dezembro 10, 2015


"Tem a realidade o fascínio dum tesouro escondido? Creio bem que sim. E a entrega mecânica à tentação acaba por destruir-nos. O real não é diabólico em si mesmo. Longe disso. Mas podemos (oxalá não esteja a aproximar-me da confusão) contaminá-la sem saber."
Carlos de Oliveira (1978)
Finisterra: Paisagem e povoamento, Sá da Costa, 1979
"Porquê a lagoa tão pequena?
Ia chover. Lembrei-me com certeza duma gota de chuva. E tinha sede, já te disse. Quando temos sede, a água parece sempre pouca."


Carlos de Oliveira (1978)
Finisterra: Paisagem e povoamento, Sá da Costa, 1979

novembro 23, 2015

©raquelsav

QUEM ARRANCA de noite o coração do peito deseja a rosa.
Pertencem-lhe a sua folha e o seu espinho.
A esse põe ela a luz no prato,
com o seu sopro enche-lhe os copos,
só para ele sussurram as sombras do amor.
Quem arranca de noite o coração do peito e o arremessa ao alto:
não falha o alvo,
apedreja a pedra,
a esse bate-lhe o sangue fora do relógio,
o tempo faz-lhe soar na mão a sua hora:
pode brincar com bolas mais bonitas 
e falar de ti e de mim.

Paul Celan (23/11/1920 - 20/04/1970)
Sete Rosas Mais Tarde, Edições Cotovia, 1993) 

novembro 21, 2015

PLAY Mundo Cão O caixão da razão

Expele o fumo do cigarro
molhado
onde enrolas o medo.

novembro 20, 2015

novembro 19, 2015

PLAY Wagner-Liszt Isolde's Liebestod

Mild und leise
wie er lächelt,
wie das Auge
hold er öffnet
—seht ihr's, Freunde?
Seht ihr's nicht?
Immer lichter
wie er leuchtet,
stern-umstrahlet
hoch sich hebt?
Seht ihr's nicht?

ertrinken,
versinken, –
unbewusst, –
höchste Lust!

novembro 16, 2015

©raquelsav

PLAY J.S. Bach Kyrie Eleison - Missa H-moll BWV 232

Gravita um cheiro cego onde a palavra cessa,
mas é o hálito matinal e contínuo que fede e cala.
Não há fruta que não apodreça nem vinho que não azede,
nem parede pintada que esconda as tuas escamas de ocre e cal.
Talvez amanhã regues, na árvore, a flor que cresce
                           [e somente anoiteça, enquanto anoitece].

novembro 14, 2015

©Eduardo Gageiro
 PLAY Schoenberg Transfigured night for string sextet 


Também nós matámos o amor no medo de amar
e afundámos a ideia na palavra.

Na âncora, o suicídio diário
que nos afoga de silêncio.
Só a dor persiste
       (e serve de alimento).

novembro 08, 2015

"Espantoso! Com que angústia equívoca, a de perder e a de conservar, o homem se agarra todavia a esta vida. Pensei algumas vezes em dar um passo decisivo, face ao qual todos os meus passos anteriores mais não seriam do que infantilidades - empreender a grande viagem de descoberta. Tal como um barco ao sair do estaleiro é saudado com salvas de canhão, também eu me saudaria a mim próprio. E afinal. Será que me falta coragem? Se uma pedra me atingisse e me matasse, seria todavia uma saída."

Søren Kierkegaard (1844)
Ou - Ou. Um Fragmento de Vida, Relógio D'Água, 2013

novembro 07, 2015

PLAY Naifa Subida aos céus


"Quero ser amada só por mim
E não por andar enfeitada
Ser adorada mesmo assim
Careca, nua e descarnada

Engano de alma ledo e cego
Ó linda Inês posta em sossego imortal
Diz adeus

Com perfumes a presa fácil
Com joias casacos de peles
Gosto do amor quando é difícil
E cheira ao meu hálito reles

Quero ser amada à flor da pele
Não quero peles de vison
Amada p'lo sabor a mel
Não pela cor do baton

Engano de alma ledo e cego
Ó linda Inês posta em sossego imortal
Diz adeus

Com cabeleira a presa fácil
Há quem se esconda atrás dos pelos
Gosto do amor quando é difícil
De ser amada sem cabelos

Quero que me beijem a caveira
E o meu ossinho parietal
Que se afoguem na banheira
Pelo meu belo occipital

Engano de alma lego e cego
Ó linda Inês posta em sossego imortal
Diz adeus

Com carne viva a presa fácil
É ordinário e absoleto
Gosto do amor quando é difícil
Quando me aquecem o esqueleto

Quero ser amada pela morte
E p'los meus ossos de luar
Quero que os cães da minha corte
Passem as noites a ladrar

Engano de alma ledo e cego
Ó linda Inês posta em sossego imortal
Diz adeus

Sobe aos céus
Sobe aos céus

Quero ser amada só por mim
E não por andar enfeitada
Ser adorada mesmo assim
Careca, nua e descarnada"


©angela_bacon_kidwell_02
"Hey, honey
Take a walk on the wild side"


PLAY Lou Reed Walk on the Wild Sid

novembro 06, 2015


 ©Thomas Hoepker. PT 1964 Trás-os-Montes
"É tão fácil aceitar, tão fácil recusar, quando se ouve o apelo, tão fácil, tão fácil. Mas, para nós, desjanelados, no calor do nosso sangue, do nosso silêncio, para nós, que não podíamos ouvir o vento, nem ver o sol, que apelo podia chegar-nos, do tipo de tempo de que gostávamos, senão o da falsa aceitação, da falsa recusa?"

Samuel Beckett (1953)
Watt,  Assírio&Alvim, 2005

outubro 31, 2015

Sabe a lágrima que chora
a flor que não nasce
Traz nela o espelho
a imagem que sorve
Traz nela o vento
a imagem que jaz
Engole a palavra
no dia que encerra
Sorve o silêncio
da paz que vadia

outubro 29, 2015

©Irving-penn: amber-valletta-new-york-1996
PLAY Carmen McRae A song for you

MENDIGA VOZ

E ainda me atrevo a amar
o som da luz numa hora morta
a cor do tempo num muro abandonado.

No meu olhar perdi tudo.
É tão longe pedir. Tão perto saber que não há.


Alejandra Pizarnik (1936-1972)
Antologia Poética, O correio dos Navios, 2002

outubro 27, 2015

"Watt preferia ter de lidar com coisas de que não sabia o nome, embora também isso lhe fosse penoso, a ter que lidar com coisas cujo nome, o nome comprovado, já deixara de ser o nome delas, para ele. É que, para uma coisa de que não sabia o nome, sempre podia esperar que havia de aprender-lhe o nome, um dia, ficando sossegado. Mas não podia esperar o mesmo no caso de uma coisa cujo verdadeiro nome cessara, súbita ou gradualmente, de ser o verdadeiro nome para Watt."

Samuel Beckett (1953)
Watt,  Assírio&Alvim, 2005

outubro 25, 2015

©Angelo Pál, Funk Pinkász -Dancers,c.1920

PLAY Prokofiev Piano Concerto N.2 (Evgeny Kissin)

De olhos bem fechados...

outubro 23, 2015

Ovo ou Galinha?

©Cornell Capa. International Center of Photography PARAGUAY. 1955. Political prisoner.

E  N  T  R  A  R         P  A  R  A         S  A  I  R

 ou

S  A  I  R     P  A  R  A        E  N  T  R  A  R      

 ?
©Irving Penn ultra penn dancer

MARINHA MARINHEIRA MARESIA

Eu olho para ti e o sol torna-se maior
Vai em breve cobrir-nos  o dia
Desperta com o coração e a coloração em mente
Para dissipar o mal da noite

Eu olho para ti tudo está reduzido à sua expressão mais simples
Lá fora a fundura não é muita para os barcos
É preciso dizer tudo em poucas palavras
Quando não há amor o mar dá frio

É o começo do mundo
As vagas vão embalar o céu
E tu embalas-te nos teus lençóis
Puxas o sono para o teu lado

Acorda para que eu possa seguir-te os passos
Tenho um corpo para t'esperar p'ra ir atrás de ti
Das portas da aurora às portas da sombra
Um corpo para passar a vida a fazer-te amor

Um coração para sonhar do lado de fora do teu sono.

Paul Éluard (1963)
Últimos poemas de amor, Relógio d'Água, 2002

outubro 12, 2015

©E. J. Bellocq Untitled c. 1912

PLAY Radiohead Where I End and You Begin

...  e a realidade desconjuntada a que nos emprestamos...