio.
na noite alta onde somos, nós.
somos no vazio,
por não podermos ser,
no encontro da voz da noite alta,
onde ser não podemos.
acordamos no sono,
em silêncio de alvorada,
às mãos do nosso encontro.
ambos sabemos da noite.
aconteceu nascermos depois da hora,
no silêncio e no vazio, de fora,
momento exacto do sono feito estio.
às mãos do nosso encontro.
creio no eco da tua voz
em acalentar o estio da noite alta.
somos nós. nós somos em estio.
na noite alta onde somos, nós.
somos no vazio,
por não podermos ser,
no encontro da voz da noite alta,
onde ser não podemos.
acordamos no sono,
em silêncio de alvorada,
às mãos do nosso encontro.
ambos sabemos da noite.
aconteceu nascermos depois da hora,
no silêncio e no vazio, de fora,
momento exacto do sono feito estio.
maio 11, 2014
Auto-retrato
Há uns meses atrás escrevi:
A atitude fenomenológica de quem se auto-retata, de quem procura desprender-se de si e entender-se à (na) sua imagem.
A atitude pornográfica de quem, sorrateiramente, fotografa e expõe o momento em que o si se desprende:
- do ser em "corpo e alma" e se assume sob a forma de imagem;
- do que é para passar, também, a ser na imagem que constrói de si.
Mas a imagem é só uma e ilustra apenas um momento. Quantos momentos são necessários para nos definirmos? Quantos momentos deveremos assumir para passarmos a ser?
O que permite, então, a fenomenologia entender quando reparte em momentos, em auto-retratos momentâneos, o todo? De quantos auto-retratos necessitamos para construir o álbum da nossa vida e torná-lo a expressão do nosso ser, um ser que se quer uno, mesmo após tanta partição?
Quanto desse ser construímos em função desse álbum que vamos compondo? Quanto dele podemos manipular para passarmos a rever-nos na imagem do que queremos ser e parecer?
Do que somos feitos afinal? Do que nascemos e construímos?
Questiono os direitos de autor, do autor dos nossos autoretratos que queremos preservar, da imagem, em si, que queremos manter pura e intocável enquanto nos vamos (re)definindo... como pode esse autor, que somos nós, libertar-se deste labirinto fractal de quem desenha o desenho e se vê e (re)vê nele, em espiral infinita?
(9/01/2014)
Alguns meses depois...
Alguns meses depois...
A questão não se prende tanto com o "ser" ou "não ser", mas antes com o "ir sendo" ou "não sendo"!
maio 09, 2014
só se chora à noite, depois da cara lavada.
apenas e só à noite, de cara lavada.
só se chora à noite apenas e só.
sem ninguém para assistir.
e à noite só se chora entre o desmaquilhante e o tónico que antecede o creme hidratante.
apenas e só.
só se chora à noite, no silêncio.
apenas e só depois da cara lavada.
apenas e só à noite, de cara lavada.
só se chora à noite apenas e só.
sem ninguém para assistir.
e à noite só se chora entre o desmaquilhante e o tónico que antecede o creme hidratante.
apenas e só.
só se chora à noite, no silêncio.
apenas e só depois da cara lavada.
antónio franco alexandre
1.
ligeiramente suspenso pensei: nunca mais
poderei esquecê-lo, as longas, secas
estradas; os passos na água, nus,
e a perfeita esfera dos versos;
o instante em que o céu é redondo e
inútil,
são-me memória deste chãos, deste cuspo
espantado, no silêncio aberto das coisas.
poderei esquecê-lo, as longas, secas
estradas; os passos na água, nus,
e a perfeita esfera dos versos;
o instante em que o céu é redondo e
inútil,
são-me memória deste chãos, deste cuspo
espantado, no silêncio aberto das coisas.
mudo de rosto para ver-te. nenhum deus
te possui. o caule
do vento te cobre.
e descemos a luz, a transparência
os corredores solenes da lembrança
onde dormidas fúrias anoitecem.
confio na muda boca, ó gume fulvo
de ninguém!
as palavras existem no intervalo das palavras.
nenhuma imagem é o permanente futuro dos corpos
quando se enlaçam, quando se sonham
a colina e a água,
a cidade e o rosto
móvel da multidão apaixonada,
que se afasta correndo para o lado da terra
onde jamais arderam.
antónio franco alexandre
Segundas Moradas,
in Poemas, pp. 299-300
maio 06, 2014
havia uma certa pedagogia que alimentava a ideia de que pensar muito sobre as coisas não só era a atitude correcta, como a que produziria felicidade... dei por mim a fazer uma "construção", um entendimento próprio sobre o amor, ou o conceito de amor... e de que é que isso me serviu? possivelmente para ter mais dificuldade em amar, achava eu que poderia amar melhor se o processo fosse mais consciente. tipo amar menos mas amar melhor.
e a dúvida que resta é se esta mensagem foi, ou não, gerada automaticamente, por um qualquer gerador de Spam.
e a dúvida que resta é se esta mensagem foi, ou não, gerada automaticamente, por um qualquer gerador de Spam.
maio 05, 2014
carregamos a existência todos os dias. todas as semanas, às segunda-feira, insistimos na dieta. dizemos que hoje é que vai ser diferente. que tudo vai mudar. mas um espírito denso sofre de obesidade mórbida. não há banda gástrica que lhe resolva o excesso de peso.
mesmo assim não acabamos os dias à porta do cemitério. não abandonamos o corpo à espera do dia derradeiro no local mais prático aos donos do nosso cadáver. não desistimos. a internet está cheia de dietas milagrosas. benzemo-nos à Herbalife e à Depuralina... e afinal, daqui a pouco, é segunda-feira e tudo irá ser diferente.
mesmo assim não acabamos os dias à porta do cemitério. não abandonamos o corpo à espera do dia derradeiro no local mais prático aos donos do nosso cadáver. não desistimos. a internet está cheia de dietas milagrosas. benzemo-nos à Herbalife e à Depuralina... e afinal, daqui a pouco, é segunda-feira e tudo irá ser diferente.
maio 03, 2014
profecia
PLAY radiohead · paranoid android
estranhei a ausência. pela primeira vez, em tempos que não sei determinar, mas vários, ele não se cruzou comigo hoje de manhã. será que o cão morreu?
se o cão não se cruzar comigo amanhã, amanhã ou amanhã, não poderei permanecer segura da sanidade que me resta. o mais certo é vir mesmo a enlouquecer, de uma vez.
o cão era louco. um louco mais louco a disfarçar a minha loucura.
a desordem de não me ter cruzado com o cão hoje já produziu efeitos. tudo o que sinto é tédio a correr nas veias. se o cão não se atravessar no meu caminho talvez a vontade seque de uma vez. e nem o Schopenhauer me poderá valer.
o esvoaçar da borboleta irá gerar o caos. eu sei. irei rebolar até secar e deixar de querer. e não mais a lógica da paixão será para o meu alcance, não mais.
se o cão não regressar, se o cão morreu serei desordem que endurece e se eterniza num corpo de vontades sem alma que o decore.
acho que o cão não irá voltar. acho que sequei a vontade. não há loucura que me reanime. não há cão que me acorde.
o cão morreu, e eu com ele, mesmo que o corpo insista em permanecer.
estranhei a ausência. pela primeira vez, em tempos que não sei determinar, mas vários, ele não se cruzou comigo hoje de manhã. será que o cão morreu?
se o cão não se cruzar comigo amanhã, amanhã ou amanhã, não poderei permanecer segura da sanidade que me resta. o mais certo é vir mesmo a enlouquecer, de uma vez.
o cão era louco. um louco mais louco a disfarçar a minha loucura.
a desordem de não me ter cruzado com o cão hoje já produziu efeitos. tudo o que sinto é tédio a correr nas veias. se o cão não se atravessar no meu caminho talvez a vontade seque de uma vez. e nem o Schopenhauer me poderá valer.
o esvoaçar da borboleta irá gerar o caos. eu sei. irei rebolar até secar e deixar de querer. e não mais a lógica da paixão será para o meu alcance, não mais.
se o cão não regressar, se o cão morreu serei desordem que endurece e se eterniza num corpo de vontades sem alma que o decore.
acho que o cão não irá voltar. acho que sequei a vontade. não há loucura que me reanime. não há cão que me acorde.
o cão morreu, e eu com ele, mesmo que o corpo insista em permanecer.
maio 02, 2014
poeiras
porque, às tantas, nem é uma questão de verdade. dessa até sabemos que não existe. quando muito é um problema de validade. de qualquer forma, a questão essencial reside na interpretação e não, propriamente, na existência. interpretação mais ou menos acérrima. e talvez a dificuldade até nem seja a falta de flexibilidade na aceitação de diferentes interpretações. será tão somente a cegueira ou a teimosia existencial, de várias as partes, que dificultam o dialogo. a doença das pessoas que pensam, sim, a doença das pessoas que pensam muito é uma espécie de cegueira e teimosia existencial. mas talvez eu esteja errada, talvez eu pense demasiado.
maio 01, 2014
POEMA CONCERTINA
(fole fechado)
poemaconcertina
(abre o fole)
POE M A C O N C E R TINA
(abre o fole mais um pouco)
P O E M A C O N C E R T I N A
(abre o fole mais mais um pouco)
P O E M A C O N C E R T I N A
(vá lá, assim não dá)
POEMA CONCERTINA
(por favor!)
anitrecnoc ameop
( :P nham nham nham nham nham :P)
assim, não há meio de (se) concertar!
PLAY
PLAY
https://www.youtube.com/watch?v=tw8Ac06BWas
Parece-me que o cão é louco. Só a loucura justifica que atente a vida nas rodas do meu carro todos os dias de manhã, à mesma hora, ou não? O limbo de audácia e medo com que (não) se atenta à vida encerra em si alguma lógica de loucura? Ou porque cão é cão, sem uso de razão, nem a loucura lhe assiste?
Mas se a razão depende de um número de casos tornados regra, talvez sejam os dias a ser loucos e não, propriamente, o cão. Mas certo é que o uso da regra não se afigura evidente neste caso. Não tanto pela evidência, ou pelo caso, mas mais pela regra em si. Pelo significado de r e g r a e tudo o que isso implica. À lógica canina não se aplicam raciocínios dedutivos.
De qualquer forma, a minha alma arraçada a enguia também não ajuda a esta coisa de fazer dos casos lei. O padrão é difícil de encontrar em espíritos esquivos. E isso nada tem a ver com o cão. Já esqueci o cão. Quer dizer, esqueci-o por agora. Todos os dias ele faz questão de me lembrar que existe. Que existe na bravura de ser cão que arrisca a vida nas rodas do meu carro. E ganha, ganha sempre, aquele cão. Por isso não o posso esquecer. Enquanto ele existir posso sempre dizer que ele é louco. Posso sempre esquecer a minha própria loucura. É essa a regra que nos salvaguarda da loucura. Não perder de vista alguém mais louco do que nós. Regra, sim, definida entre o medo e o esquecimento.
abril 21, 2014
são quatro ou cinco juro que não são mais| ou serão tantas que lhes perdi a conta?| noves fora e já se lhe veem o bucho e as tripas por não caber em si de contente|como se o mundo precisasse de lhe conferir as vísceras para saber de que é feita a sua felicidade| poupem-me|__sim é uma metáfora mas não precisava de o dizer pois não?__ |a mim pouco me importa quantas foram é-me igual ao litro ou ao decímetro cúbico|__ para os mais quadrados a medir fluídos__ |de qualquer forma a felicidade não carece de Técnico Oficial de Contas ou de agrimensor que a espartilhe para a medir|por isso não quero saber se foram quatro se mil|dependerá sempre de uma qualquer unidade antropomórfica|__ e por isso não padronizada__| ou seja quatro podem ser mil| e afinal tudo o que de melhor existe é mesmo incomensurável| desde que sei que entre o zero e o uno há um infinito desinteressei-me pela arte de contar| e pode dizer-se que não sou infeliz|
abril 16, 2014
abril 15, 2014
hoje apetecia-me gostar-te de mãos dadas como quem enleia uma réstia de cebolas ao firmamento do ano comum >>>>>>> e percorríamos com elas >>> as mãos >>> sem pudor >>> as mazelas do meu corpo que testemunham o passar dos anos bissextos >>> como eles >>> contávamos de quatro em quatro os beijos pela madrugada fora e quem sabe o que de nós descobriríamos então >>>>>>> entre um salto quântico da nossa saliva e um dedo que não se quer desembaraçar cabe um mundo