|Assim repito o nome e sinto ainda o incêndio no rosto :|| paul celan |Porque é com nomes que alguém sabe | onde estar um corpo| por uma ideia, onde um pensamento | faz a vez da língua.| herberto helder
janeiro 01, 2015
dezembro 31, 2014
![]() |
| Cornell Capa © International Center of Photography PARAGUAY. 1955. Political prisoner. |
PLAY Meredith Monk Travel Dream Song
Trânsito
Mas quanto tempo e quando
ficávamos ali vogando
em brancas nuvens do esquecimento?
Fechávamos os livros
que lêramos ou fizéramos
e as taças que não bebêramos partíamos.
Numa agonia de ecos
os risos se calavam
e sacavam-se os prantos.
E os violinos adormeciam
sobre divãs de flores pálidas e murchas
que surgiam
nos recantos
daquela sala estepe oceano
ou monte anode estávamos
sob uma luz de estrelas moribundas
fatais pulverizando o nosso barro humano.
As dores e as misérias,
sempre guerreiras e instantes,
mesmo quando adormecidas,
despertavam cansadas
e ficavam por terra palpitantes...
Seguíamos, voltávamos, seguíamos
em indomáveis ziguezages lentos,
para nunca chegarmos,
pois chegar
era a absurda ameaça de um vazio
entre dois pensamentos!
Mas quanto tempo e quando?
E cerrando-se no ar,
sempre mais uma vez,
a cegueira das imagens,
o silêncio crepitante da surdez:
-os gritos paralisados da memória
clamando em vão por uma História!
Edmundo de Bettencourt, Poemas de, Assírio&Alvim
PLAY Shubert Piano Trio Es dur D. 929 Op. 100 2nd Movement- Andante com moto
o prelúdio é fugaz
mas quando dói é em ostinato
sem fuga
o prelúdio é fugaz
mas quando dói é em ostinato
sem fuga
dezembro 30, 2014
![]() |
©Josef Koudelka CZECHOSLOVAKIA. Prague. 1960
|
Não basta estender as mãos vazias para o corpo mutilado,
acariciar-lhe os cabelos e dizer: Bom dia, meu Amor.
Parto amanhã.
Não basta depor nos lábios inventados a frescura de um beijo
doce e leve e dizer: Fecharam-nos as portas. Mas espera.
Não basta amar a superfície cómoda, ritual, exacta nos con-
tornos a que a mão se afeiçoa e dizer: A morte é o caminho.
Não basta olhar a Amante como um crime ou uma injúria
e apesar disso murmurar: Somos dois e exigimos.
Não basta encher de sonhos a mala de viagem, colocar-lhe as
etiquetas e afirmar: Procuro o esquecimento.
Não basta escutar, no silêncio da noite, a estranha voz dis-
tante, entre ruídos de música e interferências aladas.
Não basta ser feliz.
Não basta a Primavera.
Não basta a solidão.
Daniel Filipe A invenção do amor e outros poemas
dezembro 29, 2014
![]() |
| ©raquelsav
PLAY Radiohead Street Spirit
Não é caso de mendigar faces e sorrisos só porque não é dia de lembrar à lua o esquecimento do sol. Não são os mares que são grandes, o que não sabemos é navegar. Em cada viagem, torna-se mais nítido o desassossego do passo desconjuntado: acertá-lo, deixá-lo à deriva, mudar de pernas, ...? Despimos o rosto-posto, na hora das indecisões, para as dizimarmos a nu. Desejamos que fosse tudo uma questão de poesia, pois essa não se engole se não for inteira: ou é poesia toda ou é nada. |
dezembro 28, 2014
PLAY Bernardo Sassetti Do silêncio/revelação
porque a saudade escreve-se com reticências... porque a saudade é isto: um apelo sem retorno... porque a única coisa capaz de desvanecer esta saudade é o amor que partilhámos e passou a viver em mim... porque a saudade, é hoje, tão especialmente, tanta mas tanta... porque hoje é domingo e não estou capaz de me encontrar... porque nem a morte consegue dar-me à despedida... porque estou viciada no uso de reticências... e, para me encontrar, preciso de conhecer as regras do ponto final.
porque a saudade escreve-se com reticências... porque a saudade é isto: um apelo sem retorno... porque a única coisa capaz de desvanecer esta saudade é o amor que partilhámos e passou a viver em mim... porque a saudade, é hoje, tão especialmente, tanta mas tanta... porque hoje é domingo e não estou capaz de me encontrar... porque nem a morte consegue dar-me à despedida... porque estou viciada no uso de reticências... e, para me encontrar, preciso de conhecer as regras do ponto final.
"É estranho verificar que em cada crise que atravesso, aparece sempre uma frase incongruente que insiste em vir em meu socorro (é o castigo por se viver numa velha civilização e possuir um caderno onde anoto frases. Esta gota que está a cair nada tem a ver com a minha juventude perdida. A queda desta gota é o tempo adelgaçando-se até formar um ponto. O tempo, esse prado ensolarado em que dança uma luz, o tempo, essa extensão plana como um campo ao meio dia, começa a inclinar-se. Adelgaça-se até formar um único ponto. O tempo escoa-se, como se escoa o líquido para fora do vaso deixando ficar um depósito. Estes são os verdadeiros ciclos, os verdadeiros acontecimentos da minha vida. Pois, como se toda a luminosidade da atmosfera refluísse subitamente como uma vaga, vejo o fundo das coisas tal como ele é. Vejo tudo aquilo que os hábitos recobrem. Preguiçosamente, deixo-me ficar na cama dias inteiros. Janto fora e fico com a boca aberta como um bacalhau. Não me dou ao trabalho de terminar as frases, e os meu actos, em geral muito imprecisos, adquirem uma precisão mecânica. Desta vez, ao passar por uma agência de viagens, entrei e, com gestos de autómato, comprei um bilhete para Roma."
Virginia Woolf, As ondas, Relógio D'Água
"Vou de casa em casa como os monges da Idade Média que distraíam viúvas e donzelas com rosários e baladas. Sou um peregrino, um vendedor ambulante pagando a hospedagem com uma canção, um convidado pouco exigente que facilmente se contenta. Muitas vezes, aceito o melhor quarto e durmo sob um dossel, outras durmo num palheiro. As pulgas não me incomodam e também não me queixo das sedas. Sou muito tolerante. Nada tenho de moralista. Sou demasiado consciente da brevidade da vida e da sua complexidade, para me dedicar a traçar linhas de demarcação a tinta vermelha. E, no entanto, não sou tão desprovido de rigor como vocês pensam, ao julgarem-me pela facilidade com que falo. Escondo na manga um pequeno punhal de desprezo e severidade. Mas é fácil desviarem o golpe. De qualquer coisa faço brincadeiras. Uma rapariga está sentada à entrada de uma cabana. A rapariga espera. Quem espera ela? Terá sido seduzida? O reitor vê um buraco no tapete. Suspira. A sua mulher passando os dedos pelas ondas da cabeleira ainda abundante, reflecte, etc. Mãos que acenam, pessoas que hesitam nas esquinas das ruas, alguém que lança um cigarro na valeta, outras tantas histórias. Mas qual será a verdadeira? Não sei. É por isso que as minhas frases se mantêm suspensas, como as roupas num armário, aguardando que alguém as vista. Ocupado nessa espera, nas minhas meditações, e no meu caderno de notas, vivo desligado da vida. Serei afastado, como se afasta uma abelha do girassol. A minha filosofia acumula-se e espalha-se em todas as direcções como o mercúrio. Mas Louis, o severo Louis de olhos loucos, chegou no seu sótão e no seu escritório a conclusões definitivas sobre a verdadeira natureza do conhecimento."
Virginia Woolf, As ondas, Relógio D'Água
dezembro 27, 2014
![]() |
©Herbert List SWITZERLAND. Lake Lucerne (Lac des Quatre-Cantons). 1936.
|
PLAY Tiago Bettencourt Caminho de Voltar
Há sempre um sítio para fugir,
Se queres saber,
Um sítio onde podes descansar.
Há sempre alguém para te agarrar
E te esconder
Se vais cair
Eu vou te ver
Antes da dança
Antes da fuga
Eu sei te ver
Antes do tempo te mudar eu vou saber
Antes da névoa te despir e te levar
Há um sítio onde o escuro não chegou
Por onde podes ir
Um rio para libertar.
Há sempre alguém para te salvar
Se queres saber
Se queres sentir outro lugar.
Há sempre alguém para te dizer
Se vais cair
Para te travar e adormecer
Antes do dia
Antes da luta
Eu sei te ver
Antes da noite te sarar eu vou saber
Antes da chuva te romper e te lavar
Há um sítio onde a estrada te deixou
Por onde tens que ir
Se te queres libertar.
E tudo o que for por bem,
Tudo o que der razão
Como ponte vai ligar.
Tudo te vai unir
Tudo se faz canção
No caminho de voltar
No caminho de voltar...
Há sempre paz noutro lugar
Entre nuvens
Um sítio onde podes perceber
Que há sempre alguém para te ver
Em segredo
Te descobrir
E renovar
.
dezembro 26, 2014
![]() |
| Escher Auto-retrato |
"O homem é uma síntese de infinito e de finito, de temporal e de eterno, de liberdade e de necessidade, é, em suma, uma síntese. Uma síntese é a relação de dois termos. Sob este ponto de vista, o eu não existe ainda.(...) há duas formas do verdadeiro desespero. Se o nosso eu tivesse sido estabelecido por ele próprio, uma só existiria: não querermos ser nós próprios, querermo-nos desembaraçar do nosso eu, e não poderia existir estoutra: a vontade desesperada de sermos nós próprios."
Sören Kierkegaard O desespero humano, Livraria Tavares Martin, 1979
![]() |
© Herbert List GERMANY. Hamburg. Krochmannstrasse. "Neighbors".
This photograph was taken from the window of List's flat.
|
Não há como medir essa grandeza. No espelho- essa ilusão- somos maiores. Na sua ausência, somos vultos alheios, que não reconhecemos. De olhos bem fechados, somos fragmentos do tamanho do sonho. Não seremos justos enquanto não acordarmos desta insónia.
dezembro 25, 2014
![]() |
| ©Daniel Blaufuks Da solidão, da série "O ofício de viver", 2010 |
"Onde, reduzidos a pequenos chacais, nós nos comemos em riso. Em riso de dor - e livres. O mistério do destino humano é que somos fatais, mas temos a liberdade de cumprir ou não o nosso fatal: de nós depende realizarmos o nosso destino fatal. Enquanto que os seres inumanos, como a barata, realizam o próprio ciclo completo, sem nunca errar porque eles não escolhem. Mas de mim depende eu vir livremente a ser o que fatalmente sou. Sou dona da minha fatalidade e, se eu decidir não cumpri-la, ficarei fora de minha natureza especificamente viva. Mas se eu cumprir meu núcleo neutro e vivo, então, dentro de minha espécie, estarei sendo especificamente humana."
Clarice Lispector, A paixão segundo G.H.
![]() |
| ©Herbert List - GREAT-BRITAIN. London. 1936. Ashtray |
PLAY Ravel Piano Concerto in G
"Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois factos existe um facto, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir- nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e o fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo e aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio."
Clarice Lispector, A paixão segundo G.H.
![]() |
| ©Daniel Blaufuks "Dos dias perdidos", 2014 |
PLAY Bach Mass in B minor - BWV232- Agnus Dei
É por isso que adormeço numa luz em movimento
E escolho um espaço para ver o espaço de frente
A sua cor de silêncio nocturno e desenho
Uma maneira quieta de estar nele tranquilo
Há nesse espaço uma fonte, um animal que desperta
Uma criança que navega com as próprias mãos.
Bebo com as mãos juntas.
Há uma voz que bebo. Há um espaço entre as mãos mas não perco
A sede. A água multiplica-se porque a tiro do coração
Que escuta.
Há um espaço no corpo que pode ser um lugar.
À sombra posso olhá-lo até o ver
Posso tocar as chagas no corpo
E posso beber dele morrendo
Nele como quem entra de tanto
O desejar.
Daniel Faria, Poesia





.%2B1936..jpg)





