maio 16, 2016

Abschied
Aber du kamst nie mit dem Abend -
Ich saß im Sternenmantel

...Wenn es an mein Haus pochte,
War es mein eigenes Herz.

Das hängt nun an jedem Türpfosten,
Auch an deiner Tür;

Zwischen Farren verlöschende Feurrose
Im Braun der Girlande.

Ich färbte dir den Himmel brombeer
Mit meinem Herzblut.

Aber du kamst nie mit dem Abend -
...Ich stand in goldenen Schuhen.   


Despedida

Mas tu nunca vinhas com a noite - 
E eu sentada com casaco de estrelas.

... Quando batiam à minha porta
Era o meu próprio coração.

Agora pendurado em todas as ombreiras,
Também na tua porta;

Entre touros rosa-de-fogo a extinguir-se
No castanho da grinalda.

Tingi-te o céu cor de amora
Com o sangue do meu coração.

Mas tu nunca vinhas com a noite
... E eu de pé com sapatos dourados.   

Else Lasker-Schüller (1917) | A Alma e o Caos: 100 poemas expressionistas | Relógio D´Água | 2001 | Trad. João Barrento
WAGNER:
Mas - e o mundo? A alma e a mente humanas?
Quem há que não aspire a conhecê-las?

FAUSTO:
Pois é, se conhecer a isso chamas...
Essas coisas, quem pode nomeá-las?
Os raros eleitos que um pouco a conheceram
E, loucos, abriram os seus corações,
À plebe revelando sentimentos, visões,
Esses sempre pelo fogo ou na cruz morreram.

Johann W. Goethe (1749 - 1832) | Fausto  | Relógio D'Água | 2ª Ed. | 2013

maio 12, 2016

maio 11, 2016

maio 10, 2016

"Born of a light"

©raquelsav | "serralharia"
PLAY Radiohead | Desert Island Disk
PLAY Bert Jansch | Angie

Der Dichter und der Krieg

Ich sang die Gesänge der rot aufschlitzenden Rache,
und ich sang die Stille des waldumbuchteten Sees;
aber zu mir gesellte sich niemand,
steil, einsam
wie die Zikade sich singt,
sang ich mein Lied vor mich.
Schon vergeht mein Schritt ermattend
im Sand de Mühe.
Vor Müdigkeit entfallen mir die Augen,
müde bin ich der trostlosen Furten,
des Überschreitens de Gewässer, Mädchen und Straßen.
Am Abgrund gedenke ich nicht
des Schildes und Speeres.
Von Birken umweht, 
von Winde umschattet,
entschlaf ich zum Klange der Harfe
Anderer,
denen sie freudig trieft.
Ich rege mich nicht,
denn alle Gedanken und Taten
trüben die Reinheit der Welt.  


O poeta e a guerra

Eu cantei os cânticos da vingança em vermelho rasgada,
E cantei o silêncio do lago de baías arborizadas;
Mas ninguém se juntou a mim,
Íngreme, solitário
Como a cigarra se canta,
Cantei o meu canto para mim.
Os meus passos  vão-se desvanecendo, extenuados
Na areia do meu esforço.
Os meus olhos caem-me de cansaço,
Estou cansado dos desconsolados vaus,
De atravessar rios, mulheres e ruas.
À beira do abismo, não penso
No escudo e na lança.
Assoprado pelas bétulas,
Ensombrado pelo vento, 
Adormeço ao som da harpa
De outros,
Para quem ela escorre alegremente.
Não me mexo,
Porque todos os pensamentos e acções
Turvam a pureza do mundo.   

Albert Ehrenstein (1916) | Expressionismo Alemão: Antologia Poética | Ática | 
(Trad. João Barrento)

maio 09, 2016

Onde há tristeza, há esperança

@raquelsav | "Sarrado" | Maio 2016
PLAY J. S. Bach | Erbarme dich : St. Matthäus Passion

Mesa posta
à conquista do pó:
até ao lavar do prato
é refeição.
Ein Lied
Hinter meinen Augen stehen Wasser,
Die muß ich alle weinen.

Immer möcht ich auffliegen
Mit den Zugvögeln fort;

Buntatmen mit den Winden
In der großen Luft.

O ich bin so traurig - - - -
Das Gesicht im Mond weiß es. 

Drum ist viel sammtne Andacht
Und nahender Frühmorgen um mich.

Als an deinem steinernen Herzen
Meine Flügel brachen,

Fielen die Amseln wie Trauerrosen
Hoch vom blauen Gebüsch.

Alles verhaltene Gezwitscher
Will wieder jubeln

Und ich möchte auffliegen
Mit Zugvögeln fort.


Uma canção

Por detrás dos meus olhos há águas,
Tenho que as chorar todas.

Tenho sempre um desejo de me elevar voando,
E de partir com as aves migratórias.

Respirar cores com os ventos
Nos grandes ares.

Oh, como estou triste...
O rosto da lua bem sabe.

Por isso, à minha volta há muita devoção aveludada
E madrugada a aproximar-se.

Quando as minhas asas se quebraram
Contra o teu coração de pedra,

Caíram os melros, como rosas de luto,
Dos altos arbustos azuis.

Todo o chilreio reprimido
Quer jubilar de novo

E eu tenho um desejo de me elevar voando,
E de partir com as aves migratórias.

Else Lasker-Schüller (1917) | Expressionismo Alemão: Antologia Poética | Ática | 
(Trad. João Barrento)

maio 05, 2016

|O mundo não perdeu apenas Deus, perdeu também o Diabo|

"Mas então Paul Arnheim avançaria e diria ao Senhor: ‹‹Senhor, para quê? O egoísmo é a qualidade mais confiável da vida humana. O político, o soldado e o rei conseguiram, com a sua ajuda e muita astúcia e força, pôr ordem no Teu mundo. É esta a melodia da humanidade. Tu e eu temos de o aceitar. Abolir a força seria enfraquecer a ordem. A nossa missão é dar ao homem a possibilidade de fazer grandes coisas, apesar de ser um bastardo!››
 (...) 
‹‹Mas não será o dinheiro um método tão seguro de tratamento das relações humanas como a força, e não nos permite ele dispensar o uso ingénuo dela? É uma violência espiritualizada, uma forma especial de violência, flexível, requintada e criativa. Os negócios não se baseiam na astúcia e na força, na obtenção de vantagens e na exploração? A diferença é que são atitudes civilizadas, transpostas para a interioridade, como que mascaradas com a aparência da sua liberdade.  O capitalismo, enquanto organização do egoísmo segundo a hierarquia das forças que permite fazer dinheiro, é mesmo a maior e mais humana das ordens que conseguimos criar em Tua honra. Não há medida mais exacta do fazer humano!››"

Robert Musil (1880-1942)
O Homem sem Qualidades, Dom Quixote, 2014 (4.ª Ed.)
(Trad. João Barrento)
"Mas as grandes almas precisam de legitimidade. Nas horas mais solitárias, sentem o rigor vertical do universo. E o homem de negócios, embora domine o mundo, admira a realeza, a aristocracia e o clero como suportes do irracional. Pois o que é legítimo é simples, como tudo o que é grande, e não precisa do entendimento. Homero era simples. Cristo era simples. Os grandes espíritos chegam sempre aos mais simples princípios; temos mesmo de ter coragem de dizer: a lugares-comuns da moral. Em suma, ninguém tem tanta dificuldade em agir contra a tradição como as almas verdadeiramente livres."

Robert Musil (1880-1942)
O Homem sem Qualidades, Dom Quixote, 2014 (4.ª Ed.)
(Trad. João Barrento)

maio 04, 2016

©raquelsav | "Sarrado" | Maio 2016
PLAY Chico Cesar, Lenine, Paulinho Moska, Zeca Baleiro | O mundo

Podia ler nos homens o adensar do grito,
num canto que não chegou nem perto.
Podia tentar amanhã,
ou num dia em que a sorte não chegue tão tarde.


Não há vitória que não ponha fim à história...

©raquelsav | "Sarrado" | Maio 2016

abril 29, 2016

[#8] palimpsesto

- Deus só podia estar muito entediado.
- No dia em que foste concebida?
- Tens uma piada. Não! No dia em que inventou este lugar.
- Porquê?
- Porquê? Ainda perguntas porquê? Ele só pode ter inventado a Conservatória do Registo Civil no intervalo entre a criação do herpes e das hemorróidas.
- Só tu!
- Só eu? Já deste conta do tempo que passou?
- Para ser franco, não. Deixas-me escrever?
- Desculpa, eu calo-me.

PFuuuu - suspiro fundo e longo de tédio, esclareça-se- Há quem escreva. Eu prefiro pensar. Quantas correntes de pensamento interrompo com o acto da escrita? Escrever é uma forma de atrasar o pensamento. Musil cria a figura de um bibliotecário que nunca leu um livro mas que sabe tudo sobre os milhares de livros que organiza - importante é ter uma ideia geral, diz, lê-lo seria perder-se no seu conteúdo. Possivelmente, também ao pensamento interessa a ideia geral. Compreendê-lo seria pará-lo, esmiuçá-lo, perder a sua forma, em detrimento de um micro-contorno, impedi-lo de andar. E escrever é sempre uma forma de compreender o pensamento. Mas uma coisa é certa, o André escreve que se desunha. Adoro quando posso aplicar a palavra desunha numa frase, quase tanto como resvalar.

- A sério, desunha?
- Esqueço-me do teu dom. Isso funciona a quantos metros de distância?
- Quanto mais perto melhor. Queres experimentar sentar-te ao meu colo?
- Ao teu colo? Na Conservatória?
- Era um bom título para um filme pornográfico.
- Pois eu não acho que o disfarce de funcionária da Conservatória tenha grande interesse.
- E o que é que tem interesse, para ti?
- Muita coisa.
- Diz lá.
- Depenar patos com parafina.
- O quê?
- Estou a pensar como é que se depenam patos com parafina. Será que se banha o pato por inteiro ou se borrifa o bicho de parafina?
- Não faço ideia, mas se acendesses o isqueiro ficava depenado e tostado de uma vez só.
- Acho que não percebes nada de depenar patos.
- Pois não, eu só sei depenar mentes.
- No teu colo?
- O pato?
- Sim, o pato.
- Mas por que te interessa depenar patos com parafina?
- A mim? Nada! Eu até sou vegetariana.


©raquelsav | "Sarrado" | Abril2016
PLAY At-Tambur | D. Fernando

abril 28, 2016

Sentiu falta de sentir falta

©raquelsav | "Sarrado" | Abril2016