março 24, 2015

Herberto Helder

Estranho o  mudar de tempo verbal:

Existem os poetas e EXISTE o Herberto Helder

Cobre a terra mãe quatro vezes de flores numerosas.
Que se cubram os céus de flores acumuladas.
Que se cubra de névoa a terra; cobre de chuvas a terra.
Grandes águas, chuvas, cobri a terra. Cobre a terra, ó relâmpago.
Que se ouça o trovão por sobre a terra inteira; que se ouça o trovão na terra.
Que se ouça o trovão por sobre as seis regiões da terra.
Que se ouça cobrindo a terra.
A chuva, o trovão, o relâmpago.
Cobrindo a terra.

América do Norte, Zunhis
Versão de Herberto Helder
in Rosa do Mundo: 2001 poemas para o futuro. Assírio&Alvim, 20011

março 23, 2015


©raquelsav. Muzeum Kinematografii. Lodz (Polónia) 20 Março 2015
(...)
Prefiro os zeros à solta
a tê-los numa fila junto ao algarismo.
Prefiro o tempo do insecto ao tempo das estrelas.
Prefiro fazer isolar.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.

Prefiro levar em consideração até a possibilidade
do ser ter a sua razão.

Extracto de POSSIBILIDADES de 

Wislawa Szymborska (Trad. Aleksandar Jovanovic e Henry Siewierski)
Rosa do Mundo- 2001 poemas para o futuro. 2001. Assírio&Alvim
©raquelsav. Muzeum Kinematografii. Lodz (Polónia) 20 Março 2015
TESTAMENTO
Após a morte de Deus
abriremos o testamento
para saber
a quem pertence o mundo
e aquela grande armadilha
de homens.

Ewa Lipska (Trad. Aleksandar Jovanovic)
Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro, 2001, Assírio&Alvim

março 21, 2015

Dia Mundial da Poesia

©raquelsav. Muzeum Kinematografii. Lodz (Polónia) 20 Março 2015



"Quem deixa um rasto, deixa uma ferida."

Henri Michaux, Antologia. Relógio D'Água, 1999
Não dizia palavras,
Aproximava apenas um corpo interrogante,
Porque ignorava que o desejo é uma pergunta
Cuja resposta não existe,
Uma folha cujo ramo não existe,
Um mundo cujo céu não existe.
Entre os ossos a angústia abre caminho,
Ergue-se pelas veias
Até abrir na pele
Jorros de sonho
Feitos carne interrogando as nuvens.
Um contacto ao passar,
Um fugidio olhar no meio das sombras,
Bastam para que o corpo se abra em dois,
Ávido de receber em si mesmo
Outro corpo que sonhe;
Metade e metade, sonho e sonho, carne e carne,
Iguais em figura, iguais em amor, iguais em
desejo.
Embora seja só uma esperança,
Porque o desejo é uma pergunta cuja resposta 
ninguém sabe.

Luis Cernuda Antologia Poética Edições Cotovia, 1990
PLAY Herberto Helder - Rodrigo Leão

Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.
Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.
Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

- Era uma casa - como direi? - absoluta.
Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metias as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.
Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.
As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
- Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.
Era uma casabsoluta - como
direi? - um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.
- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.
Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.
Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.
Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.

Herberto Helder, Poemacto in Poesia Toda, 1990, Assírio&Alvim
Alguns gostam de poesia
Alguns -
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.

Gostam -
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.

De poesia -
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.
Wislawa Szymborska

março 19, 2015


A   F   A   S   T   A   R
rima como 
A   P   R   O   F   U   N   D   A   R


©raquelsav. Łódź - Polónia  20 Março 2015 (Alexandre Farto (Vhils),    
  
 PLAY Frédéric Chopin- Arthur Rubinstein Noctunes

março 18, 2015


P   A   R   T   I   D   A
rima com
E   N   C   O   N   T   R   O

PLAY Henryk Górecki Sinfonia n.º 3                                                                 ©raquelsav. VARSÓVIA. 18 de Março 2015

março 15, 2015

PLAY Pearl Jam Ten

DIEPPE
ainda o refluxo derradeiro
a pedra morta
a meia-volta e em seguida os passos
na direcção das luzes mais antigas


Samuel Beckett 
Poemas Escolhidos- Cadernos de Poesia 10
Publicações Dom Quixote, 1970
(Trad. Jorge Rosa e Armando da Silva Carvalho)
©George Rodger ALGERIA, 1957.
Through the windscreen on route to In-Salah

Levas-me, de avante, um mundo.
E sou eu que fico a ganhar- desse todo por descobrir.
©Bruno-Boudjelal

que ferais-je sans ce monde sans visage sans questions
où être ne dure qu'un instant où chaque instant
verse dans le vide dans l'oubli d'avoir été
sans cette onde où à la fin
corps et ombre ensemble s'engloutissent
que ferais-je sans ce silence gouffre des murmures
haletant furieux vers le secours vers l'amour
sans ce ciel qui s'élève
sur la poussieère de ses lests

que ferais-je je ferais comme hier comme aujourd'hui
regardant par mon hublot si je ne suis pas seul
à errer et à virer loin de toute vie
dans un espace pantin
sans voix parmi les voix
enfermées avec moi




Instante
que farei sem este mundo sem rosto e sem perguntas
onde ser apenas é um instante e onde cada instante
vai cair no vazio no olvido de ter sido
sem esta onda e onde no final
o corpo e a sombra entre si se devoram
que farei sem este silêncio abismo de murmúrios
fremente furioso por amor por socorro
sem este céu que se ergue
sobre a poeira dos seus alicerces

que farei farei como ontem como hoje
olhando pelo postigo se não estiver sozinho
a vaguear e a girar longe de qualquer rumor
num espaço fantoche
sem voz entre as vozes
fechadas dentro de mim


Samuel Beckett Poemas Escolhidos- Cadernos de Poesia 10
Publicações Dom Quixote, 1970
(Trad. Jorge Rosa e Armando da Silva Carvalho)

[#10] Estou a escrever-te de um país distante

fotograma. "Tempos modernos". Charlie Chaplin

      " "As formigas nunca nos cercaram como agora.", diz a sua carta. Inquietas, de ventre pelo chão, empurram poeiras. Não querem saber de nós.
     Nem uma levanta a cabeça.
     Sociedade mais fechada não existe, apesar de se espalharem constantemente lá fora. Não faz mal, projectos a realizar, preocupações... estão como em sua casa.... seja onde for.
     E até hoje nenhuma olhou para nós. Ainda se arriscava a ser esmagada."

Henri Michaux, Estou a escrever-te de um país distante, Hiena Editora, 1986
(tradução de Aníbal Fernandes)

B    A    N    H    O 
rima com
abocanho apanho arranho arrepanho assanho
(emaranho)

março 14, 2015


L   U   G   A   R
rima com voar





Foto: ©raquelsav. 2015.Março

©George Rodger ALGERIA. Sahara. Palmeries of Kerzaz near the Great Western Erg. 1957  




[#9] Estou a escrever-te de um país distante


     
©raquelsav
     "Não posso deixar-te com dúvidas, prossegue ela, com falta de confiança. Gostava de falar-te uma vez mais do mar. Mas persiste o embaraço. Os ribeiros avançam: ele é que não. Olha, não te zangues, juro que é verdade, nem pela cabeça me passa deixar-te enganado. É assim, o mar. Por mais agitado que esteja, pára à frente de um pouco de areia. É muito indeciso. Por certo queria avançar, mas na verdade é que não o faz.
     Mais tarde, um dia, talvez ele avance."

Henri Michaux, Estou a escrever-te de um país distante, Hiena Editora, 1986
(tradução de Aníbal Fernandes)

março 13, 2015


V   A   Z   I   O

rima com frio

Foto: ©David Seymour


D   I   S   T   Â   N   C   I   A

rima com ânsia

Foto: ©David Seymour 

[#8] Estou a escrever-te de um país distante


©Jean Gaumy. FRANCE. Cordovan lighthouse. January 2013.
Details. Screenshot of digital BW photographs taken with an iPhone.
 Color photographs taken with a digital reflex camera
     "Desde há muito, muito tempo, confia-lhe ela, andamos a debater-nos com o mar.
     É muito raro que azul, suave, ele nos pareça contente. E nem é coisa que dure. Di-lo o seu cheiro, aliás, um cheiro a podre (não fora a sua amargura).
     Eu devia explicar agora o caso das ondas. Incrivelmente complicado, e o mar... Por favor, confia em mim, Alguma vez eu quereria enganar-te? O mar não passa de uma palavra. Não passa de um medo. Existe, juro-te que existe, estamos constantemente a vê-lo.
     Quem? Nós, claro, nós estamos a vê-lo. Chega de muito longe a meter-se connosco e a assustar-nos.
     Quando vieres hás-de vê-lo, também tu, e a ficar muito espantado. "Olha só!, dirás, porque ele assombra.
     Havemos de vê-lo juntos. Julgo que deixarei de ter medo. Ou achas, diz-me lá tu, que isso nunca vai acontecer?"

Henri Michaux, Estou a escrever-te de um país distante, Hiena Editora, 1986
(tradução de Aníbal Fernandes)