junho 20, 2015

All I need is Bach

PLAY Al Berto

"No centro da cidade, um grito. 
Nele morrerei, escrevendo o que a vida me deixar. 
E sei que cada palavra escrita é um dardo envenenado, tem a dimensão de um túmulo, e todos os teus gestos são uma sinalização em direção à morte. Mas hoje, ainda longe daquele grito, sento-me na fímbria do mar.
Medito no meu regresso. 
Possuo para sempre tudo o que perdi. 
E uma abelha pousa no azul do lírio, e no cardo que sobreviveu à geada. Bebo, fumo, mantenho-me atento, absorto - aqui sentado, junto à janela fechada. 
Ouço-te ciciar amo-te pela primeira vez, e na tênue luminosidade que se recolhe ao horizonte acaba o corpo. 
Recolho o mel, guardo a alegria, e digo-te baixinho: Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite do mundo que nos foge."

O erro

©Elliott Erwitt SPAIN. Madrid. 1995. Prado Museum.
PLAY Carlos Seixas Toccata e Menuet (Piano)
"Eu não cometo erros desses. Eu cometo erros daqueles.
(Não cometer o erro num lado é cometer o erro noutro. Porque há um equilíbrio entre as coisas. Há dois lados que têm coisas.)
Se tu não falhaste, procura onde falhaste, pois não há o não falhar, só o olhar para o sítio onde não se falha.
Olha, então, para o outro sítio. As tuas costas."
Gonçalo M. Tavares
Breves notas sobre a ciência, Relógio D'Água, 2012

junho 16, 2015

[#2] 100palavras... e vira o disco

[#1] 100palavras

©Elliott Erwitt NICARAGUA. Managua. 1957

quando
P   A   R   E   C   E   R
não rima com
S   E   R
PLAY Anna Calvi, David Byrne Strange Weather

junho 15, 2015

doce ironia


©Cornell Capa. International Center of Photography 
PARAGUAY. 1955. Political prisoner.
NÃO CHORO

A dor não me pertence.

Vive fora de mim, na natureza,
livre como a electricidade.

Carrega os céus de sombra,
entra nas plantas,
desfaz as flores...

Corre nas veias do ar,
atrai nos abismos,
curva os pinheiros...

E em certos momentos de penumbra 
iguala-me à paisagem,
surge nos meus olhos
presa a um pássaro a morrer
no céu indiferente.

Mas não choro. Não vale a pena!
A dor não é humana.

José Gomes Ferreira
Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro, 2001, Assírio&Alvim

junho 14, 2015

PLAY This mortal coil Song to the siren

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou  em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol a fingir de novo
todas as manhãs, convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão
de convite para o ritual do Grande Desfazer:
"Fulano de tal comunica ao mundo que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio.". E então, solenemente, com passos de reter
tempo, fatos escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir à
despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio. "Adeus! Adeus"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento, numa lassidão de arrancar
raízes... (primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos...)
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se em fumo... tão
leve... tão subtil... tão pólen... como aquela nuvem além (vêem?) - nesta
tarde de Outono ainda tocada por um vento de lábios azuis...

José Gomes Ferreira, Viver sempre também cansa

in Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora, 2009

junho 13, 2015


ERIGIDAS SOBRE AS NOSSAS FÁBULAS
UMA SUMPTUOSA MORADA

V
Encontrei-te no caminho imaculado que leva para além dos cumes.
Sabíamos nós, no topo das nossas forças, que deveríamos deixar-nos cair, dolorosos diamantes, na água regeneradora?

Edmond Jabès
A obscura palavra do deserto - uma antologia, Edições Cotovia, 1991 

ERIGIDAS SOBRE AS NOSSAS FÁBULAS
UMA SUMPTUOSA MORADA

IV
(Há que admitir a nossa ausência do mundo, a nossa confortável segurança perante as marionetas inspiradas com que as crianças sonham. Há que admitir a nossa irrealidade que respeita deambulações dessas criaturas incómodas.)

Edmond Jabès
A obscura palavra do deserto - uma antologia, Edições Cotovia, 1991 

junho 12, 2015

fotograma de "Labirinto do Fauno" de Guillermo del Toro
PLAY Claude Debussy Prélude à L'Après-midi d'un faune


L'APRÈS-MIDI D'UN FAUNE
(A sesta de um fauno)
[Excerto]

(...)
Mas a alma
Vazia de palavras e este corpo rendido
Vergam-se pela tarde ao altivo meio-dia
Em silêncio: a dormir, esquecendo a blasfémia,
Sobre a areia sedente, como eu, a sorver
Com a boca, eficaz, todo o vinho celeste!

Adeus, casal: vou ver a sombra que devieste.

Stéphane Mallarmé
Poesias,  Assírio&Alvim, 2005

junho 11, 2015


Josef Koudelka. CZECHOSLOVAKIA. Prague. 1964.
Theatre On the Balustrade. "King Ubu", a play written by the French playwright Alfred JARRY


ERIGIDAS SOBRE AS NOSSAS FÁBULAS

UMA SUMPTUOSA MORADA

III
Avancei mais do que me permitiam as pupilas. (Lá onde a obscuridade se torna em degraus gratuitos, vertigem roubada à vigilância.)

A idade da transparência habita a memória dos homens.
As guerras contribuem para o seu prestígio.

O teu cabelo é o halo alongado do meu desespero. (Será o teu rosto o astro de que a manhã nasceu?)

As mãos trepavam, selvagens, até à boca do abismo de que ninguém suspeitava ao passar, distraído pelas dobras ondulantes das horas iluminadas que estriam o céu.


Edmond Jabès
A obscura palavra do deserto - uma antologia, Edições Cotovia, 1991 

junho 09, 2015



quando
 G   E   N   U   Í   N   O
rima com
F   E   L   I   N  O
...

junho 08, 2015

Os olhos fechados são fontes de sol e vinho
que, no calor e na sombra ébria,
nos fazem esquecer o mundo.
Por isso subimos de olhos fechados,
em redobrados esforços de equilíbrio,
como se cada passo fosse um passo da Terra,
a rodopiar-satélite sob o nosso corpo imóvel.
Também os sorrisos são armas que matam,
por isso os guardamos tão secretamente
- e vivos -
até à data do reencontro,
onde assinaremos o suicídio comum
e gritaremos, num último suspiro:
- Enfim, sós.

PLAY Bernardo Sassetti Prelúdio para uma história invisível 
"Ao respirar fazemos sombra" *

"RESPOSTA
É assim que respiro,
Não te sei dizer mais:
Respiro como me ensinaste."**
____________________________
*Edmond Jabès
A obscura palavra do deserto - uma antologia, Edições Cotovia, 1991 

**Nuno Rocha Morais,
Últimos Poemas, Quasi Edições, 2009

"Está onde sempre esteve, para onde sempre veio, quando as palavras a cansavam, está longe de qualquer chegada e de qualquer partida: o mundo é este quintal. A cegueira do calor. Não há lugar para Deus. A mulher sabe há muito que o abandono tem os nomes todos. Chama-se pedra, urze, casa, árvore, vide, rua, água, praça, chuva. Mas não deus. Boas tardes: diz-lhe o homem. E uma mosca pousa-lhe na saia. Tudo vem a esse abandono cheio de coisas. E por isso não pode dizer: meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? As suas palavras são pequenas, vão de um objecto a outro e às vezes perdem-se entre eles. O abandono são também essas palavras desorientadas. Deus é um nome que ela não sabe procurar. Deram-lho à nascença e carrega-o como um lugar vazio. Ele é qualquer lugar vazio. Tantas vezes olhou Andreas e viu nele esse lugar vazio. Não que Andreas fosse Deus, mas a sua desolação era a mesma. Vê Andreas e há uma grande estranheza no nome de Deus. Vê o carreiro de formigas e há uma grande estranheza no nome de Deus. Vê a filha e há uma grande estranheza o nome de Deus. Vê-se e há uma grande estranheza o nome de Deus. Quando Andreas a fodia, havia uma grande estranheza no nome de Deus. "

Rui Nunes,
Os Olhos de Himmler, Relógio d'Água, 2009

ERIGIDAS SOBRE AS NOSSAS FÁBULAS

UMA SUMPTUOSA MORADA

II
Os passos são telhados esperados. Ao andar, privo de calor o chão que os meus pés abandonam.


Edmond Jabès
A obscura palavra do deserto - uma antologia, Edições Cotovia, 1991 

junho 05, 2015

Six Feet Under


O esquisso de Thomas Newman

... a série que enterrou qualquer outra série...



ERIGIDAS SOBRE AS NOSSAS FÁBULAS

UMA SUMPTUOSA MORADA

I
Uma sumptuosa morada, as aves por janelas.
(Cor de floresta virgem, aroma raiado de embriagues de asa.)

A noite está na concha da mão. (E também no brilho dos olhos.)

Limites do universo: cada um é germe de infinito.

(Deitada, ela escutava, num ruído de água que se quebra, por cima do seu leito, a onda desenrolando as suas correntes e lançando sobre a praia os sóis decaídos da liberdade ofendida.)

Ao respirar fazemos sombra.

(Em menina, transtornavam-na as manhãs sem mãos, no meio da roda, com a sua imperícia de aleijadas.

Da terra, lembrar-se á do riso do arco esbaforido, oscilando no caminho, e do suspiro das cortinas poeirentas que erguia até à aurora?)

A pouco e pouco as paredes afrouxaram o seu abraço, porque não há amor eterno entre as pedras. Uma a uma redescobriram, nas ruínas, o anonimato do seu destino.


Edmond Jabès
A obscura palavra do deserto - uma antologia, Edições Cotovia, 1991