agosto 17, 2015

"E no entanto é verdade, faço aqui uma pergunta de todo escusada - o que vale mais: uma felicidade barata ou um sofrimento sublime? Caramba, o que vale mais? "

Fiódor Dostoiévski [1864]
Cadernos do Subterrâneo, Assírio&Alvim, 2000

[#4] palimp­sesto

"Ourém, Conservatória do Registo Civil, 11 de Agosto de 2015

     - Olá, estás boa?  - Silêncio.
    André, vê se te convences! Eles não te ouvem. Estão demasiado distantes de si para te poderem ouvir. Queres escrever um coral a quantas vozes? Não te chegam as tuas? E que pergunta escusada é essa? Não vês que não? Resta-te assim tanto tempo de vida que o possas gastar em perguntas inúteis? Pergunta-lhe o que lhe faz lembrar o cheiro desta casa; se já sentiu a fúria do vento a subir-lhe pelas pernas; se, pela manhã, bebeu o café ou se o degustou; se se lavou do banho da noite; se hoje já se masturbou... enfim, pergunta-lhe algo que a possa fazer sentir-se viva. V   I   V  A.  Já sabes as respostas, de qualquer forma!

   Ontem- a distância que criámos entre o que fomos e o imaginário que passamos a ser. Ontem- a palavra que branqueia o tempo e faz vacilar a dúvida e o erro que somos...

    Foda-se! Não consigo. É que não consigo concentrar-me! Basta!
   Por que é que tens de vir ter comigo com esses olhos lânguidos? É um pedido de socorro, é?  Eu só quero escrever de mim, para mim, sobre mim. Eu só quero poder desenhar uma gaveta fechada, para não ter de ver o que nela se encerra. Não quero ver. Não quero ver-te. Desaparece. Desaparece-me. Mas quem te deu autorização para entrares assim? Já disse que não me interessas, porra! Por que é que tenho de arcar com os teus dilemas de síndrome pré-menstrual? Quero lá saber dos teus excessos de testosterona. Queres o quê? Queres que eu te chame falsa, idiota? Queres que te arranque essa máscara ridícula com que enganas meio mundo e, quase, a ti? Ou preferes que esconda a minha mão debaixo da tua saia? Deixa de ser idiota. A única coisa verdadeira em ti são essas unhas. Autenticadas pela micose que nem fazes questão de esconder. Ostentas orgulho nelas porquê? Porque são feias e fracas? E por que raio as cortas rente e não as pintas como as outras gajas? Por que não as cobres de verniz-gel, a condizer com a tua dissimulação? Sabes o que isso é, ao menos, verniz-gel? Oh pá, deixa-me em paz. Eu só quero escrever de mim, para mim, sobre mim. Já disse. Pára de me fixar com esse olhos brilhantes. Vens renovar o quê? O cartão que te dá um número? O mesmo número de sempre? O número onde te escondes de borrasca em borrasca? Tens medo de quê, afinal? De admitir que o que tens te chega e sobra à tua pobre ambição? Que vagueias como quem vive? Por que fazes tanta questão de te boicotar? Por que negas despir-te?  Por que merda é que não queres ser feliz? Que enfado lírico! Estou farto de ti. De todos os outros iguais a ti. Farto do mundo. Larguem-me, porra. Eu leio-vos a milhas. Deixem-me em paz. Só quero paz! Só quero distância.

    Não acredito. Deixaste cair a porra do lápis de propósito, só para testar os meus dotes de Don Juan? És tão previsível!"

- Desculpa, posso?


agosto 14, 2015

Dostoiévski

    

"Olhou para a filha como um homem novo olha para as pernas de uma mulher na rua, e a filha teve medo.
    Mas não tenhas medo, eu sou bom.
    E o velho disse: em tempo de guerra não disparar é oferecer flores. Em tempo de paz não oferecer flores é disparar.
    Ela atravessou o pátio onde três guardas lhe apontavam uma arma e imaginou em cada guarda um homem que lhe estendia um ramo de flores. Mas duas armas dispararam e só uma não disparou."

Gonçalo M. Tavares (2004)
Biblioteca, Campo das Letras, 2006

[#3] palimp­sesto

- Sim, tens razão. Desculpa. Eu não faço ideia do que escreveste. Usei a palavra verborreias por mero exercício lexical. Enfim, para exercer o meu direito literário ao uso de palavreado acessório.
- Ah, afinal não sublinhas, apenas. Também escreves.
- Só escrevinho.
- És escritora?
- Não, deus me livre. Amo demasiado as palavras para querer ser escritora.
- Eu empresto-te o meu lápis, se quiseres. Este é dos que escreve.
- Esquece. Não preciso de criar matéria para exacerbar a minha mediocridade. Deixa-me ler o que escreveste.
- Não trouxeste os óculos.
- Eu não uso óculos.
- Claro que usas. Tu é que não sabes.
E li, sem óculos. Mastiguei a custo. Degluti em disfagia. Não engoli.
Senti que o tempo parou. Que parámos nós nele. Numa linha de tempo cru. Num espaço como nunca antes, real.
- Então, não sublinhas?
- Ordinário.

agosto 13, 2015

[#2] palimp­sesto

Hoje, voltei. Voltei a antes de ontem. O dia em que escrevias no bloco verborreias da tua memória, empilhando palavras como quem perfila tijolos numa parede sem fundações. Mas fui eu que deixei cair o lápis.
"Desculpa, posso?"- perguntavas.
E eu pensei que poder até podias mas que as minhas unhas estavam uma miséria e que a depilação já tinha dias.
"Não te preocupes com as unhas, só quero apanhar o teu lápis." - adivinhaste?
[O corpo da mulher, na sua perspectiva de mulher, há-de ser sempre uma vertigem. ]
Num movimento brusco, escondi os dedos, como se calçasse meias-pontas mas sem a candura de um elevé. Entregaste-me o lápis.
- Obrigada. Este não serve para escrever. Só serve para sublinhar.
Continuaste a escrever. E eu a sublinhar.

Vicent Tim Burton (1982)

Paul (Pal Funk) Angelo -Vilma Banky, 1920s
PLAY Peixe Pêndulo


"todas as pessoas e personalidades espontâneas são activas precisamente porque são lorpas e limitadas. (...) como consequência de serem limitadas, tomam as causas superficiais e secundárias por causas primeiras, desta maneira se convencendo mais fácil e prontamente do que os outros que acharam fundamento indefectível para as suas acções, e isso sossega-as; e é isso o  mais importante, o sossego. Porque, para se começar a agir, é necessário estar-se prévia e completamente em sossego e que não existam já dúvidas nenhumas. Então, e eu, por exemplo, como hei-de sossegar-me? Onde tenho eu causas primeiras em que me baseie, onde estão os fundamentos? Onde arranjá-los? Exercito-me no raciocínio e, como consequência, para mim qualquer causa primeira arrasta consigo uma outra, ainda mais primeira, e assim por diante até ao infinito. "

Fiódor Dostoiévski [1864]
Cadernos do Subterrâneo, Assírio&Alvim, 2000


©HU-untitled, 2012 oil on paper mounted on plywood 89x45 cm

"And I move out of love.
If only there was only no consequence.
I'd watch it all turn to dust"

Primeira Lei de Newton: Todo o corpo continua no estado de repouso ou de movimento rectilíneo uniforme, a menos que seja obrigado a mudá-lo por forças a ele aplicadas.
Segunda Lei de Newton: A resultante das forças que agem num corpo é igual à variação da quantidade de movimento em relação ao tempo.
Terceira Lei de Newton:Se um corpo A aplicar uma força sobre um corpo B, receberá deste uma força de mesma intensidade, mesma direção e sentido oposto à força que aplicou em B.
  
Qual a direcção e intensidade da força que anula a nossa inércia?

O que podemos esperar da resultante das nossas forças?

Como se poderá definir melhor o nosso movimento? Na velocidade média ou na velocidade instantânea?

Quando esperar que a força que exercemos num corpo tenha como resposta uma força de igual intensidade, em sentido contrário?


[#11] Jingle
  A beleza da física que te define não está na força de que dispões mas na que estás disposto a aplicar.
(17/04/2013)
©Angelo (Funk Pál) Idõzavar, 1965 
POEMA
(para Mário Cesariny)

Moveu-se o automóvel - mas não devia mover-se
não devia!

Ontem à meia-noite três relógios distintos bateram:
primeiro um, depois outro e outro:
o eco do primeiro, o eco do segundo, eu sou o eco do terceiro

Eu sou a terceira meia-noite dos dias que começaram

Pregões de varina sem peixe
- o peixe morreu ao sair da água
e assim já não é peixe

Assim como eu que vivo uma VIDA EXTREMA

António Maria Lisboa (1928-1953)
Poemas, Biblioteca Editores Independentes (Assírio&Alvim), 2008

agosto 12, 2015

"O homem gosta de criar e de construir caminhos, é indiscutível. Mas por que gosta também apaixonadamente da destruição e do caos? (...) Não será possível que o homem goste da destruição e do caos porque tem um medo instintivo de alcançar o objectivo e concluir a construção do edifício? Talvez só de longe goste do edifício e não de perto. Talvez apenas goste de construí-lo e não de viver nele, oferecendo-o, depois, aux animaux domestiques, ou seja, às formigas, aos carneiros, etc., etc. Quanto às formigas, essas têm outros gostos. Têm um só admirável edifício deste género, indestrutível- o formigueiro. "

Fiódor Dostoiévski [1864]
Cadernos do Subterrâneo, Assírio&Alvim, 2000

[#1] palimp­sesto

PLAY Radiohead Paranoid Android

Ontem, vi-te. Fui à Conservatória do Registo Civil e conheci-te. Renovavas o nome. Patenteavas o desespero, nessa imitação barata a que chamas vida.
"Que mais me irá acontecer?" - dizias.
E eu senti o cheiro da borralha, dos ossos desfeitos em fogo, quando a cinza, semi-apagada, nem de fertilizante serve.
A memória intersticial não dá para mais, principalmente se as urgências do corpo se sobrepõem a determinações literárias:
"Podia jurar que nunca te vi mais gordo". - disse.
"Ah, deve ser dos medicamentos, fizeram-me engordar"- brincaste.
Tudo o que senti foi vergonha. Não tanto por não te ter reconhecido mas porque o mais que me apetecia era foder-te ali, como se não houvesse amanhã. Não sei se me leste o pensamento ou se o murmurei, descuidadamente, mas juro que te ouvi dizer:
"Hoje, sim. Agora. Não me resta amanhã".
Aguardámos em silêncio na bicha. Renovámos os cartões.
- Prazer em conhecer-te.
- O prazer foi todo meu!
- Todo, não!
E sorrimos, em jeito de despedida.
"Não será que a tendência recente dos websites "-cam", que consubstanciam a lógica de A vida em Directo (nestes websites, podemos seguir continuamente um acontecimento ou o que se passa num dado local: a vida de uma pessoa em sua casa, a vista de uma rua, etc.), revela esta mesma necessidade urgente do Olhar fantástico do Outro, como garantia da existência do sujeito? "Só existo na medida em que sou olhado constantemente..." (Como observa Claude Lefort, um fenómeno semelhante é o do aparelho de televisão que está ligado em permanência, mesmo quando ninguém está a ver, isto serve como garantia mínima de existência de um elo social). Assim, estamos na situação da inversão tragicómica da noção orwelliana-benthamiana da sociedade panóptica, na qual somos (potencialmente) "observados durante todo o tempo" e não temos lugar onde não possamos esconder do olhar omnipresente do Poder: aqui, a ansiedade surge perante a perspectiva de não se estar exposto em permanência ao olhar do Outro. O sujeito precisa do olhar da câmara como uma espécie de garantia ontológica da sua existência..."

Slavo Žižek (2005)
Lacrimae Rerum,  Orfeu Negro, 2013
Mapa de Desencontros

I
Abrigo-te
mais uma vez
há muito tempo
disseste aqui
hei-de morrer
voltas sempre 
a esta morada
ris-te e partes
no telhado frágil
caem as primeiras
águas de Inverno.

III
Olhamos o amor e a morte
desdobrando-se no tempo
nas rugas das suas estações
demasiado tempo mantemos
a ilusão de uma diferença
mas o tempo comprime-se
naquele momento breve
em que a nossa vontade
julga poder prescindir dele.

Carlos Alberto Machado (2000)
Registo Civil- poesia reunida. Assírio&Alvim, 2009
A Minha Mão Acariciando


Acabou tudo
o corpo na areia fria
retenho muito tempo a imagem
unem-se as vagas em assalto
final 
resisto.

V
Desloco para a tua retina
todos os pasmos do crime
impressionante não é tanto
o sangue que inunda a cama
o latejar do coração sob 
o punho que desfere o golpe
mortal é o pensamento
que dá a força ao acto
que destroça o cérebro
golpeia uma a uma as amarras
o teu corpo sob o meu amolece
e os teus olhos encerram
as imagens que não verei.

VI
A tua medida será esta bem sabes
uma hora nem mais é a medida exacta
o tempo que o antigo veneno celta
vai demorar a percorrer-te o corpo
há tanto tempo que sabemos disto
o espanto é adivinhar-te agradecida
e saber do meu gozo de cada segundo
dessa hora como a hora da minha morte.

Carlos Alberto Machado (2000)
Registo Civil- poesia reunida. Assírio&Alvim, 2009

agosto 10, 2015

©Angelo (Funk Pál) Részegek utcája, 1928

Somos iguais - tão perfeitamente distintos.
Ambos sabemos que o tanto que nos identifica
é o muito que nos distingue.
Não seremos, por isso, melhores.
Nem piores - somente diferentes,
pelo tão iguais que somos.

E é assim que nos amamos:
amamo-nos a nós mesmos,
como ninguém nos soube ensinar.

Pudesse o regresso ser ponto de partida
e o ai de um nada que doeu
guardasse o instante-  em pó-
da ferida.
 ©Nikos Economopoulos. Greece, Preveza.
Carnival. My son Dimitris and my daughter Lina.

PLAY Fat Freddy Frenesim de Canibalismo Ritual
fotograma de Loin des Hommes de David Oelhoffen (2014)

"Balducci fez o gesto de passar a lâmina no pescoço. O árabe, cuja atenção fora atraída para a conversa, observava-o inquieto, e Daru sentiu uma cólera súbita contra esse homem, contra todos os homens e sua estúpida maldade, contra os seus ódios incansáveis e inextinguível sede de sangue."

Albert Camus (1957)
O Hóspede in O Exílio e o Reino, Edição Livros do Brasil

agosto 08, 2015

©Gerard Castello Lopes
PLAY Linda Martini Volta

Beberei o avesso do copo
e o pingo que restar
partilharei contigo.
Seremos um-
pingo e corpo-
no avesso de um erro.