janeiro 19, 2016

fotograma de "Youth" (2015) de Paolo Sorrentino

"-Podemos entender quase tudo pelo toque.
- Quem sabe por que as pessoas têm tanto medo do toque?
- Talvez porque achem que está ligado ao prazer.
- Mais uma boa razão para tocar ao invés de falar."


"Eu gosto de ironia. Mas quando ela vem mergulhada em veneno e ódio perde a piada. E revela outra coisa - frustração."

janeiro 17, 2016

"Ninguém mata pelo amor de uma mulher. Matamo-nos porque um amor, não importa qual, nos revela a nós mesmos na nossa nudez, na nossa miséria, no nosso estado inerme, no nosso nada."
Cesare Pavese (1952)
O ofício de Viver, Relógio d'Água, 2004

janeiro 15, 2016





(...)
Mas seria amor ardente
o de uma fósfora e de um palito?
Pois muito literalmente
incendiou-se o pauzito.

Tim Burton (1997)
A morte melancólica do rapaz ostra & outras estórias, Antígona, 2007
fotograma de Viagem a Citera (1984)  de Theo Angelopoulos
"Esta fatia [de pão] é para a casa.
Esta é para o pai.
E esta para Alexander.
Para Voula.
Para nosso Nico que está no mar.
Para os nossos amigos
Para o forasteiro que bater à porta
Para a mãe"

janeiro 14, 2016

[#1] À distância de um teclado

©raquelsav2016. Work-in-Progress
PLAY Tchaikovsky Doll is ill, Op. 39 n.º7

Há gritos em corpos de abandono
e, constantemente, veias que arrebatam,
que cessam,
que despedem,
que lembram -
que existem para lembrar.

Há aromas, perfume do hábito,
impregnados nas veias que existem,
e lembram o abandono,
no corpo.

Há erros perenes e crónicos,
que insistem,
insistem,
que insistem
porque o corpo ama
porque o corpo cheira
mas não sabe abandonar.

Há tanto no corpo a querer amar,
amar a saudade de amar,
a saudade de ser em amar.

Há gritos em corpos de abandono,
amores subjectivos, adjectivos,
que não nasceram para crescer
que não nasceram para ser verbo
                                   [num grito].

Creditar,
um sorriso
no Exílio.
Colher,
no juro,
o Reino.

janeiro 13, 2016

fotograma de Ninfomaníaca (2013) de Lars von Trier
"- Negro não é uma palavra politicamente correcta.
- Cada vez que uma palavra se torna proibida, remove-se uma pedra da fundação da democracia.
- O politicamente correto é uma expressão da preocupação democrática pelas minorias.
- E eu digo que a sociedade é tão cobarde quanto as pessoas. Que, na minha opinião, são demasiado estúpidas para a democracia." 

“E definitivamente não sou igual a si (psicóloga). Essa empatia que clama é uma mentira porque tudo o que você é, é a vigília da moralidade da sociedade, cujo dever, é apagar a minha obscenidade da superfície da terra, para que a burguesia não se sinta doente.”

"Infelizmente, a estupidez tem qualquer coisa de extraordinariamente fascinante e natural. (...) um bom lugar-comum é sempre mais humano do que uma nova descoberta. Não há um único pensamento significativo de que a estupidez não saiba servir-se; tem uma grande ductilidade e pode vestir todas as roupas da verdade. Já a verdade tem apenas um vestido e um caminho, e está sempre em desvantagem."

"tudo o que é hoje essencial se passa em abstracto, e à realidade só resta o mais trivial."


Robert Musil (1880-1942)
O Homem sem Qualidades, Dom Quixote, 2014 (4.ª Ed.)
(Trad. João Barrento)
fotograma de Sétimo Selo de Ingmar Bergman



janeiro 12, 2016

fotograma de "A festa de Babette" (1987) de Gabriel Axel

 "Crês que o resultado de muitos anos de vitórias e de êxitos pode ser uma derrota?"

janeiro 09, 2016



Encenamos despedidas,
enquanto falamos por línguas de fogo,
línguas da boca para dentro,
exercícios extremos de lugar
ou tão somente de silêncio.

Insistimos nessa espécie de tempo falado,
um tempo oral das coisas que não se dizem,
subindo, como quem resvala,
por degraus que se afunilam,
inclinados sobre si.
Somos cada degrau
e o peso do desenho do pé,
a marca incerta que calca o chão morto.
Por isso, tocamos a pintura na (im)perfeição do traço,
entre pormenores fractais e borrões tolhidos,
carimbo rudimentar de tinta chinesa e permanente.

Construímos o tempo na senda dos pronomes interrogativos,
mas abolimos pontos de interrogação.
Somos o quê da matéria que não fala,
que habita muito acima do porquê,
razão pura de hierarquia.
Por isso,
enquanto falamos por línguas de fogo, 
comungamos do nosso tempo - 
como extensas vítimas do silêncio. 

dezembro 31, 2015


PLAY The Doors People are Strange

LARANJA COR DE SANGUE
Está tão escuro que o fim do mundo pode estar próximo.
Convenço-me que vai chover.
Os pássaros no jardim estão silenciosos.
Nada é o que parece,
Nem nós mesmos.

Na nossa rua há uma árvore tão grande
Que podemos esconder-nos todos nas suas folhas.
Nem precisamos de roupas.
Sinto-me tão velho como uma barata, disseste.
Imagino-me passageiro de um navio-fantasma.

Agora nem um suspiro lá fora.
Se alguém abandonou uma criança no nosso patamar,
Deve estar a dormir.
Tudo está a vacilar na borda de tudo
Com um sorriso polido.

É porque há coisas neste mundo
Sem qualquer solução, disseste.
Nesse instante ouvi a laranja cor de sangue
Rebolar pela mesa e com um baque 
Cair no chão rachada ao meio.

Charles Simic (1938 - )
Previsão de tempo para utopia e arredores, Assírio&Alvim, 2002

"Entretanto, tinha andado pelo mundo, por vezes também, por curtos períodos de tempo, no seu país, fazendo coisas importantes, mas igualmente inúteis. Já demos a entender que era matemático, e mais não é preciso dizer sobre o assunto, pois em todas as profissões, quando não as exercemos por dinheiro, mas por amor, chega um momento em que o avançar dos anos nos parece levar a um vazio."

Robert Musil (1880-1942)
O Homem sem Qualidades, Dom Quixote, 2014 (4.ª Ed.)
(Trad. João Barrento)

dezembro 29, 2015


"o meu tédio é igual, o meu desejo de solidão idêntico, a minha ânsia de silêncio a mesma, quero simultaneamente que me deixem em paz e não me deixem em paz, que me amem e não me amem, que me chamem e me esqueçam"

António Lobo Antunes (1983)
Explicação dos pássaros

dezembro 23, 2015

"Vou-me embora, adeus, ou fico, qual é a alternativa, ir para onde, serei mais feliz sozinho, conseguirei alguma vez ser feliz com esta inquietação de sempre nas tripas, esta espécie de colite da alma, este desassossego de entranhas, rodo o botão do som, a adesão de Portugal ao Mercado Comum, torno a calá-lo, as lombadas dos livros irritam-me, o sofá demasiado fofo irrita-me, vou à janela espreitar a tranquilidade da rua, os carros imóveis sob os candeeiros, a pele lunar dos prédios, como farão os outros para aguentar a pastilha, os casais que conheço viverão intimamente satisfeitos consigo, lograrão lavar os dentes de manhã numa esperança relativa, qual é a solução quando nada mais há a conhecer, a descobrir, a inventar, foram quatro anos muito agradáveis, desculpa, mas acho melhor separarmo-nos, e a tua cara, de tacho na mão, boquiaberta de espanto, primeiro, a enrugar-se de dúvida, de incredulidade, depois, Deves ter bebido diz ela, Não bebi nada digo eu. De qualquer maneira guarda a conversa para logo que não tenho pachorra agora, diz ela."

António Lobo Antunes (1983)
Explicação dos pássaros
A perna acompanha o corpo e a dor. Nem metade do caminho fiz, não me perguntes quando chegarei. Põe a mesa só para ti. Hoje não como. Tenho mais de metade do caminho por fazer e toda a paciência gasta. Eu sei fazer acrobacias, mas hoje não. 

dezembro 18, 2015

PLAY Chopin Preludio em mi menor Po. 28 N.4

UM ABANDONO 

Um abandono em suspenso.
Ninguém é visível sobre a terra.
Só a música do sangue
assegura residência
num lugar tão aberto.

Alejandra Pizarnik (1936-1972)
Antologia Poética, O correio dos Navios, 2002

dezembro 15, 2015