e talvez seja isso mesmo. a felicidade, a existir, quando muito apenas nos assola aquando distraídos. como pensar nela e achar-se feliz? felizes serão os pobres de espírito, como se já não lhes bastasse o reino dos céus.
|Assim repito o nome e sinto ainda o incêndio no rosto :|| paul celan |Porque é com nomes que alguém sabe | onde estar um corpo| por uma ideia, onde um pensamento | faz a vez da língua.| herberto helder
junho 23, 2014
Samuel Beckett
Hamm: A natureza esqueceu-se de nós.
Clov: Já não há natureza.
Hamm; Não há natureza! Que exagero.
Clov: Nos arredores.
Hamm: Mas nós respiramos, mudamos! Cai-nos o cabelo, os dentes! A nossa frescura! Os nossos ideais!
Clov: Então não se esqueceu de nós.
Hamm: Mas tu dizes que não existe.
Clov (tristemente): Nunca ninguém no mundo pensou de uma maneira tão retorcida como nós.
Hamm: Faz-se o que se pode.
Clov: Estamos enganados.
pausa
Hamm: Julgas-te alguém, hã?
Clov: Naturalmente.
_________
Nell: Vou deixar-te.
Nagg: Podes coçar-me primeiro?
_________
Samuel Beckett, Fim de Partida
Clov: Já não há natureza.
Hamm; Não há natureza! Que exagero.
Clov: Nos arredores.
Hamm: Mas nós respiramos, mudamos! Cai-nos o cabelo, os dentes! A nossa frescura! Os nossos ideais!
Clov: Então não se esqueceu de nós.
Hamm: Mas tu dizes que não existe.
Clov (tristemente): Nunca ninguém no mundo pensou de uma maneira tão retorcida como nós.
Hamm: Faz-se o que se pode.
Clov: Estamos enganados.
pausa
Hamm: Julgas-te alguém, hã?
Clov: Naturalmente.
_________
Nell: Vou deixar-te.
Nagg: Podes coçar-me primeiro?
_________
Samuel Beckett, Fim de Partida
junho 21, 2014
Nuno Higino
Desenho sobre o espaço
um lugar sem disfarce:
a elipse do vento, por exemplo.
E aí habito entre paredes brancas
e breves muros lisos.
E saio com o vento
e em suas saias me abandono.
E porque o vento nunca tem regresso
habito com ele o tempo sempre novo
aliso com ele os espaços sempre novos
com ele conquisto distâncias e perigo.
Cada lugar é a minha casa
e a minha casa é sempre nova
branca branca breve lisa.
Nuno Higino, No silêncio da terra, Campo das letras, 2000
um lugar sem disfarce:
a elipse do vento, por exemplo.
E aí habito entre paredes brancas
e breves muros lisos.
E saio com o vento
e em suas saias me abandono.
E porque o vento nunca tem regresso
habito com ele o tempo sempre novo
aliso com ele os espaços sempre novos
com ele conquisto distâncias e perigo.
Cada lugar é a minha casa
e a minha casa é sempre nova
branca branca breve lisa.
Nuno Higino, No silêncio da terra, Campo das letras, 2000
| PLAY Remar Remar Xutos&Pontapés
escolhemos a noite por não haver dia que nasça em silêncio.
e cantamos alto, muito alto,
maiores que o canto das sereias que não nos acolhe, que é chuva no mar.
prostramos nos silêncios, nadamos neles,
e, na inverosímil liberdade do choro,
procuramos a infinita sabedoria, de explodir em matéria de nada.
a noite envolve-nos docemente, por não haver dia que nos queira nascer,
e nós, como o sol que não vem, não somos, nem existimos,
voamos apenas, livremente, noite fora, contra-corrente.
|
Herberto Helder
quem fabrica um peixe fabrica duas ondas, uma que rebenta floralmente branca à direita,
outra à esquerda só com ar lá dentro,
e o ouro íngreme puxando o comêço da noite e o fim do enorme dia onde todos morremos
como filhos escorraçados ou disso a que chamam demónio da analogia,
quem fabrica um poema curto morrerá muito mais tarde,
só depois de estar maduro, quem
baixa a mão para quebrar um sêlo há-de baixá-la
para quebrar os outros, e há-de fechar os olhos,
e de tanto ter visto não poderá nunca mais abri-los:
e cômo pão e bebo água de olhos fechados como se fosse para sempre,
e assim, adeus a quem me vê, que eu morro inteiro para dentro,
e vejo tudo só de entendê-lo
"Servidões" Herberto Helder, 2013
junho 18, 2014
Harold Bloom
"Emmerson e o antigo gnosticismo concordam que aquilo que é melhor e mais antigo em cada um de nós não faz parte da Criação, da Natureza ou do Não-Eu. Cada um de nós, presume-se, é capaz de identificar o que tem de melhor em si, mas como é que encontramos o mais antigo?"
"Penso que é impossível uma definição materialista do génio, e é por isso que a ideia de génio está tão desacreditada numa época como a nossa, onde dominam as ideologias materialistas. O génio invoca necessariamente a transcendência e o extraordinário, porque tem plena consciência deles. A consciência é que define o génio: Shakespeare, como o seu Hamlet, excede-nos em consciência, vai para além do nível mais alto de consciência que acederíamos sem ele."
"A pergunta que precisamos de colocar a qualquer escritor será a seguinte: Ela ou ele aumentam a nossa consciência? E como é que o fazem? Acho que este teste é grosseiro, mas eficaz: para além de me ter divertido a minha percepção intensificou-se? A minha consciência alargou-se e foi esclarecida? Se não, então deparei-me com talento e não com o génio. Aquilo que há de melhor e mais antigo em mim não foi activado"
Harold Bloom, "Génio", 2014 (Tradução do original de 2002)
Harold Bloom
"Há evidências de vacilação entre os que descartam o génio como sendo meramente um fetiche do século XVIII. O pensamento em grupo é a praga da nossa Era da Informação e é ainda mais pernicioso nas nossas instituições académicas obsoletas, cujo longo suicídio continua desde 1967. O estudo da mediocridade, seja qual for a sua origem, gera mediocridade. Thomas Mann, descendente de fabricantes de móveis, profetizou que a sua tetralogia de José perduraria porque era bem-feita. Nós não aceitamos mesas e cadeiras que tenham pernas a cair, independentemente de quem a fez, mas instamos os jovens a estudar textos medíocres, sem pernas que os sustenham" (Prefácio)
"Qual a relação entre o génio recente e a autoridade estabelecida? Neste momento, no início do século XXI, eu diria: "Pois, nenhuma, absolutamente nenhuma." As nossas confusões sobre padrões canónicos para o génio transformaram-se em confusões institucionalizadas, de modo que todos os nossos julgamentos acerca da diferença entre o talento e o génio estão à mercê dos meios de comunicação e obedecem às políticas culturais e aos seus caprichos".
"O génio literário é difícil de definir e depende de uma leitura profunda para a sua verificação. O leitor aprende a identificar-se com o que sente como uma grandeza que se pode juntar ao eu, sem violar a sua integridade. Talvez a "grandeza" esteja fora de moda, tal como o transcendente, mas é difícil continuar a viver sem esperança de um encontro com o extraordinário."
"O desejo mais profundo do nosso eu solitário é a sobrevivência, quer seja no aqui e agora ou transcendentalmente algures. Crescer graças ao génio dos outros é aumentar as possibilidades de sobrevivência pelo menos no presente e no futuro próximo."
Harold Bloom, "Génio", 2014 (Tradução do original de 2002)
"Qual a relação entre o génio recente e a autoridade estabelecida? Neste momento, no início do século XXI, eu diria: "Pois, nenhuma, absolutamente nenhuma." As nossas confusões sobre padrões canónicos para o génio transformaram-se em confusões institucionalizadas, de modo que todos os nossos julgamentos acerca da diferença entre o talento e o génio estão à mercê dos meios de comunicação e obedecem às políticas culturais e aos seus caprichos".
"O génio literário é difícil de definir e depende de uma leitura profunda para a sua verificação. O leitor aprende a identificar-se com o que sente como uma grandeza que se pode juntar ao eu, sem violar a sua integridade. Talvez a "grandeza" esteja fora de moda, tal como o transcendente, mas é difícil continuar a viver sem esperança de um encontro com o extraordinário."
"O desejo mais profundo do nosso eu solitário é a sobrevivência, quer seja no aqui e agora ou transcendentalmente algures. Crescer graças ao génio dos outros é aumentar as possibilidades de sobrevivência pelo menos no presente e no futuro próximo."
Harold Bloom, "Génio", 2014 (Tradução do original de 2002)
Herta Müller
"É uma noite no café, que em plena cidade de se apodera da hora, assim como aqui e ali, como por acaso, uma sombra de dimensões humanas se apodera da sua vida, pondo-lhe fim no rio. Está na cidade um inverno que é lento, senil, que inocula nas pessoas o seu frio. Está ali na cidade um inverno em que até a boca arrefece, em que as mãos, ausentes, o mesmo que agarram deixam cair, porque as pontas dos dedos ficam nas mãos como couro. Está ali na cidade um inverno em que a água nem sequer se resfria em gelo, em que os velhos carregam as vidas passadas como sobretudos. Um inverno em que os novos têm de odiar-se como à infelicidade, quando a suspeita de felicidade lhe sobrevém entre as têmporas. E, contudo, buscam a sua vida, de pupilas nuas. Ronda por ali no rio um inverno onde, em vez de água, só o riso gela. Onde balbuciar é já falar e meia palavra é já um grito. Onde cada pergunta se extingue na garganta e, muda, cada vez mais muda, não pára de bater com a língua contra os dentes." (p. 183)
"Lá fora, quando se ergue o queixo debaixo da árvore e se olha para o alto, a bola verde amolgada na forquilha dos ramos é tão pequena e escura que parece lá em cima a réplica do olho. Passam sobretudos em lugar de pessoas, é novembro que caminha dentro dos sobretudos. Na segunda semana, ele é tão melancólico e velho que já com a manhã chega o entardecer." (p. 188)
Herta Müller, "Já então a raposa era o caçador" (trad. 2012)
"Lá fora, quando se ergue o queixo debaixo da árvore e se olha para o alto, a bola verde amolgada na forquilha dos ramos é tão pequena e escura que parece lá em cima a réplica do olho. Passam sobretudos em lugar de pessoas, é novembro que caminha dentro dos sobretudos. Na segunda semana, ele é tão melancólico e velho que já com a manhã chega o entardecer." (p. 188)
Herta Müller, "Já então a raposa era o caçador" (trad. 2012)
junho 17, 2014
Herta Müller
"O negro no olho do ditador é do tamanho da unha no polegar de Adina, quando o polegar se curva sem nada agarrar. O negro do olho do ditador vê todos os dias o país profundo a partir do jornal." (p. 28)
"À janela da cozinha está a lua, tão inchada que não pode demorar-se mais. Está carcomida pelo alvorecer. São seis horas e a lua passou a noite em claro, ainda tem três dedos amarelos, e um é cinzento e segura-lhe a testa. Os autocarros rumorejam matutinos, ou então é lá em cima na fronteira da noite, onde a lua, quando não está redonda, fica dependurada depois de deixar a cidade. Os cães uivam como se a escuridão tivesse uma enorme pele e o vazio das ruas, no crânio, um cérebro tranquilo. Como de os cães da noite temessem o dia em que a fome que busca se encontra com a fome que vadia, quando as pessoas por eles passam. Quando o bocejo se encontra com o bocejo e, na mesma exalação da boca, a fala com o latido.
Os colãs cheiram a suor de inverno. Adina enfia-os como um sacolejar de comboio sobre as pernas nuas, enfia o casaco comprido sobre a camisa de noite. No casaco pendem ainda os casaquinhos negros do viaduto e os casacões verdes do autocarro. Nos botões do casaco, ainda presente a pequena estação e o negro do olho. No bolso do casaco está ainda dinheiro da viagem e a lanterna de bolso. A chave está em cima da mesa da cozinha. Os sapatos ainda têm colada a porcaria do pátio da caserna. Ela enfia-se nos sapatos." (p. 161-162)
"Adina veste os colãs, as suas pernas não estão dentro dos colãs. E veste o casaco, os seus braços não estão dentro do casaco. Só a camisa de noite lhe sai por baixo do casaco comprido. Adina entala a camisa de noite nos colãs. As chaves, o dinheiro, a lanterna estão no bolso do casaco. Na cozinha, o sol repousa sobre a mesa, debaixo da mesa repousa a porcaria dos sapatos, na parede o relógio faz tiquetaque e escuta-se a si mesmo. E quase meio-dia. Adina enfia-se nos sapatos, os seus dedos dos pés não estão dentro dos sapatos, estão dentro do relógio. Adina sai da cozinha em bicos de pés, antes que os dois ponteiros se encontrem no cocuruto do dia, onde são doze horas. A porta abre-se, a porta bate ao fechar-se.
A respiração de Adina caminha à sua frente, ela estende a mão para a agarrar, já não consegue apanhá-la." (p.166)
Herta Müller, "Já então a raposa era o caçador" (trad. 2012)
"À janela da cozinha está a lua, tão inchada que não pode demorar-se mais. Está carcomida pelo alvorecer. São seis horas e a lua passou a noite em claro, ainda tem três dedos amarelos, e um é cinzento e segura-lhe a testa. Os autocarros rumorejam matutinos, ou então é lá em cima na fronteira da noite, onde a lua, quando não está redonda, fica dependurada depois de deixar a cidade. Os cães uivam como se a escuridão tivesse uma enorme pele e o vazio das ruas, no crânio, um cérebro tranquilo. Como de os cães da noite temessem o dia em que a fome que busca se encontra com a fome que vadia, quando as pessoas por eles passam. Quando o bocejo se encontra com o bocejo e, na mesma exalação da boca, a fala com o latido.
Os colãs cheiram a suor de inverno. Adina enfia-os como um sacolejar de comboio sobre as pernas nuas, enfia o casaco comprido sobre a camisa de noite. No casaco pendem ainda os casaquinhos negros do viaduto e os casacões verdes do autocarro. Nos botões do casaco, ainda presente a pequena estação e o negro do olho. No bolso do casaco está ainda dinheiro da viagem e a lanterna de bolso. A chave está em cima da mesa da cozinha. Os sapatos ainda têm colada a porcaria do pátio da caserna. Ela enfia-se nos sapatos." (p. 161-162)
"Adina veste os colãs, as suas pernas não estão dentro dos colãs. E veste o casaco, os seus braços não estão dentro do casaco. Só a camisa de noite lhe sai por baixo do casaco comprido. Adina entala a camisa de noite nos colãs. As chaves, o dinheiro, a lanterna estão no bolso do casaco. Na cozinha, o sol repousa sobre a mesa, debaixo da mesa repousa a porcaria dos sapatos, na parede o relógio faz tiquetaque e escuta-se a si mesmo. E quase meio-dia. Adina enfia-se nos sapatos, os seus dedos dos pés não estão dentro dos sapatos, estão dentro do relógio. Adina sai da cozinha em bicos de pés, antes que os dois ponteiros se encontrem no cocuruto do dia, onde são doze horas. A porta abre-se, a porta bate ao fechar-se.
A respiração de Adina caminha à sua frente, ela estende a mão para a agarrar, já não consegue apanhá-la." (p.166)
Herta Müller, "Já então a raposa era o caçador" (trad. 2012)
junho 13, 2014
PLAY Jocelyn Pook - Bleeding Soles
a raiz está suspensa. o país desventrado de sentido.
repito. a raiz está suspensa num país sem terra e sem colo.
na míngua de espaço que deixe crescer, são-no assim, sem terra afim. são-no assim em raiz que atrofia a forma pura de ser.
são-no nas cordas do piano por martelar. em som incapaz de ser parido na força do toque. são-no na opacidade do verniz em reflexo impuro.
a raiz está suspensa. as cordas sem terra. o país não vibra. a forma pura de ser esvaziou-se, sem sentido.
são-no assim, sem colo, sem corda, sem som.
são-no em raiz suspensa, sem terra que alimente.
são-no para lá do país, para lá da terra desventrada, onde nem o vazio nem o silêncio se adivinham.
a raiz está suspensa. o país desventrado de sentido.
repito. a raiz está suspensa num país sem terra e sem colo.
na míngua de espaço que deixe crescer, são-no assim, sem terra afim. são-no assim em raiz que atrofia a forma pura de ser.
são-no nas cordas do piano por martelar. em som incapaz de ser parido na força do toque. são-no na opacidade do verniz em reflexo impuro.
a raiz está suspensa. as cordas sem terra. o país não vibra. a forma pura de ser esvaziou-se, sem sentido.
são-no assim, sem colo, sem corda, sem som.
são-no em raiz suspensa, sem terra que alimente.
são-no para lá do país, para lá da terra desventrada, onde nem o vazio nem o silêncio se adivinham.
Herta Müller
"Ao oitavo dia, diz o porteiro, ainda sobrou a Deus, de Adão e Eva, um tufo de cabelo. A partir dele fez as aves. E ao nono dia, perante o vazio do mundo, Deus deu um arroto. A partir dele fez a cerveja."
"São os meses em que as mulheres riem todos os dias à mesma hora. Um riso insonso de inverno, tirado de memória, porque o vapor se mantém cego até à primavera."
Herta Müller, "Já então a raposa era o caçador" (trad. 2012)
"São os meses em que as mulheres riem todos os dias à mesma hora. Um riso insonso de inverno, tirado de memória, porque o vapor se mantém cego até à primavera."
Herta Müller, "Já então a raposa era o caçador" (trad. 2012)
maio 31, 2014
talvez porque enquanto não houver bem que encha nem mal que negue, a sede dos dias seja maior. em cada regresso, a casa parece mais pequena. em cada regresso é cada vez menos casa. não há espelho limpo de existir sem máculas. no espelho a claridade ou a escuridão. na claridade, a fidelidade. na escuridão, a impureza da imagem. na face, o gume dicotómico do ser em objecto. no sorriso, a parte discreta em sujeito. a casa não cresce pelo tamanho do espelho. a casa não enche pela clareza da imagem. não há bem que a encha, nem mal que a negue. e a sede dos dias tem a forma da lua num quarto que nunca o foi.
credo
creio-nos em almas escancaradas
de jangada que toma de assalto as ternuras e delícias que flutuam na desconjuntada periferia do tempo
como se ali estivessem estado sempre,
as ternuras e delícias,
revistas no tempo de sempre
em escassos cinco minutos
(dos nossos)
mas não!
terão passado quatro. ou teriam sido cinco mil?
daquela unidade de tempo maior
medida pela dança da Terra à volta do Sol
[sim, confirmei no Google a definição de um ano
(dos homens)]
o tempo é-nos sempre tão confuso
e a memória comum e a arqueologia dos dias de agora estão guardadas na magia de um clique
talvez à matéria das almas escancaradas não lhe assista factos tão perfeitamente inúteis
mas só podem ter sido quatro, ou teriam sido cinco mil?
unidades de tempo maior, condensadas num minuto
(do nosso encontro)
preciso-nos em almas escancaradas de gigante
sem garantir que o trajeto da nossa luz ao vazio se faça em porções de 1/299792458 de segundo ou em qualquer outra fração
perfeitamente maiores, seremos, pois,
nos passos do nosso encontro
à razão de sermos próximos das coisas que não se tocam,
feitos em pormenores do reflexo das árvores concretas
que flutuam e descansam nas águas do rio
na perfeita liberdade de ser-plano
(à tona do mundo de Edwin Abbott)
creio-nos em almas escancaradas
tão claras e distintas de detalhes
na complexidade que se esbate nas coisas planas e mágicas
em plena liberdade de existência
foge-nos o vício
da morbidez
(da que os homens se habituaram a querer viver)
e escolhemos a matéria etérea e fugaz para existir
em almas escancaradas ao sabor e aroma do perfume das chuvas
esgueiramo-nos, sensíveis, aos toques ímpios na água
(os que dissolvem a magia da revelação)
e somos de tal infinitas maneiras
que só o poema nos poderá eternizar.
sim, creio-nos em poesia!
sim, creio!
PLAY Fausto: O perfume das Chuvas
(Raquel, 1.março.2014)
maio 29, 2014
os assaltos são pela manhã. a frio. antes do banho que aquece o corpo. antes do banho que lava os despojos do assalto no corpo pela manhã. o banho consagra os despojos de corpo quente. os despojos repousam consagrados em templos de Júpiter Ferétrio. e é o intervalo de cinco minutos de avenida que nos espera à porta do templo. não entramos, mas descalçamos os sapatos. aguardamos o intervalo que nos espera de armas consagradas. o corpo arrefece na espera. o intervalo de cinco minutos de avenida não tem fim em tempo de se ver. a melancolia não pode entrar no templo por ser quente. o corpo já está frio. pronto para um novo assalto. calçamos os sapatos. mas entre o intervalo de cinco minutos de avenida e a próxima manhã parece existir mais do que um dia.
Herta Müller
"Aí, as crianças arrancam da terra os talos de erva com caules leitosos e sugam-nos como num jogo. E o que está em jogo é a fome. O crescimento dos pulmões para, o leite das ervas alimenta os dedos emporcalhados, as fiadas de verrugas. Não os dentes de leite, esses caem na mão ao falar. As crianças atiram-nos por cima dos ombros para trás das costas, hoje um, amanhã outro, para o meio da erva. Enquanto voa no ar, gritam:
Rato, rato, traz-me um dente novo,
que eu dou-te o velho.
Só quando o dente se perdeu na erva em parte incerta, eles olham para trás, e chamam-lhe infância.
O rato fica com os dentes de leite e cobre de azulejos brancos os seus corredores por debaixo do prédio. Dentes novos ele não traz." (p.50)
Herta Müller, "Já então a raposa era o caçador" (trad. 2012)
Rato, rato, traz-me um dente novo,
que eu dou-te o velho.
Só quando o dente se perdeu na erva em parte incerta, eles olham para trás, e chamam-lhe infância.
O rato fica com os dentes de leite e cobre de azulejos brancos os seus corredores por debaixo do prédio. Dentes novos ele não traz." (p.50)
Herta Müller, "Já então a raposa era o caçador" (trad. 2012)
"Paul escreveu um papel com a dieta recomendada para um cigano velho que teve alta do hospital. O homem não sabia ler. Paul leu-lhe o que estava escrito no papel. O homem não sabia ler. Paul leu-lhe o que estava escrito no papel. Estava também escrito CARNE DE COELHO. Não posso pegar nesse papel, disse o homem, o senhor é um cavalheiro, tem de me escrever outro papel. Paul riscou CARNE DE COELHO com um só traço, o homem abanou a cabeça. Isso continua aí escrito, o senhor é médico, mas não é cavalheiro. O senhor não compreendeu como dentro de si bate o coração. O coração da terra bate dentro do coelho, meu cavalheiro, é por isso que somos ciganos, por compreendemos, por isso temos de correr mundo" (pp. 39-40)
Herta Müller, "Já então a raposa era o caçador" (trad. 2012)
Herta Müller, "Já então a raposa era o caçador" (trad. 2012)
maio 27, 2014
PLAY Radiohead (Acoustic) Street Spirit
cantamos à boca cheia. ouvimos dizer que a infelicidade se cantada à boca cheia mingua. não entendemos a lógica. afinal não percebemos o quanto não gostamos de ser infelizes. esvaziamos a boca mas cantamos. no canto fingimos que a dor nos aflige. sabemos que nos consola e paramos de cantar, depois. rimo-nos da vida é bela. sabemos do punhado de beleza escondido na escuridão. a escuridão é nossa e o punhado de beleza também. sentimo-nos amaldiçoados pela magia do encontro. de olhos bem fechados e de costas voltadas fazemos figas pelo desencontro. provavelmente não sabemos como amar. sabemos que amar é ser simples. e choramos porque nos rimos, na simplicidade de estarmos e não sabermos o que somos, senão espíritos semi-livres, semi-aprisionados, na mesma borda de estrada. já não cantamos. não cantamos de boca cheia. não cantamos nem de boca vazia, porque não percebemos o quanto não gostamos de ser infelizes. murmuramos sempre em modo acústico, ao vivo, desprotegidos, sem rede, em cada encontro. e de costas voltadas continuamos a fazer figas pelo próximo desencontro.
"All these things we'll one day swallow whole
And fade out again and fade out again
Immerse your soul in love"
Herta Müller
"O oficial despe as calças do uniforme e entrega-as à mulher, ela dobra-as e pendura-as no braço. Ele despe as cuecas e senta-se de pernas escarranchadas por cima da bacia, deixa-as cair sobre os joelhos e fica a olhar para os ladrilhos azuis por cima do espelho. O membro suspenso mergulha na água. Se os testículos se afundam, a mulher diz: está bem. Se os testículos boiam à superfície, ela chora e grita, esvaziaste-os a foder, até as tuas botas estão murchas. O oficial inclina a cabeça, entre os joelhos, observa os testículos a boiar, eu juro, diz ele, ó querida, eu juro." (p. 33-34)
Herta Müller, "Já então a raposa era o caçador" (trad. 2012)
maio 23, 2014
maio 19, 2014
quando nos zangamos é às segundas. segunda é o dia mais a jeito para nos zangarmos. segunda é dia de depurar os excessos do fim de semana. o dia de preparar uma nova semana de excessos e abusos. por isso, quando precisamos, paramos às segundas. rasgamos alguns rascunhos ou, então, passamo-los a limpo. às segundas renovamos ciclos.
se um dia decidirmos não renovar, espero que não o façamos a uma segunda. segunda não é dia de criar ideias novas. segunda é apenas dia de as depurar. de as lipo-aspirar.
hoje é segunda. e hoje choveu. e a mala feita para a semana já me parece mais leve do que ontem.
se um dia decidirmos não renovar, espero que não o façamos a uma segunda. segunda não é dia de criar ideias novas. segunda é apenas dia de as depurar. de as lipo-aspirar.
hoje é segunda. e hoje choveu. e a mala feita para a semana já me parece mais leve do que ontem.