abril 06, 2015

"O Azar
     O senhor Henri disse: as maldições são cálculos matemáticos que acertam no futuro e esperam por nós.
     Entretanto, o senhor Henri baixou-se para apertar um sapato e, nesse momento, uma enorme pedra passou por cima da sua cabeça e caiu violentamente no chão.
     ... a minha sorte foi mais uma vez pontual - disse o senhor Henri, depois de se levantar.
     ... ou seja: a minha sorte está sempre sincronizada com o meu azar.
     ... se uma pedra me batesse na cabeça seria azar - disse o senhor Henri.     ... mas felizmente veio a sorte de me ter baixado no momento em que a pedra me queria abrir a cabeça.     ... as pessoas que têm azar não deixam de ter sorte.
     ... o que têm é sorte nos momentos errados - disse.     ... é como se no meio do deserto encontrassem um saco cheio de areia... - disse o senhor Henri." 
Gonçalo M. Tavares, O Senhor Henri, Caminho, 2003
poesia escreve-se com letra grande ou pequena?
CONTRA!

Hei-de construir-vos uma cidade de farrapos, eu!
Construir-vos-ei sem planta nem cimento
Um edifício que não destruireis,
E que uma espécie de evidência espumante
Há-de sustentar e inchar, há-de gritar-vos à cara,
E à cara gelada de todos os vossos Pártenons, as vossas artes árabes, e os vossos Mings.

Com fumo, com diluição de nevoeiro
E com o som de pele de tambor
Hei-de edificar-vos fortalezas esmagadoras e soberbas,
Fortalezas exclusivamente feitas de redemoinhos e solavancos,
Contra as quais a vossa ordem multimilenária e a vossa geometria
Ruirão em palermices e sofismas e pó de areia sem razão.

Dlão! Dlão! Dlão! Sobre todos vós, dobre de finados aos vivos!
Sim, creio em Deus! Está claro que ele não sabe de nada!
Fé, solas inúteis para quem não progride.
Ó mundo, mundo estrangulado, ventre frio!
Nem sequer símbolo, mas ausência, eu contra, eu contra,
Eu contra e atulho-te de cães esfaimados.
Às toneladas, estão-me a ouvir, às toneladas, hei-de arrancar-vos tudo aquilo que recusaram em gramas.

O veneno da serpente é o seu fiel companheiro,
É fiel e ela dá-lhe o justo valor.
Irmãos, meus irmãos malditos, segui-me com confiança.
Os dentes do lobo não se retraem do lobo
É a carne de carneiro que retrai.

No escuro veremos claro, meus irmãos.
No labirinto acharemos a via recta.
Carcaça, que fazes aqui, marafona, mijona, penico partido?
Como hás-de sentir, moitão rangente, os cordames tensos de quatro mundo!
Como te hei-de esquartejar!

Henri Michaux
Antologia, Relógio D'Água, 1999
habitámos um tempo infantil
habitamos, tão infantis, o tempo

[#3] Ainda o paradoxo

Fita de Möbius- (animação sobre desenho de M. C. Escher)
Contornamos a topologia das palavras difíceis sem que delas o interior e o exterior encontremos. É sempre à superfície, pela rama, como crentes que rezam de cor, inábeis de joelhos, perante o poema. E redimimo-nos do erro, escrevendo a palavra 70x7 vezes, mas tão perfeitamente incapazes de lê-la.

[#2] Ainda o paradoxo

[Depois de longo caminho percorrido a PALAVRA descobre o lugar. Mas vamos encontrá-la estremunhada num cenário em branco, em monólogo, uma vez mais.]

PALAVRA: Encontrei-me por te encontrar. Logo agora, que me perdi.


[#1] Ainda o paradoxo

[Aparece a PALAVRA em cena. Demonstra-se confusa, em estado de desorientação. Franze o sobrolho, com cara de profunda interrogação. Estarrecida questiona-se.]

PALAVRA: Um mergulho no vazio? Precipitar-me aqui? Como, se não há a que me agarrar? Se a folha está vazia?
6
inventa-me feliz com palavras e pássaros
e a cabeça encostada na brancura
com o céu que a lua baixa sobre a terra
e um horizonte vivo de clareiras

habita-me de sons quase iguais às palavras
e de pássaros voando adormecidos
esquece o que hoje esqueces permanece
o risco da ventura

António Franco Alexandre
Visitação V in
Poemas, Assírio & Alvim, 1996
1.
Mas tu existes.
Os dias somam ruína à ruína
E o a vir multiplicará
A miséria.
Apodreço não adubando a terra
E cada dia somado a cada hora
Não completa o tempo.
Sei que existes e multiplicarás
A tua falta.
Somarei a tua ausência à minha escuta
E tu redobrarás a minha vida.

Daniel Faria,
Poesia, Quasi, 2006 

abril 04, 2015

©Josef Koudelka. CZECHOSLOVAKIA. Prague. 1965. Theatre Divadlo Za Branou (Beyond the Gate).
 "Masks from Ostend", a play written by Michel de GHELDERODE and directed by Otomar KREJCA

DA MITOLOGIA
    Primeiro era um deus da noite e da tempestade, ídolo negro e sem olhos, diante do qual saltavam nus e lambuzados de sangue. Mais tarde, nos tempos da república, eram imensos os deuses, com mulheres, filhos, camas desconjuntadas e raios que explodiam inofensivos. Por fim só os neuróticos supersticiosos carregavam no bolso pequenas estátuas de sal, representando o deus da ironia. À época não havia maior deus.
   Vieram então os bárbaros. Também eles tinham em alta estima o pequeno deus da ironia. Esmagavam-no sob os calcanhares, adicionando-o depois aos seus manjares.

Zbigniew Herbert (1924-1998)
(Trad. Rui Knopfli)
Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro, 2001, Assírio&Alvim

Wisława Szymborska

Wisława Szymborska (Polónia, 1923-2012)  
"Há indivíduos que servem para a reprodução e para serem fotografados. Como certas montanhas para certos turistas, e certas espécies animais em certos cios musculados.
   Os canos da cidade são falsificados como as notas, oferecem-te água e roubam os restantes elementos. Porque não há torneiras de terra, ou ar, nem, claro, de fogo. E tal facto mostra como a cozinha do cidadão se encontra afastada da Natureza.
   Até à véspera nenhuma torneira deitara sangue."

Gonçalo M. Tavares, Biblioteca, Campo das Letras, 2006

abril 03, 2015

CANÇÃO DO SONO
Enquanto os meus olhos percorrem a pradaria
sinto o Verão na Primavera

América do Norte, Chippewas
Versão: Herberto Helder 
Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro, 2001, Assírio&Alvim
©Christopher Anderson. VENEZUELA. Caracas. 2006. Reflection in window in Altamira.   
"As minhas tias, aquelas numerosas semi-mães, que se esforçavam por me levar a reboque, mas que me amavam de verdade, tentaram por anos a fio influenciar-me para que eu estabilizasse como alguém que se visse, ou seja, como advogado ou burocrata - a minha indefinição era-lhes profundamente incómoda, não sabiam como conversar comigo, nem quem eu era e, no máximo, remoíam coisas como:
   -Józio - remoíam - Já está mais do que na hora, meu querido! O que dirão as pessoas? Se tu não queres ser médico, pelo menos sê ao menos um mulherengo ou um especialista em cavalos, mas torna-te em alguma coisa... em algo de concreto..."

"Recordações!  A maldita da humanidade reside no facto de a nossa existência neste mundo não tolerar uma hierarquia fixa e definida, visto que tudo flui e reflui em movimento permanente e que cada um de nós tem de ser percebido e avaliado pelos demais, e que a percepção que têm de nós os menos esclarecidos, os mais limitados e burros é-nos tão importante quanto a dos inteligentes, esclarecidos e subtis. Porque o homem, no fundo do seu ser, depende da imagem impressa na alma de outro homem, mesmo que a alma em questão seja a de um cretino. (...) Oh, estes julgamentos humanos, este abismo de conceitos e opiniões sobre a tua inteligência, o teu coração, o teu carácter, sobre todos os pormenores do teu organismo - que agora se expõem face àquele descarado que vestiu os seus pensamentos com letra impressa e os distribuiu aos homens em folhas de papel, oh, papel e mais papel, letras e mais letras.  (...) Na verdade, no mundo do intelecto, a violação é constante, não conseguimos fazer-nos valer por nós mesmos, mas vivemos em função dos outros, temos que ser como os outros nos vêem. (...) Ah a sensação de (...) ser ingénuo porque um ingénuo acha que sou ingénuo-, de ser estúpido porque um estúpido acha que sou estúpido-, de ser verde porque outro imaturo me mergulha e me banha no seu verdor-  ah, isto tudo poderia endoidecer-nos não fosse uma palavra - "mas" - que torna a vida tolerável!

Witold Gombrowicz,
Ferdydurke, 7Nós, 2011

©raquelsav. 2015.WARSOW. Pintura de Håkon Gullvåg
Depois do fim do mundo
depois da morte
me achei no meio da vida
criava a mim mesmo
construía a vida
gente animais paisagens

isto é uma mesa eu dizia
isto é uma mesa
sobre a mesa repousam o pão a faca
a faca serve para cortar o pão

é preciso amar o homem
eu dizia de noite e de dia
o que é preciso amar
eu respondia o homem
[...]
Tadeusz Rózewicz (Trad. Henry Siewierski)

Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro, 2001, Assírio&Alvim


abril 02, 2015

O Medidor de Passos

O Medidor de Passos. 2 Abril (Sessão Extra). Teatro Virgínia AQUI

"1. O actor e o esqueleto

   As palavras inscritas no Osso (é assim que deve ser). O músculo diz a parte interior, isto é: a alma. O músculo diz a alma das palavras, enquanto a parte menor são as letras aparecidas como a surpresa sonora da voz. Quase nada, portanto.
   Porque o músculo é mais importante; e o osso é mais importante. 
   E o texto para o actor é a bengala: a vara de madeira que suporta o coração. Enquanto o coração, esse, é a parte alta do actor; a torre de onde se pode ver Deus e os homens. (E não se deve confundir a bengala com a perna).
   Porque a palavra ajuda-nos a não cair
   e o coração ajuda-nos a subir. É diferente.
   E entre o cair e sujar-se (a terra)
   e o subir e salvar-se (o céu)
   existe o esqueleto do actor: a linguagem da morte (os ossos) tapada pelo tecido da vida: a pele.
   Porque o texto da peça foi encontrado no osso; no seu centro. E o coração do actor é sangue quase tudo, palavras e movimento (e é assim que deve ser)."


"11. Provar no vivo a existência do morto

Não basta beijar a boca, isso é fácil,
é preciso beijar os ossos,
provar que eles existem."

Gonçalo M. Tavares,
A colher de Samuel Beckett e outros texto, Campos das Letras, 2002
©Martine Franck. IRELAND. Donegal. Tory Island. 1995
PLAY PJ Harvey On Battleship Hill

como crianças de mãos dadas
bebendo votos de inocência
condenados a qualquer coisa de verdadeiro
"Vou contar uma história. Como os idiotas. Para ver se o tempo passa. Vou inventar uma história, neste momento. Temos por exemplo um homem e uma mulher. Mas isto não basta, é demasiado equilíbrio, para começar a história é necessário um desequilíbrio, senão é uma ideia e não uma história (pausa). De qualquer modo é assim: havia um homem, uma mulher e uma outra mulher. Portanto, duas mulheres e um homem. Está criado o desequilíbrio, a história está praticamente contada: um homem, duas mulheres, mas é demasiado fácil. Começar novo (pausa)."
Gonçalo M. Tavares,
A colher de Samuel Beckett e outros texto, Campos das Letras, 2002
 ©Josef Koudelka. CZECHOSLOVAKIA. Prague. 1965. Theatre Divadlo Na Zabradli (On The Balustrade).
"Waiting for Godot", a play written by Samuel BECKETT

Estragon: E, dizes tu, que tudo isso aconteceu ontem?

Vladimir: Aconteceu.

Estragon: Aqui?

Vladimir: Sim, aqui. Não reconheces o lugar?

Estragon: (numa exasperação súbita) Reconhecer? Reconhecer o quê? Tenho vivido toda a minha vida atolado no mesmo chiqueiro e vens tu agora exigir que eu distinga tonalidades na paisagem! (Olhando à volta). Olha está estrumeira! Nunca sai disto!

Vladimir: Calma! Calma! 

Estragon: Não me venhas para cá chatear com as tuas paisagens. Fala-me de esgotos!

Vladimir: Está bem, está bem, mas não me venhas dizer que isto (gesto) aqui é parecido com o Ribatejo! A diferença mete-se pelos olhos dentro.

Estragon: O Ribatejo! Quem falou aqui do Ribatejo?

Vladimir: Mas tu já estiveste no Ribatejo.

Estragon: Estás enganado. Nunca estive no Ribatejo. Tenho passado toda a porca da minha vida aqui, digo-te eu. Aqui, na Ribamerda.

Vladimir: A verdade é que estivemos os dois no Ribatejo. Punha as mãos no fogo. Andámos a vindimar para um tipo de que não me lembro o nome.

Estragon: (mais calmo)  Talvez. Não dei por nada.

Vladimir: Lá, tudo é verde.

Estragon: (exaltado) Já te disse que não reparei em nada.

                 Silêncio. Vladimir suspira fundo.

Vladimir: É difícil viver contigo, Gogo.

Estragon: Era melhor separarmo-nos.

Vladimir: Andas sempre a repetir isso. Mas acabas por voltar.

                  Silêncio.

Estragon: O melhor, de facto, seria eu matar-me, como o outro.

Vladimir: Qual outro? (pausa). Quem?

Estragon: Milhões doutros.

Vladimir: (sentencioso) Na vida, cada um tem que levar sua cruz ao calvário. (Suspira). Até morrer e ser esquecido.

Estragon: Entretanto, vamos tentar conversar sem nos irritarmos, já que não somos capazes de estar calados.

Vladimir: É verdade, somos como duas gralhas.

Estragon: É para não pensar.

Vladimir: Temos as nossas desculpas.

Estragon: É para não ouvir.

Vladimir: Temos as nossas razões.

Estragon: Todas as vozes mortas.

Vladimir: São como um sussurro de asas.

Estragon: De folhas.

Vladimir: De areia.

Estragon: De folhas.

                    Silêncio.  

Vladimir: Falam todas ao mesmo tempo.

Estragon: Cada uma para si mesma.

                  Silêncio.

Vladimir: Dir-se-ia que segredam.

Estragon: Murmuram.

Vladimir: Sussurram.

Estragon: Murmuram.

                  Silêncio.

Vladimir: Que é que elas dizem?

Estragon: Falam da vida delas.

Vladimir:  Não lhes basta terem vivido.

Estragon: Não podem fugir a falar disso.

Vladimir:  Não lhes basta estarem mortas.

Estragon: Não é suficiente.

                  Silêncio.

Vladimir:  É como um rumor de penas.

Estragon: De folhas.

Vladimir: De cinzas.

Estragon: De folhas.

                  Silêncio prolongado.

Vladimir:  Diz qualquer coisa!

Estragon: Estou a procurar.

                  Silêncio prolongado.

Vladimir:  (com angústia) Diz qualquer coisa, não importa o quê. Mas fala!

Estragon: O que vamos nós fazer, agora?

Vladimir:  Esperar por Godot!

Estragon: Ah, é verdade!

                  Silêncio.

Vladimir:  Isto é doloroso!


Samuel Beckett
À Espera de Godot, Teatro de Samuel Beckett, Editora Arcádia

abril 01, 2015

©Ferdinando Scianna. LEBANON. Beirut. Civil war. Christian militian. 1976
bem bem existe um país
em que o esquecimento em que pesa o esquecimento
lentamente nos mundos inominados
aí a cabeça aquietamo-la a cabeça está calada
e sabemos não nada sabemos
o canto das bocas mortas morre
no areal fez a viagem
não há nada para chorar

a minha solidão conheço-a vamos lá conheço-a mal
tenho tempo vou achando que tenho tempo de vida
mas que tempo osso faminto a vida do cão
do céu que assola incessante o meu vão de céu
do raio que trepa ocelado fremente
dos mícrons dos anos trevas

querem que vá de A para B não posso
não posso sair estou numa terra sem rastos
sim sim é uma coisa bonita que aí tem uma coisa bem bonita
o que é não me façam mais perguntas
espiral poeira de instantes o que é isso o mesmo
a calma o amor o ódio a calma a calma

Samuel Beckett (Trad. Filipe Jarro)
Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro, 2001, Assírio&Alvim
©Josef Koudelka. ITALY. 1982.



Rasgas as fúrias no vinco do papel.
Ruges de cor sem caninos que perfurem o grito.
Olhas sem sede ou olhos que se vejam.
Rende-te! Éum mero exercício de escrita e a minha mente está tão cansada de se escrever.