fevereiro 26, 2015

[#2] Estou a escrever-te de um país distante

©Josef Koudelka.USA. California. 2000.
Death Valley National Park
     "Ao andarmos pelo campo, confia-lhe ela ainda, pode acontecer que se encontrem formidáveis massas no caminho. São montanhas e cedo ou tarde é preciso cair de joelhos. De nada vale resistir, não se poderia avançar mais, mesmo decididas a magoar-nos.
     Não digo para ferir. Na verdade, quisesse eu ferir e outras coisas podia dizer."

Henri Michaux, Estou a escrever-te de um país distante, Hiena Editora, 1986
(tradução de Aníbal Fernandes)

fevereiro 25, 2015

© Josef Koudelka. ROMANIA. A country cemetery. 1994

"Nunca me decepcionaram, as inscrições, há sempre três ou quatro tão engraçadas que tenho de me agarrar à cruz, ou à estela, ou ao anjo, para não cair. Compus a minha há muito tempo e continuo a estar contente, bastante contente com ela. Os meus outros escritos aborrecem-me, mal tiveram tempo de secar, mas o meu epitáfio continua a agradar-me.  Exemplifica um problema de gramática. Por má sorte, poucas probabilidades terá de algum dia subir mais alto do que o crânio que o concebeu, a não ser que o Estado se encarregue disso. Mas para me exumarem terei de ser encontrado, e muito receio que o Estado sinta tanta dificuldade em encontrar-me morto como vivo. Por isso me apresso a consigná-lo, antes que seja demasiado tarde:

Aqui jaz quem já fugia tanto
Como agora de jazer foge entretanto"

Samuel Beckett, Primeiro Amor, Hiena Editora, 1994 

[#1] Estou a escrever-te de um país distante

©Henri Cartier-Bresson.INDIA. Kashmir. Srinagar. 1948.
Muslim women on the slopes of Hari Parbal Hill, praying toward the sun rising behind the Himalayas
   
  "Só temos aqui, diz ela, um sol por mês, e por pouco tempo. Dias antes já se esfregam os olhos. Mas em vão. Tempo inexorável. Só quando lhe dá o sol aparece.
     Depois tem-se um mundo de coisas a fazer, enquanto há claridade, e de tal forma que sobra pouco tempo para se reparar em nós.
     O que nos contraria é ter de trabalhar à noite, e trabalhamos: há sempre anões a nascer".

Henri Michaux, Estou a escrever-te de um país distante, Hiena Editora, 1986
(tradução de Aníbal Fernandes)
  ©Larry Towell -San Salvador. 1986. 

PLAY Portishead Roads
E depois não nascemos somente se paridos e envoltos em matéria uterina. Mas tantas vezes nascemos sem termos lugar para ser. Acreditamos, por vezes até à morte, que existem ondes a que achamos pertencer, os mesmos que não sabemos como fazer nossos. Por isso somos tão sem lugar. Somos assim, pontes entre nenhures. Talvez por isso nos habituemos a dores de ausência de lugar- aquelas que já não doem de tanto doer.

fevereiro 22, 2015

@Mark Freedom

inspira, expira
inspira, expira
inspira, expira
inspira, expira
aspira
inspira, expira
inspira, expira
inspira, expira
inspira, expira
aspira
inspira, expira
inspira, expira
inspira, expira
inspira, expira
aspira


fevereiro 20, 2015

Entre-Paulo's (Senhores e Santos)

   "Aquilo que me faz é o que a mim próprio trago desconhecido.
     Sou realmente o que tenho de inábil e de incerto.
     Minha fraqueza, minha fragilidade...
     A minha base de partida são as lacunas. A impotência que tenho está na minha origem.
     A minha força está em vós. Movimento-me da fraqueza à força que possuo."
Extractos do Log-Book do Senhor Teste
Paul Valéry, O Senhor Teste, Relógio D'Água, 1985


"... quando sou fraco, então é que sou forte."
S. Paulo, 2ª Carta aos Coríntios, 12
Bíblia Sagrada, Edições São Paulo, 1996
Quarta-Feira de Cinzas

Quero sair
    depois da noite
e purificar
    as minhas mãos e os meu lábios
quero purificar-me
     ao sol
e nas ervas...

     Mas está a chover
e as minhas ervas
     são castanhas
e velhas...

Thomas Bernhard (9 de Fevereiro de 1931- 12 de Fevereiro de 1989)
Na Terra e no Inferno,  Assírio & Alvim, 2000
Tragam-me aguardente, Glória e Amor

Tragam-me aguardente, que eu quero esquecer!
    Quero hoje dissipar
em mim as criaturas todas e todo o tormento ­-
     e com isso como peixe e um pedaço de carne de porco!

Tragam-me glória, depois posso matar-me tranquilamente,
     antes que a minha alma cresça
e o meu cérebro orgulhoso inche
     e todos, boquiabertos, me julguem doido!

Tragam-me o vosso amor à mesa,
    que eu quero bebê-lo, flutuando no céu até muito longe,
cem canecas, mil canecas, todas as canecas do mundo ­
    assim no vosso amor quero afogar-me. 



Thomas Bernhard, 
Na Terra e no Inferno,  Assírio & Alvim, 2000
©Nikos Economopoulos.
Euboea island. Gipsy girls dressed up for the feast of St. John. 1997

A memória congela a imagem, uma pause de fita. Amamos cada momento de pause. Amamos cada instante, cada migalha passada. Amamos as figuras que a mente constrói futuras. Achamos que amamos muito. Mas amaremos para além das nossas imagens? Para além dos nossos espelhos? Para além das construções à nossa semelhança e fantasia? Amaremos para além nós (próprios e impróprios)?

#1 Autobiografia


"São belíssimos, os olhos dele; gosto que sejam assim, maiores um pouco do que tudo o que é visível. Nunca saberemos se há coisa que lhe escape, ou - pelo contrário - para ele o mundo não é simples pormenor de tudo o que vêem, mosca-volante que pode obcecar-nos sem existir. Caro Senhor, desde que me casei com o seu amigo nunca pude certificar-me dos seus olhares. O próprio objecto que fixam talvez seja o próprio objecto que o seu espírito pretende reduzir a nada. 
    A nossa vida é sempre aquela que o senhor conhece: nula e inútil a minha; a dele toda hábitos e ausências. Não é que não desperte, não reapareça quando quer e terrivelmente vivo. Gosto muito dele assim. Grande e temível de repente. A maquinaria dos seus actos monótonos explode; o seu rosto cintila; diz coisas que em geral só oiço por metade mas não se apagam mais da minha memória. Não quero, porém, esconder-lhe nada ou quase nada: Acontece-lhe ser muito duro. Não creio que possa outra pessoa sê-lo tanto como ele. Parte-nos o espírito com uma palavra, e tenho a sensação de ser um vaso estragado que o oleiro deita ao lixo. É, caro Senhor, duro como um anjo. Não repara na força que tem: usa inadequadas palavras mas verdadeiras de mais, que aniquilam uma pessoa, sabem acordá-la em plena estupidez, perante si própria, apanhada em cheio no ser aquilo que é e tão naturalmente viver de frioleiras. Vivemos muito à vontade, cada qual no seu absurdo e como peixes na água; só por acidente notamos que a vida das pessoas razoáveis está cheia de estupidez.
     O que pensamos, nunca pensamos que esconde o que somos.  (...)
     O Sr. Teste, aliás, não precisa de falar para restituir às pessoas que o rodeiam à humildade e quase animal simplicidade. A sua existência parece enfraquecer todas as outras, e até as manias que tem conduzem à reflexão.
     Não imagine, porém, que seja sempre difícil ou molesto. Se soubesse como ele pode ser diferente!... Às vezes é duro, de facto, mas tem horas de requintada e surpreendente doçura que o invade e parece caída dos céus. Que mais presente haverá tão misterioso e irresistível como o seu sorriso; a sua preciosa ternura, que é rosa de Inverno. Não se pode, no entanto, prever-lhe facilidade ou violências. É inglório esperar dele rigor ou favor; com profunda distracção e impenetrável ordem de pensamentos, sabe frustrar tos os cálculos que os humanos vulgarmente fazem sobre o carácter dos seus semelhantes. (...) Confesso, no entanto, que nada me liga tanto a ele com esta incerteza de humor. Ao fim e ao cabo, sou bastante feliz por não saber compreendê-lo excessivamente, não adivinhar cada dia, cada noite, cada movimento próximo da minha passagem na terra. "

Carta da Senhora Émilie Teste
Paul Valéry, O Senhor Teste, Relógio D'Água, 1985

     "Bem cedo este homem soube a importância daquilo a que podemos chamar plasticidade humana. Investigara-lhe os limites e o mecanismo. Como ele devia pensar na sua própria maleabilidade!
     Eu vislumbrava sentimentos que me faziam estremecer, uma obstinação terrível em experiências inebriantes. Ele era o ser absorvido na sua variação, aquele que se transforma no seu próprio sistema, o que se entrega inteiro à disciplina assustadora do espírito livre e mata com as suas próprias alegrias as alegrias que tem, a mais fraca com a mais forte- a mais suave, a temporal, a do instante e da hora começada, com a fundamental- com a esperança da fundamental.
     E sentia-o senhor do seu pensamento: escrevo aqui este absurdo. A expressão de um sentimento é sempre absurda."

A noite com o Sr. Teste
Paul Valéry, O Senhor Teste, Relógio D'Água, 1985
    "Vejam-se palavras suas: "Há vinte anos que não tenho livros. E também queimei os meus papéis. Agora risco directamente na carne-viva... Retenho o que quero. Mas difícil não é isso. É reter aquilo que amanhã vou querer!... Andei à procura de uma instintiva peneira..."
     De tanto pensar nisto, acabei por concluir que o Sr. Teste descobrira leis do espírito que ignoramos. Por certo passara anos a investigá-las: e mais certo ainda era ter destinado outros, muitos anos, a amadurecer as invenções que tinha feito para fazer delas os seus instintos. Encontrar nada é. Difícil é acrescentar a nós próprios o que encontramos."

A noite com o Sr. Teste
Paul Valéry, O Senhor Teste, Relógio D'Água, 1985
©raquelsav. Paris- Notre Dame

Seremos, então, aprendizes em matéria de lavar rostos. Mas não deixamos de buscar futuros que durem mais do que amanhã. Damos forma e argumento a um corpo que temos mas que ainda não o é. Debitamos, debitamos, falamos, falamos, porque gostamos de nos ouvir. A vaidade insegura-nos e substitui-nos no tanto que nos falta para ser.

*"Pérotin (fl. c. 1200), also called Perotin the Great, was a European composer, believed to be French, who lived around the end of the 12th and beginning of the 13th century. He was the most famous member of the Notre Dame school of polyphony and the ars antiqua style."
©Ferdinando Scianna. ITALY, Milan- Calla
"Oh Deusa, tu és impecável: e, quando eu escorregue num tapete estendido, ou me estale uma correia da sandália, não te posso gritar, como os homens mortais gritam às esposas mortais: - Foi culpa tua, mulher! – erguendo, em frente à lareira, um alarido cruel! Por isso sofrerei, num espírito paciente, todos os males com que os Deuses me assaltem no sombrio mar, para voltar a uma humana Penélope, que eu mande, e console, e repreenda, e acuse, e contrarie, e ensine, e humilhe, e deslumbre, e por isso ame dum amor que constantemente se alimenta desses modos ondeantes, como o lume se nutre dos ventos contrários! 
(...)
- Quantos males te esperam, ó desgraçado! Antes ficasses, para toda a imortalidade, na minha Ilha perfeita, entre os meus braços perfeitos…
Ulisses recuou, com um brado magnífico:
- Oh Deusa, o irreparável e supremo mal está na tua perfeição!
E, através da vaga, fugiu, trepou sofregamente à jangada, soltou a vela, fendeu o mar, partiu para os trabalhos, para as tormentas, para as misérias – para a delícia das coisas imperfeitas!”


Eça de Queirós, Contos (A Perfeição). Porto Editora

fevereiro 17, 2015

O rosto da voz




ALLERSEELEN

(TODOS-OS-SANTOS)

Que fiz
eu?
Inseminei a noite, como se outras
pudessem vir, mais nocturnas que
esta.

Voo de ave, voo de pedra, mil
trajectórias descritas. Olhares,
pilhados e colhidos. O mar,
provado, sorvido, absorto. Uma hora,
obscurecida de almas. A seguinte, uma luz outonal,
ofertada a um sentimento
cego, que tomou o caminho. Outras, muitas,
sem lugar e pesadas de si mesmas: avistadas e contornadas.
Rochas erráticas, estrelas,
negras e plenas de linguagem: nomeadas
por jura de silêncio rasgado.

E certa vez (quando? também isto de esqueceu):
o pulso sentiu o gancho,
quando ousava desprender-se.

Paul Celan, Não Sabemos mesmo O Que importa, Relógio D'Água, 2014
©Inge Morath
The Inge Morath Foundation.  New York City. 1957.
A Llama in Times Square

why?...the first pop music

PLAY Diamanda Galás Gloomy Sunday

fotograma ©Luis Buñuel Un chien Andalou (1929)
PLAY
Luís Buñuel Un chien Andalou (1929)
©Erich Hartmann 1979. USA. New York City. 1979.Shadows meeting on stairway

   
    "O Sr. Teste não tinha opiniões. Julgo que se apaixonava como queria, e para atingir determinado fim. O que fizera da sua personalidade? Ele próprio como se via?... Nunca ria, no seu rosto nunca havia um ar de infortúnio. Tinha ódio à melancolia.
       Falava e a gente sentia-se na ideia dele, confundida com as coisas: a gente sentia-se remota, misturada com as casas, as amplidões do espaço, o colorido buliçoso da rua, as esquinas... E as palavras mais destramente tocantes- as que põem mais perto de nós o seu autor do que outro homem qualquer, fazem crer que a eterna parede entre os espíritos cai- podiam acudir-lhe... Sabia admiravelmente que eram capazes de impressionar qualquer outro. Falava e verificava-se que um grande número de palavras eram banidas do seu discurso, sem no entanto podermos precisar os motivos nem a amplitude dessa proscrição. As que usava eram às vezes tão curiosamente apoiadas pela sua voz, ou iluminadas pela sua frase, que ficavam de peso alterado, de valor novo. Às vezes perdiam todo o sentido, só pareciam encher espaço vazio cujo destinatário termo ainda duvidoso ou não previsto pela língua. Ouvi-o designar um objecto material com um grupo de palavras abstractas e substantivos próprios.
      Ao que ele dizia não havia nenhuma resposta a dar. Matava todos os assentimentos corteses. A conversa era prolongada aos saltos que lhe não causavam espanto."

A noite com o Sr. Teste
Paul Valéry, O Senhor Teste, Relógio D'Água, 1985

fevereiro 16, 2015

"Margarida — Muitas vezes me digo: sei o que é ser português. Tenho a impressão de que reconheço um português em qualquer lado. Mas tenho muitas dúvidas. Será que sei? Onde ancoro a minha identidade é nessa coisa da procura.

Margarida — A consciência de não pertença sempre me perseguiu. E uma certa nostalgia. Comecei a ter uma consciência forte disso, não exactamente nos temas dos filmes, mas na posição em que estou a olhar para as coisas. Sentindo-me sempre um pouco de fora. Nos documentários e na ficção. Na ficção, sem querer, os personagens que crio são todos assim. São pessoas que andam à procura de alguma coisa. Ou que estão completamente perdidos num território. Muitas vezes rejeitados por um território interior e exterior. Acabam todos, também, por ter um lado etéreo. Não consigo dar uma consistência muito realista aos personagens — porque não me interessa.

Margarida — O filme é trespassado por essa ideia da não-comunicação, da dificuldade de os vários mundos se encontrarem. Isso passa-se entre os negros e os brancos, entre a mãe e a filha. Há uma enorme incompreensão e uma dificuldade em juntar coisas que não se podem juntar. Há coisas que nasceram de um tal absurdo que não se podem juntar. Nem vale a pena lutar. Não se vai reparar o que é irreparável.

(...)como é que se vive no absurdo, no absurdo que resulta do absurdo?
Margarida — É difícil, mas acho que todos vivemos assim. Temos sempre perguntas a que não conseguimos responder. A única coisa é que conseguimos disfarçar. Arranjar um outro invólucro.


(...)

No meio de tudo o que corre mal, há o milagre. 
O milagre de termos vontade de viver o dia seguinte, de nos encantarmos.
Margarida — Há uma certa luz no fim do filme. Disseram-me que é deprimente 

acabar um filme com uma cena em que enterram uma piscina.
É uma piscina de um hotel que dizem estar assombrada. Então, 
cobrem-na de areia.
Margarida — É uma forma de enterrar simbolicamente o passado.
Beatriz — Esse é que é o grande milagre. Fazer um “Querido, mudei a piscina”, tapar 
pequenos buracos, a plástica, é a grande mentira. O final do filme é muito mais redentor
 por ser tão honesto. Na vida tapamos, escondemos os nossos tiros. Os tiros da parede da 
piscina, os nossos buracos, feridas. E vivemos com aquilo. Ou reinventamos aquele espaço 
para ser outra coisa. [Enterrar a piscina] é reinventar aquele espaço para ser outra coisa. 
Não é fingir que não aconteceu nada. É ao contrário. É reconhecer que aquele sítio não 
pode voltar a ser o que era.
Margarida — É a mesma coisa que ter a coragem de deitar abaixo o que já não nos serve. 
Mas há um pormenor: o último plano do filme é a actriz sul-africana, a Susan, a dizer-te adeus.
Beatriz — É um modo de dizer: até à vista. É a violência, a crueldade de constatar que aconteça 
o que acontecer, de facto, a vida continua. E esta violência, num filme da Margarida, é dita 
como se não fosse nada.
Margarida — A mãe continua a ver televisão [depois da conversa mais difícil que têm].
Beatriz — Vê televisão. Não desvia os olhos. Esta subtileza, esta forma de violência...
É uma violência surda.
Margarida — Só me interesso por isso. Só consigo interessar-me por esse eco.
Beatriz — É a Margarida a dizer-nos: caia o mundo, conte aqui a história mais desgraçada, 
e a vida segue. No filme, a Margarida desafia o tempo de um modo que a vida não permite — 
na extensão do luto. Os vários lutos. O luto da filha, o luto da nação, o luto da infância...
Margarida — O luto de não pertencer.
Beatriz — Desafia a vida — para que ela pare.
(...)

Margarida — O que se passa numa relação mãe-filha... Nenhuma mãe faz nada bem, tudo bem.
Beatriz — Os filhos querem que elas sejam mães e as mães querem continuar a ser pessoas.
As mães são mais do que mães: são pessoas.
Margarida — Esta relação funciona como uma metáfora das questões relacionais.
Nunca se consegue preencher aquilo que os outros querem. É impossível!
E tem de se viver com isso.
(...)
Margarida — É a sobrevivência. O que o Sérgio diz: “Sabes que quando a Yvone morreu,
eu atravessava um vale. E ia tão focado na minha sobrevivência que não senti um sinal,
nada que me indicasse que ela estava a morrer. A vida é muito estranha, não é?”
O que é estranho é que todos vivemos com esta magia da vida, com aquilo que é criado
pelo amor, pela amizade, mas no momento em que o outro desaparece... Essa ilusão
[de proximidade, de sentirmos o outro dentro de nós] não existe. Estamos fechados dentro
de nós e não vamos sentir nenhum sinal. Mas não quer dizer que não seja isso que nos faz viver.
Beatriz — Perguntava se o amadurecimento corresponde à aceitação do desencanto. Acho que
 não. O amadurecimento é perceber que não somos omnipotentes e que os verdadeiros heróis
 são aqueles que não são mitificados. São aqueles que são heróis e amados por serem como
são. Uma coisa é mitificar as pessoas, outra é aceitar a vida como ela é. Absurda. Sem lógica.
 Não ficcionada."
http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/falar-de-um-filme-para-falar-da-vida-1686008

fevereiro 15, 2015

©raquelsav
PLAY Nick Cave & the Bad Seeds - Into my arms

A despedida ou o interior de uma janela infantil.