... Gente grande segue um sonho e acalenta outros. Gente grande fode com hora marcada e de camisola vestida. Gente grande não mente mas não sabe o que é a verdade. Gente grande não se perde porque tem medo de se encontrar. Gente grande chega ao fim sem pelo meio passar....
|Assim repito o nome e sinto ainda o incêndio no rosto :|| paul celan |Porque é com nomes que alguém sabe | onde estar um corpo| por uma ideia, onde um pensamento | faz a vez da língua.| herberto helder
dezembro 17, 2014
dezembro 16, 2014
PLAY Sérgio Godinho Ser ou não ser
Ser ou não ser gente
ter ou não ter sonhos
mais exactamente
vir
à tona dos sonhos
Ter sempre a certeza das dúvidas
por via das dúvidas saber o que achar
ter ou não ter sonhos
mais exactamente
vir
à tona dos sonhos
Ter sempre a certeza das dúvidas
por via das dúvidas saber o que achar
Dobradores do ferro
sopradores do vidro
na margem do erro ser
claro como o vidro
Ter sempre a destreza da prática
por via da prática saber o que achar
sopradores do vidro
na margem do erro ser
claro como o vidro
Ter sempre a destreza da prática
por via da prática saber o que achar
Ah, morrer, dormir, talvez sonhar
mas então
que outros sonhos virão?
Morrendo, vivendo, dormindo
talvez que sonhando …
mas então
que outros sonhos virão?
Morrendo, vivendo, dormindo
talvez que sonhando …
Ter sempre a certeza da música
por via da música tocar e cantar
Sedutores da musa
amadores da musa
mesmo que difusa
ser
a imagem de alma
Ter sempre a clareza da fábula
por via da fábula saber o que achar
por via da música tocar e cantar
Sedutores da musa
amadores da musa
mesmo que difusa
ser
a imagem de alma
Ter sempre a clareza da fábula
por via da fábula saber o que achar
Dedos semelhantes
às velozes aves
mesmo que distante
ouvir
o chamar das aves
Ter sempre a afoiteza do pássaro
por via do pássaro subir e pousar
às velozes aves
mesmo que distante
ouvir
o chamar das aves
Ter sempre a afoiteza do pássaro
por via do pássaro subir e pousar
Ah, morrer, dormir, talvez sonhar
mas então
que outros sonhos virão?
Morrendo, vivendo, dormindo
talvez sonhando …
mas então
que outros sonhos virão?
Morrendo, vivendo, dormindo
talvez sonhando …
Ter sempre a certeza da música
por via da música tocar e cantar
por via da música tocar e cantar
Gente grande ensina o caminho, de casa para o trabalho, ao carro, ou às pernas, para o poder fazer de olhos fechados. Gente grande serve-se da dor com prato cheio e ainda repete da refeição. Gente grande empresta o corpo a todos menos a si próprio. Gente grande guarda as lágrimas para as horas vagas e disfarça o vermelho dos olhos com conjuntivite....
Roberto Juarroz
| ©raquelsav. MontBlanc |
porque o extremo não é um lugar,
mais além não há espaço
e quem foi até ao extremo
já não pode retroceder.
Ir até ao extremo consiste precisamente
em achar a impossibilidade do regresso.
Ou talvez tão-só
a impossibilidade.
E o impossível não precisa de lugar.
Roberto Juarroz
Poesia Vertical
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| ©Klimt |
(... porque os nossos retratos, na distância dos dias, vão sendo a nossa metafísica mais próxima)
Abraças, de uma vez só, o impossível
E soltas metros e quilómetros de Saber,
Torneados por uma loucura disfarçada:
de rosa;
de azul de mar;
de alegrias que não deixarão de o Ser;
de ingenuidade de "não querer Saber".
Pintas, de branco leve, o choro
Voas, voas alto, muito alto, tão alto
que num fechar de olhos constante,
com que se veste um sono profundo,
inventas mil teorias de Razão;
infinitas filosofias imutáveis;
e um sol de sentidos fecundo.
E a Loucura, louca,
Clepsidra do pensamento,
de sentir o que de não sentido tinha,
Interrompeu a maré cheia de ideias,
E uma vaga vazia de certezas restou.
E o teu abraço, raro,
O impossível, para sempre, abraçou.
Raquel, 2001
dezembro 15, 2014
Jeff Buckley
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| ©Christopher Anderson USA. New York City. February 2008. Zac Posen |
"fall in light, fall in light.
feel no shame for what you are
(...)
leave your office, run past your funeral,
leave your home, car , leave your pulpit.
join us in the streets where we
join us in the streets where we don't belong..
don't belong.
you and the stars throwing light."
dezembro 14, 2014
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| ©Luis Quiles |
PLAY Moby The perfect Life
"Contaram-me que ele tinha uma alegria tão grande que não podia aguentar um copo na mão: quebrava-o com a força dos dedos, com a grande força da sua alegria. Era uma criatura excepcional."
Os Passos Em Volta
Herberto Helder
dezembro 13, 2014
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| ©Josef Koudelka. ISRAEL-PALESTINE. 2009 |
|| a vaidade
a euforia da conquista
a carne consumada
os corpos sós e vazios
o silêncio incómodo
a voz que trazes guardada
o silêncio que quebras
e a vaidade
e a carne consumada
e o silêncio incómodo
e a voz que ouves - sempre a voz-
e o mundo- mais um mundo-
sempre diferente
sempre imenso
sempre igual
sempre vazio
mais um copo
mais um corpo
mais um silêncio incómodo
e a voz que te lembra e que te esquece
e mais uma conquista, e mais uma euforia, e mais um regresso
mais um vazio :||
e a voz que fala dos mundos que não viste
e dos mundos que afinal são teus
e dos que não são
e dos que te fazem ser
e tão diferente
e tão só- tão orgulhosamente só-
e a casa que habitas:
sem paredes
sem tecto
sem chão
e o mundo que não existe senão nos olhos
e o mundo que não é senão um mundo
e peça por peça - o jogo da linguagem-
e a voz que não largas
e o que ela te diz:
de silêncio e de nada
e o abandono e o regresso e a espiral
[de sol&dão]
Manuel Cintra
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| ©Luis Quiles |
dissolver o cansaço na aspirina o açúcar a angústia
a lembrança no sono o tropeço os falhanços, ligar
com cimentos, construir
chorar de vez em quando às escuras para a febre descer
polir palavras com escova colocá-las com pinça
no interior, derramá-las num jarro sem vinho sobre o papel,
deixar secar, recortar, recompor, calar gritos, escrever
sonhar os poemas que não se escreve, escrever os poemas
[que não.
podar as plantas nos filhos, mostrar os frutos, o caroço.
o saco de lixo, a hora de ponta, suor. depois lavar. levar
o peito à rua, receber os outros, perdê-los, trocá-los,
devolver este par de mãos àquele mar, afogar em esforço
a carótida torcida do tempo, parar sempre noutra esquina,
fugir à vertigem com o prazer das alturas, perder,
permanecer sentado até à dor nos ossos, cronometrar paciências,
aprender na lentidão a única saída,
rápida
e envelhecer.
acreditar?
Manuel Cintra, Bicho de Sede, Ulmeiro
Wittgenstein
1 O mundo é tudo o que é o caso.
1.1 O mundo é a totalidade dos factos, não das coisas.
1.11 O mundo é determinado pelos factos e assim por serem todos os factos.
1.12 A totalidade dos factos determina, pois, o que é o caso e também tudo o que não é o caso.
1.13 Os factos no espaço lógico são o mundo
1.2 O mundo decompõe-se em factos.
1.21 Um elemento pode ser o caso ou não ser o caso e tudo o resto permanece idêntico.
2 O que é o caso, o facto, é a existência de estados de coisas.
2.01 O estado das coisas é uma conexão entre objectos (coisas)
2.011 É essencial a uma coisa poder ser parte constituinte de um estado de coisas.
2.012 Em Lógica nada é acidental: se uma coisa pode ocorrer num estado de coisas, então a possibilidade do estado de coisas tem que estar já pré-julgada na coisa.
2.0123 Se conheço um objecto então conheço também todas as possibilidades da sua ocorrência em estados de coisas. (Cada uma destas possibilidades tem de estar na natureza do objecto). Não se pode ulteriormente achar uma nova possibilidade.
2.01231 Para conhecer um objecto tenho de conhecer não as suas propriedades externas mas todas as suas propriedades internas.
2.0124 Dados todos os objectos também são dados todos os possíveis estados de coisas.
2.013 Cada coisa está como que num espaço de possíveis estados de coisas. Posso pensar neste espaço como vazio, mas não posso pensar a coisa sem o espaço.
1.1 O mundo é a totalidade dos factos, não das coisas.
1.11 O mundo é determinado pelos factos e assim por serem todos os factos.
1.12 A totalidade dos factos determina, pois, o que é o caso e também tudo o que não é o caso.
1.13 Os factos no espaço lógico são o mundo
1.2 O mundo decompõe-se em factos.
1.21 Um elemento pode ser o caso ou não ser o caso e tudo o resto permanece idêntico.
2 O que é o caso, o facto, é a existência de estados de coisas.
2.01 O estado das coisas é uma conexão entre objectos (coisas)
2.011 É essencial a uma coisa poder ser parte constituinte de um estado de coisas.
2.012 Em Lógica nada é acidental: se uma coisa pode ocorrer num estado de coisas, então a possibilidade do estado de coisas tem que estar já pré-julgada na coisa.
2.0123 Se conheço um objecto então conheço também todas as possibilidades da sua ocorrência em estados de coisas. (Cada uma destas possibilidades tem de estar na natureza do objecto). Não se pode ulteriormente achar uma nova possibilidade.
2.01231 Para conhecer um objecto tenho de conhecer não as suas propriedades externas mas todas as suas propriedades internas.
2.0124 Dados todos os objectos também são dados todos os possíveis estados de coisas.
2.013 Cada coisa está como que num espaço de possíveis estados de coisas. Posso pensar neste espaço como vazio, mas não posso pensar a coisa sem o espaço.
Tratactus Lógico-Philosophicus
Ludwig Wittgenstein
dezembro 11, 2014
Yorgos Seferis
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| ©Josef Koudelka CZECHOSLOVAKIA. 1963 |
III
Lembra-te dos banhos em que foste afogado
Acordei com esta cabeça de mármore nas mãos
que extenua os meus cotovelos e não sei onde
pousá-la.
Ela tombava no sonho enquanto eu saía do sonho
a nossa vida uniu-se e será muito difícil separar-se
de novo.
Vejo os olhos; nem abertos nem fechados
falo à boca que continuamente procura falar
seguro as maçãs do rosto que ultrapassam a pele.
Já não tenho força;
as minhas mãos perdem-se e aproximam-se de mim
mutiladas.
"Poemas Escolhidos"
Yorgos Seferis
Relógio D'Água
novembro 30, 2014
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| @Martine Franck MOROCCO. Agadir. 1976 |
PLAY JP Simões & Norberto Lobo Canção da Paciência
Muitos sóis e luas irão nascer
Mais ondas na praia rebentar
Já não tem sentido ter ou não ter
Vivo com o meu ódio a mendigar
Tenho muitos anos para sofrer
Mais do que uma vida para andar
Beba o fel amargo até morrer
Já não tenho pena sei esperar
A cobiça é fraca melhor dizer
A vida não presta para sonhar
Minha luz dos olhos que eu vi nascer
Num dia tão breve a clarear
As águas do rio são de correr
Cada vez mais perto sem parar
Sou como o morcego vejo sem ver
Sou como o sossego sei esperar
Wittgenstein
"Este livro será talvez apenas compreendido por alguém que tenha uma vez ele próprio já pensado os pensamentos que são nele expressos- ou pelo menos pensamentos semelhantes. Não é, pois, um livro de texto. O seu fim seria alcançado se desse prazer a quem o lesse compreendendo.
(...). Todo o sentido do livro podia ser resumido nas seguintes palavras: o que é de todo exprimível, é exprimível claramente; e aquilo que não se pode falar, guarda-se em silêncio."
Tratactus Lógico-Philosophicus
Prólogo
Ludwig Wittgenstein
novembro 29, 2014
PLAY Tiago Bettencourt Lugar
Já é noite e o frio
Está em tudo o que se vê
Lá fora ninguém sabe
Que por dentro há vazio
Porque em todos há um espaço
Que por medo não cedeu
Onde a ilusão se esquece
Do que o tempo não previu.
Está em tudo o que se vê
Lá fora ninguém sabe
Que por dentro há vazio
Porque em todos há um espaço
Que por medo não cedeu
Onde a ilusão se esquece
Do que o tempo não previu.
Já é noite e o chão
É mais terra pra nascer
A água vai escorrendo
Entre as mãos a percorrer
Todo o espaço entre a sombra
Entre o espaço que restou
Para refazer a vida
No que o tempo não matou
E onde tudo morre tudo pode renascer
Em ti vejo o tempo que passou
E o sangue que correu
Vejo a força que moveu
Quando tudo parou em ti
A tempestade que não há em ti
Arrastando para o teu lugar
E é em ti que vou ficar
E o sangue que correu
Vejo a força que moveu
Quando tudo parou em ti
A tempestade que não há em ti
Arrastando para o teu lugar
E é em ti que vou ficar
Já é noite e a sombra
Está em tudo o que se vê
Lá fora ninguém sabe
O que a luz pode fazer
Porque a noite foi tão fria
Que não soube acordar
A noite foi tão dura
E difícil de sarar
E onde tudo morre tudo pode renascer
Em ti vejo o tempo que passou
E o sangue que correu
Vejo a força que me deu
Quando tudo parou em ti
A tempestade que não há em ti
Arrastando para o teu lugar
E é em ti que vou ficar.
Porque eu descobri a casa onde posso adormecer
E o sangue que correu
Vejo a força que me deu
Quando tudo parou em ti
A tempestade que não há em ti
Arrastando para o teu lugar
E é em ti que vou ficar.
Porque eu descobri a casa onde posso adormecer
Eu já desvendei o mundo e o tempo de perder
Aqui tudo é mais forte e há mais cor num céu maior
Aqui tudo é tão novo tudo e pode ser amor
Aqui tudo é mais forte e há mais cor num céu maior
Aqui tudo é tão novo tudo e pode ser amor
E onde tudo morre tudo volta a nascer
Em ti vejo o tempo que passou
E o sangue que correu
Vejo a força que me deu
Quando tudo parou em ti
A tempestade que não há em ti
Arrastando para o teu lugar
E é em ti que vou ficar.
E o sangue que correu
Vejo a força que me deu
Quando tudo parou em ti
A tempestade que não há em ti
Arrastando para o teu lugar
E é em ti que vou ficar.
Já é dia e a luz
Está em tudo o que se vê
Cá dentro não se ouve
O que lá fora faz chover
Na cidade que há em ti
Encontrei o meu lugar
E é em ti que vou ficar.
Está em tudo o que se vê
Cá dentro não se ouve
O que lá fora faz chover
Na cidade que há em ti
Encontrei o meu lugar
E é em ti que vou ficar.
©raquelsav
Se o vento não mudar
Vou dar até sentir
Que há uma razão
Para crer que é bem melhor existir
Vou dar até sentir
Que há uma razão
Para crer que é bem melhor existir
Eu sei
Não vejo a luz em mim
Tão pouco em mais alguém
Só quis tocar o céu
Não quero mal a ninguém
Eu sei
Diz-te a canção do medo
Vê-se um dia o tempo não vos traz
Mas perde a noção do tempo
Quando eu amo é sempre devagar
Não vejo a luz em mim
Tão pouco em mais alguém
Só quis tocar o céu
Não quero mal a ninguém
Eu sei
Diz-te a canção do medo
Vê-se um dia o tempo não vos traz
Mas perde a noção do tempo
Quando eu amo é sempre devagar
Não vejo a luz em mim
Tão pouco em mais alguém
Só quis tocar o céu
Não quero mal a ninguém
Eu sei
Diz-te a canção do medo
Vê-se um dia o tempo não vos traz
Mas perde a noção do tempo
Quando eu amo é sempre devagar
Tão pouco em mais alguém
Só quis tocar o céu
Não quero mal a ninguém
Eu sei
Diz-te a canção do medo
Vê-se um dia o tempo não vos traz
Mas perde a noção do tempo
Quando eu amo é sempre devagar
novembro 22, 2014
©raquelsav
Clara brilha a sombra da manhã
que não se ofusca pelos traços do dia.
Viva é a sombra verdadeira
que não vagueia estrangeira, de nós, pela noite
- esse lugar-
que nos espelha
onde vamos sendo distraidamente, apenas e sós,
numa qualquer coisa que se assemelha a nós.
novembro 19, 2014
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| ©Antoine D'Agata |
(...)
Eu que me comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada
Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome
Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão
Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias
De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste
Nem sequer gemeste
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos
Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete
Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto
A suor a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa
Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa
Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão
Sobrancelha em asa
Disse: “fiz serão”
Ao filho e à mulher
Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher
Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada
Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado
Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada
António Lobo Antunes










