|Assim repito o nome e sinto ainda o incêndio no rosto :|| paul celan |Porque é com nomes que alguém sabe | onde estar um corpo| por uma ideia, onde um pensamento | faz a vez da língua.| herberto helder
novembro 20, 2015
novembro 19, 2015
novembro 16, 2015
| ©raquelsav |
PLAY J.S. Bach Kyrie Eleison - Missa H-moll BWV 232
Gravita um cheiro cego onde a palavra cessa,
mas é o hálito matinal e contínuo que fede e cala.
Não há fruta que não apodreça nem vinho que não azede,
nem parede pintada que esconda as tuas escamas de ocre e cal.
Talvez amanhã regues, na árvore, a flor que cresce
[e somente anoiteça, enquanto anoitece].
novembro 14, 2015
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| ©Eduardo Gageiro |
Também nós matámos o amor no medo de amar
e afundámos a ideia na palavra.
Na âncora, o suicídio diário
que nos afoga de silêncio.
Só a dor persiste
(e serve de alimento).
novembro 08, 2015
"Espantoso! Com que angústia equívoca, a de perder e a de conservar, o homem se agarra todavia a esta vida. Pensei algumas vezes em dar um passo decisivo, face ao qual todos os meus passos anteriores mais não seriam do que infantilidades - empreender a grande viagem de descoberta. Tal como um barco ao sair do estaleiro é saudado com salvas de canhão, também eu me saudaria a mim próprio. E afinal. Será que me falta coragem? Se uma pedra me atingisse e me matasse, seria todavia uma saída."
Søren Kierkegaard (1844)
Ou - Ou. Um Fragmento de Vida, Relógio D'Água, 2013
Søren Kierkegaard (1844)
Ou - Ou. Um Fragmento de Vida, Relógio D'Água, 2013
novembro 07, 2015
PLAY Naifa Subida aos céus
Ser adorada mesmo assim
Careca, nua e descarnada
Engano de alma ledo e cego
Ó linda Inês posta em sossego imortal
Diz adeus
Com perfumes a presa fácil
Com joias casacos de peles
Gosto do amor quando é difícil
E cheira ao meu hálito reles
Quero ser amada à flor da pele
Não quero peles de vison
Amada p'lo sabor a mel
Não pela cor do baton
Engano de alma ledo e cego
Ó linda Inês posta em sossego imortal
Diz adeus
Com cabeleira a presa fácil
Há quem se esconda atrás dos pelos
Gosto do amor quando é difícil
De ser amada sem cabelos
Quero que me beijem a caveira
E o meu ossinho parietal
Que se afoguem na banheira
Pelo meu belo occipital
Engano de alma lego e cego
Ó linda Inês posta em sossego imortal
Diz adeus
Com carne viva a presa fácil
É ordinário e absoleto
Gosto do amor quando é difícil
Quando me aquecem o esqueleto
Quero ser amada pela morte
E p'los meus ossos de luar
Quero que os cães da minha corte
Passem as noites a ladrar
Engano de alma ledo e cego
Ó linda Inês posta em sossego imortal
Diz adeus
Sobe aos céus
Sobe aos céus
Quero ser amada só por mim
E não por andar enfeitada
Ser adorada mesmo assim
Careca, nua e descarnada"
"Quero ser amada só por mim
E não por andar enfeitadaSer adorada mesmo assim
Careca, nua e descarnada
Engano de alma ledo e cego
Ó linda Inês posta em sossego imortal
Diz adeus
Com perfumes a presa fácil
Com joias casacos de peles
Gosto do amor quando é difícil
E cheira ao meu hálito reles
Quero ser amada à flor da pele
Não quero peles de vison
Amada p'lo sabor a mel
Não pela cor do baton
Engano de alma ledo e cego
Ó linda Inês posta em sossego imortal
Diz adeus
Com cabeleira a presa fácil
Há quem se esconda atrás dos pelos
Gosto do amor quando é difícil
De ser amada sem cabelos
Quero que me beijem a caveira
E o meu ossinho parietal
Que se afoguem na banheira
Pelo meu belo occipital
Engano de alma lego e cego
Ó linda Inês posta em sossego imortal
Diz adeus
Com carne viva a presa fácil
É ordinário e absoleto
Gosto do amor quando é difícil
Quando me aquecem o esqueleto
Quero ser amada pela morte
E p'los meus ossos de luar
Quero que os cães da minha corte
Passem as noites a ladrar
Engano de alma ledo e cego
Ó linda Inês posta em sossego imortal
Diz adeus
Sobe aos céus
Sobe aos céus
Quero ser amada só por mim
E não por andar enfeitada
Ser adorada mesmo assim
Careca, nua e descarnada"
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| ©angela_bacon_kidwell_02 |
Take a walk on the wild side"
PLAY Lou Reed Walk on the Wild Sid
novembro 06, 2015
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| ©Thomas Hoepker. PT 1964 Trás-os-Montes |
"É tão fácil aceitar, tão fácil recusar, quando se ouve o apelo, tão fácil, tão fácil. Mas, para nós, desjanelados, no calor do nosso sangue, do nosso silêncio, para nós, que não podíamos ouvir o vento, nem ver o sol, que apelo podia chegar-nos, do tipo de tempo de que gostávamos, senão o da falsa aceitação, da falsa recusa?"
Samuel Beckett (1953)
Watt, Assírio&Alvim, 2005
outubro 31, 2015
outubro 29, 2015
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| ©Irving-penn: amber-valletta-new-york-1996 |
MENDIGA VOZ
E ainda me atrevo a amar
o som da luz numa hora morta
a cor do tempo num muro abandonado.
No meu olhar perdi tudo.
É tão longe pedir. Tão perto saber que não há.
Alejandra Pizarnik (1936-1972)
Antologia Poética, O correio dos Navios, 2002
outubro 27, 2015
"Watt preferia ter de lidar com coisas de que não sabia o nome, embora também isso lhe fosse penoso, a ter que lidar com coisas cujo nome, o nome comprovado, já deixara de ser o nome delas, para ele. É que, para uma coisa de que não sabia o nome, sempre podia esperar que havia de aprender-lhe o nome, um dia, ficando sossegado. Mas não podia esperar o mesmo no caso de uma coisa cujo verdadeiro nome cessara, súbita ou gradualmente, de ser o verdadeiro nome para Watt."
Samuel Beckett (1953)
Watt, Assírio&Alvim, 2005
outubro 25, 2015
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| ©Angelo Pál, Funk Pinkász -Dancers,c.1920 |
PLAY Prokofiev Piano Concerto N.2 (Evgeny Kissin)
De olhos bem fechados...
outubro 23, 2015
Ovo ou Galinha?
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| ©Irving Penn ultra penn dancer |
MARINHA MARINHEIRA MARESIA
Eu olho para ti e o sol torna-se maior
Vai em breve cobrir-nos o dia
Desperta com o coração e a coloração em mente
Para dissipar o mal da noite
Eu olho para ti tudo está reduzido à sua expressão mais simples
Lá fora a fundura não é muita para os barcos
É preciso dizer tudo em poucas palavras
Quando não há amor o mar dá frio
É o começo do mundo
As vagas vão embalar o céu
E tu embalas-te nos teus lençóis
Puxas o sono para o teu lado
Acorda para que eu possa seguir-te os passos
Tenho um corpo para t'esperar p'ra ir atrás de ti
Das portas da aurora às portas da sombra
Um corpo para passar a vida a fazer-te amor
Um coração para sonhar do lado de fora do teu sono.
Paul Éluard (1963)
Últimos poemas de amor, Relógio d'Água, 2002
outubro 12, 2015
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| ©E. J. Bellocq Untitled c. 1912 |
PLAY Radiohead Where I End and You Begin
... e a realidade desconjuntada a que nos emprestamos...
outubro 10, 2015
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| ©W. Eugene Smith. “As From My Window, Sometimes Glance…”, 1957 |
Neste ofício de ser vivo às vezes,
ostentamos no peito a casa e o prado,
onde procuramos o silêncio de uma oração que nos oiça.
Mas as preces que ansiamos
não vivem nas palavras,
não vivem nas imagens,
não vivem nos sons,
não nos dizem quando somos, quando havemos de ser.
Oramos vezes sem conta;
erguemos bandeiras;
cegamos às escuras;
esculpimos corpos que usamos sem conhecer
e transportamos cansados e vadios,
impacientes, inseguros, intermitentes,
insipientes, inoportunos, esses transeuntes.
Ostentamos no peito a casa e o prado -
ambos vazios - sem oração que nos oiça.
E maldizemos este ofício de sermos vivos às vezes.
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| ©Álvaro Cunhal - Desenhos da Prisão |
PLAY Arvo Pärt Für Alina
Não nos tornámos missionários por insistir na elegia, mas demos por nós crentes e nem o espelho pôde afirmar o contrário. Sustivemos a respiração nos intervalos. Fomos o próprio intervalo. Incendiámos o que criámos e, para não deixarmos rasto, ardemos também. E assim abandonámos a elegia, como Cristo renunciaria ser cristão.
outubro 09, 2015
Arco e Flecha
Do arco que empurra a flecha,
Quero a força que a dispara.
Da flecha que penetra o alvo
Quero a mira que o acerta.
(Marina Silva)
Do arco que empurra a flecha,
Quero a força que a dispara.
Da flecha que penetra o alvo
Quero a mira que o acerta.
Do alvo mirado
Quero o que o faz desejado.
Do desejo que busca o alvo
Quero o amor por razão.
Quero o que o faz desejado.
Do desejo que busca o alvo
Quero o amor por razão.
Sendo assim não terei arma,
Só assim não farei a guerra.
E assim fará sentido
Meu passar por esta terra.
Só assim não farei a guerra.
E assim fará sentido
Meu passar por esta terra.
Sou o arco, sou a flecha,
Sou todo em metades,
Sou as partes que se mesclam
Nos propósitos e nas vontades.
Sou todo em metades,
Sou as partes que se mesclam
Nos propósitos e nas vontades.
Sou o arco por primeiro,
Sou a flecha por segundo,
Sou a flecha por primeiro,
Sou o arco por segundo.
Sou a flecha por segundo,
Sou a flecha por primeiro,
Sou o arco por segundo.
Buscai o melhor de mim
E terás o melhor de mim.
Darei o melhor de mim
Onde precisar o mundo.
E terás o melhor de mim.
Darei o melhor de mim
Onde precisar o mundo.
outubro 05, 2015
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| ©Imogen Cunningham Magnolia Blossom, 1925 |
Esvaziamos o mundo
e há um caule em flor.
A ausência inscreve-se
num tempo que passa
e não pára em nós
[: o milagre que fomos depura-nos
mas não nos faz avançar].
Matamos a sede e a fome
numa seiva que não sacia.
Vamos morrendo.
Famintos,
lamentamos que o Amor-Perfeito seja uma flor
que não sabemos cuidar.
Indiferentes,
esvaziamos o mundo com o seu caule.










