janeiro 04, 2015

-(...) a flor está triste.
- a sério? e por que será?
- porque não tem amigas.
@raquelsav. Paris

PLAY Carlos Paredes Mudar de Vida


Carlos Paredes: O voo da guitarra

O mundo
às vezes
é somente
uma ferida sobre
outra ferida - a luminosa
coincidência
duma asa desprendida
e o voo
duma guitarra.

Albano Martins Castália e outros poemas Campo das Letras, 2001

janeiro 03, 2015



o prelúdio é sempre breve
só quando dói é em ostinato, 
sem variação ou fuga possível
©Patrick Zachmann CHILE. June, 1999.
Atacama Desert. Along the Panamerican route n°5 between the towns of Arica and Huara
PLAY Arvo Pärt Salve Regina

fecho os olhos
e amo

de olhos fechados
nada me rouba desse lugar sem tempo
e sou

A grande beleza

fotograma de La Grande Bellezza 
PLAY Górecki Sinfonia Nº3

(filmes que vêm ter connosco e acontecem, inevitável e distraidamente, em nós)

"Termina sempre assim: com a morte. 
Mas primeiro havia a vida. 
Escondida sob o blá, blá, blá, blá. 
Está tudo sedimentado sob o falatório e os rumores. 
O silêncio e o sentimento. A emoção e o medo. 
Os insignificantes, inconstantes lampejos de beleza. 
Depois a miséria desgraçada e o homem miserável. 
Tudo sepultado sob a capa do embaraço de estar no mundo. 
Blá, blá, blá, blá
O outro lado é o outro lado.
Eu não vivo do outro lado.
Portanto que este romance comece.
No fundo é apenas uma ilusão.
Sim, é apenas uma ilusão.”

Do filme A grande Beleza (La grande bellezza) dirigido por Paolo Sorrentino (2013).

janeiro 02, 2015

Chuva

hoje chove muito, muito,
dir-se-ia que estão a lavar o mundo.
o meu vizinho do lado vê a chuva
e pensa em escrever uma carta de amor/
uma carta à mulher com quem vive
e lhe faz a comida e lava a roupa e faz amor com ele
e se parece com a sua sombra/
o meu vizinho nunca diz palavras de amor à mulher/
entra em casa pela janela e não pela porta/
por uma porta entra-se em muitos sítios/
no trabalho, no quartel, na prisão,
em todos os edifícios do mundo/
mas não no mundo/
nem numa mulher/ nem na alma
quer dizer/ nessa caixa ou nave ou chuva que chamamos assim/
como hoje/ que chove muito
e me custa escrever a palavra amor/
porque o amor é uma coisa e a palavra amor é outra coisa/
e só a alma sabe onde as duas se encontram/
e quando/ e como 

mas que pode a alma explicar/

por isso o meu vizinho tem tempestades na boca/
palavras que naufragam/
palavras que não sabem que há sol porque nascem e morrem na 
mesma noite em que ele amou/
e deixam cartas no pensamento que ele nunca escreverá/
como o silêncio que existe entre duas rosas/
ou como eu/ que escrevo palavras para regressar
ao meu vizinho que vê a chuva/
e à chuva/
ao meu coração desterrado



Juan Gelman, No avesso do mundo, Quetzal, 1998
e leva luz como quem rasga o peito
para mostrar o contrário

e pressente
e adivinha:
torna-se instante- antes de ser
história

e do avesso faz direito
respirando tudo o que há por respirar
do mundo-
                e vive
PLAY The Black Angels The Executioner

Abraço o tempo, e leva-me consigo,
assim faz o vento quando te respira
e parece respirar seu próprio sopro.
Consciência corroída da história,
sombra de gente que morreu sonhando,
mentira que te faz julgar que é a vida
e o nada que perpassa ao recordar,
paciência que do tempo é inimiga,
evanescente bafo sobre um espelho cego.
Ó luz, que quando a vemos é já sombra,
dor do ser como ária conhecida.
Olho e não olho, saboreio o silêncio,
reflexo do nada que faz o nada ouvir.

Franco Loi, Memória,  Quetzal Editores, 1993
©Martine Franck.IRELAND. Donegal. Tory Island. 1995

PLAY Depeche Mode Enjoy the Silence

não engolir letras ao que conhecemos só de nome
não negar o nome à coisa
não esclarecer o inominável
subir e descer o indomável

domesticar o silêncio em nós e na coisa:
ser tentativa-erro até que a coisa aconteça em nós.

©Gueorgui Pinkhassov INDIA. Rajasthan. Jaisalmer. 1995

Can you hear me
When I'm trapped behind the mirror?
A doppelgänger roaring
From my silent kind of furor?

If you're quiet, you can hear the monster breathing
Do you hear that gentle tapping?
My ugly creature's freezing

And now's he howling
But I'm muted by the horror
How he's everywhere and waiting
Now he's just around the corner

Paranoia
Backward whispering on my shoulder
Like a wasp is getting nervous
So if I shiver, man, it's over

janeiro 01, 2015

©raquelsav2015

Para que uma só coisa
vibre
na sua presença nua
para além da conjugação dos possíveis 

é preciso que o silêncio a dispa 
e o seu nome seja o seu próprio pudor 

António Ramos Rosa, Antologia Poética 

dezembro 31, 2014

©Luis Quiles

PLAY Snakefinger - Living in Vain
- (...) mas qual é a tua racionalidade?
-  cor de rosa e roxo.
©Cartier-Bresson-Armenia


























PLAY Love A house is not a motel

Erguer apenas o braço que sustenta a vida por inteiro.
Cornell Capa © International Center of Photography PARAGUAY. 1955. Political prisoner.

PLAY Meredith Monk Travel Dream Song

Trânsito
Mas quanto tempo e quando
ficávamos ali vogando
em brancas nuvens do esquecimento?

Fechávamos os livros
que lêramos ou fizéramos
e as taças que não bebêramos partíamos.
Numa agonia de ecos
os risos se calavam
e sacavam-se os prantos.
E os violinos adormeciam
sobre divãs de flores pálidas e murchas
que surgiam
nos recantos
daquela sala estepe oceano
ou monte anode estávamos
sob uma luz de estrelas moribundas
fatais pulverizando o nosso barro humano.

As dores e as misérias,
sempre guerreiras e instantes,
mesmo quando adormecidas,
despertavam cansadas
e ficavam por terra palpitantes...

Seguíamos, voltávamos, seguíamos
em indomáveis ziguezages lentos,
para nunca chegarmos,
pois chegar
era a absurda ameaça de um vazio
entre dois pensamentos!

Mas quanto tempo e quando?

E cerrando-se no ar,
sempre mais uma vez,
a cegueira das imagens,
o silêncio crepitante da surdez:
-os gritos paralisados da memória
clamando em vão por uma História!

Edmundo de Bettencourt, Poemas de, Assírio&Alvim
PLAY Shubert Piano Trio Es dur D. 929 Op. 100 2nd Movement- Andante com moto

o prelúdio é fugaz
mas quando dói é em ostinato
sem fuga

dezembro 30, 2014

©Josef Koudelka CZECHOSLOVAKIA. Prague. 1960
PLAY Daniel Filipe A invenção do amor

Não basta estender as mãos vazias para o corpo mutilado,
acariciar-lhe os cabelos e dizer: Bom dia, meu Amor.
Parto amanhã.

Não basta depor nos lábios inventados a frescura de um beijo
doce e leve e dizer: Fecharam-nos as portas. Mas espera.

Não basta amar a superfície cómoda, ritual, exacta nos con-
tornos a que a mão se afeiçoa e dizer: A morte é o caminho.

Não basta olhar a Amante como um crime ou uma injúria
e apesar disso murmurar: Somos dois e exigimos.
Não basta encher de sonhos a mala de viagem, colocar-lhe as
etiquetas e afirmar: Procuro o esquecimento.

Não basta escutar, no silêncio da noite, a estranha voz dis-
tante, entre ruídos de música e interferências aladas.

Não basta ser feliz.

Não basta a Primavera.

Não basta a solidão.


Daniel Filipe A invenção do amor e outros poemas

dezembro 29, 2014

©raquelsav
PLAY Radiohead Street Spirit

Não é caso de mendigar faces e sorrisos só porque não é dia de lembrar à lua o esquecimento do sol. Não são os mares que são grandes, o que não sabemos é navegar. Em cada viagem, torna-se mais nítido o desassossego do passo desconjuntado: acertá-lo, deixá-lo à deriva, mudar de pernas, ...? Despimos o rosto-posto, na hora das indecisões, para as dizimarmos a nu. Desejamos que fosse tudo uma questão de poesia, pois essa não se engole se não for inteira: ou é poesia toda ou é nada.

dezembro 28, 2014

- o que é estar triste?
- é frio.
- achas que estou triste?
- não, eu gosto de ti.
PLAY Bernardo Sassetti Do silêncio/revelação

porque a saudade escreve-se com reticências... porque a saudade é isto: um apelo sem retorno... porque a única coisa capaz de desvanecer esta saudade é o amor que partilhámos e passou a viver em mim... porque a saudade, é hoje, tão especialmente, tanta mas tanta... porque hoje é domingo e não estou capaz de me encontrar... porque nem a morte consegue dar-me à despedida... porque estou viciada no uso de reticências... e, para me encontrar, preciso de conhecer as regras do ponto final.