março 15, 2015

©Bruno-Boudjelal

que ferais-je sans ce monde sans visage sans questions
où être ne dure qu'un instant où chaque instant
verse dans le vide dans l'oubli d'avoir été
sans cette onde où à la fin
corps et ombre ensemble s'engloutissent
que ferais-je sans ce silence gouffre des murmures
haletant furieux vers le secours vers l'amour
sans ce ciel qui s'élève
sur la poussieère de ses lests

que ferais-je je ferais comme hier comme aujourd'hui
regardant par mon hublot si je ne suis pas seul
à errer et à virer loin de toute vie
dans un espace pantin
sans voix parmi les voix
enfermées avec moi




Instante
que farei sem este mundo sem rosto e sem perguntas
onde ser apenas é um instante e onde cada instante
vai cair no vazio no olvido de ter sido
sem esta onda e onde no final
o corpo e a sombra entre si se devoram
que farei sem este silêncio abismo de murmúrios
fremente furioso por amor por socorro
sem este céu que se ergue
sobre a poeira dos seus alicerces

que farei farei como ontem como hoje
olhando pelo postigo se não estiver sozinho
a vaguear e a girar longe de qualquer rumor
num espaço fantoche
sem voz entre as vozes
fechadas dentro de mim


Samuel Beckett Poemas Escolhidos- Cadernos de Poesia 10
Publicações Dom Quixote, 1970
(Trad. Jorge Rosa e Armando da Silva Carvalho)

[#10] Estou a escrever-te de um país distante

fotograma. "Tempos modernos". Charlie Chaplin

      " "As formigas nunca nos cercaram como agora.", diz a sua carta. Inquietas, de ventre pelo chão, empurram poeiras. Não querem saber de nós.
     Nem uma levanta a cabeça.
     Sociedade mais fechada não existe, apesar de se espalharem constantemente lá fora. Não faz mal, projectos a realizar, preocupações... estão como em sua casa.... seja onde for.
     E até hoje nenhuma olhou para nós. Ainda se arriscava a ser esmagada."

Henri Michaux, Estou a escrever-te de um país distante, Hiena Editora, 1986
(tradução de Aníbal Fernandes)

B    A    N    H    O 
rima com
abocanho apanho arranho arrepanho assanho
(emaranho)

março 14, 2015


L   U   G   A   R
rima com voar





Foto: ©raquelsav. 2015.Março

©George Rodger ALGERIA. Sahara. Palmeries of Kerzaz near the Great Western Erg. 1957  




[#9] Estou a escrever-te de um país distante


     
©raquelsav
     "Não posso deixar-te com dúvidas, prossegue ela, com falta de confiança. Gostava de falar-te uma vez mais do mar. Mas persiste o embaraço. Os ribeiros avançam: ele é que não. Olha, não te zangues, juro que é verdade, nem pela cabeça me passa deixar-te enganado. É assim, o mar. Por mais agitado que esteja, pára à frente de um pouco de areia. É muito indeciso. Por certo queria avançar, mas na verdade é que não o faz.
     Mais tarde, um dia, talvez ele avance."

Henri Michaux, Estou a escrever-te de um país distante, Hiena Editora, 1986
(tradução de Aníbal Fernandes)

março 13, 2015


V   A   Z   I   O

rima com frio

Foto: ©David Seymour


D   I   S   T   Â   N   C   I   A

rima com ânsia

Foto: ©David Seymour 

[#8] Estou a escrever-te de um país distante


©Jean Gaumy. FRANCE. Cordovan lighthouse. January 2013.
Details. Screenshot of digital BW photographs taken with an iPhone.
 Color photographs taken with a digital reflex camera
     "Desde há muito, muito tempo, confia-lhe ela, andamos a debater-nos com o mar.
     É muito raro que azul, suave, ele nos pareça contente. E nem é coisa que dure. Di-lo o seu cheiro, aliás, um cheiro a podre (não fora a sua amargura).
     Eu devia explicar agora o caso das ondas. Incrivelmente complicado, e o mar... Por favor, confia em mim, Alguma vez eu quereria enganar-te? O mar não passa de uma palavra. Não passa de um medo. Existe, juro-te que existe, estamos constantemente a vê-lo.
     Quem? Nós, claro, nós estamos a vê-lo. Chega de muito longe a meter-se connosco e a assustar-nos.
     Quando vieres hás-de vê-lo, também tu, e a ficar muito espantado. "Olha só!, dirás, porque ele assombra.
     Havemos de vê-lo juntos. Julgo que deixarei de ter medo. Ou achas, diz-me lá tu, que isso nunca vai acontecer?"

Henri Michaux, Estou a escrever-te de um país distante, Hiena Editora, 1986
(tradução de Aníbal Fernandes)
©Harry Gruyaer
PLAY Stravinsky Sagração da Primavera

O ABUTRE

Arrastando a sua fome através do céu
do meu crânio concha de céu e da terra

mergulhando sobre os tombados de borco
que breve deverão retomar a vida e andar

escarnecido por um tecido que poderá não servir
até que a fome a terra e o céu se convertam em refugo


Samuel Beckett 
Poemas Escolhidos- Cadernos de Poesia 10, Publicações Dom Quixote, 1970
(Tradução: Jorge Rosa e Armando da Silva Carvalho)


S   U   B   T   I   L   E   Z   A


 rima com beleza






Foto: ©Thomas Hoepker


2+1 ?

©Bruce Davidson. USA. NYC. Irish writer Samuel BECKETT. 1964.


--Poema--
(Henri Michaux)

apreender
ou absolutamente nada apreender ou apreender com louca intensidade

Por falta do principal
apreender desordenadamente, exageradamente,

Atordoar-me

Tornar-me insecto para melhor apreender
patas em gancho para melhor apreender
insecto, aracnídeo, miriápode, ácaro
se for preciso, para melhor apreender.


Herberto Helder, 
Doze nós numa corda (poemas mudados para português por Herberto Helder). Assírio&Alvim, 1997


1+1

"O azar
O senhor Henri disse: as maldições são cálculos matemáticos que acertam no futuro e esperam por nós.
Entretanto, o senhor Henri baixou-se para apertar um sapato e, nesse momento, uma enorme pedra passou por cima da sua cabeça e caiu violentamente no chão.
... a minha sorte foi mais uma vez pontual - disse o senhor Henri, depois de se levantar.
... ou seja: a minha sorte está sempre sincronizada com o meu azar.
... se uma pedra me batesse na cabeça seria azar - disse o senhor Henri.
... mas felizmente veio a sorte de me ter baixado no momento em que a pedra me queria abrir a cabeça.
... as pessoas que têm azar não deixam de ter sorte.
... o que têm é sorte nos momentos errados - disse.
... é como se no meio do deserto encontrassem um saco cheio de areia... - disse o senhor Henri."

Gonçalo M. Tavares O Senhor Henri, Caminho, 2003

março 07, 2015

©Mark Power. G.B. ENGLAND. Birmingham. All Saints Hospital. Closed ward.
 A Victorian asylum soon to be converted into a prison. (From the series 'The National Health- Mental Health'). 1998

Hoje- tempo do depois em lugar de princípio.
Ideia de sempre e ontem.
Sombra e vulto e rasto- imaginado e fixo à coisa que é de amar.
Lugar-ideia. Somente ideia.
Lugar-ausência. Somente lugar.
Lugar-ideia-ausência acima da coisa que é de amar.
©Josef Koudelka. ITALY. Sicily. Caltanissetta. Butera. 2005. Holy Week.

"CapítuloXXXV: Protonotário Apostólico


Enfim, peguei dos livros e corri à lição. Não corri precisamente; a meio caminho parei, advertindo que devia ser muito tarde, e podiam ler-me no semblante alguma coisa. Tive idéia de mentir, alegar uma vertigem que me houvesse deitado ao chão; mas o susto que causaria a minha mãe fez-me rejeitá-la. Pensei em prometer algumas dezenas de padre-nossos; tinha, porém, outra promessa em aberto e outro favor pendente... Não, vamos ver; fui andando, ouvi vozes alegres, conversavam ruidosamente. Quando entrei na sala, ninguém ralhou comigo.

O Padre Cabral recebera na véspera um recado do internúncio; foi ter com ele, e soube que, por decreto pontifício, acabava de ser nomeado protonotário apostólico. Esta distinção do Papa dera-lhe grande contentamento e a todos os nossos. Tio Cosme e prima Justina repetiam o título com admiração; era a primeira vez que ele soava aos nossos ouvidos, acostumados a cônegos, monsenhores, bispos, núncios, e internúncios; mas que era protonotário apostólico? O Padre Cabral explicou que não era propriamente o cargo da cúria, mas as honras dele. Tio Cosme viu exalçar-se no parceiro de voltareta, e repetia:

– Protonotário apostólico!

E voltando-se para mim:

– Prepara-te, Bentinho; tu podes vir a ser protonotário apostólico.

Cabral ouvia com gosto a repetição do título. Estava em pé, dava alguns passos, sorria ou tamborilava na tampa da boceta. O tamanho do título como que lhe dobrava a magnificência, posto que, para ligá-lo ao nome, era demasiado comprido; esta segunda reflexão foi tio Cosme que a fez. Padre Cabral acudiu que não era preciso dizê-lo todo, bastava que lhe chamassem o Protonotário Cabral. Subentendia-se apostólico.

– Protonotário Cabral.

– Sim, tem razão; Protonotário Cabral.

– Mas, senhor protonotário, – acudiu prima Justina para se ir acostumando ao uso do título, – isto o obriga a ir a Roma?

– Não, D. Justina.

– Não, são só as honras, observou minha mãe.

– Agora, não impede – disse Cabral, que continuava a refletir, – não impede que nos casos de maior formalidade, atos públicos, cartas de cerimônia, etc., se empregue o título inteiro: protonotário apostólico. No uso comum, basta protonotário.

– Justamente, assentiram todos.

José Dias, que entrou pouco depois de mim, aplaudiu a distinção, e recordou, a propósito, os primeiros atos políticos de Pio IX, grandes esperanças da Itália; mas ninguém pegou do assunto; o principal da hora e do lugar era o meu velho mestre de latim. Eu, voltando a mim do receio, entendi que devia cumprimentá-lo também, e este aplauso não lhe foi menos ao coração que os outros. Bateu-me na bochecha paternalmente, e acabou dando-me férias. Era muita felicidade para uma só hora. Um beijo e férias! Creio que o meu rosto disse isto mesmo, porque tio Cosme, sacudindo a barriga, chamou-me peralta; mas José Dias corrigiu a alegria:

– Não tem que festejar a vadiação; o latim sempre lhe há de ser preciso, ainda que não venha a ser padre.

Conheci aqui o meu homem. Era a primeira palavra, a semente lançada à terra, assim de passagem, como para acostumar os ouvidos da família. Minha mãe sorriu para mim, cheia de amor e de tristeza, mas respondeu logo:

– Há de ser padre, e padre bonito.

– Não se esqueça, mana Glória, e protonotário também. Protonotário apostólico.

– Protonotário Santiago, acentuou Cabral.

Se a intenção do meu mestre de latim era ir acostumando ao uso do título com o nome, não sei bem; o que sei é que quando ouvi o meu nome ligado a tal título, deu-me vontade de dizer um desaforo. Mas a vontade aqui foi antes uma idéia, uma idéia sem língua, que se deixou ficar quieta e muda, tal como daí a pouco outras idéias... Mas essas pedem um capítulo especial. Rematemos este dizendo que o mestre de latim falou algum tempo da minha ordenação eclesiástica, ainda que sem grande interesse. Ele buscava um assunto alheio para se mostrar esquecido da própria glória, mas era esta que o deslumbrava na ocasião. Era um velho magro, sereno, dotado de qualidades boas. Alguns defeitos tinha; o mais excelso deles era ser guloso, não propriamente glutão; comia pouco, mas estimava o fino e o raro, e a nossa cozinha, se era simples, era menos pobre que a dele. Assim, quando minha mãe lhe disse que viesse jantar, a fim de se lhe fazer uma saúde, os olhos com que aceitou seriam de protonotário, mas não eram apostólicos. E para agradar a minha mãe, novamente pegou em mim, descrevendo o meu futuro eclesiástico, e queria saber se ia para o seminário agora, no ano próximo, e oferecia-se a falar ao “senhor bispo”, tudo marchetado do “Protonotário Santiago”."


Joaquim Maria Machado de Assis (Rio de Janeiro 1839-1908)
Dom Casmurro, Abril Cultural, 1978

março 06, 2015

[#7] Estou a escrever-te de um país distante


©Jean Gaumy.The Natural History Museum
 "Há leões, diz-lhe ela ainda, que nunca abandonam a aldeia e andam a passear sem nenhum pejo. Não apareça quem repare neles, e procedem connosco de igual forma.
     Mas vejam uma rapariga correr-lhes à frente, e nada fazem que desculpe a sua emoção. Qual quê! Vão logo comê-la.
     Por isto não param de passear na aldeia onde nada têm que fazer; sim, que bocejar podiam bocejar tão bem em qualquer outro lado, não é evidente?"

Henri Michaux, Estou a escrever-te de um país distante, Hiena Editora, 1986
(tradução de Aníbal Fernandes)
"A memória
     O senhor Henri estava sentado no banco de jardim a pensar se o seu corpo se levantaria para ir beber um copo de absinto.
    O senhor Henri disse: a minha alma já se levantou.
    O senhor Henri olhou depois para o corpo, tentando localizar o próprio rosto, mas não conseguiu.
     ... há partes do meu corpo que só posso ver com os meus olhos, e há outras que só posso ver com a memória.
     ... é como se a memória tivesse olhos, e mais antigos que os outros dois.
     O senhor Henri depois calou-se.
     E o senhor Henri, depois de um breve silêncio, disse: o certo é que a minha vontade já bebeu um copo de absinto, e eu não.
     ... a minha vontade já se encontra, neste momento, mais bêbada que eu.
     …vou, pois, apanhá-la - disse o senhor Henri." 

Gonçalo M. Tavares, O Senhor Henri, Caminho, 2003

março 05, 2015

Alexandre Farto (Vhils), Alfama, maio de 2012,

PLAY Einstürzende Neubauten - Kollaps

Caderno Azul N.º 10
     Era uma vez um homem ruivo, sem olhos nem orelhas. Também não tinha cabelos, e só por convenção lhe chamávamos ruivo.
     Não podia falar porque não tinha boca. E nariz também não.
     Nem sequer tinha braços e pernas. Também não tinha barriga, nem coluna vertebral, nem mesmo entranhas. Não tinha coisa nenhuma! Por isso pergunto de quem estamos nós a falar.
     Dessa forma é preferível nada acrescentarmos a seu respeito.

Daniil Harms, Crónicas da Razão Louca, Hiena, 1994

março 04, 2015

Henri Michaux

©Henri Cartier-Bresson FRANCE. Paris. 6th arrondissement. Rue Visconti. 1954.
Poet, writer and painter Henri MICHAUX (center) exposes his drawings in the Drouin gallery.
Wearing a hat- Henri PARISOT, translator and bookseller
"Henri Michaux (França, 1899-1984)

     Era um homem que tinha um apetite de vencedor mas um número de moedas de vencido. Em frente ao restaurante caro sacou da imaginação e contou uma história ao empregado que lhe havia apresentado a conta obtusa. Era uma vez um homem que contava histórias para não pagar a conta de um restaurante rico, e o empregado encantado com a história deixou-o sair sem pagar. Era esta a história. Henri olhou para o empregado para verificar se ele tinha gostado, e mais do isso, compreendido. O empregado disse: em dólares, por favor."

Gonçalo M. Tavares, Biblioteca, Campo das Letras, 2006

[#6] Estou a escrever-te de um país distante

©Josef Koudelka. ITALY. 2006
     "Aqui vivemos todas de nó na garganta. Sabes tu que, apesar de muito jovem, ainda fui mais jovem noutros tempos, e dá-se o mesmo com as minhas companheiras. O que quer isto dizer? Qualquer coisa encobrirá, com certeza horrível.
     E no tempo, como te disse, em que ainda éramos mais jovens, sentíamos medo. Houve quem se aproveitasse da nossa confusão. E nos dissesse: "Pronto, vamos enterrar-vos. Chegou o momento". Pensávamos, de facto, que nessa mesma noite podiam enterrar-nos, se fosse chegado o momento de fazê-lo.
     E não se ousava correr muito: ofegantes, no final de uma carreira, chegarmos ao pé da cova já aberta e nem tempo sobrar para uma palavra, sem nenhum fôlego.
     Diz-me: que segredo existe, na verdade, a tal respeito?"

Henri Michaux, Estou a escrever-te de um país distante, Hiena Editora, 1986
(tradução de Aníbal Fernandes)