junho 29, 2015

PLAY Danças Ocultas Tarab
18
Tudo fica reduzido à necessidade
de preencher espaços;
em casos extremos de desespero 
    (como é este)
nem sequer importa com quê.

O importante é desterrar o vazio
exilá-lo de nós.
Ainda que o façamos sabendo
que à queda do regime
voltará,
mais forte e profundo
denunciando tudo,
ao seu lugar de origem.

Miriam Reyes
Terra e Sangue, Cosmorama Edições, 2008

junho 27, 2015

©Josef Koudelka-prague-1968
PLAY Rodrigo Leão Aviões de Papel

Como aviões de papel atirados a rios sem horizonte
que nadam, que nadam, que nadam
em pasta de papel.
[POEMA]

A noite está líquida     oclusa    vegetal
é um corpo longilíneo e desmembrado
flui como um rio de si mesmo alheio
flui e envolve presagiando cárceres
a noite tem hoje uma altitude especial
com aves negrejando lentamente
neste desintegrar-se de memória

e eu sou uma alucinação rítmica
com um tempo corpóreo a devorar
um mar excessivamente quieto na cabeça
excessivamente muscular e lúcido

a noite distribui pedaços de lua
aos farrapos    na inconsciência dos prédios
sobre a cidade    a cidade    a cidade louca
que desvairou nas minhas mãos    nos dedos
possuída de um candelabro antigo a partir-se
um lampadário cristalino e rutilante
a quebrar-se com súbitos estilhaços pela noite fora

viajo nitidamente pelo passado
na organização de um jogo de perigo:

o meu amor é a aquisição de uma técnica
um processo de transformação dos corpos
a prospecção dramática dos ritos
uma queda livre e vertical
um olhar imóvel sobre o mar
a oferta do tempo    sem comércio nem ódio
fibra a fibra
do tempo crivado de buracos    baleado
assassinado    corrupto    perdido

o meu amor é a correcta magia dos sons
a ultrapassagem da noite
fulminante e arrebatada    num círculo de fogo
coberta de engenhos de destruição
correndo extensamente sem peso

o meu amor é uma trovoada nas margens da noite
uma proposta veinulada a sangue
patrocinada pelos mortos deambulantes
e é ainda a carcassa húmida dos barcos
destroçada n'areia

a noite é um coral magnífico na noite

Manuel de Castro
in Edoi Lelia Doura: antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa
organizada por Herberto Helder, Assírio&Alvim, 1985

junho 25, 2015

O sal da terra

©Sebastião Salgado. Poço de petróleo em chamas no Kuwait. 
PLAY Trailer O sal da terra

"Eu sempre receara ficar mais ou menos vazio; não ter, em suma, qualquer razão séria para existir. Naquele momento, perante factos estava bastante ciente do meu zero individual. Num meio tão diferente daquele onde tinha hábitos mesquinhos, foi como se me dissolvesse instantaneamente. Sentia-me perto de já não existir, muito simplesmente. Por isso, mal me tinham deixado de falar das coisas familiares, eu descobrira que nada me impedia de afundar numa espécie de irresistível tédio, numa espécie de adocicada, de assustadora catástrofe de alma. Uma aversão."

Louis-Ferdinand Céline
Viagem ao fim da noite, Ulisseia, 2010

junho 24, 2015

©Ernst Ludwig Kirchner, Artillerymen, 1915
PLAY Hans Werner Henze  Viertes Streichquartt (1976) In memoriam Victor Jara


[CAPELA]
Vão escuros nas lenhas onde acendem
os olhos mirrados na carne

voltejam do terror em ladainha
enfermos nas bocas negras,

amam como cães, bentos pela água 
calvos ao desgosto do pai,

mostram os buracos do copo
ajoelham erectos nas chagas,

fazem na escuridão o ofício de deus,

apagam a luz dos postigos
cobrem as vísceras de incêndio,

pedem os dias a deus.

Alexandre Nave
Vão Cães Acesos pela Noite, Quasi
vésperas palestinas

nestes lugares que rodeiam a cidade,
os homens são desencontrados vultos
que transportam um país estranho:
foram deixando os mortos para trás,
despojos de uma guerra que o luxo rasurou:
nas praias inclementes sobrevoam-nos gaivotas
cuja fome é a sombra de um dia sem poeira;
nestes lugares cercados pela cidade,
abriga-se um deus que desconhece
o longo entardecer da eternidade

aqui, todos os dias são ínfimas viagens
e o teu nome vem nos outros nomes
como um emigrante clandestino

Rui Nunes
Ofício de Vésperas, Relógio D'Água, 2007

junho 23, 2015

©Francesca Woodman
PLAY Wim Mertens Gerausch
Pintar o mundo é escrever o orto do elemento,
é fabricar o pigmento primário: 
da textura da terra;
do aroma da água;
da aurora do fogo;
na distância do ar.

Pintar o mundo é erguer a essência da mão
ao fulgor do éter,
é pintar de branco e dar cor,
é lançar a vogal à terra e amanhá-la.

Pintar o mundo é beber do silêncio,
com que se desenha o poema e escreve a pintura.

Pintar o mundo é abrir a mão à paisagem 
e confiar que tudo, nela, se transfigura.



junho 22, 2015

©Francesca Woodman
PLAY Dead can Dance Anastasis

ESTES VERSOS HERÓICOS
Se tivesse uma cabeça cintilante
e as pessoas se voltassem para me olhar
nos eléctricos
e pudesse espreguiçar o meu corpo
na água luminosa
e nadar com os peixes e as serpentes de água;
se pudesse destruir as minhas penas
voando diante do sol;
pensas que ficaria neste quarto
recitando-te poemas
e construindo sonhos excessivos
com os menores movimentos da tua boca?

Leonard Cohen
Poemas e Canções, Vol I,  Relógio D'Água, 1999

sopra dente-de-leão

- As montanhas parecem acessório de filme, onde nascem os dragões
©Jacob Aue Sobol GREENLAND. Tiniteqilaaq. 2002. Greenlandic Sabine MAQE.

PLAY Cat Power Metal Heart

A metade que voa é um pássaro mítico indomável.
A outra metade são despojos de poesia consumada.
De tudo, nada sobra para ficar. De nada, tudo resta para partir.
"uma palavra vem atrás de outra, que vem atrás de outra. E levam-no para longe. Cada uma delas é o troço de um caminho que ele percorre, com um sentido diferente da anterior. Por isso há tantos desvios. Cada palavra indica um caminho que a palavra seguinte muda. Falas de um modo tão estranho: dizem-lhe. Ele sabe isso, mas nada pode fazer. Porque, embora pareça ser ele quem fala, na verdade não é: as palavras usam os seus lábios, como hóspedes que não se demoram nele, ansiosos. Nunca se perdem no mundo: perdem-se umas nas outras.(...) Dão-lhe espaço. Habituam-no a um espaço vazio. Cada vez mais vazio. Que está a crescer, até se tornar do tamanho do seu corpo."

Rui Nunes,
Os Olhos de Himmler, Relógio d'Água, 2009
"a fome torna equivalentes todos os bichos do mundo. Também os homens"

Rui Nunes,
Os Olhos de Himmler, Relógio d'Água, 2009

junho 20, 2015

All I need is Bach

PLAY Al Berto

"No centro da cidade, um grito. 
Nele morrerei, escrevendo o que a vida me deixar. 
E sei que cada palavra escrita é um dardo envenenado, tem a dimensão de um túmulo, e todos os teus gestos são uma sinalização em direção à morte. Mas hoje, ainda longe daquele grito, sento-me na fímbria do mar.
Medito no meu regresso. 
Possuo para sempre tudo o que perdi. 
E uma abelha pousa no azul do lírio, e no cardo que sobreviveu à geada. Bebo, fumo, mantenho-me atento, absorto - aqui sentado, junto à janela fechada. 
Ouço-te ciciar amo-te pela primeira vez, e na tênue luminosidade que se recolhe ao horizonte acaba o corpo. 
Recolho o mel, guardo a alegria, e digo-te baixinho: Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite do mundo que nos foge."

O erro

©Elliott Erwitt SPAIN. Madrid. 1995. Prado Museum.
PLAY Carlos Seixas Toccata e Menuet (Piano)
"Eu não cometo erros desses. Eu cometo erros daqueles.
(Não cometer o erro num lado é cometer o erro noutro. Porque há um equilíbrio entre as coisas. Há dois lados que têm coisas.)
Se tu não falhaste, procura onde falhaste, pois não há o não falhar, só o olhar para o sítio onde não se falha.
Olha, então, para o outro sítio. As tuas costas."
Gonçalo M. Tavares
Breves notas sobre a ciência, Relógio D'Água, 2012

junho 16, 2015

[#2] 100palavras... e vira o disco

[#1] 100palavras

©Elliott Erwitt NICARAGUA. Managua. 1957

quando
P   A   R   E   C   E   R
não rima com
S   E   R
PLAY Anna Calvi, David Byrne Strange Weather