|Assim repito o nome e sinto ainda o incêndio no rosto :|| paul celan |Porque é com nomes que alguém sabe | onde estar um corpo| por uma ideia, onde um pensamento | faz a vez da língua.| herberto helder
abril 25, 2015
abril 20, 2015
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| ©Daniel Blaufuks - Mão com espelho, da série "O ofício de viver", 2010 |
"(...) Mas ele ama uma ilha, avista-a
cada noite ao adormecer, sonha com ela
muito, seus fatigados membros cedem
uma dor forte quando apaga os olhos.
Um dia partirá da velha aldeia
e num estranho barco, sem pensar,
navegará. Sem emoção a casa
será abandonada e depois os cantos húmidos
com a flor do limo, a vinha murcha;
os livros, amarelos. Ninguém nunca
saberá quando morreu, a fechadura
ir-se-á cobrindo de um longínquo pó."
Francisco Brines (Trad. José Bento)
Antologia da poesia espanhola Contemporânia, Assírio & Alvim, 1986
abril 18, 2015
PLAY Encontro entre Steiner e António Lobo Antunes
"L.A.: Sabe, é talvez demasiado íntimo falar disto, mas o suicídio é uma coisa que está sempre em mim desde tenra idade. Tive uma série de doenças gravísssimas, em criança, mas sempre houve uma grande tendência auto-destrutiva em mim. Será que eu o podia ter impedido, será que eu o podia ter adivinhado? É o desejo de escrever. A sensação, muito estranha, que não posso explicar de forma racional: eu tenho de escrever, deram-me isto e devo transmiti-lo, não me pertence. E isto sempre me salvou da morte e das ideais de auto-destruição que são constantes em mim, sobretudo entre dois livros, como agora, em que tudo me parece desprovido de sentido.
S.: Hegel, que podia ser muito mau, como todos os grandes pensadores, tinha a seguinte piada: "Por que é que o judeu nunca se mata? Porque quer ler o jornal do dia seguinte." Isto é muito profundo. Já passei por momentos, como todo o ser humano, de terrível depressão: o sentido da mediocridade, a grande decepção, queria ter sido como você, escritor e não um crítico, não um professor. Vivi momentos muito negros, mas, de facto, sempre quis ler o jornal do dia. Sou um apaixonado pela realidade, pelo movimento da realidade, pelo élan, como diria Bergson, o élan da duração. Ora, matar-me significaria não mais ler o jornal. E isso é muito..."
"L.A.: Sabe, é talvez demasiado íntimo falar disto, mas o suicídio é uma coisa que está sempre em mim desde tenra idade. Tive uma série de doenças gravísssimas, em criança, mas sempre houve uma grande tendência auto-destrutiva em mim. Será que eu o podia ter impedido, será que eu o podia ter adivinhado? É o desejo de escrever. A sensação, muito estranha, que não posso explicar de forma racional: eu tenho de escrever, deram-me isto e devo transmiti-lo, não me pertence. E isto sempre me salvou da morte e das ideais de auto-destruição que são constantes em mim, sobretudo entre dois livros, como agora, em que tudo me parece desprovido de sentido.
S.: Hegel, que podia ser muito mau, como todos os grandes pensadores, tinha a seguinte piada: "Por que é que o judeu nunca se mata? Porque quer ler o jornal do dia seguinte." Isto é muito profundo. Já passei por momentos, como todo o ser humano, de terrível depressão: o sentido da mediocridade, a grande decepção, queria ter sido como você, escritor e não um crítico, não um professor. Vivi momentos muito negros, mas, de facto, sempre quis ler o jornal do dia. Sou um apaixonado pela realidade, pelo movimento da realidade, pelo élan, como diria Bergson, o élan da duração. Ora, matar-me significaria não mais ler o jornal. E isso é muito..."
abril 15, 2015
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| ©Angela Bacon-Kidwell | Fade to Black |
PLAY Pearl Jam Black
3
Fica dentro de mim, como se fosse
eterno o movimento do teu corpo,
e na carne rasgada ainda pudesse
a noite escura iluminar-te o rosto.
No teu suor é que adivinho rastro
das palavras de amor que não disseste,
e no teu dorso nu escrevo o verso
em pura solidão acontecido.
Transformo-me nas coisas que tocaste,
crescem-me seios com que te alimente
o coração demente e mal fingido;
depois serei a forma que deixaste
gravada a lume com sabor a cio
na carícia de um gesto fugidio.
António Franco Alexandre,
Duende, Assírio & Alvim, 2002
abril 11, 2015
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| ©Angela Bacon-Kidwell | Yangzhou Chimera |
todo para dentro, o olhar:
A sombra
dupla que um dia fui
divide-se
em duas, erguem-se
as alas da noite - agora vai,
palavra que estiveste tempo de mais no mundo, rola,
sai -
Com os olhos de uma criança, com
os olhos da sua mãe
encontro eu a minha segunda,
a minha primeira
janela.
Paul Celan, A morte é uma flor, Edições Cotovia, 1998
abril 10, 2015
prata, rondada
também pelo voo dos homens, sem
chegar entrava,
redonda,
e nos olhava com olhos de olhar:
então
a palavra dor era uma taça de onde
subia ao nosso encontro a palavra
alegria - subia,
subia e passava por nós, subia
até nós dois, sob
o telhado,
até à cama onde a noite,
mestra
dos nossos corpos, esperava silenciosa, o seu
fundo, negro como o coração, cheio
da manhã.
Paul Celan, A morte é uma flor, Edições Cotovia, 1998
abril 07, 2015
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| ©Josef Koudelka. CZECHOSLOVAKIA. Prague. 1966. Theatre Divadlo Za Branou (Beyond the Gate). "The Three Sisters", a play written by CHEKHOV and directed by Otomar KREJCA |
abril 06, 2015
"O Azar
O senhor Henri disse: as maldições são cálculos matemáticos que acertam no futuro e esperam por nós.
Entretanto, o senhor Henri baixou-se para apertar um sapato e, nesse momento, uma enorme pedra passou por cima da sua cabeça e caiu violentamente no chão.
... a minha sorte foi mais uma vez pontual - disse o senhor Henri, depois de se levantar.
... ou seja: a minha sorte está sempre sincronizada com o meu azar.
... se uma pedra me batesse na cabeça seria azar - disse o senhor Henri. ... mas felizmente veio a sorte de me ter baixado no momento em que a pedra me queria abrir a cabeça. ... as pessoas que têm azar não deixam de ter sorte.
... se uma pedra me batesse na cabeça seria azar - disse o senhor Henri. ... mas felizmente veio a sorte de me ter baixado no momento em que a pedra me queria abrir a cabeça. ... as pessoas que têm azar não deixam de ter sorte.
... o que têm é sorte nos momentos errados - disse. ... é como se no meio do deserto encontrassem um saco cheio de areia... - disse o senhor Henri."
Gonçalo M. Tavares, O Senhor Henri, Caminho, 2003
CONTRA!
Hei-de construir-vos uma cidade de farrapos, eu!
Construir-vos-ei sem planta nem cimento
Um edifício que não destruireis,
E que uma espécie de evidência espumante
Há-de sustentar e inchar, há-de gritar-vos à cara,
E à cara gelada de todos os vossos Pártenons, as vossas artes árabes, e os vossos Mings.
Com fumo, com diluição de nevoeiro
E com o som de pele de tambor
Hei-de edificar-vos fortalezas esmagadoras e soberbas,
Fortalezas exclusivamente feitas de redemoinhos e solavancos,
Contra as quais a vossa ordem multimilenária e a vossa geometria
Ruirão em palermices e sofismas e pó de areia sem razão.
Dlão! Dlão! Dlão! Sobre todos vós, dobre de finados aos vivos!
Sim, creio em Deus! Está claro que ele não sabe de nada!
Fé, solas inúteis para quem não progride.
Ó mundo, mundo estrangulado, ventre frio!
Nem sequer símbolo, mas ausência, eu contra, eu contra,
Eu contra e atulho-te de cães esfaimados.
Às toneladas, estão-me a ouvir, às toneladas, hei-de arrancar-vos tudo aquilo que recusaram em gramas.
O veneno da serpente é o seu fiel companheiro,
É fiel e ela dá-lhe o justo valor.
Irmãos, meus irmãos malditos, segui-me com confiança.
Os dentes do lobo não se retraem do lobo
É a carne de carneiro que retrai.
No escuro veremos claro, meus irmãos.
No labirinto acharemos a via recta.
Carcaça, que fazes aqui, marafona, mijona, penico partido?
Como hás-de sentir, moitão rangente, os cordames tensos de quatro mundo!
Como te hei-de esquartejar!
Henri Michaux
Antologia, Relógio D'Água, 1999
Hei-de construir-vos uma cidade de farrapos, eu!
Construir-vos-ei sem planta nem cimento
Um edifício que não destruireis,
E que uma espécie de evidência espumante
Há-de sustentar e inchar, há-de gritar-vos à cara,
E à cara gelada de todos os vossos Pártenons, as vossas artes árabes, e os vossos Mings.
Com fumo, com diluição de nevoeiro
E com o som de pele de tambor
Hei-de edificar-vos fortalezas esmagadoras e soberbas,
Fortalezas exclusivamente feitas de redemoinhos e solavancos,
Contra as quais a vossa ordem multimilenária e a vossa geometria
Ruirão em palermices e sofismas e pó de areia sem razão.
Dlão! Dlão! Dlão! Sobre todos vós, dobre de finados aos vivos!
Sim, creio em Deus! Está claro que ele não sabe de nada!
Fé, solas inúteis para quem não progride.
Ó mundo, mundo estrangulado, ventre frio!
Nem sequer símbolo, mas ausência, eu contra, eu contra,
Eu contra e atulho-te de cães esfaimados.
Às toneladas, estão-me a ouvir, às toneladas, hei-de arrancar-vos tudo aquilo que recusaram em gramas.
O veneno da serpente é o seu fiel companheiro,
É fiel e ela dá-lhe o justo valor.
Irmãos, meus irmãos malditos, segui-me com confiança.
Os dentes do lobo não se retraem do lobo
É a carne de carneiro que retrai.
No escuro veremos claro, meus irmãos.
No labirinto acharemos a via recta.
Carcaça, que fazes aqui, marafona, mijona, penico partido?
Como hás-de sentir, moitão rangente, os cordames tensos de quatro mundo!
Como te hei-de esquartejar!
Henri Michaux
Antologia, Relógio D'Água, 1999
[#3] Ainda o paradoxo
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| Fita de Möbius- (animação sobre desenho de M. C. Escher) |
Contornamos a topologia das palavras difíceis sem que delas o interior e o exterior encontremos. É sempre à superfície, pela rama, como crentes que rezam de cor, inábeis de joelhos, perante o poema. E redimimo-nos do erro, escrevendo a palavra 70x7 vezes, mas tão perfeitamente incapazes de lê-la.
[#2] Ainda o paradoxo
[Depois de longo caminho percorrido a PALAVRA descobre o lugar. Mas vamos encontrá-la estremunhada num cenário em branco, em monólogo, uma vez mais.]
PALAVRA: Encontrei-me por te encontrar. Logo agora, que me perdi.
PALAVRA: Encontrei-me por te encontrar. Logo agora, que me perdi.
[#1] Ainda o paradoxo
[Aparece a PALAVRA em cena. Demonstra-se confusa, em estado de desorientação. Franze o sobrolho, com cara de profunda interrogação. Estarrecida questiona-se.]
PALAVRA: Um mergulho no vazio? Precipitar-me aqui? Como, se não há a que me agarrar? Se a folha está vazia?
PALAVRA: Um mergulho no vazio? Precipitar-me aqui? Como, se não há a que me agarrar? Se a folha está vazia?
6
inventa-me feliz com palavras e pássaros
e a cabeça encostada na brancura
com o céu que a lua baixa sobre a terra
e um horizonte vivo de clareiras
habita-me de sons quase iguais às palavras
e de pássaros voando adormecidos
esquece o que hoje esqueces permanece
o risco da ventura
António Franco Alexandre
Visitação V in
Poemas, Assírio & Alvim, 1996
inventa-me feliz com palavras e pássaros
e a cabeça encostada na brancura
com o céu que a lua baixa sobre a terra
e um horizonte vivo de clareiras
habita-me de sons quase iguais às palavras
e de pássaros voando adormecidos
esquece o que hoje esqueces permanece
o risco da ventura
António Franco Alexandre
Visitação V in
Poemas, Assírio & Alvim, 1996
1.
Mas tu existes.Os dias somam ruína à ruína
E o a vir multiplicará
A miséria.
Apodreço não adubando a terra
E cada dia somado a cada hora
Não completa o tempo.
Sei que existes e multiplicarás
A tua falta.
Somarei a tua ausência à minha escuta
E tu redobrarás a minha vida.
Daniel Faria,
Poesia, Quasi, 2006








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