março 19, 2016

©Jheronymus Bosch
pormenor de Tentações de Santo Antão
1505 d.C. - 1506 d.C.

" VI
Falo de ti às pedras das estradas,
E ao sol que é loiro como o teu olhar,
Falo ao rio, que desdobra a faiscar,
Vestidos de Princesas e de Fadas;

Falo às gaivotas de asas dobradas,
Lembrando lenços brancos a acenar.
E aos mastros que apunhalam o luar
Na solidão das noites consteladas;

Digo os anseios, os sonhos, os desejos
De onde a tua alma, tonta de vitória,
Levanta ao céu a torre dos meus beijos!

E os meus gritos de amor, cruzando o espaço,
Sobre os brocados fúlgidos da glória,
São astros que me tombam do regaço."

Florbela Espanca (1930)
Charneca em Flor [in Sonetos de Florbela Espanca], 1990, Ulisseia

março 17, 2016

©Ben Benowski

FADENSONNEN
über der grauschwarzen Ödnis.
Ein baum-
hoher Gedanke
greift sich den Lichtton: es sind
noch Lieder zu singen jenseits
de Menschen.

SÓIS DESFIADOS
sobre o deserto cinzento-negro.
Um pensamento alto-
-como-árvore
capta o tom da luz: ainda
há canções para cantar do outro lado
dos homens.

Paul Celan
Sete Horas Mais Tarde, 1996, Edições Cotovia
(Tradução João Barrento e Y. K. Centeno)

Results of the novel’s analysis, which produced a shape identical to pure mathematical multifractals

LER Scientists Discover That James Joyce’s Finnegans Wake Has an Amazingly Mathematical “Multifractal” Structure

março 16, 2016

EINE HUND
Der Tisch, aus Stundenholz, mit
dem Reisgericht und dem Wein.
Es wird
geschwiegen, gegessen, getrunken.

Eine Hund, die ich küßte,
leuchtet den Mündern.


UMA MÃO
A mesa, feita da madeira das horas, com
o prato de arroz e o vinho.
Em silêncio
comemos e bebemos.

Uma mão que eu beijei
alumia as bocas.

Paul Celan
Sete Horas Mais Tarde, 1996, Edições Cotovia
(Tradução João Barrento e Y. K. Centeno)

março 14, 2016

[#7] palimpsesto

- Utopia.
- Disseste alguma coisa?
- O que é utopia?
- Vai ao dicionário ou pergunta ao More.
- A sério, o que é utopia?
- Eu sei que é a sério. Nunca te vi a brincar.
- Então, diz lá.
- Lá, si, dó.
- Falaste em utopia - explica.
- Utopia é amares uma ideia.
- Amaste uma ideia?
- Não percebo o teu espanto: é mais fácil amar uma ideia do que uma pessoa.
- Não sei se concordo.
- Quero lá saber se concordas! Uma ideia é uma formulação sobre a realidade. A realidade, o concreto, é o que é.
- Amar-te como a ti mesma?
- Levo muito a sério a dica de amar o próximo- sou o mais próximo de mim que consigo arranjar.
- Isso não é um tédio?
- Não, se a utopia alimentar o que em ti desconheces. É isso que te faz amá-la.
- Deve ter sido a definição de amor mais egoísta que alguma vez ouvi.
- E, no entanto, deve ter sido a mais realista que conheceste.
- Realista? Amar uma utopia?

Ambos bebemos do riso.

- Usaste o verbo no passado, no outro dia.
- Não ligo nada a tempos verbais. Tudo o que existe é presente.
- P r e s e n t e- o que vem depois do passado e antes do futuro.
- Não, o concreto é presente. E não acho que exista uma relação de ordem no tempo tão definida como me querem fazer acreditar.
- Então, andamos todos enganados?
- Não quero saber o que os outros acham. Digo-te que só é possível viver no presente e que passado e futuro são sinónimos no meu dicionário.
- Como se o sentido não importasse!
- O sentido, como o tempo,  é uma invenção, interessa aos Números Reais e pouco mais. Além disso, gosto mais de Números Complexos,  descrevem melhor a realidade. Por isso não têm relação de ordem.
- Detesto quando falas coisas que eu não alcanço.
- Só disse que os Números Complexos são mais reais dos que os Reais porque, além dos Reais, englobam neles os Números Imaginários. Para captarmos, com um mínimo de rigor, a complexidade da realidade precisamos de muitas ferramentas imaginárias.
- Já estás a divagar.
- Nem pensar. Raciocínio dedutivo no seu melhor!
- Pensa comigo: andar para trás é passado e andar para a frente é futuro. É simples, tens de concordar!
- Andar para trás ou para a frente é não estar parado e só isso interessa.
- Então, presente é estar parado?
- Sim. O presente é a velocidade instantânea, e o futuro e passado a velocidade média, uma aproximação ilusória.
- Por isso é que o presente é uma utopia?
- Sim.  Quando o tempo pára, quando nada mais existe, é quando nós podemos e sabemos amar.
- Então, só é possível amar uma realidade paralela?
- Não. Só é possível amar uma utopia. Somos demasiado fracos para amar o que nos incomoda. E a realidade incomoda-nos.
- Então, preferes amar um imaginário belo?
- Não é por ser belo. É por ser único. Amei, amo e amarei um presente único que se prolonga, que se estende sem sentido - tão cheio de belo como de horrível. Onde um incómodo é pretexto de entrega. E não é de todo imaginário, ainda que viva numa ideia.
- Uma utopia, portanto.
- Sim, uma concreta e absurda utopia.
EINE ART VERLUST

Gemeinsam benutzt: Jahreszeiten, Bücher und eine Musik.
Die Schlüssel, die Teeschalen, den Brotkorb, Leintücher und ein Bett.
Eine Aussteuer von Worten, von Gesten, mitgebracht, verwendet, verbraucht.
Eine Hausordnung beachtet.Gesagt. Getan. Und immer die Hand gereicht.

In Winter, in ein Wiener Septett und in Sommer habe ich mich verliebt.
In Landkarten, in ein Bergnest, in einen Stand und in ein Bett.
Einen Kult getrieben mit Daten, Versprechen für unkündbar erklärt,
angehimmelt ein Etwas und fromm gewesen vor einem Nichts,

(- der gefalteten Zeitung, der kalten Asche, dem Zettel mit einer Notiz)
furchtlos in der Religion, denn die Kirche war dieses Bett.

Aus dem Seeblick hervor ging meine unerschöpfliche Malerai.
Von dem Balkon herab waren die Völker, meine Nachbarn, zu grüßen.

Am Kaminfeuer, in der Sicherheit, hatte mein Haar seine äußerste Farbe.
Das Kingeln an der Tür war de Alarm für meine Freude.

Nicht dich habe ich verloren
sondern die Welt.

 
UMA ESPÉCIE DE PERDA

Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados, gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissémos. Fizémos. E estendemos sempre a mão.

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,

(- o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um apontamento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.

Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.

Não te perdi a ti,
perdi o mundo. 
       

Ingeborg Bachmann (1953)
O tempo aprazado,  1992 , Assírio&Alvim
(Tradução Judite Berkemeier e João Barrento)

março 12, 2016

In die Mulde meiner Stummheit
leg ein Wort
und zieh Wälder groß zu beiden Seiten,
daß mein Mund
ganz im Schatten liegt.

Coloca uma palavra
no vale da minha mudez
e planta florestas de ambos os lados,
para que a minha boca
fique toda à sombra.

Ingeborg Bachmann (1953)
O tempo aprazado,  1992 , Assírio&Alvim

março 11, 2016

"PETRA: Acho que o homem é feito de tal maneira que precisa dos outros, mas ainda não aprendeu como se vive com os outros."

Rainer Werner Fassbinder (1981)
As lágrimas amargas de Petra von Kant, 1990, Cotovia.

março 07, 2016

    "O tempo, que cuida de tudo, deu a solução, contra a tua vontade.
     O tempo, que conhece a resposta, continuou a passar.

    É num dia como este, um pouco mais tarde, um pouco mais cedo, que tudo recomeça, que tudo começa, que tudo continua.

    Deixa de falar como um homem que sonha"

Georges Perec (7 de março de 1936 — 3 de março de 1982)
Um homem que dorme (1967), Editorial Presença, 1991
"Essa tendência para traíres, para mentires - e para seres perfeitamente franca. Para te esconderes - ou para te mostrares muito. Esse cuidado de te preservares tanto - para acabares por contar a tua história, a tua verdade, com todos os pormenores, a um desconhecido. Essa vontade de fugires, de saíres a correr quando alguém mostra que começa a conhecer-te, embora não te reveles, e essa vertigem de ficares. Essa indomável sede de alguém - e de não estares com ninguém. De envolveres as carícias em palavras. Essa vontade de mudares sem renunciar a nada. Essa fome de impossíveis. Como pensar no meio desta confusão contraditória? É verdade e mentira, está bem e está mal, e não há saída.
   Nada a fazer. Toma um copo de água."

Héctor Abad Faciolince

março 03, 2016

©Irving Penn, Marrocos
 PLAY Popol Vuh Gemeinsam Aben Sie das Brot

Por isso cerro os olhos na iminência do pão.
A mesa fica tão vazia
quando nela habita um pão inteiro,
sem mão, sem faca.

Dobrámos a língua,
digerimos a cadência,
repetimos à exaustão:
|| Brot, bread, pan, pain, 
Brot, bread, pan, pain,
Brot, bread, pan, pain, 
Brot, bread, pan, pain :||

Multiplicámos o pão:
pain, pain pain pain, ...
até descobrirmos a alquimia fonética.

Transmutámos pão em dor.
Repartimos,
tomámos
e comemos.

"é um homem anónimo: morte encerrada na morte. O seu nome morreu quando morreram os que o chamavam. E o tempo serviu-lhe para arrancar todas as raízes. Liberta, a morte repetiu-se."

Rui Nunes,
Os Olhos de Himmler, Relógio d'Água, 2009

fevereiro 29, 2016

fotograma de Wittgenstein (1993) de Derek Jarman
 PLAY B. Britten  Symple Symphonie 3 Mov.
 
"Designar uma coisa é pendurar-lhe uma etiqueta"
(...)
A nossa linguagem pode ser vista como uma cidade antiga: um labirinto de travessas e largos, casas antigas e modernas e casas com reconstruções de diversas épocas; tudo isto rodeado de uma multiplicidade de novos bairros periféricos com ruas regulares e as casas todas uniformizadas.
(...)
conceber uma linguagem é conceber uma forma de vida"

Ludwig Wittgenstein (1889-1951),
Investigações Filosóficas, F. C. Gulbenkian, 2002

fevereiro 26, 2016

"É doce morrer no mar"
 
PLAY Mão Morta O Anjo do desespero

fevereiro 25, 2016


"Saber "de cor" - e que manancial de informação nesta locução - supõe a apropriação de qualquer coisa e o ser possuído pelo conteúdo do saber em questão. Quer isto dizer que autorizamos o mito, a prece ou o poema a virem implantar-se e florir no interior de nós mesmos, enriquecendo e modificando a nossa paisagem interior, tal como, por sua vez, cada uma das incursões através da vida modifica e enriquece a nossa existência. Aliás, para a filosofia e a estética antigas, a memória era a mãe das musas.
Quando a escrita levou a melhor e os livros facilitaram um tanto as coisas, a grande arte mnemónica caiu no esquecimento. A educação moderna cada vez se assemelha mais a uma amnésia institucionalizada. Deixa o espírito da criança vazio do peso das referências vividas. Substitui o saber de cor, que é também um saber de cor(ação), pelo caleidoscópio transitório dos saberes efémeros. Reduz o tempo ao instante e vai instilando em nós, até enquanto sonhamos, uma amálgama de heterogeneidade e de preguiça. Podemos afirmar que tudo o que não aprendemos e não sabemos de cor - dentro dos limites das nossas faculdades sempre imprecisas - é aquilo de que verdadeiramente não gostámos. As palavras de Robert Graves mais não fazem do que dizer que "amar de cor(ação)" ultrapassa muito qualquer "amor pela arte". Saber de cor é entrar em estreita e activa relação com a essência daquilo que somos. "
George Steiner (2005)
O silêncio dos Livros, Gradiva, 2007
PLAY E la nave va

"Espreitando pelo buraco da fechadura, "Raquelle" deu o sinal: "Agora estão a falar de guerra". (...) Espreitando pelo buraco, o olhar ora recaía sobre o papel branco, ora sobre o nariz, ou passava uma grande sombra, ou brilhava um anel. A vida desmembrava-se em pormenores reluzentes; via-se o pano verde estender-se como um relvado, uma mão branca descansava sem se ver bem onde, translúcida como num museu de figuras de cera; e se olhassem muito de viés viam lá no canto a borla dourada do sabre do general. Até o mimado Solimão se mostrava impressionado. Vista através da fechadura e da imaginação, a vida assumia proporções fabulosas e inquietantes. A posição curvada fazia o sangue subir aos ouvidos, e as vozes atrás da porta ora ribombavam como blocos de rocha, ora deslizavam como sobre tábuas enceradas. Raquel ergueu-se devagar. O chão parecia levantar-se sob seus pés, e o espírito do acontecimento tomou conta dela como se tivesse metido a cabeça debaixo de um daqueles panos pretos utilizados pelos fotógrafos e pelos mágicos."

Robert Musil (1880-1942)
O Homem sem Qualidades, Dom Quixote, 2014 (4.ª Ed.)
(Trad. João Barrento)

"Os restantes participantes não se teriam mostrado tão exigentes, mas por isso mesmo também não tinham nada a opor. E era bom que a sessão terminasse com uma resolução aprovada. Com efeito, uma rixa só acaba quando a faca lhe põe o ponto final e uma peça de música quando o intérprete martela várias vezes com os dez dedos todas as teclas ao mesmo tempo; também o dançarino faz uma vénia diante da sua dama e uma reunião conclui-se com uma resolução. Seria um mundo terrível aquele em que os acontecimentos pura e simplesmente se despedissem à francesa, em vez de, no final, assegurarem mais uma vez, como deve ser, que de facto aconteceram. É por isso que as coisas se fazem assim."

Robert Musil (1880-1942)
O Homem sem Qualidades, Dom Quixote, 2014 (4.ª Ed.)
(Trad. João Barrento)

fevereiro 17, 2016

PLAY António Fragoso Nocturno

Não sei do presente:
o espelho mente,
só sei que mente.
O corpo não é meu.
A dor não é minha.
Não sei do presente,
desde o dia em que morri:
chovia,
e eu respirava-te do peito,
em silêncio, essa noite.
Não sei do presente,
mas acredito
na eternidade desse momento.
Nele viverei, eternamente,
desde o dia em que morri.
"(...)Porque não sei como dizer-te sem milagres  
que dentro de mim é o sol, o fruto,  
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,  
o amor,    

 que te procuram."
fotograma de Die Blechtromme [O tambor] (1979) de Volker Schlöndorff