|Assim repito o nome e sinto ainda o incêndio no rosto :|| paul celan |Porque é com nomes que alguém sabe | onde estar um corpo| por uma ideia, onde um pensamento | faz a vez da língua.| herberto helder
julho 03, 2015
"Não é pequena lástima e confusão que, por nossa culpa, não nos entendamos a nós mesmos, nem saibamos quem somos. Não seria grande ignorância, minhas filhas, que perguntassem a alguém quem era e não se conhecesse, nem soubesse quem foi seu pai, nem sua mãe, nem sua terra? Pois, se isto seria grande estupidez, sem comparação é maior a que há em nós quando não nos procuramos saber que coisa somos e só nos detemos nestes corpos; e assim, só a vulto sabemos que temos alma, porque o ouvimos e porque no-lo diz a fé. Mas, que bens pode haver nesta alma ou quem está dentro dela, ou o seu grande valor, poucas vezes considerarmos; e assim se tem em tão pouco procurar com todo o cuidado conservar sua formosura. Tudo se nos vai na grosseria do engaste ou cerca deste castelo, que são estes corpos."
Santa Teresa de Jesus (Ávila),
As Moradas, Edições Carmelo 2006
Santa Teresa de Jesus (Ávila),
As Moradas, Edições Carmelo 2006
julho 02, 2015
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| fotograma de Cavalo de Turim de Béla Tarr |
Aborrecemo-nos com o que nos dizemos - cada um de nós é muito pouco para se bastar;
Somos demasiado egoístas para um diálogo - mas incapazes de sustentar um solilóquio;
Somos demasiado egoístas para um diálogo - mas incapazes de sustentar um solilóquio;
Crescemos como seres de inaudíveis silêncios - matamos por algo que nos acompanhe.
[em último caso, a nós próprios]
"Ele não sabe, mas há tantos mundos como distâncias a que se está do chão, e hoje as mulheres louras não o olham, ou melhor, não o vêem, e os que o vêem não o olham, porque há um conhecimento que vem da proximidade da indiferença. Ele não sabe, mas o seu mundo é o dos que, vendo-o, não o olham, e sabem, e este facto tornou-lhe estranha toda a sua vida, foi ao longo dela e roubou-lha e a sua vida pertence agora a outro, e há nela o vazio de uma casa assaltada."
"nunca foi crente, mas sempre fingiu acreditar para sobreviver. E fingiu tão bem que acabou a acreditar. A crença porém é uma questão de palavras, do seu excesso ou da sua falta. E ele agora não fala. Limita-se a olhar. E a perder-se no labirinto de luz, no resíduo periférico da paisagem, com a sua nitidez inatingível. No centro, uma mancha cresce e empurra o mundo: de início os objectos curvavam-se, como num espelho convexo, mas depois começaram a diluir-se, até se apagarem. E a luz expandiu-se, tornou-se o seu medo. De se perder nela. De à sua volta tudo ficar turvo. Esta luz podia ter um nome consolador. Mas não tem, são simplesmente os olhos a morrer. dantes, quanto mais falava, mais claros ficavam os objectos. E, quando definitivamente se calou, o mundo tinha uma nitidez insuportável. Depois, os seus olhos adoeceram. A luz que os tornava nítidos explodiu. Uma lenta explosão desintegrou formas, limites, cores e distâncias. E ele aprendeu a desviar os olhos, para ver, tentar captar uma nitidez primitiva. Às vezes perguntam-lhe por que não me olhas?
E ele responde: para te ver
é um homem anónimo: morte encerrada na morte. O seu nome morreu quando morreram os que o chamavam. E o tempo serviu-lhe para arrancar todas as raízes. Liberta, a morte repetiu-se.
De manha, os caminhos são nítidos. Depois, a luz apaga-os.
O homem dobrado sobre a terra soletra o pó. E a mesma palavra endurece-lhe os lábios. Até nada dizer. O silêncio responde ao silêncio. Entre eles o gesto apaga-se, desenhando-se.
Com a tua sombra, abre na luz a porta"
"nunca foi crente, mas sempre fingiu acreditar para sobreviver. E fingiu tão bem que acabou a acreditar. A crença porém é uma questão de palavras, do seu excesso ou da sua falta. E ele agora não fala. Limita-se a olhar. E a perder-se no labirinto de luz, no resíduo periférico da paisagem, com a sua nitidez inatingível. No centro, uma mancha cresce e empurra o mundo: de início os objectos curvavam-se, como num espelho convexo, mas depois começaram a diluir-se, até se apagarem. E a luz expandiu-se, tornou-se o seu medo. De se perder nela. De à sua volta tudo ficar turvo. Esta luz podia ter um nome consolador. Mas não tem, são simplesmente os olhos a morrer. dantes, quanto mais falava, mais claros ficavam os objectos. E, quando definitivamente se calou, o mundo tinha uma nitidez insuportável. Depois, os seus olhos adoeceram. A luz que os tornava nítidos explodiu. Uma lenta explosão desintegrou formas, limites, cores e distâncias. E ele aprendeu a desviar os olhos, para ver, tentar captar uma nitidez primitiva. Às vezes perguntam-lhe por que não me olhas?
E ele responde: para te ver
é um homem anónimo: morte encerrada na morte. O seu nome morreu quando morreram os que o chamavam. E o tempo serviu-lhe para arrancar todas as raízes. Liberta, a morte repetiu-se.
De manha, os caminhos são nítidos. Depois, a luz apaga-os.
O homem dobrado sobre a terra soletra o pó. E a mesma palavra endurece-lhe os lábios. Até nada dizer. O silêncio responde ao silêncio. Entre eles o gesto apaga-se, desenhando-se.
Com a tua sombra, abre na luz a porta"
Rui Nunes,
Os Olhos de Himmler, Relógio d'Água, 2009
julho 01, 2015
"Tudo isto era tão disparatado e os erros dos outros amestradores de cavalos pareciam-lhe, por vezes, tão assustadoramente chocantes, que até levantou suspeitas sobre si próprio, pois era quase impossível que um indivíduo isolado, ainda para mais inexperiente, impulsionado somente por uma convicção não comprovada, mas sem dúvida, profunda e decididamente inabalável, acabasse por ter razão frente a todos os conhecedores da matéria."
Franz Kafka
Os cavalos de Elberfeld
Contos - 2.º Volume, Assírio&Alvim, 2012
junho 29, 2015
PLAY Tindersticks Let's Pretend
RESERVADO AO VENENO
Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras
António José Forte
RESERVADO AO VENENO
Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras
António José Forte
in Edoi Lelia Doura: antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa
organizada por Herberto Helder, Assírio&Alvim, 1985
PLAY Danças Ocultas Tarab
18
Tudo fica reduzido à necessidade
de preencher espaços;
em casos extremos de desespero
(como é este)
nem sequer importa com quê.
O importante é desterrar o vazio
exilá-lo de nós.
Ainda que o façamos sabendo
que à queda do regime
voltará,
mais forte e profundo
denunciando tudo,
ao seu lugar de origem.
Miriam Reyes
Terra e Sangue, Cosmorama Edições, 2008
18
Tudo fica reduzido à necessidade
de preencher espaços;
em casos extremos de desespero
(como é este)
nem sequer importa com quê.
O importante é desterrar o vazio
exilá-lo de nós.
Ainda que o façamos sabendo
que à queda do regime
voltará,
mais forte e profundo
denunciando tudo,
ao seu lugar de origem.
Miriam Reyes
Terra e Sangue, Cosmorama Edições, 2008
junho 27, 2015
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| ©Josef Koudelka-prague-1968 |
Como aviões de papel atirados a rios sem horizonte
que nadam, que nadam, que nadam
em pasta de papel.
[POEMA]
A noite está líquida oclusa vegetal
é um corpo longilíneo e desmembrado
flui como um rio de si mesmo alheio
flui e envolve presagiando cárceres
a noite tem hoje uma altitude especial
com aves negrejando lentamente
neste desintegrar-se de memória
e eu sou uma alucinação rítmica
com um tempo corpóreo a devorar
um mar excessivamente quieto na cabeça
excessivamente muscular e lúcido
a noite distribui pedaços de lua
aos farrapos na inconsciência dos prédios
sobre a cidade a cidade a cidade louca
que desvairou nas minhas mãos nos dedos
possuída de um candelabro antigo a partir-se
um lampadário cristalino e rutilante
a quebrar-se com súbitos estilhaços pela noite fora
viajo nitidamente pelo passado
na organização de um jogo de perigo:
o meu amor é a aquisição de uma técnica
um processo de transformação dos corpos
a prospecção dramática dos ritos
uma queda livre e vertical
um olhar imóvel sobre o mar
a oferta do tempo sem comércio nem ódio
fibra a fibra
do tempo crivado de buracos baleado
assassinado corrupto perdido
o meu amor é a correcta magia dos sons
a ultrapassagem da noite
fulminante e arrebatada num círculo de fogo
coberta de engenhos de destruição
correndo extensamente sem peso
o meu amor é uma trovoada nas margens da noite
uma proposta veinulada a sangue
patrocinada pelos mortos deambulantes
e é ainda a carcassa húmida dos barcos
destroçada n'areia
a noite é um coral magnífico na noite
Manuel de Castro
in Edoi Lelia Doura: antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa
organizada por Herberto Helder, Assírio&Alvim, 1985
A noite está líquida oclusa vegetal
é um corpo longilíneo e desmembrado
flui como um rio de si mesmo alheio
flui e envolve presagiando cárceres
a noite tem hoje uma altitude especial
com aves negrejando lentamente
neste desintegrar-se de memória
e eu sou uma alucinação rítmica
com um tempo corpóreo a devorar
um mar excessivamente quieto na cabeça
excessivamente muscular e lúcido
a noite distribui pedaços de lua
aos farrapos na inconsciência dos prédios
sobre a cidade a cidade a cidade louca
que desvairou nas minhas mãos nos dedos
possuída de um candelabro antigo a partir-se
um lampadário cristalino e rutilante
a quebrar-se com súbitos estilhaços pela noite fora
viajo nitidamente pelo passado
na organização de um jogo de perigo:
o meu amor é a aquisição de uma técnica
um processo de transformação dos corpos
a prospecção dramática dos ritos
uma queda livre e vertical
um olhar imóvel sobre o mar
a oferta do tempo sem comércio nem ódio
fibra a fibra
do tempo crivado de buracos baleado
assassinado corrupto perdido
o meu amor é a correcta magia dos sons
a ultrapassagem da noite
fulminante e arrebatada num círculo de fogo
coberta de engenhos de destruição
correndo extensamente sem peso
o meu amor é uma trovoada nas margens da noite
uma proposta veinulada a sangue
patrocinada pelos mortos deambulantes
e é ainda a carcassa húmida dos barcos
destroçada n'areia
a noite é um coral magnífico na noite
Manuel de Castro
in Edoi Lelia Doura: antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa
organizada por Herberto Helder, Assírio&Alvim, 1985
junho 25, 2015
O sal da terra
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| ©Sebastião Salgado. Poço de petróleo em chamas no Kuwait. |
"Eu sempre receara ficar mais ou menos vazio; não ter, em suma, qualquer razão séria para existir. Naquele momento, perante factos estava bastante ciente do meu zero individual. Num meio tão diferente daquele onde tinha hábitos mesquinhos, foi como se me dissolvesse instantaneamente. Sentia-me perto de já não existir, muito simplesmente. Por isso, mal me tinham deixado de falar das coisas familiares, eu descobrira que nada me impedia de afundar numa espécie de irresistível tédio, numa espécie de adocicada, de assustadora catástrofe de alma. Uma aversão."
Louis-Ferdinand Céline
Viagem ao fim da noite, Ulisseia, 2010
junho 24, 2015
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| ©Ernst Ludwig Kirchner, Artillerymen, 1915 |
[CAPELA]
Vão escuros nas lenhas onde acendem
os olhos mirrados na carne
voltejam do terror em ladainha
enfermos nas bocas negras,
amam como cães, bentos pela água
calvos ao desgosto do pai,
mostram os buracos do copo
ajoelham erectos nas chagas,
fazem na escuridão o ofício de deus,
apagam a luz dos postigos
cobrem as vísceras de incêndio,
pedem os dias a deus.
Alexandre Nave
Vão Cães Acesos pela Noite, Quasi
vésperas palestinas
nestes lugares que rodeiam a cidade,
os homens são desencontrados vultos
que transportam um país estranho:
foram deixando os mortos para trás,
despojos de uma guerra que o luxo rasurou:
nas praias inclementes sobrevoam-nos gaivotas
cuja fome é a sombra de um dia sem poeira;
nestes lugares cercados pela cidade,
abriga-se um deus que desconhece
o longo entardecer da eternidade
aqui, todos os dias são ínfimas viagens
e o teu nome vem nos outros nomes
como um emigrante clandestino
Rui Nunes
Ofício de Vésperas, Relógio D'Água, 2007
nestes lugares que rodeiam a cidade,
os homens são desencontrados vultos
que transportam um país estranho:
foram deixando os mortos para trás,
despojos de uma guerra que o luxo rasurou:
nas praias inclementes sobrevoam-nos gaivotas
cuja fome é a sombra de um dia sem poeira;
nestes lugares cercados pela cidade,
abriga-se um deus que desconhece
o longo entardecer da eternidade
aqui, todos os dias são ínfimas viagens
e o teu nome vem nos outros nomes
como um emigrante clandestino
Rui Nunes
Ofício de Vésperas, Relógio D'Água, 2007
junho 23, 2015
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| ©Francesca Woodman |
Pintar o mundo é escrever o orto do elemento,
é fabricar o pigmento primário:
da textura da terra;
do aroma da água;
da aurora do fogo;
na distância do ar.
Pintar o mundo é erguer a essência da mão
ao fulgor do éter,
é pintar de branco e dar cor,
é lançar a vogal à terra e amanhá-la.
Pintar o mundo é beber do silêncio,
com que se desenha o poema e escreve a pintura.
Pintar o mundo é abrir a mão à paisagem
e confiar que tudo, nela, se transfigura.
junho 22, 2015
![]() |
| ©Francesca Woodman |
ESTES VERSOS HERÓICOS
Se tivesse uma cabeça cintilante
e as pessoas se voltassem para me olhar
nos eléctricos
e pudesse espreguiçar o meu corpo
na água luminosa
e nadar com os peixes e as serpentes de água;
se pudesse destruir as minhas penas
voando diante do sol;
pensas que ficaria neste quarto
recitando-te poemas
e construindo sonhos excessivos
com os menores movimentos da tua boca?
Leonard Cohen
Poemas e Canções, Vol I, Relógio D'Água, 1999
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| ©Jacob Aue Sobol GREENLAND. Tiniteqilaaq. 2002. Greenlandic Sabine MAQE. |
PLAY Cat Power Metal Heart
A metade que voa é um pássaro mítico indomável.
A outra metade são despojos de poesia consumada.
De tudo, nada sobra para ficar. De nada, tudo resta para partir.
"uma palavra vem atrás de outra, que vem atrás de outra. E levam-no para longe. Cada uma delas é o troço de um caminho que ele percorre, com um sentido diferente da anterior. Por isso há tantos desvios. Cada palavra indica um caminho que a palavra seguinte muda. Falas de um modo tão estranho: dizem-lhe. Ele sabe isso, mas nada pode fazer. Porque, embora pareça ser ele quem fala, na verdade não é: as palavras usam os seus lábios, como hóspedes que não se demoram nele, ansiosos. Nunca se perdem no mundo: perdem-se umas nas outras.(...) Dão-lhe espaço. Habituam-no a um espaço vazio. Cada vez mais vazio. Que está a crescer, até se tornar do tamanho do seu corpo."
Rui Nunes,
Rui Nunes,
Os Olhos de Himmler, Relógio d'Água, 2009






