janeiro 15, 2015

Hoje chove como eu
cada um chove como pode: em morte lenta.

janeiro 14, 2015

I
Onde habite o esquecimento,
Nos vastos jardins sem madrugada;
Onde eu seja somente
Lembrança de uma pedra sepultada entre urtigas
Sobre a qual o vento foge à sua insónia.

Onde o meu nome deixe
O corpo que ele aponta entre os braços dos séculos,
Onde o desejo não exista.

Nessa grande região onde o mar, anjo terrível,
Não esconda como espada
Sua asa em meu peito,
Sorrindo cheio de graça etérea enquanto cresce a dor

Além onde termine este anseio que exige um dono à sua imagem,

Submetendo a sua vida a outra vida
Sem mais horizonte que outros olhos frente a frente.

Onde dores e alegrias não sejam mais que nomes,
Céu e terra nativos em redor de uma lembrança;
Onde ao fim fique livre sem eu mesmo o saber,
Dissolvido em névoa, ausência,
Ausência leve como carne de uma criança.

Além, além, longe;
Onde habite o esquecimento.

Luis Cernuda Antologia Poética Edições Cotovia, 1990
Fosse tudo uma questão de navalha:
essa afia-se e leva-se ao corte-
firme sem vacilar - e
a cada um o seu quinhão.
Mas a loucura não se divide a meio,
nem se faz sã, de caminho ao dono,
a loucura prende-se às pernas e anda,
faz-se coisa de amar - que a navalha não corta.

Fosse tudo uma questão de liberdade:
essa fia-se e eleva-se à vida
sem hora nem regresso
e sempre só.

MANDO O SONHO ATRAVÉS DO CRIVO VIBRANTE,
tu apanha-lo em pratos
da alma
e junta-lo à refeição
que nós, os que ajoelham um dentro do outro,
temos de
desprezar.

Paul Celan, A morte é uma flor, Edições Cotovia, 1998
cansa(&)aço
eis pois aqui e agora
a ausência
o vazio
o fim
o princípio
a espiral
a depuração
a não palavra: (des)ponte

próximo
vicinal

e
eu
caminho

eis pois
uma vez mais

desmedo

eis pois aqui e agora
o vento
e eu
e só
vou


janeiro 13, 2015

(em)quanto vivo o nome
para lá do vento
o sopro da metamorfose
(de larva a pupa) 

SOrriso -> SEMriso
PARA LONGE

Mudez, outra vez, espaçosa, uma casa -:
vem, deves habitar.

Horas, bem escalonadas por maldição: alcançável
o refúgio.

Nunca tão cortante o ar que restou: deves respirar,
respirar e ser tu.


Paul Celan, Não Sabemos mesmo O Que Importa,  
Relógio D'Água, 2014
@raquelsav

enquanto bastar, e só,
na sombra
o limite incauto

o vento e a água
sem fermento
tendem na farinha
o sonho ázimo

duas cores e uma luz para o intervalo:
assim se preservam
as coisas que não existem

que podemos nós
saber delas?

que podemos nós,
nós nelas?


DIANTE DE TEU ROSTO TARDIO
so-
litário entre
noites que também me transformam,
algo que outrora já entre nós estivera,
se instalou, in-
tocado por pensamentos.


Paul Celan, Não Sabemos mesmo O Que Importa,  
Relógio D'Água, 2014

janeiro 11, 2015

PELO INSONHADO corroída,
a terra do pão insonemente percorrida atira
o monte da vida ao ar.

Da sua migalha
amassas de novo nossos nomes, 
que eu, um olho
semelhante 
ao teu em cada dedo,
tacteio em busca
de um ponto, pelo qual
possa despertar para ti, 
a luzente
vela da fome na boca.

Paul Celan, Não Sabemos mesmo O Que Importa,  
Relógio D'Água, 2014
A PALAVRA DE IR-A-PIQUE
que lemos.
Os anos, as palavras desde então.
Ainda o somos.

Sabes, o espaço é infinito,
sabes, não precisas de voar,
sabes, o que em teu olho se gravou
aprofunda-nos a profundeza.


Paul Celan, Não Sabemos mesmo O Que Importa,  
Relógio D'Água, 2014

janeiro 10, 2015

#1

"Deus é um pobre diabo"
TODOS-OS-SANTOS

Que fiz
eu?
Inseminei a noite, como se outras
pudessem vir, mais nocturnas que
esta.

Voo de ave, voo de pedra, mil
trajectórias descritas. Olhares,
pilhados e colhidos. O mar,
provado, sorvido, absorto. Uma hora,
obscurecida de almas. A seguinte, uma luz outonal,
ofertada a um sentimento
cego, que tomou o caminho. Outras, muitas,
sem lugar e pesadas de si mesmas: avistadas e contornadas.
Rochas erráticas, estrelas,
negras e plenas de linguagem: nomeadas
por jura de silêncio rasgado.

E certa vez (quando? também isto se esqueceu):
o pulso sentiu o gancho,
quando ousava desprender-se.


Paul Celan, Não Sabemos mesmo O Que Importa,  
Relógio D'Água, 2014

janeiro 09, 2015

©raquelsav. Ponte das três entradas
PLAY Wim Martens -Gerausch

ESTAR, à sombra
da chaga no ar.

Estar-para-ninguém-e-nada.
Incógnito,
só 
para ti.

Com tudo o que nisso tem lugar,
também sem
linguagem.

Paul Celan, Não Sabemos mesmo O Que Importa,  
Relógio D'Água, 2014

janeiro 04, 2015

-(...) a flor está triste.
- a sério? e por que será?
- porque não tem amigas.
@raquelsav. Paris

PLAY Carlos Paredes Mudar de Vida


Carlos Paredes: O voo da guitarra

O mundo
às vezes
é somente
uma ferida sobre
outra ferida - a luminosa
coincidência
duma asa desprendida
e o voo
duma guitarra.

Albano Martins Castália e outros poemas Campo das Letras, 2001

janeiro 03, 2015



o prelúdio é sempre breve
só quando dói é em ostinato, 
sem variação ou fuga possível
©Patrick Zachmann CHILE. June, 1999.
Atacama Desert. Along the Panamerican route n°5 between the towns of Arica and Huara
PLAY Arvo Pärt Salve Regina

fecho os olhos
e amo

de olhos fechados
nada me rouba desse lugar sem tempo
e sou

A grande beleza

fotograma de La Grande Bellezza 
PLAY Górecki Sinfonia Nº3

(filmes que vêm ter connosco e acontecem, inevitável e distraidamente, em nós)

"Termina sempre assim: com a morte. 
Mas primeiro havia a vida. 
Escondida sob o blá, blá, blá, blá. 
Está tudo sedimentado sob o falatório e os rumores. 
O silêncio e o sentimento. A emoção e o medo. 
Os insignificantes, inconstantes lampejos de beleza. 
Depois a miséria desgraçada e o homem miserável. 
Tudo sepultado sob a capa do embaraço de estar no mundo. 
Blá, blá, blá, blá
O outro lado é o outro lado.
Eu não vivo do outro lado.
Portanto que este romance comece.
No fundo é apenas uma ilusão.
Sim, é apenas uma ilusão.”

Do filme A grande Beleza (La grande bellezza) dirigido por Paolo Sorrentino (2013).