|Assim repito o nome e sinto ainda o incêndio no rosto :|| paul celan |Porque é com nomes que alguém sabe | onde estar um corpo| por uma ideia, onde um pensamento | faz a vez da língua.| herberto helder
junho 20, 2015
PLAY Al Berto
"No centro da cidade, um grito.
Nele morrerei, escrevendo o que a vida me deixar.
E sei que cada palavra escrita é um dardo envenenado, tem a dimensão de um túmulo, e todos os teus gestos são uma sinalização em direção à morte. Mas hoje, ainda longe daquele grito, sento-me na fímbria do mar.
Medito no meu regresso.
Possuo para sempre tudo o que perdi.
E uma abelha pousa no azul do lírio, e no cardo que sobreviveu à geada. Bebo, fumo, mantenho-me atento, absorto - aqui sentado, junto à janela fechada.
Ouço-te ciciar amo-te pela primeira vez, e na tênue luminosidade que se recolhe ao horizonte acaba o corpo.
Recolho o mel, guardo a alegria, e digo-te baixinho: Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite do mundo que nos foge."
O erro
![]() |
| ©Elliott Erwitt SPAIN. Madrid. 1995. Prado Museum. |
"Eu não cometo erros desses. Eu cometo erros daqueles.
(Não cometer o erro num lado é cometer o erro noutro. Porque há um equilíbrio entre as coisas. Há dois lados que têm coisas.)
Se tu não falhaste, procura onde falhaste, pois não há o não falhar, só o olhar para o sítio onde não se falha.
Olha, então, para o outro sítio. As tuas costas."
Gonçalo M. Tavares
Breves notas sobre a ciência, Relógio D'Água, 2012
junho 16, 2015
![]() |
| ©Elliott Erwitt NICARAGUA. Managua. 1957 quando P A R E C E R não rima com S E R |
junho 15, 2015
doce ironia
![]() |
©Cornell Capa. International Center of Photography
PARAGUAY. 1955. Political prisoner.
|
NÃO CHORO
A dor não me pertence.
Vive fora de mim, na natureza,
livre como a electricidade.
Carrega os céus de sombra,
entra nas plantas,
desfaz as flores...
Corre nas veias do ar,
atrai nos abismos,
curva os pinheiros...
E em certos momentos de penumbra
iguala-me à paisagem,
surge nos meus olhos
presa a um pássaro a morrer
no céu indiferente.
Mas não choro. Não vale a pena!
A dor não é humana.
José Gomes Ferreira
Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro, 2001, Assírio&Alvim
junho 14, 2015
PLAY This mortal coil Song to the siren
Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol a fingir de novo
todas as manhãs, convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão
de convite para o ritual do Grande Desfazer:
"Fulano de tal comunica ao mundo que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio.". E então, solenemente, com passos de reter
tempo, fatos escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir à
despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio. "Adeus! Adeus"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento, numa lassidão de arrancar
raízes... (primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos...)
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se em fumo... tão
leve... tão subtil... tão pólen... como aquela nuvem além (vêem?) - nesta
tarde de Outono ainda tocada por um vento de lábios azuis...
José Gomes Ferreira, Viver sempre também cansa
Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol a fingir de novo
todas as manhãs, convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão
de convite para o ritual do Grande Desfazer:
"Fulano de tal comunica ao mundo que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio.". E então, solenemente, com passos de reter
tempo, fatos escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir à
despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio. "Adeus! Adeus"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento, numa lassidão de arrancar
raízes... (primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos...)
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se em fumo... tão
leve... tão subtil... tão pólen... como aquela nuvem além (vêem?) - nesta
tarde de Outono ainda tocada por um vento de lábios azuis...
José Gomes Ferreira, Viver sempre também cansa
in Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora, 2009
junho 13, 2015
ERIGIDAS SOBRE AS NOSSAS FÁBULAS
UMA SUMPTUOSA MORADA
V
Encontrei-te no caminho imaculado que leva para além dos cumes.
Sabíamos nós, no topo das nossas forças, que deveríamos deixar-nos cair, dolorosos diamantes, na água regeneradora?
Edmond Jabès
A obscura palavra do deserto - uma antologia, Edições Cotovia, 1991
ERIGIDAS SOBRE AS NOSSAS FÁBULAS
UMA SUMPTUOSA MORADA
IV
(Há que admitir a nossa ausência do mundo, a nossa confortável segurança perante as marionetas inspiradas com que as crianças sonham. Há que admitir a nossa irrealidade que respeita deambulações dessas criaturas incómodas.)
Edmond Jabès
A obscura palavra do deserto - uma antologia, Edições Cotovia, 1991
junho 12, 2015
![]() |
| fotograma de "Labirinto do Fauno" de Guillermo del Toro |
(A sesta de um fauno)
[Excerto]
(...)
Mas a alma
Vazia de palavras e este corpo rendido
Vergam-se pela tarde ao altivo meio-dia
Em silêncio: a dormir, esquecendo a blasfémia,
Sobre a areia sedente, como eu, a sorver
Com a boca, eficaz, todo o vinho celeste!
Adeus, casal: vou ver a sombra que devieste.
Stéphane Mallarmé
Poesias, Assírio&Alvim, 2005
junho 11, 2015
![]() |
| Josef Koudelka. CZECHOSLOVAKIA. Prague. 1964. Theatre On the Balustrade. "King Ubu", a play written by the French playwright Alfred JARRY |
ERIGIDAS SOBRE AS NOSSAS FÁBULAS
UMA SUMPTUOSA MORADA
III
Avancei mais do que me permitiam as pupilas. (Lá onde a obscuridade se torna em degraus gratuitos, vertigem roubada à vigilância.)
A idade da transparência habita a memória dos homens.
As guerras contribuem para o seu prestígio.
O teu cabelo é o halo alongado do meu desespero. (Será o teu rosto o astro de que a manhã nasceu?)
As mãos trepavam, selvagens, até à boca do abismo de que ninguém suspeitava ao passar, distraído pelas dobras ondulantes das horas iluminadas que estriam o céu.
Edmond Jabès
A obscura palavra do deserto - uma antologia, Edições Cotovia, 1991
junho 08, 2015
Os olhos fechados são fontes de sol e vinho
que, no calor e na sombra ébria,
nos fazem esquecer o mundo.
Por isso subimos de olhos fechados,
em redobrados esforços de equilíbrio,
como se cada passo fosse um passo da Terra,
a rodopiar-satélite sob o nosso corpo imóvel.
Também os sorrisos são armas que matam,
por isso os guardamos tão secretamente
- e vivos -
até à data do reencontro,
onde assinaremos o suicídio comum
e gritaremos, num último suspiro:
- Enfim, sós.
PLAY Bernardo Sassetti Prelúdio para uma história invisível
que, no calor e na sombra ébria,
nos fazem esquecer o mundo.
Por isso subimos de olhos fechados,
em redobrados esforços de equilíbrio,
como se cada passo fosse um passo da Terra,
a rodopiar-satélite sob o nosso corpo imóvel.
Também os sorrisos são armas que matam,
por isso os guardamos tão secretamente
- e vivos -
até à data do reencontro,
onde assinaremos o suicídio comum
e gritaremos, num último suspiro:
- Enfim, sós.
PLAY Bernardo Sassetti Prelúdio para uma história invisível
"Está onde sempre esteve, para onde sempre veio, quando as palavras a cansavam, está longe de qualquer chegada e de qualquer partida: o mundo é este quintal. A cegueira do calor. Não há lugar para Deus. A mulher sabe há muito que o abandono tem os nomes todos. Chama-se pedra, urze, casa, árvore, vide, rua, água, praça, chuva. Mas não deus. Boas tardes: diz-lhe o homem. E uma mosca pousa-lhe na saia. Tudo vem a esse abandono cheio de coisas. E por isso não pode dizer: meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? As suas palavras são pequenas, vão de um objecto a outro e às vezes perdem-se entre eles. O abandono são também essas palavras desorientadas. Deus é um nome que ela não sabe procurar. Deram-lho à nascença e carrega-o como um lugar vazio. Ele é qualquer lugar vazio. Tantas vezes olhou Andreas e viu nele esse lugar vazio. Não que Andreas fosse Deus, mas a sua desolação era a mesma. Vê Andreas e há uma grande estranheza no nome de Deus. Vê o carreiro de formigas e há uma grande estranheza no nome de Deus. Vê a filha e há uma grande estranheza o nome de Deus. Vê-se e há uma grande estranheza o nome de Deus. Quando Andreas a fodia, havia uma grande estranheza no nome de Deus. "
Rui Nunes,
Rui Nunes,
Os Olhos de Himmler, Relógio d'Água, 2009
junho 05, 2015
ERIGIDAS SOBRE AS NOSSAS FÁBULAS
UMA SUMPTUOSA MORADA
I
Uma sumptuosa morada, as aves por janelas.
(Cor de floresta virgem, aroma raiado de embriagues de asa.)
A noite está na concha da mão. (E também no brilho dos olhos.)
Limites do universo: cada um é germe de infinito.
(Deitada, ela escutava, num ruído de água que se quebra, por cima do seu leito, a onda desenrolando as suas correntes e lançando sobre a praia os sóis decaídos da liberdade ofendida.)
Ao respirar fazemos sombra.
(Em menina, transtornavam-na as manhãs sem mãos, no meio da roda, com a sua imperícia de aleijadas.
Da terra, lembrar-se á do riso do arco esbaforido, oscilando no caminho, e do suspiro das cortinas poeirentas que erguia até à aurora?)
A pouco e pouco as paredes afrouxaram o seu abraço, porque não há amor eterno entre as pedras. Uma a uma redescobriram, nas ruínas, o anonimato do seu destino.
Edmond Jabès
A obscura palavra do deserto - uma antologia, Edições Cotovia, 1991





