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| © Martine Franck A vida... espiral e logarítmica... que nos devolve o expoente à base da potência que a torna exponencial. |
|Assim repito o nome e sinto ainda o incêndio no rosto :|| paul celan |Porque é com nomes que alguém sabe | onde estar um corpo| por uma ideia, onde um pensamento | faz a vez da língua.| herberto helder
agosto 11, 2014
agosto 04, 2014
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| ©Elliott Erwitt PLAY L'Arpeggiata, Music for a While - Oedipus, King of Thebes
"Music for a while
Shall all your cares beguile.
Wond'ring how your pains were eased
And disdaining to be pleas'd
Till Alecto free the dead
From their eternal bands,
Till the snakes drop from her head,
And the whip from out her hands."
Henry Purcell, John Dryden, Nathaniel Lee
As mães só sabem jogar à cabra cega. E sem venda, ou olhos fechados. De olhos abertos já nada veem. Depois do jogo, calçam luvas para dar colo aos filhos e, quando o esvaziam, colocam-nas a arejar, penduram o cheiro da pele no arame. As mães não tiram as cobras das cabeças dos filhos porque não sabem tocar flauta ou encantar. Na hora do abraço, pesam-no, em gramas, o abraço é caro precisa de ser doseado. As mães marcam a hora das necessidades dos filhos, mas o amor, quando chega, é atrasado. |
agosto 03, 2014
Herta Müller
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| ©Irving Penn |
(...)
Mais tarde, li no caderno de Lola: o que se leva da terra, leva-se no rosto."
Herta Müller
A terra das Ameixas verdes
agosto 02, 2014
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Circle Limit II M.C. Escher1959 Woodcut in red and black, printed from 2 blocks. 378mm x 378mm. |
Adolfo Bioy Casares
Dormir ao Sol
agosto 01, 2014
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| ©Antoine D'Agata |
PLAYTom Waits - Tom Traubert's Blues - 1977 (Waltzig Matilda)
Trocamos a roupa pelo excesso de corpo em peso insuportável.
Distribuímos afectos na medida exacta da retribuição,
na esperança de ficarmos mais leves.
Enquanto aguardamos a data que preenche o espaço,
disfarçamos a incapacidade de amar.
Mas não há mais do que nós, no emaranhado que nos acerca,
de sentidos presos ao corpo.
Não tarda o parêntesis fecha-se com a data,
tão levemente que nem daremos por isso.
A roupa contará uma história,
muito provavelmente inventada,
mas tão verdadeira, tão feita de nós.
Waltzig Matilda música tradicional australiana:
waltzing
derivada da expressão alemã auf der Walz, que define o antigo costume de artesãos de viajar por 3 anos e 1 dia, aprendendo com outros mestres novas técnicas, um costume ainda hoje praticado por carpinteiros.
um termo mais "carinhoso" para a "trouxa" carregada pelo swagman. Supõe-se que à trouxa foi dado um nome de mulher por esta ser a única "companheira" do swagman durante suas longas jornadas.
julho 30, 2014
Herta Müller
"Emudecemos e tornamo-nos desagradáveis, disse Edgar, falamos e tornamo-nos ridículos.
Já estávamos há tempo de mais sentados no chão diante das fotografias. Tinha as pernas dormentes de estar sentada.
Espezinhamos tanto com as palavras na boca como com os pés na erva. Mas com o silêncio também."
Já estávamos há tempo de mais sentados no chão diante das fotografias. Tinha as pernas dormentes de estar sentada.
Espezinhamos tanto com as palavras na boca como com os pés na erva. Mas com o silêncio também."
Herta Müller
Na terra das Ameixas verdes
julho 18, 2014
Albert Camus
"-Já não se deve dizer que Fulano é mau ou feio- afirmava Louise- mas que pretende ser mau ou feio.
A diferença era importante e expunha-se a levar, como notou Rateau, à condenação do género humano. Mas Louise resolveu a dificuldade, provando que o axioma, sendo ao mesmo tempo defendido pelo coração e pelas revistas filosóficas, constituía facto universal e indiscutível.
- Como quiseres - disse Jonas, que depressa esqueceu esta nova descoberta para se entregar todo inteiro à sua estrela."
"Aos amigos juntavam-se às vezes discípulos: Jonas começava a criar escola. A princípio ficara surpreendido, não sabendo o que poderiam lucrar do seu exemplo. Ele que tinha ainda tanto por descobrir! O artista, que laborava no seu ser, tacteava nas trevas, incapaz de ensinar a outrem o caminho. No entanto, compreendeu depressa que um discípulo não é forçosamente alguém que pretende aprender; o mais das vezes, pelo contrário, fazer-se discípulo é sentir o prazer desinteressado de ensinar o mestre. Desde então, pode aceitar, com humildade, aquele acréscimo de honrarias. Os discípulos explicavam-lhe demoradamente o que ele pintara, e porquê. Assim descobriu Jonas nas suas obras muitas intenções que o surpreenderam um pouco, e uma quantidade de coisas que ele não pusera lá. Julgara-se pobre e, graças aos seus alunos, ei-lo rico de repente. Às vezes, perante tantas riquezas até aí desconhecidas, roçava Jonas uma aragem de orgulho.
«Com que então é verdade», dizia com os seus botões. «Aquele rosto, ali no último plano, sobressai como nenhum. Não compreendo bem o que pretendem com isso de humanização indirecta. Todavia, com este esforço, fui bastante longe...»."
"- Que fazes aí Jonas?
- Trabalho.
- Sem luz?
- Sim, por agora.
Não pintava, mas reflectia. Na sombra e naquele meio silêncio (que por comparação com o que conhecera antes, lhe parecia o do deserto ou do túmulo). Jonas escutava o seu próprio coração. Os rumores que o alcançavam dir-se-ia já não lhe respeitarem, se bem que se dirigissem a ele. Jonas era como esses homens que morrem sós, em sua casa, durante o sono, e a quem já não atingem as chamadas telefónicas, insistentes e febris, que retinem durante a manhã seguinte. Ele, porém, vivia, escutava em si mesmo esse silêncio, esperava pela revelação da sua estrela, a qual decerto ia surgir resplandecente sobre a confusão de tantos meses vazios. «Brilha, brilha», implorava Jonas. «Não me prives da tua luz».
A diferença era importante e expunha-se a levar, como notou Rateau, à condenação do género humano. Mas Louise resolveu a dificuldade, provando que o axioma, sendo ao mesmo tempo defendido pelo coração e pelas revistas filosóficas, constituía facto universal e indiscutível.
- Como quiseres - disse Jonas, que depressa esqueceu esta nova descoberta para se entregar todo inteiro à sua estrela."
"Aos amigos juntavam-se às vezes discípulos: Jonas começava a criar escola. A princípio ficara surpreendido, não sabendo o que poderiam lucrar do seu exemplo. Ele que tinha ainda tanto por descobrir! O artista, que laborava no seu ser, tacteava nas trevas, incapaz de ensinar a outrem o caminho. No entanto, compreendeu depressa que um discípulo não é forçosamente alguém que pretende aprender; o mais das vezes, pelo contrário, fazer-se discípulo é sentir o prazer desinteressado de ensinar o mestre. Desde então, pode aceitar, com humildade, aquele acréscimo de honrarias. Os discípulos explicavam-lhe demoradamente o que ele pintara, e porquê. Assim descobriu Jonas nas suas obras muitas intenções que o surpreenderam um pouco, e uma quantidade de coisas que ele não pusera lá. Julgara-se pobre e, graças aos seus alunos, ei-lo rico de repente. Às vezes, perante tantas riquezas até aí desconhecidas, roçava Jonas uma aragem de orgulho.
«Com que então é verdade», dizia com os seus botões. «Aquele rosto, ali no último plano, sobressai como nenhum. Não compreendo bem o que pretendem com isso de humanização indirecta. Todavia, com este esforço, fui bastante longe...»."
"- Que fazes aí Jonas?
- Trabalho.
- Sem luz?
- Sim, por agora.
Não pintava, mas reflectia. Na sombra e naquele meio silêncio (que por comparação com o que conhecera antes, lhe parecia o do deserto ou do túmulo). Jonas escutava o seu próprio coração. Os rumores que o alcançavam dir-se-ia já não lhe respeitarem, se bem que se dirigissem a ele. Jonas era como esses homens que morrem sós, em sua casa, durante o sono, e a quem já não atingem as chamadas telefónicas, insistentes e febris, que retinem durante a manhã seguinte. Ele, porém, vivia, escutava em si mesmo esse silêncio, esperava pela revelação da sua estrela, a qual decerto ia surgir resplandecente sobre a confusão de tantos meses vazios. «Brilha, brilha», implorava Jonas. «Não me prives da tua luz».
O Exílio e o Reino (Jonas)
Albert Camus
PLAY Gong - Flying Teapot
Obstinados em alma gentil aspiramos, em segredo, ao sopro maternal. Expiramos o medo em escassez. Guardamos algum para alimentar a resignação. Negamos a complexidade e mostramo-nos vivos entre erecções e secreções. Abafamos o ímpeto mais vil. Disfarçamos afectos. Recusamo-nos à humanidade. Parecemos ser de máscara gentil em face, entre deuses, máquinas e bestas, até que a ilusão da felicidade nos baste.
Obstinados em alma gentil aspiramos, em segredo, ao sopro maternal. Expiramos o medo em escassez. Guardamos algum para alimentar a resignação. Negamos a complexidade e mostramo-nos vivos entre erecções e secreções. Abafamos o ímpeto mais vil. Disfarçamos afectos. Recusamo-nos à humanidade. Parecemos ser de máscara gentil em face, entre deuses, máquinas e bestas, até que a ilusão da felicidade nos baste.
julho 17, 2014
King Crimson
PLAY Epitaph King Crimson
The wall on which the prophets wroteIs cracking at the seams
Upon the instruments of death
The sunlight brightly gleams
When every man is torn apart
With nightmares and with dreams
Will no one lay the laurel wreath
When silence drowns the screams
Confusion will be my epitaph
As I crawl a cracked and broken path
If we make it we can all sit back
And laugh
But I fear tomorrow I'll be crying
Yes, I fear tomorrow I'll be crying
Between the iron gates of fate
The seeds of time were sown
And watered by the deeds of those
Who know and who are known
Knowledge is a deadly friend
If no one sets the rules
The fate of all mankind I see
Is in the hands of fools
Confusion will be my epitaph
As I crawl a cracked and broken path
If we make it we can all sit back
And laugh
But I fear tomorrow I'll be crying
Yes, I fear tomorrow I'll be crying
Bioy Casares
"Disse para si próprio que imediatamente ao chegar à ilha começaria o estudo. Logo ponderou que estava muito cansado, que não seria capaz de se concentrar, que adormeceria sobre as páginas. O mais ajuizado era pôr o despertador para as três e dormir um soninho - isso sim, bem cómodo no catre - e depois, com a cabeça fresca, empreender a leitura. Melancolicamente, imaginou a campainhada, à hora destemperada. "Também não é caso para desanimar", pensou, "já que na ilha não me restará outro recurso a não ser estudar. Quando me apresentar a exame, estarei feito um campeão."
Da forma do mundo,
Bioy Casares
julho 16, 2014
PLAY Ash Ra Tempel - Reunion (Friendship)
Ao céu puro e à terra limpa respondo com silêncio.
Enterro a palavra, arma que quebra na luta
o sentido para além da meta.
Não me rendo.
Luto apenas sem arma.
E no intervalo areio os dois gumes,
com o grão áspero da não-palavra.
Ao céu puro e à terra limpa respondo com silêncio.
Enterro a palavra, arma que quebra na luta
o sentido para além da meta.
Não me rendo.
Luto apenas sem arma.
E no intervalo areio os dois gumes,
com o grão áspero da não-palavra.
Albert Camus
"Balducci fez o gesto de passar a lâmina no pescoço. O árabe, cuja atenção fora atraída para a conversa, observava-o inquieto, e Daru sentiu uma cólera súbita contra esse homem, contra todos os homens e sua estúpida maldade, contra os seus ódios incansáveis e inextinguível sede de sangue.
Mas a panela chiava no fogão. Tornou a servir Balducci, hesitou, e fez o mesmo com o árabe, que pela segunda vez bebeu avidamente o chá".
Mas a panela chiava no fogão. Tornou a servir Balducci, hesitou, e fez o mesmo com o árabe, que pela segunda vez bebeu avidamente o chá".
O Exílio e o Reino (O hóspede)
Albert Camus
Albert Camus
"O Sol já atingiu metade do céu. Pelas fendas da rocha vejo o buraco que ele faz no metal incandescente do céu, entornando rios de chamas sobre o deserto incolor. No caminho, que se desenrola à minha frente, nada até ao horizonte, nem um grão de pó. Atrás de mim andarão já a procurar-me, ou talvez ainda não, era só de tarde que abriam a porta para eu sair um bocadinho, depois de haver todo o dia arranjado a casa do feitiço, renovando as oferendas. À noite começava a cerimónia. Às vezes batiam-me, outras não, mas eu servia sempre o ídolo, esse ídolo cuja lembrança tenho gravada a fogo, jamais um deus me possuiu tanto. Concedi-lhe os meus dias e as minhas noites. Devi-lhe a dor e a ausência da dor e até o desejo - à força de assistir diariamente àquele acto impessoal e perverso, mas sem o ver, pois tinha de olhar para a parede, sob pena de me espancarem. Mas, com a cara unida ao sal, dominado pelas sombras que se agitavam em volta, eu escutava um grito e, de garganta seca, sentia o desejo queimar-me, um desejo sem sexo que me comprimia as fontes e o ventre. Assim os dias se sucederam aos dias, mal os distinguia uns dos outros, tal como se eles se liquefizessem no calor tórrido da reverberação insidiosa das paredes de sal. O tempo tornara-se uma articulação informe em que rebentavam, com intervalos regulares, os gritos de dor e de posse; tempo sem idade, sobre o qual reinava o feitiço como o sol feroz sobre este abrigo de pedras. E agora, como então, eu deploro a desgraça e o desejo, queimado por uma esperança malévola. Quero atrair, beijo o cano da espingarda e sinto a sua alma lá dentro... a sua alma, porque só as espingardas têm alma... No dia em que me cortaram a língua, aprendi a adorar a alma imortal do ódio!"
O Exílio e o Reino (O renegado ou um espírito confuso)
Albert Camus
julho 01, 2014
Cervantes
"Perguntou se trazia dinheiros. Respondeu-lhe D. Quixote que nem branca, porque nunca tinha lido nas histórias dos cavaleiros andantes que nenhum os tivesse trazido.
A isto disse o estalajadeiro que se enganava; que posto nas histórias se não achasse tal menção, por terem entendido os autores delas não ser necessário especificar uma coisa tão clara e indispensável, como eram o dinheiro e as camisas lavadas, nem por isso acreditar que não trouxessem tal; e assim tivesse por certo e averiguado, que todos os cavaleiros andantes, de que tantos livros andam cheios e rasos, levavam em apetrechadas bolsas para o que desse e viesse, e igualmente levavam camisas, e uma caixinha pequena cheia de ungentos, para se guarecerem das feridas que apanhassem, porque nem sempre se lhes depararia quem os curasse nos campos e desertos onde combatessem, e de onde saíssem escalavrados;"
A isto disse o estalajadeiro que se enganava; que posto nas histórias se não achasse tal menção, por terem entendido os autores delas não ser necessário especificar uma coisa tão clara e indispensável, como eram o dinheiro e as camisas lavadas, nem por isso acreditar que não trouxessem tal; e assim tivesse por certo e averiguado, que todos os cavaleiros andantes, de que tantos livros andam cheios e rasos, levavam em apetrechadas bolsas para o que desse e viesse, e igualmente levavam camisas, e uma caixinha pequena cheia de ungentos, para se guarecerem das feridas que apanhassem, porque nem sempre se lhes depararia quem os curasse nos campos e desertos onde combatessem, e de onde saíssem escalavrados;"
D. Quixote de la Mancha
junho 24, 2014
Isidore Ducasse (Conde de Lautréamont)
"Nem toda a água do mar chegaria para lavar uma nódoa de sangue intelectual."
Poema I
Isidore Ducasse (Conde de Lautréamont)
Poema I
Isidore Ducasse (Conde de Lautréamont)






