fevereiro 20, 2015

©raquelsav. Paris- Notre Dame

Seremos, então, aprendizes em matéria de lavar rostos. Mas não deixamos de buscar futuros que durem mais do que amanhã. Damos forma e argumento a um corpo que temos mas que ainda não o é. Debitamos, debitamos, falamos, falamos, porque gostamos de nos ouvir. A vaidade insegura-nos e substitui-nos no tanto que nos falta para ser.

*"Pérotin (fl. c. 1200), also called Perotin the Great, was a European composer, believed to be French, who lived around the end of the 12th and beginning of the 13th century. He was the most famous member of the Notre Dame school of polyphony and the ars antiqua style."
©Ferdinando Scianna. ITALY, Milan- Calla
"Oh Deusa, tu és impecável: e, quando eu escorregue num tapete estendido, ou me estale uma correia da sandália, não te posso gritar, como os homens mortais gritam às esposas mortais: - Foi culpa tua, mulher! – erguendo, em frente à lareira, um alarido cruel! Por isso sofrerei, num espírito paciente, todos os males com que os Deuses me assaltem no sombrio mar, para voltar a uma humana Penélope, que eu mande, e console, e repreenda, e acuse, e contrarie, e ensine, e humilhe, e deslumbre, e por isso ame dum amor que constantemente se alimenta desses modos ondeantes, como o lume se nutre dos ventos contrários! 
(...)
- Quantos males te esperam, ó desgraçado! Antes ficasses, para toda a imortalidade, na minha Ilha perfeita, entre os meus braços perfeitos…
Ulisses recuou, com um brado magnífico:
- Oh Deusa, o irreparável e supremo mal está na tua perfeição!
E, através da vaga, fugiu, trepou sofregamente à jangada, soltou a vela, fendeu o mar, partiu para os trabalhos, para as tormentas, para as misérias – para a delícia das coisas imperfeitas!”


Eça de Queirós, Contos (A Perfeição). Porto Editora

fevereiro 17, 2015

O rosto da voz




ALLERSEELEN

(TODOS-OS-SANTOS)

Que fiz
eu?
Inseminei a noite, como se outras
pudessem vir, mais nocturnas que
esta.

Voo de ave, voo de pedra, mil
trajectórias descritas. Olhares,
pilhados e colhidos. O mar,
provado, sorvido, absorto. Uma hora,
obscurecida de almas. A seguinte, uma luz outonal,
ofertada a um sentimento
cego, que tomou o caminho. Outras, muitas,
sem lugar e pesadas de si mesmas: avistadas e contornadas.
Rochas erráticas, estrelas,
negras e plenas de linguagem: nomeadas
por jura de silêncio rasgado.

E certa vez (quando? também isto de esqueceu):
o pulso sentiu o gancho,
quando ousava desprender-se.

Paul Celan, Não Sabemos mesmo O Que importa, Relógio D'Água, 2014
©Inge Morath
The Inge Morath Foundation.  New York City. 1957.
A Llama in Times Square

why?...the first pop music

PLAY Diamanda Galás Gloomy Sunday

fotograma ©Luis Buñuel Un chien Andalou (1929)
PLAY
Luís Buñuel Un chien Andalou (1929)
©Erich Hartmann 1979. USA. New York City. 1979.Shadows meeting on stairway

   
    "O Sr. Teste não tinha opiniões. Julgo que se apaixonava como queria, e para atingir determinado fim. O que fizera da sua personalidade? Ele próprio como se via?... Nunca ria, no seu rosto nunca havia um ar de infortúnio. Tinha ódio à melancolia.
       Falava e a gente sentia-se na ideia dele, confundida com as coisas: a gente sentia-se remota, misturada com as casas, as amplidões do espaço, o colorido buliçoso da rua, as esquinas... E as palavras mais destramente tocantes- as que põem mais perto de nós o seu autor do que outro homem qualquer, fazem crer que a eterna parede entre os espíritos cai- podiam acudir-lhe... Sabia admiravelmente que eram capazes de impressionar qualquer outro. Falava e verificava-se que um grande número de palavras eram banidas do seu discurso, sem no entanto podermos precisar os motivos nem a amplitude dessa proscrição. As que usava eram às vezes tão curiosamente apoiadas pela sua voz, ou iluminadas pela sua frase, que ficavam de peso alterado, de valor novo. Às vezes perdiam todo o sentido, só pareciam encher espaço vazio cujo destinatário termo ainda duvidoso ou não previsto pela língua. Ouvi-o designar um objecto material com um grupo de palavras abstractas e substantivos próprios.
      Ao que ele dizia não havia nenhuma resposta a dar. Matava todos os assentimentos corteses. A conversa era prolongada aos saltos que lhe não causavam espanto."

A noite com o Sr. Teste
Paul Valéry, O Senhor Teste, Relógio D'Água, 1985

fevereiro 16, 2015

"Margarida — Muitas vezes me digo: sei o que é ser português. Tenho a impressão de que reconheço um português em qualquer lado. Mas tenho muitas dúvidas. Será que sei? Onde ancoro a minha identidade é nessa coisa da procura.

Margarida — A consciência de não pertença sempre me perseguiu. E uma certa nostalgia. Comecei a ter uma consciência forte disso, não exactamente nos temas dos filmes, mas na posição em que estou a olhar para as coisas. Sentindo-me sempre um pouco de fora. Nos documentários e na ficção. Na ficção, sem querer, os personagens que crio são todos assim. São pessoas que andam à procura de alguma coisa. Ou que estão completamente perdidos num território. Muitas vezes rejeitados por um território interior e exterior. Acabam todos, também, por ter um lado etéreo. Não consigo dar uma consistência muito realista aos personagens — porque não me interessa.

Margarida — O filme é trespassado por essa ideia da não-comunicação, da dificuldade de os vários mundos se encontrarem. Isso passa-se entre os negros e os brancos, entre a mãe e a filha. Há uma enorme incompreensão e uma dificuldade em juntar coisas que não se podem juntar. Há coisas que nasceram de um tal absurdo que não se podem juntar. Nem vale a pena lutar. Não se vai reparar o que é irreparável.

(...)como é que se vive no absurdo, no absurdo que resulta do absurdo?
Margarida — É difícil, mas acho que todos vivemos assim. Temos sempre perguntas a que não conseguimos responder. A única coisa é que conseguimos disfarçar. Arranjar um outro invólucro.


(...)

No meio de tudo o que corre mal, há o milagre. 
O milagre de termos vontade de viver o dia seguinte, de nos encantarmos.
Margarida — Há uma certa luz no fim do filme. Disseram-me que é deprimente 

acabar um filme com uma cena em que enterram uma piscina.
É uma piscina de um hotel que dizem estar assombrada. Então, 
cobrem-na de areia.
Margarida — É uma forma de enterrar simbolicamente o passado.
Beatriz — Esse é que é o grande milagre. Fazer um “Querido, mudei a piscina”, tapar 
pequenos buracos, a plástica, é a grande mentira. O final do filme é muito mais redentor
 por ser tão honesto. Na vida tapamos, escondemos os nossos tiros. Os tiros da parede da 
piscina, os nossos buracos, feridas. E vivemos com aquilo. Ou reinventamos aquele espaço 
para ser outra coisa. [Enterrar a piscina] é reinventar aquele espaço para ser outra coisa. 
Não é fingir que não aconteceu nada. É ao contrário. É reconhecer que aquele sítio não 
pode voltar a ser o que era.
Margarida — É a mesma coisa que ter a coragem de deitar abaixo o que já não nos serve. 
Mas há um pormenor: o último plano do filme é a actriz sul-africana, a Susan, a dizer-te adeus.
Beatriz — É um modo de dizer: até à vista. É a violência, a crueldade de constatar que aconteça 
o que acontecer, de facto, a vida continua. E esta violência, num filme da Margarida, é dita 
como se não fosse nada.
Margarida — A mãe continua a ver televisão [depois da conversa mais difícil que têm].
Beatriz — Vê televisão. Não desvia os olhos. Esta subtileza, esta forma de violência...
É uma violência surda.
Margarida — Só me interesso por isso. Só consigo interessar-me por esse eco.
Beatriz — É a Margarida a dizer-nos: caia o mundo, conte aqui a história mais desgraçada, 
e a vida segue. No filme, a Margarida desafia o tempo de um modo que a vida não permite — 
na extensão do luto. Os vários lutos. O luto da filha, o luto da nação, o luto da infância...
Margarida — O luto de não pertencer.
Beatriz — Desafia a vida — para que ela pare.
(...)

Margarida — O que se passa numa relação mãe-filha... Nenhuma mãe faz nada bem, tudo bem.
Beatriz — Os filhos querem que elas sejam mães e as mães querem continuar a ser pessoas.
As mães são mais do que mães: são pessoas.
Margarida — Esta relação funciona como uma metáfora das questões relacionais.
Nunca se consegue preencher aquilo que os outros querem. É impossível!
E tem de se viver com isso.
(...)
Margarida — É a sobrevivência. O que o Sérgio diz: “Sabes que quando a Yvone morreu,
eu atravessava um vale. E ia tão focado na minha sobrevivência que não senti um sinal,
nada que me indicasse que ela estava a morrer. A vida é muito estranha, não é?”
O que é estranho é que todos vivemos com esta magia da vida, com aquilo que é criado
pelo amor, pela amizade, mas no momento em que o outro desaparece... Essa ilusão
[de proximidade, de sentirmos o outro dentro de nós] não existe. Estamos fechados dentro
de nós e não vamos sentir nenhum sinal. Mas não quer dizer que não seja isso que nos faz viver.
Beatriz — Perguntava se o amadurecimento corresponde à aceitação do desencanto. Acho que
 não. O amadurecimento é perceber que não somos omnipotentes e que os verdadeiros heróis
 são aqueles que não são mitificados. São aqueles que são heróis e amados por serem como
são. Uma coisa é mitificar as pessoas, outra é aceitar a vida como ela é. Absurda. Sem lógica.
 Não ficcionada."
http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/falar-de-um-filme-para-falar-da-vida-1686008

fevereiro 15, 2015

©raquelsav
PLAY Nick Cave & the Bad Seeds - Into my arms

A despedida ou o interior de uma janela infantil.

PLAY Debussy Arabesque

com a palavra apago a tua face, ou afasto-a
palavra a palavra até ser estranho
o som deste resíduo

redescubro-te num lugar exposto ao desencontro
na luz retecida pelo vento

Rui Nunes, Ofício de Vésperas,  Relógio D'Água, 2007

fevereiro 14, 2015

PLAY Patti Smith Gloria

ABANDONADOS

Abandonados
os espaços em que chegam as respostas, quando
as paredes desabam e desfiladeiros, das árvores
voam as sombras, quando se abandona
a erva debaixo dos pés,
solas brancas pisam o vento - 

a sarça chameja,
ouço-lhe a voz,
onde não havia perguntas águas
passam, mas eu não tenho sede.

Johannes Bobrowski, Sinais de Tempo in Como um Respirar- Antologia poética, Edições Cotovia, 1990
PLAY Tindersticks A Night In 

A NOMEAR, SEMPRE

A nomear, sempre:
a árvore, o pássaro em voo,
o rochedo avermelhado por onde passa
o rio, verde, e o peixe
no fundo branco, quando desce a noite 
sobre as florestas.

Sinais, cores, é 

um jogo, receio
que o resultado possa ser in-
justo.

E quem me ensina 

o que esqueci? - O sono
das pedras, o sono
dos pássaros em voo, o sono
das árvores, a sua fala
anda pelo escuro - 

Houvesse aí um deus

e incarnado,
e que me pudesse chamar, eu andaria
por aí, eu esperaria
um pouco.

Johannes Bobrowski Terra de Sombras. Rios in Como um Respirar- Antologia poética, Edições Cotovia, 1990
A PALAVRA HOMEM

A palavra Homem, como vocábulo
no lugar que é o seu
no dicionário de Morais:
entre hombridade e homenagem.

A cidade
velha e nova,
muito animada, com árvores
também
e carros, aqui

ouço a palavra, o vocábulo
ouço-o muitas vezes aqui, podia
dizer em que bocas, podia começar 
a contá-las.

Onde não há amor
não pronuncies essa palavra.

Johannes Bobrowski Sinais de tempo in Como um Respirar- Antologia poética, Edições Cotovia, 1990

#1 Livrário

São Os passos em Volta do Ofício de Viver, em Busca do Tempo Perdido, puzzles de sete ou mais actos. É a corrida pela Utopia, uma espécie de construção entre O Exílio e o Reino, quando mais não atingimos que uma Morte a Crédito, um cativeiro de Servidões. E nesta Viagem ao Fim da Noite carregamos um nome que não sabemos cumprir, O Inominável nome em pele de desconhecido ou d' O Estrangeiro que vagueia de abismo em abismo perante A Queda iminente. É errante a Metamorfose em que eclodimos, mas quem sabe se, num qualquer Outono Transfigurado, nos transformemos em Bom Aprendiz e as nossAs Flores do Mal floresçam vibrantes numa tentativa de Morte aos Feios quistos superficiais que não morrem mas matam. Sim, A Morte é como uma Flor e a vida é mais Como um Respirar dessa flor, mas nada mudará, e a Previsão de Tempo para Utopia e Arredores é de chuva intensa e permanente, porque a verdade é que Não sabemos mesmo O Que Importa.
©Christopher Anderson VENEZUELA. Caracas. 2006.
Reflection in window in Altamira
AS DANÇAS DA NOITE

Um sorriso caiu na relva.
Irrecuperavelmente!

E como irão perder-se
As tuas danças nocturnas. Na matemática?

Tão puros saltos e espirais-
Certamente viajam

Eternamente pelo mundo, não hei-de ficar 
Despida de belezas, o dom

Do pequeno sopro, o cheiro
A terra molhada, lírios, lírios.

A sua carne não aguenta aproximações.
Frios vincos de um ego, o narciso,

E o tigre que se embeleza a si próprio-
Sinais e uma chuva de pétalas de fogo.

Os cometas
Têm um espaço tão grande a atravessar

Tanta frieza, esquecimento,
Assim se esfumam teus gestos -

Calorosos e humanos, depois a sua luz rosa
A sangrar e a pelar

Entre as negras amnésias do céu.
Por que me dão

Estas luzes, estes planetas
Caindo como bênçãos, como línguas de luz

De seis pontas, brancas
Nos meus olhos, lábios, cabelo

Ao tocarem desfazem-se.
Em lugar nenhum.

Sylvia Plath, Ariel,  Relógio D'Água, 1996

fevereiro 10, 2015

PLAY Ayud Ogada, Kothbiro

"Por que hei-de amar o que amo? Odiar o que odeio? 
A quem não apetece derrubar a mesa dos seus desejos e dos seus ascos? Mudar o sentido dos seus movimentos instintivos?
Como é possível que ao mesmo tempo eu seja ponteiro de imã e corpo indiferente?"


Extractos do Log-Book do Senhor Teste
Paul Valéry, O Senhor Teste, Relógio D'Água, 1985

fevereiro 09, 2015

©raquelsav. Tomar
PLAY Mercedes Sosa Gracias a la vida

Procuro o lento cimo da transformação 
Um som intenso. O vento na árvore fechada 
A árvore parada que não vem ao meu encontro. 
Chamo-a com assobios, convoco os pássaros 
E amo a lenta floração dos bandos. 
Procuro o cimo de um voo, um planalto 
Muito extenso. E amo tanto 
A árvore que abre a flor em silêncio.
Daniel Faria, Poesia, Quasi, 2006


@raquelsav
PLAY Rafael Toral Liberte (Touch)

Procuro um todo que me liberte dessa massa de incontinência insana que me assalta informe. Só vale uma liberdade escrita em verso branco e que entre poema adentro, num adensar de pintura dos dias raros. Procuro e nado, como nada o tempo musical no traço do pincel. Procuro e fundo-me, em queda livre, e livro o tempo de cair profusamente esparso num acaso. Parto e paro de parir porque o tempo não conta, se for a contar. Porque o poema não vale, se for a valer. Porque a liberdade não se agarra, se for de agarrar. Se me é próximo não me é acessível.

Procuro e fujo, como quem foge e deixa fugir, para agarrar de longe, para lá do poema e para além da pintura. Sei da força que me ateia ao sorvê-la num só trago. Renascerei, por isso,  inteira num baptismo de retorno infinito e natal mas, sem a dor de ver o mundo debaixo- não há novamente no talhar do cordão umbilical.

fevereiro 08, 2015

©Martine.Franck


PLAY
 
La espiral eterna played by Leo Brouwer


E UM SORRISO

A noite nunca acaba
Há sempre pois que o digo
Pois que o afirmo
No extremo da mágoa uma janela aberta
Uma janela iluminada
Há sempre um sonho de guarda
Um desejo a cumular
Fome a satisfazer
Um coração generoso
Uma mão estendida uma mão aberta
Uns olhos atentos
Uma vida a se repartir a vida.

Paul Éluard Últimos Poemas de Amor,  Relógio d'Água, 2002
©Daniel Blaufuks
PLAY Linda Martini Lição de Voo N.º1
Eu sei que não porque sim e, no entanto, cansa-me a transpiração de permanecer. Sei o que vejo quando as nuvens se movem em fuga motora e arrastam esta tontura de pés fixos. Mais não serei que a incerteza aberta à máscara que se me emplastra à cara. E o rosto está feito nisto: um conjunto de músculos presos de olhar de cima, em sorriso viciado e mecânico. Seria mais justo deixar cair as máscaras, ou admiti-las singular, afinal, e descer do palco em expressão definitiva e una. Mas eis, então, perante ele- o rosto - o que apresentaria ele nu? Uma tontura? Um devaneio? Uma ilusão? Rostos nus são nuvens em fuga-  perfeitas e inalcançáveis as formas. Longe, será sempre longe, a medida da distância entre rostos nus que se reconhecem. Efémero será o tempo que mede o encontro das nuvens em metamorfose. Mas o cansaço nasce, mesmo, na transpiração de permanecer em céu limpo.

fevereiro 01, 2015

©Erich Lessing
The Austrian conductor Herbert von KARAJAN inspecting a new jet trainer built by the Pilatus works near Lucerne. The conductor is a passionate pilot. SWITZERLAND. Lucerne. 1957
PLAY Dvořák: Symphony No. 9 "From The New World" / Herbert von Karajan (cond.)