Talvez quando inaugurares um lugar saibas do que falo. Até lá, podes sempre fechar os olhos e fingir que dormes e mergulhar em dor menor. Podes sempre ler, distraída, folhetos de publicidade pela manhã, com o olhar de que quem lê a mais autêntica lição de vida- aquela que irás pôr em prática depois de almoço. Tu sabes daquela pitada apensa a qualquer frase motivacional que te alegra os dias. E amanhã, na manhã, na tarde e na noite que se fundem num só tempo- continua a ser-te indiferente se ris ou choras. A medida da emoção é sempre a mesma, a expressão idêntica à que fizeste ontem enquanto fazias tantas outras coisas- inúteis aos teus olhos, e dos outros, como quem respira. Mas tu só sabes inspirar, e reténs todo o ar da vida em ti, com medo que não chegue para amanhã. Sim, esse hoje onde todos os períodos do dia se fundem em denominador comum. Expira, por favor, expira e sê, de uma vez por todas ou, então, desiste e não desperdices o ar que gastas- esse ao menos sempre é útil para fazer uma árvore crescer.
|Assim repito o nome e sinto ainda o incêndio no rosto :|| paul celan |Porque é com nomes que alguém sabe | onde estar um corpo| por uma ideia, onde um pensamento | faz a vez da língua.| herberto helder
janeiro 16, 2015
PLAY Portishead Wandering Star
Por mais é saber que existe e desconfiar que nada de mais sublime nos poderá assaltar. E depois fugimos, resvalamos, inventamos, cegamos, enganamo(-no)s, cansamo(-no)s, matamo(-no)s e ensaiamos despedidas bem antes de morrermos, só porque sabemos que existe, e que não temos como reinventar o nada.
Roads
Ohh, can't anybody see
We've got a war to fight?
Never found our way?
Regardless of what they say
How can it feel, this wrong?
From this moment
How can it feel, this wrong?
Storm... In the morning light
I feel
No more can I say
Frozen to myself
I got nobody on my side
And surely that ain't right
And surely that ain't right
Ohh, can't anybody see
We've got a war to fight?
Never found our way?
Regardless of what they say
PLAY Portishead Roads
©raquelsav. Versailles
"Com as palavras todo o cuidado é pouco, têm um ar inofensivo, as palavras, de forma alguma um ar perigoso, antes de aragem leve, de suaves sons de boca nem quentes nem frios e facilmente captados se nos chegam pelo ouvido, pelo enorme tédio cerebral cinzento e mole. Não desconfiamos delas, das palavras, e a desgraça acontece.
Palavras há que se escondem entre as outras como calhaus. Nada de especial as distingue, mas no entanto aí estão elas a fazer tremer toda a vida que temos, inteira, no auge e no declínio... Então é o pânico.... Uma derrocada... Por lá ficamos como enforcados, acima das emoções... Foi uma tempestade o que chegou, o que passou, demasiado forte para nós, tão violenta que nunca a julgaríamos possível só com sentimentos..... Com palavras todo o cuidado é pouco, concluo eu."
"A viagem é a procura desse nada de nada, dessa pequena vertigem para lorpas..."
Louis-Ferdinand Céline Viagem ao fim da noite, Ulisseia, 2010
[um livro ou uma espécie de tratado, um manual de (não) sobrevivência...]
Palavras há que se escondem entre as outras como calhaus. Nada de especial as distingue, mas no entanto aí estão elas a fazer tremer toda a vida que temos, inteira, no auge e no declínio... Então é o pânico.... Uma derrocada... Por lá ficamos como enforcados, acima das emoções... Foi uma tempestade o que chegou, o que passou, demasiado forte para nós, tão violenta que nunca a julgaríamos possível só com sentimentos..... Com palavras todo o cuidado é pouco, concluo eu."
"A viagem é a procura desse nada de nada, dessa pequena vertigem para lorpas..."
Louis-Ferdinand Céline Viagem ao fim da noite, Ulisseia, 2010
[um livro ou uma espécie de tratado, um manual de (não) sobrevivência...]
janeiro 15, 2015
aqui estou eu entre demónios e paredes lisas
António Franco Alexandre, Poemas, Assírio & Alvim, 1996
solicitando certificados bulas para viver melhor à sexta-feira
vale-me não ser ninguém: faziam-me a vida negra
assim basta o cinzento fato completo silencioso em lugar para os olhos
levantar cedo ver passar os carros
estar certo que o que digo já foi dito e selado
agora não me resta poesia alguns dias mais oscilando a cabeça
fazendo que sim
dá vontade de fugir vomitando tudo em volta mas o preço é preciso
se ao menos inventasse a cura do ar podia secar tranquilamente
agora espero pelo meio do escuro para gritar errei! errei! desmanchando o
[cabelo
nada disto é a minha vida!
para que ninguém ouça nas coloridas salas do inferno terceira repartição
onde somos, mas todos, contínuos de comer por fora
Melhor seria ter ficado de lado entregue à simplicidade dos caminhos
sabendo que em nenhum lugar está a minha parte
Ao atravessar as ruas há outros como eu
a jeito para enfiar uma navalha ao fim da tarde
Aqueles para quem o mundo ia ser outro de mãos lavadas
e ficou tudo igual com mais ausentes à mistura
Um dia destes dou baixa dos infernos por motivo de cegueira interna
ou mando-me de um sítio alto
depois não sei se voltarei feito demónio de província
ou ficarei eterno como um exemplo a não seguir
António Franco Alexandre, Poemas, Assírio & Alvim, 1996
janeiro 14, 2015
I
Onde habite o esquecimento,
Nos vastos jardins sem madrugada;
Onde eu seja somente
Lembrança de uma pedra sepultada entre urtigas
Sobre a qual o vento foge à sua insónia.
Onde o meu nome deixe
O corpo que ele aponta entre os braços dos séculos,
Onde o desejo não exista.
Nessa grande região onde o mar, anjo terrível,
Não esconda como espada
Sua asa em meu peito,
Sorrindo cheio de graça etérea enquanto cresce a dor
Além onde termine este anseio que exige um dono à sua imagem,
Submetendo a sua vida a outra vida
Sem mais horizonte que outros olhos frente a frente.
Onde dores e alegrias não sejam mais que nomes,
Céu e terra nativos em redor de uma lembrança;
Onde ao fim fique livre sem eu mesmo o saber,
Dissolvido em névoa, ausência,
Ausência leve como carne de uma criança.
Além, além, longe;
Onde habite o esquecimento.
Luis Cernuda Antologia Poética Edições Cotovia, 1990
Onde habite o esquecimento,
Nos vastos jardins sem madrugada;
Onde eu seja somente
Lembrança de uma pedra sepultada entre urtigas
Sobre a qual o vento foge à sua insónia.
Onde o meu nome deixe
O corpo que ele aponta entre os braços dos séculos,
Onde o desejo não exista.
Nessa grande região onde o mar, anjo terrível,
Não esconda como espada
Sua asa em meu peito,
Sorrindo cheio de graça etérea enquanto cresce a dor
Além onde termine este anseio que exige um dono à sua imagem,
Submetendo a sua vida a outra vida
Sem mais horizonte que outros olhos frente a frente.
Onde dores e alegrias não sejam mais que nomes,
Céu e terra nativos em redor de uma lembrança;
Onde ao fim fique livre sem eu mesmo o saber,
Dissolvido em névoa, ausência,
Ausência leve como carne de uma criança.
Além, além, longe;
Onde habite o esquecimento.
Luis Cernuda Antologia Poética Edições Cotovia, 1990
Fosse tudo uma questão de navalha:
essa afia-se e leva-se ao corte-
firme sem vacilar - e
a cada um o seu quinhão.
Mas a loucura não se divide a meio,
nem se faz sã, de caminho ao dono,
a loucura prende-se às pernas e anda,
faz-se coisa de amar - que a navalha não corta.
Fosse tudo uma questão de liberdade:
essa fia-se e eleva-se à vida
sem hora nem regresso
e sempre só.
essa afia-se e leva-se ao corte-
firme sem vacilar - e
a cada um o seu quinhão.
Mas a loucura não se divide a meio,
nem se faz sã, de caminho ao dono,
a loucura prende-se às pernas e anda,
faz-se coisa de amar - que a navalha não corta.
Fosse tudo uma questão de liberdade:
essa fia-se e eleva-se à vida
sem hora nem regresso
e sempre só.
janeiro 13, 2015
janeiro 11, 2015
PELO INSONHADO corroída,
a terra do pão insonemente percorrida atira
o monte da vida ao ar.
Da sua migalha
amassas de novo nossos nomes,
que eu, um olho
semelhante
ao teu em cada dedo,
tacteio em busca
de um ponto, pelo qual
possa despertar para ti,
a luzente
vela da fome na boca.
Paul Celan, Não Sabemos mesmo O Que Importa,
a terra do pão insonemente percorrida atira
o monte da vida ao ar.
Da sua migalha
amassas de novo nossos nomes,
que eu, um olho
semelhante
ao teu em cada dedo,
tacteio em busca
de um ponto, pelo qual
possa despertar para ti,
a luzente
vela da fome na boca.
Paul Celan, Não Sabemos mesmo O Que Importa,
Relógio D'Água, 2014
janeiro 10, 2015
TODOS-OS-SANTOS
Que fiz
eu?
Inseminei a noite, como se outras
pudessem vir, mais nocturnas que
esta.
Voo de ave, voo de pedra, mil
trajectórias descritas. Olhares,
pilhados e colhidos. O mar,
provado, sorvido, absorto. Uma hora,
obscurecida de almas. A seguinte, uma luz outonal,
ofertada a um sentimento
cego, que tomou o caminho. Outras, muitas,
sem lugar e pesadas de si mesmas: avistadas e contornadas.
Rochas erráticas, estrelas,
negras e plenas de linguagem: nomeadas
por jura de silêncio rasgado.
E certa vez (quando? também isto se esqueceu):
o pulso sentiu o gancho,
quando ousava desprender-se.
Que fiz
eu?
Inseminei a noite, como se outras
pudessem vir, mais nocturnas que
esta.
Voo de ave, voo de pedra, mil
trajectórias descritas. Olhares,
pilhados e colhidos. O mar,
provado, sorvido, absorto. Uma hora,
obscurecida de almas. A seguinte, uma luz outonal,
ofertada a um sentimento
cego, que tomou o caminho. Outras, muitas,
sem lugar e pesadas de si mesmas: avistadas e contornadas.
Rochas erráticas, estrelas,
negras e plenas de linguagem: nomeadas
por jura de silêncio rasgado.
E certa vez (quando? também isto se esqueceu):
o pulso sentiu o gancho,
quando ousava desprender-se.
Paul Celan, Não Sabemos mesmo O Que Importa,
Relógio D'Água, 2014
janeiro 09, 2015
![]() |
| ©raquelsav. Ponte das três entradas |
ESTAR, à sombra
da chaga no ar.
Estar-para-ninguém-e-nada.
Incógnito,só
para ti.
Com tudo o que nisso tem lugar,
também sem
linguagem.
Paul Celan, Não Sabemos mesmo O Que Importa,
Relógio D'Água, 2014

