PLAY Radiohead Paranoid Android
Ontem, vi-te. Fui à Conservatória do Registo Civil e conheci-te. Renovavas o nome. Patenteavas o desespero, nessa imitação barata a que chamas vida.
"Que mais me irá acontecer?" - dizias.
E eu senti o cheiro da borralha, dos ossos desfeitos em fogo, quando a cinza, semi-apagada, nem de fertilizante serve.
A memória intersticial não dá para mais, principalmente se as urgências do corpo se sobrepõem a determinações literárias:
"Podia jurar que nunca te vi mais gordo". - disse.
"Ah, deve ser dos medicamentos, fizeram-me engordar"- brincaste.
Tudo o que senti foi vergonha. Não tanto por não te ter reconhecido mas porque o mais que me apetecia era foder-te ali, como se não houvesse amanhã. Não sei se me leste o pensamento ou se o murmurei, descuidadamente, mas juro que te ouvi dizer:
"Hoje, sim. Agora. Não me resta amanhã".
Aguardámos em silêncio na bicha. Renovámos os cartões.
- Prazer em conhecer-te.
- O prazer foi todo meu!
- Todo, não!
E sorrimos, em jeito de despedida.
Ontem, vi-te. Fui à Conservatória do Registo Civil e conheci-te. Renovavas o nome. Patenteavas o desespero, nessa imitação barata a que chamas vida.
"Que mais me irá acontecer?" - dizias.
E eu senti o cheiro da borralha, dos ossos desfeitos em fogo, quando a cinza, semi-apagada, nem de fertilizante serve.
A memória intersticial não dá para mais, principalmente se as urgências do corpo se sobrepõem a determinações literárias:
"Podia jurar que nunca te vi mais gordo". - disse.
"Ah, deve ser dos medicamentos, fizeram-me engordar"- brincaste.
Tudo o que senti foi vergonha. Não tanto por não te ter reconhecido mas porque o mais que me apetecia era foder-te ali, como se não houvesse amanhã. Não sei se me leste o pensamento ou se o murmurei, descuidadamente, mas juro que te ouvi dizer:
"Hoje, sim. Agora. Não me resta amanhã".
Aguardámos em silêncio na bicha. Renovámos os cartões.
- Prazer em conhecer-te.
- O prazer foi todo meu!
- Todo, não!
E sorrimos, em jeito de despedida.








