abril 05, 2016

"Podemos começar pela singular predilecção que o pensamento científico tem por explicações mecânicas, estatísticas, materiais, às quais, poderia dizer-se numa imagem, foi arrancado o coração. Ver na bondade apenas uma forma especial de egoísmo; relacionar as emoções com secreções internas; constatar que o ser humano é formado, em ou nove décimos, por água; explicar a célebre liberdade moral do carácter como apêndice mental automático do comércio livre; atribuir a beleza a uma digestão fácil e a bons tecidos adiposos; reduzir a procriação e o suícidio a gráficos anuais que mostram como necessidade aquilo que parece ser a mais livre das decisões; estabelecer afinidades entre o êxtase e a demência; equiparar o ânus e a boca, como extremidade rectal e oral da mesma coisa...: este tipo de concepções, que, por assim dizer, põem a descoberto o truque por trás do passe da mágica das ilusões humanas, contam sempre uma espécie de preconceito favorável que as faz passar por particularmente científicas. O que aí amamos é, de facto, a verdade; mas à volta desse amor nu há um gosto pela desilusão, a violência, a inexorabilidade, a fria intimidação e a seca admoestação, uma maliciosa predilecção, ou pelo menos uma involuntária emanação emocional desse tipo.
     Por outras palavras, a voz da verdade vem acompanhada por um ruído suspeito, mas aqueles a quem ela mais directamente diz respeito não querem ouvir falar disso.
 
Robert Musil (1880-1942)
O Homem sem Qualidades, Dom Quixote, 2014 (4.ª Ed.)
(Trad. João Barrento)

1) Paul Celan an Ingeborg Bachmann, Gedicht und Widmung in Mattisse-Bildban, Wien 24.(?)6.1948

In Aegypten

Für Ingeborg

Du sollst zum Aug de Fremden sagen: Sie das Wasser!
Du sollst, die du im Wasser weißt, im Aug de Fremden suchen.
Du sollst sie rufen aus dem Wasser: Ruth! Noemi! Mirjam!
Du sollst sie schmücken, wenn du bei der Fremden liegst.
Du sollst sie schmücken mit dem Wolkenhaar der Fremden.
Du sollst zu Ruth, zu Mirjam und Noemi sagen:
Seht, ich schlaf bei ihr!
Du sollst die Fremde neben dir am schönsten schmücken.
Du sollst sie schmücken mit dem Schmerz um Ruth, um Mirjam und Noemi.
Du sollst zur Fremden sagen:
Sieh, ich schlief bei diesen!

Wien, am 23. Mai 1948

Der peinlich Genauen,
22 Jahre nach ihrem Geburtstag,
Der peinlich Ungenaue


Ingeborg Bachmann & Paul Celan 
Herzzeit: Briefwechsel, 2015 (4. Ed), Suhrkamp

abril 04, 2016

PLAY John Cage | Dream

"(...) as pessoas habituam-se a exigir, mas não estão por isso preparadas para que os seus desejos se realizem. (...) o lado sério da questão é que esse absurdo é aquilo que devíamos exigir! E agora não fique a pensar que com isso quero apenas dizer que nos sentimos atraídos por aquilo que é dificilmente realizável, e que não damos importância àquilo que realmente podemos ter. O que quero dizer é que há na realidade um desejo absurdo do irreal.
- (...) As pessoas ficam imensamente felizes quando as não deixam concretizar as suas ideias!
- E o que faria o senhor meu primo- respondeu Diotima, irritada - se lhe entregassem por um dia o governo do mundo?
- Só teria uma saída: abolir a realidade." 
 
Robert Musil (1880-1942)
O Homem sem Qualidades, Dom Quixote, 2014 (4.ª Ed.)
(Trad. João Barrento)
"Aquilo já não era só um atentado à honra de um homem, era arrancar a honra com raiz e tudo! De noite um homem tem apenas uma camisa em cima da pele, e por baixo está logo o carácter."  
Robert Musil (1880-1942)
O Homem sem Qualidades, Dom Quixote, 2014 (4.ª Ed.)
(Trad. João Barrento)

março 31, 2016

 


Grant Morrison (autor) e Dave Mckean (ilustrador)
Asilo Arkham, Edições Devir, Dez 2004




Grant Morrison (autor) e Dave Mckean (ilustrador)
Asilo Arkham, Edições Devir, Dez 2004




Grant Morrison (autor) e Dave Mckean (ilustrador)
Asilo Arkham, Edições Devir, Dez 2004
"Cubro com fita o espelho do estúdio.

A gargalhada pára.

E eu regresso às minhas deambulações rituais.

Os meus movimentos pela casa tornam-se tão formais como um Ballet e sinto que me tornei 
parte vital de algum processo biológico incompreensível.

Esta casa é um organismo, faminto de loucura.

É o labirinto que sonha.

E eu estou perdido"

Grant Morrison (autor) e Dave Mckean (ilustrador)
Asilo Arkham, Edições Devir, Dez 2004

Grant Morrison (autor) e Dave Mckean (ilustrador)
Asilo Arkham, Edições Devir, Dez 2004



Grant Morrison (autor) e Dave Mckean (ilustrador)
Asilo Arkham, Edições Devir, Dez 2004

"É por isso que uns dias ele é um palhaço infantil e outros um assassino psicopata. Ele não tem uma verdadeira personalidade.
Cria uma nova todos os dias. O Joker vê-se como o mestre do desengano e o mundo é o seu teatro absurdo. Nós... AHHH!"



"Teste de Rorschach, Dra. Ruth? A senhora sabe como eu adoro o teste de Rorschach!

Bem. Estou a ver dois anjos a foderem na estratosfera. Uma constelação de buracos negros. Um processo biológico para além da compreensão humana. Um ventríloquo judeu fechado no porta-bagagens de um Chevrolet vermelho."

Grant Morrison (autor) e Dave Mckean (ilustrador)
Asilo Arkham, Edições Devir, Dez 2004

março 30, 2016

HYPERIONS SCHICKSALSLIED

Ihr wandelt droben im Licht!
   Auf weichem Boden, selige Genien!
        Glänzende Götterlüfte
            Rühren euch leicht,
                Wie die Finger der Künstlerin
                    Heilige Saiten.

Schicksallos, wie der sclafende
    Säugling, atmen die Himmlischen;
         Keusch bewahrt
            In bescheidener Knospe,
                Blühet ewig
                    Ihnen der Geist
                        Und die seligen Augen
                            Blicken in stiller
                                Ewiger Klarheit.

CANÇÃO DO DESTINO DE HYPERION

Andais lá em cima na luz
   Em chão macio, génios venturosos!
        Ares divinos resplendentes
            Vos tocam de leve,
                 Como os dedos da artista
                    Cordas sagradas.

Sem destino, como dormente
    Menino, respiram os deuses;
         Pudicamente guardado
            Em casto botão,
                Eternamente
                    Lhes floresce o Espírito,
                        E os olhos felizes
                            Olham em serena
                                Claridade eterna.

Hölderlin (1770 - 1843)
Poemas, Relógio d'Água, 1991

©Leonard Freed  | New York City, USA, Little Italy, 1955

PLAY Joy Divison | Atmosphere

Walk in silence,
Don't walk away, in silence.
See the danger,
Always danger,

Endless talking,
Life rebuilding,
Don't walk away.

Walk in silence,
Don't turn away, in silence.
Your confusion,
My illusion,

Worn like a mask of self-hate,
Confronts and then dies.
Don't walk away.

People like you find it easy,
Naked to see,
Walking on air.
Hunting by the rivers,

Through the streets,
Every corner abandoned too soon,
Set down with due care.
Don't walk away in silence,
Don't walk away.

março 29, 2016

março 28, 2016

Señoritas

©Nuno Carvalho

março 24, 2016


PLAY Madredeus | O mar "Saudade"

Aconteceu perdermos o chão e,
no palco ermo,
inventarmos uma forma de voar.

Agora somos animais aéreos 
sem terra que pisar.

BEGEGNUNG
Vom  überhängenden Baum
mit Namen
rief ich den wütenden Fisch.
Ich schrieb um den weißen Mond
eine Figur, geflügelt.
Aufträumt ich des Jägers Traum
es beschlafe ein Wild.

Gewölk zieht über dem Strom,
das ist meine Stimme,
Schneelicht über den Wäldern,
das ist mein Haar.
Über den finsteren Himmel
kam ich des Wegs,
Gras im Mund, mein Schatten
lehnte am Holzzaun, er sagte:
Nimm mich zurück.       

ENCONTRO
Da árvore vergada
chamei
pelo nome o peixe irado.
Tracei à volta da luz branca
uma figura, alada.
Veio-me o sonho do caçador
que sonha cobrir a presa.

Castelos de nuvens sobre o rio,
é a minha voz,
luz de neve sobre as florestas,
é o meu cabelo.
Pelo céu sombrio
cheguei,
erva na boca, a minha sombra,
encostada à cerca de madeira, disse:
Leva-me de volta.
        
Johannes Bobrowski (1917 - 1965) | Como um respirar - antologia poética | 1990 | Edições Cotovia |Tradução João Barrento
©Gerard Castello Lopes
PLAY Chico Buarque | Construção

março 22, 2016


© L U D M I L A • Y I L M A Z
PLAY Pergolesi | Stabat Mater

Invisível cor-de-mãe
sobre a parede que te ergue.
Notas pintadas
que não sabes tocar.
Mecânica mão
com que ensaias a vida.
Resignada boca
das sobras do pão;
da cabeça;
do peito:
a comida-de-ninguém.

E assim amas,
(em)quanto te olvidas!
"Ele ensinava as leis da gravidade, produzia prova sobre prova, mas só encontrava orelhas moucas. Elevou-se então nos ares e ensinou as leis, pairando - agora já acreditavam nele, mas ninguém se admirou quando ele não regressou do ar."

Paul Celan
Arte Poética - O Merediano e outros textos, 1996, Cotovia
(Tradução de João Barrento)