julho 23, 2015

Rui Nunes- Mensageiro Diferido - Arquipélago 
"A nossa dor começa sempre por ser a nossa. Mas há um momento em que descobrimos que nem donos da nossa dor somos. E é isso que inicia um percurso político. É o momento em que descobrimos que essa dor é uma dor de muita gente, em que ultrapassamos esse sentimento de que somos únicos na nossa dor. E de certo modo é isso que torna uma escrita numa escrita madura. Esse momento em que descobrimos, vagamente atónitos, que não somos proprietários de nada. E nem daquilo que achávamos que era mais nosso, porque muito mais nosso do que a felicidade é a dor. Porque a dor dói e a felicidade não se sabe muito bem o que faz. E esse momento em que somos desapossuídos da nossa dor, essa dor não é só tua, essa dor é de imensa gente,  nós descobrimos o outro. E o outro, o outro enquanto o outro na dimensão política, é esse que descobrimos. (...) É nesse momento em que a dor se torna comum (...) em que deixa de ser minha é o momento fulcral de qualquer escrita. É o momento político da escrita." 
Rui Nunes.

julho 17, 2015

Joy Division Documentary


"Existe um tipo de experiência vital - experiência de tempo e espaço, de si mesmo e dos outros, das possibilidades e perigos da vida - que é compartilhada por homens e mulheres em todo o mundo, hoje. Designarei esse conjunto de experiências como "modernidade". Ser moderno é encontrar-se num ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento, auto-transformação e transformação das coisas em redor - mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos. A experiência ambiental da modernidade anula todas as fronteiras geográficas e raciais, de classe e nacionalidade, de religião e ideologia: nesse sentido, pode-se dizer que a modernidade une a espécie humana. Porem, é uma unidade paradoxal, uma unidade de des-unidade: ela despeja-nos a todos num turbilhão de permanente desintegração e mudança, de luta e contradição, de ambiguidade e angústia. Ser moderno é fazer parte de um universo no qual, como disse Marx, "tudo o que é sólido desmancha no ar"."
Marshall Berman
@ Thomas Hoepker.  Trás-os Montes. 1964
PLAY Mick Harvey The River (Tim Buckley cover)

A VOZ QUASE SILÊNCIO

vai-se perdendo a voz quase silêncio
um corpo agora oco    gasto   frio
a morte é uma cor que foi escolhida
para encontrar a direcção do vento

o homem que foi um feto    que foi um peixe
que foi o ar    que foi o sangue e o gesto
atravessa o mar com círculos nos braços
possuído no seu próprio destino
na descoberta dos focos submarinos

ao nível das estrelas mais brilhantes
e no entanto desde há muito extintas
pode encontrar-se o grande amor final
pesar-se no seu som e qualidade

garganta de alcatrão fundente
vai-se perdendo a voz, quase silêncio


Manuel de Castro
in Edoi Lelia Doura: antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa
organizada por Herberto Helder, Assírio&Alvim, 1985

from son to father

©Josef Koudelka. Self portrait
PLAY Tim Buckley Song to the Siren

a imagem foge ao espelho
numa exaltação de verdade
a imagem extingue-se
         (a verdade é um espelho que dói)

PLAY Jeff Buckley Dream Brother

"Depois de tantas hipóteses, ele pensou que melhor do que uma casa de férias apenas com uma porta e uma fachada, como a sua, só mesmo uma casa com quatro portas, em quadrado, sem nenhuma parede. O senhor Valery chamou-lhe:
a casa das quatro portas juntas. O centro era o único sítio onde se podia estar sentado."
--------------------- (...) --------------------- 
- É um sonho que eu tenho, uma casa só com 4 portas. - murmurou o senhor Valery. - Seriam as férias perfeitas. Sem alternativas, rodeado de vazio, não teria de decidir nada. Seria um descanso."

Gonçalo M. Tavares,
A Casa de Férias- Histórias do Senhor Valery, Caminho, 2008
"Que busto! - Exclamou, por fim, como que galvanizado por esse ponto das suas reflexões . - Onde tudo é centro e nada é circunferência!"


Samuel Beckett
Murphy, Assírio&Alvim, 2003

julho 16, 2015

" - A vantagem desta concepção - disse Wylie - é que, ao perdermos a esperança de que as coisas possam melhorar, também perdemos o medo de que piorem. Sabemos que continuarão a ser o que sempre foram.

----------- (...) ------------

-A humanidade é uma nora com dois alcatruzes. Enquanto um desce para se encher, o outro sobre para se esvaziar."

Samuel Beckett
Murphy, Assírio&Alvim, 2003


"A atitude de Miss Counihan para com Neary caracterizara-se pela regularidade da sua alternância."

Samuel Beckett
Murphy, Assírio&Alvim, 2003


" Calou-se. Conceber uma opinião e exprimi-la era submeter o seu talento a rude prova. Quando é que aprenderia a não se enfiar nos labirintos de uma opinião sem fazer a mínima ideia de como iria de lá sair?"

Samuel Beckett
Murphy, Assírio&Alvim, 2003

julho 15, 2015

©Martine Franck MOROCCO. Agadir. 1976.

PLAY Patti Stmith Birdland

"Não tendo alternativa, o sol brilhava sobre o nada de novo.
(...)
A pouco  e pouco, o mundo, o grande mundo onde se apregoavam Quid pro quo e onde o sol nunca se punha duas vezes da mesma maneira, foi-se dissipando, para dar lugar ao pequeno mundo (tal como se descreve no capítulo sexto).
(...)
E foi na rua, numa noite de S. João, estava o Sol em Caranguejo, que ela encontrou Murphy.
(...)
A lua, por uma coincidência notável, cheia e no perigeu, estava 47 000 quilómetros mais perto da Terra do que nos quatro anos anteriores."

Samuel Beckett
Murphy, Assírio&Alvim, 2003

julho 14, 2015

"De todos os tremendos disparates e bruscas precipitações do Turkey à tarde, aconteceu-lhe um dia humedecer um bolo de gengibre entre os lábios e espetar com ele numa hipoteca, a servir de selo. Estive por um triz para o despedir. Mas ele amoleceu o meu intento ao fazer uma vénia oriental, e dizendo:
- Com o devido respeito, senhor, foi generoso da minha parte fornecer-lhe por minha própria conta artigos de papelaria."

Herman Melville
Bartleby, Assírio&Alvim, 2010
(Trad. Gil de Carvalho)

Robert Musil


©Eduardo Gageiro
  "ROBERT MUSIL
     Sabe-se que a inteligência média de um país não depende dos beijos ou da ternura dentro de uma família. Depende dos cálculos, quantidade e qualidade de máquinas, e fundamentalmente da linguagem. A análise de uma frase é a melhor régua da inteligência.
     Nenhuma conspiração será mais eficaz do que a dos mudos. Ninguém os ouvirá conspirar. Semelhante raciocínio em ironia sádica poderia dizer: nenhuma acção será tão eficaz como a dos amputados de braços: ninguém o verá agir.
      A crueldade, no entanto, esta ou outra, poderá ser reduzida a uma hipótese de raciocínio, a uma mera associação de palavras, algo, enfim, que diz respeito ao domínio de uma língua e não à maldade simples.
     Todas as sensações ou actos são raciocínios que falharam."
Gonçalo M. Tavares
Biblioteca, Campo das letras, 2006 
 Cornell Capa © International Center of Photography USA. New York City. 1957.
American evangelist Billy GRAHAM delivers a sermon at Madison Square Garden.
" - Não fiques outra vez assim! Ninguém é como tu. Eles não me desprezam como tu; só fingem, para depois poderem ser diferentes. (...) Tu é meigo... e eu amo-te...!

(...)
É verdade, há pensamentos mortos e pensamentos vivos. O pensamento que se move na superfície iluminada, que pode a cada momento ser reconstituído seguindo um fio de causalidade, de modo nenhum é o pensamento vivo. Um pensamento que encontramos por esta via será sempre algo de indiferente, como um homem qualquer na coluna de soldados em marcha. Um pensamento - e ele pode ter já passado pelo nosso cérebro há muito tempo - só se torna vivo no momento em que alguma coisa que já não é pensamento, que já não é lógica, se junta a ele, de tal modo que sentimos a sua verdade, para lá de toda a legitimação, como uma âncora que se soltou e nos entrou pela carne irrigada de sangue, viva...
A percepção verdadeiramente grande de alguma coisa só em parte se dá no círculo de luz do cérebro; a outra parte situa-se no terreno escuro do mundo interior, e é acima de tudo um estado de alma na ponta mais extrema do qual pousa, como uma flor, o pensamento."

Robert Musil
As perturbações do Pupilo Törless, Dom Quixote, 2005
(Trad. João Barrento)

julho 13, 2015

Medir o mundo dedo a dedo,
quando um palmo não basta.

"Nós dois nunca falámos muito a sério sobre estas coisas; afinal, não gostamos de gastar muitas palavras com elas. Mas agora já vês como são vulneráveis os pontos de vista sobre o mundo que as pessoas aceitam sem pensar. Ilusão, é o que é, engano, debilidade mental! Anemia cerebral!O entendimento nelas só dá para ir buscar à cabeça aquelas explicações científicas; cá fora, elas congelam, percebes?

(...)
Tu não me compreendes. Não percebes o que me interessa. Se a matemática me causa problemas (...) é porque eu procuro por detrás dela coisas muito diferentes das tuas, nada de sobrenatural. É precisamente o natural que eu procuro, percebes? Nada fora de mim - é em mim que busco, em mim. Qualquer coisa natural, que, apesar disso, não compreendo! Mas isto é precisamente o que tu não sentes, nem o outro, o da matemática... Ora, deixa-me em paz com as tuas especulações!"

(...)
Ah, como é fácil ser inteligente quando não se conhecem todas as perguntas..."

Robert Musil
As perturbações do Pupilo Törless, Dom Quixote, 2005
(Trad. João Barrento)

Back to basis, or not.

A primeira televisão que chegou à Chamusca - campanha da "Farinha Predilecta".
PLAY Savina Yannatou Me to feggari perpato
©Francesca Woodman, On Being an Angel, 1977
"Enquanto Reiting falava, Törless ouvira calado, de olhos fechados. De vez em quando sentia um arrepio até à ponta dos dedos, e as ideias subiam-lhe à cabeça descontroladas e desordenadas, como bolhas em água a ferver. Diz-se que é assim quando vemos pela primeira vez a mulher que está destinada a envolver-nos numa paixão devastadora. Afirma-se que há momentos desses, em que nos dobramos sobre nós mesmos, ganhamos forças, sustemos a respiração, momentos de extremo silêncio e concentração interior de grande tensão entre duas pessoas. Ninguém pode dizer o que acontece em tais momentos. É como a sombra antecipada da futura paixão, uma sombra orgânica, um alívio de todas as tensões anteriores e ao mesmo tempo um estado de súbita e nova dependência em que está contido já todo o futuro; uma incubação concentrada na ponta de uma agulha... E é ao mesmo tempo um nada, uma sensação dúbia e indefinida, uma fraqueza, um medo."

Robert Musil
As perturbações do Pupilo Törless, Dom Quixote, 2005
(Trad. João Barrento)

julho 07, 2015

"As lembranças daquelas visitas configuravam-se numa estranha forma de tentação. Bozena aparecia-lhe como uma criatura de uma baixeza monstruosa, e a sua relação com ela, as sensações por que passava eram um ritual cruel de auto-sacrifício. Excitava-o a ideia de deixar para trás todo aquele mundo em que vivia encerrado, a sua posição privilegiada, os pensamentos e sentimentos que lhe impunham, tudo aquilo que não lhe dava nada e o oprimia. Excitava-o a ideia de fugir para junto daquela mulher numa corrida louca, nu, despojado de tudo."
Robert Musil
As perturbações do Pupilo Törless, Dom Quixote, 2005
(Trad. João Barrento)

julho 03, 2015

©Francesca Woodman- House #3, Providence, Rhode Island, 1976


Imagino um Corpo edificante,
louca inocência consentida:
mecânica pura,
engrenagem de corpo:
corpo a corpo
talhada.

Imagino um verbo,
e um poema:
O-poema inscrito,
espelho-Corpo,
Corpo-ricochete
queda amparada.

Imagino
um Corpo,
um tempo,
uma palavra,
uma voz infantil:
    [onde o crepúsculo não se esgote.]
©Henri Cartier-Bresson. Camondo-stairs-Istanbul-1964
PLAY Madredeus O paraíso

Inscrevo a nossa sede de impossível
(como namorados os seus corações)
nos troncos das árvores
na manhã metálica e brunida
em bolas de sabão
em todas as faces

Manuel de Castro
Bonsoir, Madame, Alexandria: Língua Morta, 2013