junho 13, 2015


ERIGIDAS SOBRE AS NOSSAS FÁBULAS
UMA SUMPTUOSA MORADA

IV
(Há que admitir a nossa ausência do mundo, a nossa confortável segurança perante as marionetas inspiradas com que as crianças sonham. Há que admitir a nossa irrealidade que respeita deambulações dessas criaturas incómodas.)

Edmond Jabès
A obscura palavra do deserto - uma antologia, Edições Cotovia, 1991 

junho 12, 2015

fotograma de "Labirinto do Fauno" de Guillermo del Toro
PLAY Claude Debussy Prélude à L'Après-midi d'un faune


L'APRÈS-MIDI D'UN FAUNE
(A sesta de um fauno)
[Excerto]

(...)
Mas a alma
Vazia de palavras e este corpo rendido
Vergam-se pela tarde ao altivo meio-dia
Em silêncio: a dormir, esquecendo a blasfémia,
Sobre a areia sedente, como eu, a sorver
Com a boca, eficaz, todo o vinho celeste!

Adeus, casal: vou ver a sombra que devieste.

Stéphane Mallarmé
Poesias,  Assírio&Alvim, 2005

junho 11, 2015


Josef Koudelka. CZECHOSLOVAKIA. Prague. 1964.
Theatre On the Balustrade. "King Ubu", a play written by the French playwright Alfred JARRY


ERIGIDAS SOBRE AS NOSSAS FÁBULAS

UMA SUMPTUOSA MORADA

III
Avancei mais do que me permitiam as pupilas. (Lá onde a obscuridade se torna em degraus gratuitos, vertigem roubada à vigilância.)

A idade da transparência habita a memória dos homens.
As guerras contribuem para o seu prestígio.

O teu cabelo é o halo alongado do meu desespero. (Será o teu rosto o astro de que a manhã nasceu?)

As mãos trepavam, selvagens, até à boca do abismo de que ninguém suspeitava ao passar, distraído pelas dobras ondulantes das horas iluminadas que estriam o céu.


Edmond Jabès
A obscura palavra do deserto - uma antologia, Edições Cotovia, 1991 

junho 09, 2015



quando
 G   E   N   U   Í   N   O
rima com
F   E   L   I   N  O
...

junho 08, 2015

Os olhos fechados são fontes de sol e vinho
que, no calor e na sombra ébria,
nos fazem esquecer o mundo.
Por isso subimos de olhos fechados,
em redobrados esforços de equilíbrio,
como se cada passo fosse um passo da Terra,
a rodopiar-satélite sob o nosso corpo imóvel.
Também os sorrisos são armas que matam,
por isso os guardamos tão secretamente
- e vivos -
até à data do reencontro,
onde assinaremos o suicídio comum
e gritaremos, num último suspiro:
- Enfim, sós.

PLAY Bernardo Sassetti Prelúdio para uma história invisível 
"Ao respirar fazemos sombra" *

"RESPOSTA
É assim que respiro,
Não te sei dizer mais:
Respiro como me ensinaste."**
____________________________
*Edmond Jabès
A obscura palavra do deserto - uma antologia, Edições Cotovia, 1991 

**Nuno Rocha Morais,
Últimos Poemas, Quasi Edições, 2009

"Está onde sempre esteve, para onde sempre veio, quando as palavras a cansavam, está longe de qualquer chegada e de qualquer partida: o mundo é este quintal. A cegueira do calor. Não há lugar para Deus. A mulher sabe há muito que o abandono tem os nomes todos. Chama-se pedra, urze, casa, árvore, vide, rua, água, praça, chuva. Mas não deus. Boas tardes: diz-lhe o homem. E uma mosca pousa-lhe na saia. Tudo vem a esse abandono cheio de coisas. E por isso não pode dizer: meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? As suas palavras são pequenas, vão de um objecto a outro e às vezes perdem-se entre eles. O abandono são também essas palavras desorientadas. Deus é um nome que ela não sabe procurar. Deram-lho à nascença e carrega-o como um lugar vazio. Ele é qualquer lugar vazio. Tantas vezes olhou Andreas e viu nele esse lugar vazio. Não que Andreas fosse Deus, mas a sua desolação era a mesma. Vê Andreas e há uma grande estranheza no nome de Deus. Vê o carreiro de formigas e há uma grande estranheza no nome de Deus. Vê a filha e há uma grande estranheza o nome de Deus. Vê-se e há uma grande estranheza o nome de Deus. Quando Andreas a fodia, havia uma grande estranheza no nome de Deus. "

Rui Nunes,
Os Olhos de Himmler, Relógio d'Água, 2009

ERIGIDAS SOBRE AS NOSSAS FÁBULAS

UMA SUMPTUOSA MORADA

II
Os passos são telhados esperados. Ao andar, privo de calor o chão que os meus pés abandonam.


Edmond Jabès
A obscura palavra do deserto - uma antologia, Edições Cotovia, 1991 

junho 05, 2015

Six Feet Under


O esquisso de Thomas Newman

... a série que enterrou qualquer outra série...



ERIGIDAS SOBRE AS NOSSAS FÁBULAS

UMA SUMPTUOSA MORADA

I
Uma sumptuosa morada, as aves por janelas.
(Cor de floresta virgem, aroma raiado de embriagues de asa.)

A noite está na concha da mão. (E também no brilho dos olhos.)

Limites do universo: cada um é germe de infinito.

(Deitada, ela escutava, num ruído de água que se quebra, por cima do seu leito, a onda desenrolando as suas correntes e lançando sobre a praia os sóis decaídos da liberdade ofendida.)

Ao respirar fazemos sombra.

(Em menina, transtornavam-na as manhãs sem mãos, no meio da roda, com a sua imperícia de aleijadas.

Da terra, lembrar-se á do riso do arco esbaforido, oscilando no caminho, e do suspiro das cortinas poeirentas que erguia até à aurora?)

A pouco e pouco as paredes afrouxaram o seu abraço, porque não há amor eterno entre as pedras. Uma a uma redescobriram, nas ruínas, o anonimato do seu destino.


Edmond Jabès
A obscura palavra do deserto - uma antologia, Edições Cotovia, 1991 

junho 03, 2015


PLAY Samuel Úria e Manel Lenço Enxuto

Verdade: espelho que dói sem meia medida.
Deveria ser dado que morrêssemos
Com um amor ainda vivo em nós,
Como deveria ser dado a um pássaro
Morrer naturalmente em pleno voo.


Nuno Rocha Morais,
Últimos Poemas, Quasi Edições, 2009


junho 02, 2015

como reminiscências polidas

PLAY Patti Smith Smells Like Teen Spirits
ESCREVO-TE DE UM PAÍS QUE PESA

Tão bela como a mão da amada
sobre o mar.
Tão sozinha.

Escrevo para ti. A dor é uma concha. Nela se ouve o coração perlar.
Escrevo para ti no limiar do idílio, para a planta das folhas
de água, dos espinhos de chamas, para a rosa de amor.
Escrevo para nada, para as palavras luzentes que a minha morte
traça, para o instante de vida eternamente devido.

Tão bela como a mão da amada
sobre o sinal.
Tão sozinha.

Escrevo para todos. Escrevo-te de um país que pesa como os
passos do forçado, de uma cidade igual às outras onde os gritos camuflados 
se torcem nas montras; de um quarto onde as 
pestanas a pouco e pouco destruíram o silêncio.
Tu és, predestinada destinadora, a minha razão de escrever;
alegre inspiradora do dia e da noite.
Tu és o colo de cisne sedento de azul.

Tão bela como a mão da amada
sobre os olhos.
Tão doce.

Eu escrevo com a carne das palavras que chegam, ofegantes
e vermelhas.
É a ti, de facto, que elas cercam. Eu sou todas as palavras
que me habitam e cada uma na minha voz te magnifica.

Eu preciso de ti para amar, para ser amado pelas palavras que 
me elegem. Preciso de sofrer as tuas garras para sobreviver
às feridas do poema.
Flecha e alvo, alternadamente. Preciso de estar à tua mercê
para de mim me libertar.
As palavras ensinaram-me a desconfiar dos objectos que
encarnam.
O rosto é o refúgio do olhos acossados. Aspiro à cegueira.

Tão bela como a mão da amada 
sobre o sorriso da criança.
Tão transparente.

Penso nos brinquedos dos meus cinco anos. Uma vez meus,
foram eles os mestres. Antes de mos darem, julgava poder 
manejá-los segundo a minha fantasia. Depressa vi que os podia
destruir segundo o meu humor; mas se os queria vivos, teria
de respeitar a sua mecânica, a sua alma imortal.
É como a linguagem.
Devo às palavras a alegria e as lágrimas dos meus cadernos
de estudante e dos meus canhenhos de adulto.
E também a minha solidão.
Devo às palavras a minha inquietação. Tento responder às suas
questões, que são as minhas ardentes interrogações.

Edmond Jabès
A obscura palavra do deserto - uma antologia, Edições Cotovia, 1991 

junho 01, 2015

Ao teu lado, mudo.
Suponho que pousei a mão
No teu ombro, não sei,
Ausentes ambos,
Tu do ombro, eu da mão.
Lá fora, não muito longe
Do vidro, a manhã passa
E é calma, tristeza, fim.


Nuno Rocha Morais,
Últimos Poemas, Quasi Edições, 2009
©Josef Koudelka
A dança lê o espaço
E só onde pousa o corpo
Não é vazio.
Conhecereis o deslumbre
De um mundo que só existe 
A cada gesto.

Nuno Rocha Morais,
Últimos Poemas, Quasi Edições, 2009

maio 26, 2015

©Francesca Woodman
PLAY Nick Cave & Bad Seeds Stranger than Kindness
"Era um homem que banalizava o mundo para poder ser nele acolhido sem drama, que transformava o horror e a maldade em lugares-comuns, para não sentir remorsos. E, apesar do meu ódio, também eu o amava, porque a indiferença que ele introduzia na sua vida e na dos outros me dava uma paz intensa, por isso estava prestes a segui-lo numa viagem, numa deserção, ou num crime. Assim me tornava a cúmplice perfeita, colada aos seus passos, fascinada pela sua voz. Perto dele, as palavras regressavam com uma fluência mentirosa, como se tivéssemos voltado da morte e tudo pudesse ser dito. Todos os gestos pudessem ser feitos"

Rui Nunes,
Os Olhos de Himmler, Relógio d'Água, 2009

maio 20, 2015

19
Já nasceste a saber o que eu não sei,
o que o lume na água mais procura;
se me dás de beber vou ter a sede
incessante da fonte mais impura.
Cada noite te peço que imagines
uma outra fina, elementar tortura,
como essa, de nunca mais arder
o corpo que no corpo se insinua.
Por cada gesto teu, leio almanaques
de vãs filosofias, para ter
a réplica prevista à sua altura;
por cada lábio, sou mais sábio que
toda a corte celeste talmudista;
e ainda não sei o que ao nascer sabias.

António Franco Alexandre,

Duende,  Assírio&Alvim, 2003


15
Se nas palavras vou um pouco sempre
adiantado, como uma quimera
daquelas bem reais que têm bico
e corpo de lagarto? e rosto humano?
é que também não vivo neste instante
mas noutro, inteiramente coincidente.
Jamais aceitarei que o mundo seja
vago manto de montanhas,
alguns bichos na água, outros em terra,
outros voando em fútil incerteza.
Se me prendo ao teu rumor ausente
não é que me consuma numa imagem
ou deseje real o imaginado;
é por outro real em ti presente.

António Franco Alexandre
Duende, Assírio&Alvim, 2003