julho 31, 2015


CARÊNCIA
Eu não sei de pássaros
não conheço a história do fogo.
Mas julgo que a minha solidão deveria ter asas.

Alejandra Pizarnik
Antologia Poética, O correio dos Navios, 2002
PALAVRAS
Machados,
Após cada pancada sua a madeira range,
E os ecos!
São os ecos que viajam
Do centro para fora como cavalos.

A seiva
Brota como lágrimas, como a 
Água a esforçar-se
Por recompor o seu espelho
Sobre a rocha

Que pinga e se transforma,
Uma caveira branca
Comida pelas ervas daninhas.
Anos mais tarde
Encontro-as no caminho - 

Palavras secas e indomáveis,
Infatigável som de cascos no chão.
Enquanto 
Do fundo do charco estrelas fixas
Governam uma vida.


SYLVIA PLATH
Ariel,  Relógio D'Água, 1996
"Vocês ouviram isto? Isto é vernáculo, isto é português de lei. Isto é Vicente e Camões, isto é Camilo irado e sai da boquinha de uma putinha russa, sem eira nem beira.
    - Odeio gente que se mete com a literatura e depois não sofre.
    - Crístico, muito crístico, menina.
    E hebraico. Abrir o livro e depois não viver por ele. E islâmico também, as culturas do Livro, só que essas andam a recuperar. A menina é um compêndio de incitação à violência. Acha que se as pessoas vivessem segundo os livros maiores estavam vivas?
    - Os melhores não sobrevivem."

Maria Velho da Costa
Myra,  Assírio&Alvim, 2008


    "A sala grande tinha sido transformada num salão de baile, uma discoteca luminosa, o oposto da outra onde ele a levara para ver, e ela odiara a intermitência de brutas luzes e brutas trevas, gente que dançava como marionetas a estrebuchar sem bonecreiro, sem graça e sem vida, gente que dançava mal, braços, pernas e troncos e alma sem acordo ao ritmo, debaixo de um globo de estilhaços de espelho, sem estar em si, sem entrega, a serem visto estar. Estilhaços. Sem o rilhar dos dentes do prazer, do prazer profundo: nadar, dançar, a sós, com o outro, com o mundo. Vanidade e profundeza dos sentidos em diapasão. Com o ritmo. De quê? De quem?
    Tento pensar e não chego a lado nenhum, não tenho com quê. Sou burra?
    Dissera ela a Gabriel, num serão muito aprazivelmente silencioso.
    - Welcome to the club, dissera ele a rir. Mas sabes pôr-te no que estás, Kate. Nunca terás vergonha de uma sensualidade pobre, falsa. Acredita que há gente assim, geralmente escondida num palavreado muito esperto, muito penado, num corpo morto. Não somos burros, somos bárbaros. O burro é um animal civilizado."

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    "- Vermelho e preto, darling, que boa escolha, my far lady.
    Myra sentiu-se ultrajada.
    Pensou, sentido. Disse.
    - Sou russa. Levantámos o mundo com a alavanca do bico da foice e os dentes do martelo. Tem de me receber com algo tão corriqueiro?"

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    "No andar de cima, ouviam-se agora os acordes jubilosos da Gosse Messe, Et incarnatus est [PLAY].
     Rambo disse, Detesto música, embota o ouvido de um cão. 
   És um rústico, disse Brunilde, um básico. Eles põem música para que os gritos que se seguem, gritos dela, berros dele, sejam ainda mais ferozes, para toda a vida.

Maria Velho da Costa
Myra,  Assírio&Alvim, 2008

"Gabriel Rolando deu-lhe o nome de Trovão. Que era piroso, mas era adequado, disse. E que nem sempre o bom gosto se adequa à vida vivida."

Maria Velho da Costa
Myra,  Assírio&Alvim, 2008

©Irving Penn. Man with pink face, new Guinea, 1970
QUARTO SOMENTE
Se te atreves a surpreender
a verdade desta velha parede;
e as suas fissuras, escaras,
formando rostos, esfinges,
mãos, clepsidras, 
seguramente virá
uma presença para a tua sede,
provavelmente partirá
esta ausência que te bebe.

Alejandra Pizarnik
Antologia Poética, O correio dos Navios, 2002

julho 30, 2015


"Mas, na noite do Pavilhão Skinner, não havia nenhum desses apoios. Nem ódio para lhe aguçar o amor, nem pontapés do mundo que não era o seu, nem uma carícia, mesmo ilusória, do que mundo que poderia sê-lo. Era como se os microcosmopolitanos lhe tivessem fechado a porta na cara."

Samuel Beckett
Murphy, Assírio&Alvim, 2003

Baricentro ou ponto de equilíbrio do triângulo



"- Sentem-se os dois aí, à minha frente - disse Neary -, e não percam a esperança. Lembrem-se que não há triângulo, por mais escaleno que seja, que não tenha um arco de círculo qualquer a atravessar os chamados pontos de intersecção. Lembrem-se também de que um dos ladrões foi salvo.
- As sacanas das nossas medianas - disse Wylie -, se é que se pode dizer assim, encontram-se em Murphy.
- Fora de nós - disse Neary -, fora de nós.
- Na luz exterior - acrescentou Miss Counihan."
Samuel Beckett
Murphy, Assírio&Alvim, 2003

"As mulheres são, de facto, extraordinárias, (...) Nunca matam totalmente a coisa que amam, receando que a sua paixão pela respiração artificial fique sem objecto."
Samuel Beckett
Murphy, Assírio&Alvim, 2003

"Por conseguinte, o conflito, tal como a obsessão de Murphy o simplificava e pervertia, opunha, de uma forma absolutamente fundamental, o grande mundo e o pequeno mundo. (...)
Como dizia Arnold Geulinex, no seu belo belgo-latim: Ubi nihil vales, ibinihil velis."
    Mas não bastava não querer nada onde não valia nada, nem sequer chegar ao extremo de renunciar tudo o que fosse exterior ao amor intelectual, que era o único em que podia amar-se a si mesmo, porque em mais parte nenhuma era digno de ser amado. Nunca tinha bastado, e nada fazia crer que alguma vez pudesse bastar. (...) Faltavam-lhe os meios para ser um."
Samuel Beckett
Murphy, Assírio&Alvim, 2003

julho 29, 2015

PLAY Rachmaninov- Vocalise for Violin

Contamos as letras às palavras, nas histórias que não escrevemos. E enchemos os pulmões para as declamar. As histórias já não se escrevem a caneta. Tampouco de palavras. As histórias escrevem-se de ausência em ausência, na exacta medida da descoberta do que nos faz respirar. Em cada respiração da palavra que não escrevemos, da palavra que ainda não existe mas que, no intervalo, havemos de inventar.

E perdemo-nos entre elas. Perdemo-nos nas palavras das histórias que não escrevemos. E sentimos os dias longos- imensamente longos e cheios de palavras que não escrevem histórias. Sabemos que à distância das histórias, sem ausências que se adivinhem, os dias são maiores, tão maiores, sem tempo que meça o intervalo entre o nascer de cada pôr-do-sol.

À distância descobrimos, nas histórias que não se escrevem, que a medida da massa do nosso egoísmo é tão profundamente maior do que julgámos.

Mas porque as palavras flutuam e não desistem, deixamos que a matéria se desvaneça. Tornamo-nos infimamente pequenos- donos de uma história que deixou de ser nossa, por ser maior. Deixamos de existir para podermos ser.

Por certo, um dia, alguém inventará as palavras certas para a escrever. Um dia doentio e doce- onde habitaremos ancorados nos instantes infinitesimais do crepúsculo que imaginámos.
©Francesca Woodman

PLAY Patti Smith Birdland

Entre nós, tudo o que devemos: as almas - o excesso delas.
Almas que sobram aos corpos.
Almas que procuramos.
Almas incomportáveis.
Almas adicionadas e subtraídas: como cancros que se disseminam no momento da extracção.

(P)Oeiras

 ©Donovan Wylie N. IRELAND. Lepper Street, Belfast. Street games. Northern Ireland. 1988

PLAY Mark Knopfler Privateering

julho 28, 2015

"Intensificou freneticamente os seus ataques por baixo da mesa. E Murphy viu surgir um espectro no grande cemitério de todos os seus eu, onde já restava muito pouco espaço."


Samuel Beckett
Murphy, Assírio&Alvim, 2003

julho 27, 2015

Estava a pensar que um silêncio de ruídos nem sempre é silêncio, quando se enche de luzes... Estava realmente a pensar que essas luzes, essas estrelas eram a própria distância, aquela que se gera pela distância dos lugares, dos lugares que temos em nós mas que esquecemos, de forma intermitente... desses lugares, montes, rios e vales que são o mundo... ainda bem... ainda bem... pois estava a pensar que um silêncio... uma pausa... uma distância... um esquecimento... uma ponte... uma música e um encontro fazem um mundo... e que o esquecimento, por ser intermitente, faz com que o mundo, seja longe daqui, e a distância desses lugares em nós, seja assim... apenas um silêncio de ruídos intermitentes!

Estava a pensar nas pontes, pontes movediças, como elas se movem, e ainda bem, porque os rios nem sempre ficam onde estão, e os mundos são o que são... ainda bem... ainda bem... porque nem sempre o mundo fica aqui ou ali ou ao lado... e as pontes dão jeito, aqui e acolá... como as cordas que esticam e ligam, a música ao encontro longínquo... ainda bem!

Estava a pensar nesse desejo egoísta que tantas vezes me assola... e, de visita, me faz pensar que as pontes estão lançadas e os mundos criados... e que eles, por serem mundos, teriam um lugar relativo, mas ali... 

Estava a pensar nesse desejo, de criar mundos e de os lançar para engrandecer... e a pensar que os engrandecia, por querer ou julgar,...

           [Estou a pensar como sou inocente.]

mantras com suor

julho 23, 2015

Rui Nunes- Mensageiro Diferido - Arquipélago 
"A nossa dor começa sempre por ser a nossa. Mas há um momento em que descobrimos que nem donos da nossa dor somos. E é isso que inicia um percurso político. É o momento em que descobrimos que essa dor é uma dor de muita gente, em que ultrapassamos esse sentimento de que somos únicos na nossa dor. E de certo modo é isso que torna uma escrita numa escrita madura. Esse momento em que descobrimos, vagamente atónitos, que não somos proprietários de nada. E nem daquilo que achávamos que era mais nosso, porque muito mais nosso do que a felicidade é a dor. Porque a dor dói e a felicidade não se sabe muito bem o que faz. E esse momento em que somos desapossuídos da nossa dor, essa dor não é só tua, essa dor é de imensa gente,  nós descobrimos o outro. E o outro, o outro enquanto o outro na dimensão política, é esse que descobrimos. (...) É nesse momento em que a dor se torna comum (...) em que deixa de ser minha é o momento fulcral de qualquer escrita. É o momento político da escrita." 
Rui Nunes.

julho 17, 2015

Joy Division Documentary


"Existe um tipo de experiência vital - experiência de tempo e espaço, de si mesmo e dos outros, das possibilidades e perigos da vida - que é compartilhada por homens e mulheres em todo o mundo, hoje. Designarei esse conjunto de experiências como "modernidade". Ser moderno é encontrar-se num ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento, auto-transformação e transformação das coisas em redor - mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos. A experiência ambiental da modernidade anula todas as fronteiras geográficas e raciais, de classe e nacionalidade, de religião e ideologia: nesse sentido, pode-se dizer que a modernidade une a espécie humana. Porem, é uma unidade paradoxal, uma unidade de des-unidade: ela despeja-nos a todos num turbilhão de permanente desintegração e mudança, de luta e contradição, de ambiguidade e angústia. Ser moderno é fazer parte de um universo no qual, como disse Marx, "tudo o que é sólido desmancha no ar"."
Marshall Berman
@ Thomas Hoepker.  Trás-os Montes. 1964
PLAY Mick Harvey The River (Tim Buckley cover)

A VOZ QUASE SILÊNCIO

vai-se perdendo a voz quase silêncio
um corpo agora oco    gasto   frio
a morte é uma cor que foi escolhida
para encontrar a direcção do vento

o homem que foi um feto    que foi um peixe
que foi o ar    que foi o sangue e o gesto
atravessa o mar com círculos nos braços
possuído no seu próprio destino
na descoberta dos focos submarinos

ao nível das estrelas mais brilhantes
e no entanto desde há muito extintas
pode encontrar-se o grande amor final
pesar-se no seu som e qualidade

garganta de alcatrão fundente
vai-se perdendo a voz, quase silêncio


Manuel de Castro
in Edoi Lelia Doura: antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa
organizada por Herberto Helder, Assírio&Alvim, 1985

from son to father

©Josef Koudelka. Self portrait
PLAY Tim Buckley Song to the Siren

a imagem foge ao espelho
numa exaltação de verdade
a imagem extingue-se
         (a verdade é um espelho que dói)

PLAY Jeff Buckley Dream Brother