R A D I O H E A D
|Assim repito o nome e sinto ainda o incêndio no rosto :|| paul celan |Porque é com nomes que alguém sabe | onde estar um corpo| por uma ideia, onde um pensamento | faz a vez da língua.| herberto helder
janeiro 21, 2016
janeiro 20, 2016
esta esquisita prova me tentou
de tecer um rumor em muros de água
ossos de terra calcinada
o jugo
culpado me castigo com engenho
e da voz desenhada o artifício
restos de pele antiga
no laço da armadilha
em silêncio me muro e me demoro
no cálculo de rotas inexactas
um duro arbítrio quer que me desprenda
dos cinco ou mais sentidos
vou ser livre na terra desnudada
vou dizer o que sei como quem mente.
António Franco Alexandre,
A Pequena Face, Assírio&Alvim, 1983
de tecer um rumor em muros de água
ossos de terra calcinada
o jugo
culpado me castigo com engenho
e da voz desenhada o artifício
restos de pele antiga
no laço da armadilha
em silêncio me muro e me demoro
no cálculo de rotas inexactas
um duro arbítrio quer que me desprenda
dos cinco ou mais sentidos
vou ser livre na terra desnudada
vou dizer o que sei como quem mente.
António Franco Alexandre,
A Pequena Face, Assírio&Alvim, 1983
Sobre a esperança
Queríamos
surpreender a esperança
quando ela se descontrolasse:
no momento da revolta.
Procurámo-nos
para uma grande viagem.
Resguardámo-nos
do frio e do calor.
O farnel
pesava-nos nos ombros:
História, educação,
a capacidade de suportar
o desespero, muita literatura.
Regressámos ontem.
Cansados,
como se pode imaginar,
e cheios de fome.
As fotografias
ainda não foram reveladas.
Daremos a conhecer
os resultados.
Michael Küger
De Costas Para a Janela: Poesia Alemã Contemporânea I, Colecção o Oiro do Dia, Vol. 70, 1981 (Tradução e Selecção: João Barrento)
surpreender a esperança
quando ela se descontrolasse:
no momento da revolta.
Procurámo-nos
para uma grande viagem.
Resguardámo-nos
do frio e do calor.
O farnel
pesava-nos nos ombros:
História, educação,
a capacidade de suportar
o desespero, muita literatura.
Regressámos ontem.
Cansados,
como se pode imaginar,
e cheios de fome.
As fotografias
ainda não foram reveladas.
Daremos a conhecer
os resultados.
Michael Küger
De Costas Para a Janela: Poesia Alemã Contemporânea I, Colecção o Oiro do Dia, Vol. 70, 1981 (Tradução e Selecção: João Barrento)
janeiro 19, 2016
fotograma de "Youth" (2015) de Paolo Sorrentino
"-Podemos entender quase tudo pelo toque.
- Quem sabe por que as pessoas têm tanto medo do toque?
- Talvez porque achem que está ligado ao prazer.
- Mais uma boa razão para tocar ao invés de falar."
"Eu gosto de ironia. Mas quando ela vem mergulhada em veneno e ódio perde a piada. E revela outra coisa - frustração."
janeiro 17, 2016
janeiro 14, 2016
[#1] À distância de um teclado
| ©raquelsav2016. Work-in-Progress |
Há gritos em corpos de abandono
e, constantemente, veias que arrebatam,
que cessam,
que despedem,
que lembram -
que existem para lembrar.
Há aromas, perfume do hábito,
impregnados nas veias que existem,
e lembram o abandono,
no corpo.
Há erros perenes e crónicos,
que insistem,
insistem,
que insistem
porque o corpo ama
porque o corpo cheira
mas não sabe abandonar.
Há tanto no corpo a querer amar,
amar a saudade de amar,
a saudade de ser em amar.
Há gritos em corpos de abandono,
amores subjectivos, adjectivos,
que não nasceram para crescer
que não nasceram para ser verbo
[num grito].
janeiro 13, 2016
![]() |
| fotograma de Ninfomaníaca (2013) de Lars von Trier |
- Cada vez que uma palavra se torna proibida, remove-se uma pedra da fundação da democracia.
- O politicamente correto é uma expressão da preocupação democrática pelas minorias.
- E eu digo que a sociedade é tão cobarde quanto as pessoas. Que, na minha opinião, são demasiado estúpidas para a democracia."
“E definitivamente não sou igual a si (psicóloga). Essa empatia que clama é uma mentira porque tudo o que você é, é a vigília da moralidade da sociedade, cujo dever, é apagar a minha obscenidade da superfície da terra, para que a burguesia não se sinta doente.”
"Infelizmente, a estupidez tem qualquer coisa de extraordinariamente fascinante e natural. (...) um bom lugar-comum é sempre mais humano do que uma nova descoberta. Não há um único pensamento significativo de que a estupidez não saiba servir-se; tem uma grande ductilidade e pode vestir todas as roupas da verdade. Já a verdade tem apenas um vestido e um caminho, e está sempre em desvantagem."
"tudo o que é hoje essencial se passa em abstracto, e à realidade só resta o mais trivial."
"tudo o que é hoje essencial se passa em abstracto, e à realidade só resta o mais trivial."
Robert Musil (1880-1942)
O Homem sem Qualidades, Dom Quixote, 2014 (4.ª Ed.)
(Trad. João Barrento)
janeiro 09, 2016
Le Ballon rouge Albert Lamorisse 1956
PLAY Emmylou Harris (feat) So you'll aim toward the sky - The Bootleggers
Encenamos despedidas,
enquanto falamos por línguas de fogo,
línguas da boca para dentro,
exercícios extremos de lugar
ou tão somente de silêncio.
Insistimos nessa espécie de tempo falado,
um tempo oral das coisas que não se dizem,
subindo, como quem resvala,
por degraus que se afunilam,
inclinados sobre si.
Somos cada degrau
e o peso do desenho do pé,
a marca incerta que calca o chão morto.
Por isso, tocamos a pintura na (im)perfeição do traço,
entre pormenores fractais e borrões tolhidos,
carimbo rudimentar de tinta chinesa e permanente.
Construímos o tempo na senda dos pronomes interrogativos,
mas abolimos pontos de interrogação.
Somos o quê da matéria que não fala,
que habita muito acima do porquê,
razão pura de hierarquia.
Por isso,
enquanto falamos por línguas de fogo,
comungamos do nosso tempo -
como extensas vítimas do silêncio.
dezembro 31, 2015
PLAY The Doors People are Strange
LARANJA COR DE SANGUE
Está tão escuro que o fim do mundo pode estar próximo.
Convenço-me que vai chover.
Os pássaros no jardim estão silenciosos.
Nada é o que parece,
Nem nós mesmos.
Na nossa rua há uma árvore tão grande
Que podemos esconder-nos todos nas suas folhas.
Nem precisamos de roupas.
Sinto-me tão velho como uma barata, disseste.
Imagino-me passageiro de um navio-fantasma.
Agora nem um suspiro lá fora.
Se alguém abandonou uma criança no nosso patamar,
Deve estar a dormir.
Tudo está a vacilar na borda de tudo
Com um sorriso polido.
É porque há coisas neste mundo
Sem qualquer solução, disseste.
Nesse instante ouvi a laranja cor de sangue
Rebolar pela mesa e com um baque
Cair no chão rachada ao meio.
Charles Simic (1938 - )
Previsão de tempo para utopia e arredores, Assírio&Alvim, 2002
"Entretanto, tinha andado pelo mundo, por vezes também, por curtos períodos de tempo, no seu país, fazendo coisas importantes, mas igualmente inúteis. Já demos a entender que era matemático, e mais não é preciso dizer sobre o assunto, pois em todas as profissões, quando não as exercemos por dinheiro, mas por amor, chega um momento em que o avançar dos anos nos parece levar a um vazio."
Robert Musil (1880-1942)
O Homem sem Qualidades, Dom Quixote, 2014 (4.ª Ed.)
(Trad. João Barrento)









