maio 25, 2016

1
Meu coração, esta noite, fez dos anjos
cantores que se recordam...
Uma voz, quase integralmente sobreposta à minha,
atraída por este excesso de silêncio,

eleva-se e decide
nunca mais voltar à minha;
dulcíssima e intrépida,
com quem se vai ela encontrar?

Rainer Maria Rilke (1875 -1926) | Frutos e apontamentos | Relógio D'Água | 1996 | Trad. M. Gabriela Llansol
VIVO SEM VIVER EM MIM

Vivo sem viver em mim
e tão alta vida espero,
que morro por não morrer.

Vivo fora de mim,
depois que morro de amor,
porque vivo no Senhor,
que me quis só para si.
Meu coração lhe ofereci
pondo nele este dizer:
Que morro por não morrer.
(...)

Santa Teresa de Ávila (1515-1582) | Seta de fogo | Assírio&Alvim | 2011 | (trad. José Bento)

maio 23, 2016

ladrão que rouba a ladrão... não precisa pedir perdão
PLAY Rauelsson | Fluvial

"A viagem é a procura desse nada de nada, dessa pequena vertigem para lorpas..." 
Louis-Ferdinand Céline | Viagem ao fim da noite | Ulisseia | 2010

Não basta encomendar almas,
coçar a orelha como quem descobre o corpo à cabeça,
enquanto impomos à outra mão que nos ampare a trepidação da viagem.

Falta-nos coragem.
Sabemos que nos falta coragem.
Sabemos que a queda não será a mesma se a mão nos acompanhar.
Por isso, não sabemos como a largar,
não sabemos como embalar o corpo na dança comum,
impor-nos sem força, sem leis, sem gravidade,
na massa ligeira dos outros, que dançam.

É à noite, sozinhos e sós, que galvanizamos o desembaraço e lemos poesia
como quem bebe, por osmose,
do desespero comum dessa herança humana.
É à noite, sozinhos e sós, que guardamos a nossa parcela de sabedoria,
que a empoleiramos, quinhão após quinhão,
que,  silenciosamente, ficamos à espera.

E esperamos, infinitamente, dia após dia, que alguém nos compreenda.
E esperamos, infinitamente, dia após dia, que esse alguém sejamos nós.

Mas como podemos desejar andar um pouco acima do chão,
se não sabemos ler a explicação das árvores, dos pássaros,
de todas as moradas que nos foram vedadas no parto,
por nascermos sem pernas, sem olhos, sem ouvidos, sem alma?

Não basta, por isso, encomendar pernas, olhos, ouvidos e almas,
desejar ser o expoente que eleva a Diáspora da Dor,
escancarar a boca como quem sorri,
se nem mijar de cócoras no pinhal sabemos,
se nem o cabelo entrançamos, por falta de elástico,
se nem o corpo sabemos entregar à dança comum.

Somos todos,
somos tantos, tantos na mesma carruagem,
empilhados a aguardar o fim da viagem:
quando nada nos garante que a bruxa nos abra a porta,
mesmo que sejamos os primeiros a chegar.

maio 20, 2016

©Kevin Cummins | Joy Division, Manchester | 6th January 1979

PLAY Joy Divison | Heart and Soul

"Existence well what does it matter?
I exist on the best terms I can 
The past is now part of my future 
The present is well out of hand "

"Em Inglaterra procedia-se, na altura, à canonização de Ian Curtis, e é sempre desagradável assistir a campanhas para a criação de dogmas. E, no entanto, reconheci depois que, a haver um dogma, não poderia, no início da década de 80, haver um dogma melhor."

"Closer é limpidamente belo - pela transparência silenciosa da solidão, sem nunca se transformar em auto-compaixão ou sentimentalismo. É o momento em que nos damos fé duma tristeza insolúvel, e da futilidade de a combater. Não há revolta - apenas um lento despertar, corajosamente assumido e aceitado. O encanto dos Joy Division não é virtuosismo, ou sequer a criatividade da música - é, sobretudo, uma inesquecível sinceridade, despida de efeitos especiais, que se transmite, dir-se-ia por osmose sensível, a quem a ela se expõe."

Miguel Esteves Cardoso | Escrítica pop: um quarto da quarta década do Rock 1980-1982 | Assírio&Alvim | 2003
 
©raquelsav | navegante |2015

"Ulrich levantou-se e esticou os braços, admirado com os seus devaneios. A menos de dez passos dele, do outro lado da parede, estava o cadáver do pai, e só agora reparou que à sua volta havia um formigueiro de gente que parecia sair do chão e se entregava a várias tarefas na casa morta, mas que continuava viva. Mulheres velhas estendiam tapetes e acendiam novas velas, ouvia-se martelar nas escadas, traziam flores para cima, enceravam o chão, e agora toda essa actividade se estendia também até ele: havia pessoas que estavam a pé tão cedo porque precisavam de fazer ou de saber qualquer coisa, e a partir desse momento a azáfama não parou. A Universidade precisava de ter informações sobre o funeral, um ferro-velho, discretamente, queria saber se havia roupas para vender, um alfarrabista da cidade fez-se anunciar, com muitas desculpas, em nome de uma firma alemã, oferecendo-se para adquirir uma obra jurídica rara que deveria encontrar-se na biblioteca do defunto, um padre representante da paróquia, pedia para falar com Ulrich para esclarecer explicações, outro procurava um piano barato, um agente imobiliário deixou o cartão, para o caso de quererem vender a casa, um funcionário aposentado ofereceu-se para escrever endereços nos envelopes, era um constante vaivém de gente entrando, saindo, perguntando, reclamando por escrito ou oralmente o seu direito à existência a estas horas da manhã, tudo objectivamente relacionado com a morte acontecida. Ao portão da casa, o velho criado tentava enxotar os que podia, e lá em cima Ulrich tinha de receber os que conseguiam entrar. Nunca imaginara que havia assim tanta gente esperando delicadamente pela morte dos outros, nem que os corações batem mais depressa quando o outro deixa de bater. Estava espantado, veio-lhe a imagem do escaravelho morto na floresta, e de outros escaravelhos, formigas, pássaros e borboletas esvoaçantes a aproximarem-se dele"


"O jornalista deu-se por satisfeito, já tinha o número de linhas necessário. Ulrich espantou-se com o montinho de cinzas que é tudo o que resta da vida de um homem. Para cada informação recebida, o jornalista tinha na manga fórmulas de seis a oito cavalos: grande sábio, aberto ao mundo, político prudente e criativo, talento universal e assim por diante; decerto não morria ninguém há muito tempo, e as palavras estavam enferrujadas e sedentas de aplicação. Ulrich pensou ainda um pouco; gostaria de ter dito mais alguma coisa de bom sobre o pai; mas o cronista, que já arrumava os instrumentos de escrita, tinha-se limitado a perguntar por factos, e o resto era como se quiséssemos agarrar no conteúdo de um copo de água, mas sem o copo."

Robert Musil (1880-1942) | O Homem sem Qualidades - Livro Segundo | Dom Quixote | 2008 | 2.ª Ed. |Trad. João Barrento

"So viel Gott strömt über"


Versöhnung
Es wird ein großer Stern in meinen Schoß fallen...
Wir wollen wachen die Nacht,

In den Sprachen beten,
Die wie Harfen eingeschnitten sind.

Wir wollen uns versöhnen die Nacht -
So viel Gott strömt über.

Kinder sind unsere Herzen,
Die möchten ruhen müdesüß.

Und unsere Lippen wollen sich küssen,
Was zagst du?

Grenzt nicht mein Herz an deins -
Immer färbt dein Blut meine Wangen rot.

Wir wollen uns versöhnen die Nacht,
Wenn wir uns herzen, sterben wir nicht.

Es wird ein grßer Stern in mein Schoß fallen.    
  
    
Reconciliação
Há-de uma grande estrela cair no meu colo...
A noite será de vigília,

E rezaremos em línguas
Entalhadas como harpas.

Será noite de reconciliação -
anseiam pela paz, doces-cansados.

E nossos lábios desejam beijar-se - 
Por que hesitas?

Não faz meu coração fronteira com o teu?
O teu sangue não pára de dar cor às minhas faces.

Será noite de reconciliação,
Se nos dermos, a morte não virá.

Há-de uma grande estrela cair no meu colo.            

Else Lasker-Schüller | Baladas hebraicas | Assírio&Alvim | 200s | Trad. João Barrento

maio 18, 2016

Untreu

Dein Lächeln weit in meiner Brust
Die glutverbissnen Lippen eisen
Im Atem wittert Laubwelk!
Dein Blick versargt
Und
Hastet polternd Worte drauf.
Vergessen
Bröckeln nach die Hände!
Frei
Buhlt dein Kleidsaum
Schlenkrig
Drüber rüber!     


Infiel
O teu sorriso chora no meu peito
Gelam os lábios mordidos em brasa
No hálito há presságio de murchar de folha!
O teu olhar sepulta em caixão

Arremessa ruidosamente palavras sobre a tampa.
Esquecidas
Vão-se esboroando as mãos!
Livre
A bainha do teu vestido coqueteia
Meneante
Passando-lhe ao de leve por cima!   
  August Stramm (1914) | A Alma e o Caos: 100 poemas expressionistas | Relógio D'Água | 2001 | Trad. João Barrento
"Como consequência, Ulrich caiu em si e percebeu que não podia entregar os seus pensamentos a um Eu parcial. Voltou a ser o homem da inteligência funcional. "

Robert Musil (1880-1942) | O Homem sem Qualidades - Livro Segundo | Dom Quixote | 2008 | 2.ª Ed. |Trad. João Barrento

maio 17, 2016

© Mathis Gothart Niethart [Matthias Grünewald] (1470-1528) | pormenor de "Crucifixion" 

#16 , #17

PLAY Jeff Buckley | You & I

16) Liebe Ingeborg,
es ist halb fünf, und ich muß nun zu meinem Schüler. es war unser erstes Rendezvous in Paris, mein Herz klopft ganz laut, und Du bist nicht gekommen. ich muß heute noch zwei Stunden geben, habe weit zu fahren und bin erst gegen drei Viertel neun zurück.  
Der Steckkontakt für Dein Bügeleisen steckt in der Lampe; sei aber vorsichtig und schließ die Tür gut zu, damit sie im Hotel nicht merken, daß Du bügelst. Schreibe auch Deine Briefe. Auf Briefe warten ist schwer.
Und denk ein wenig an das, was über mich strich, als ich zu Dir sprach.
 Paul

 17)
Liebe Inge,
ich [bin] ungefähr 1 Uhr 45 um zurück - kannst Du bitte so lange warten 
Paul

14.10.1950, Paris

Ingeborg Bachmann & Paul Celan 
Herzzeit: Briefwechsel, 2015 (4. Ed), Suhrkamp

A fome num prato vazio

©raquelsav | "Sarrado"

©Rinke Nijburg | Dawn at 6 PM
PLAY J.S. Bach | Sibylla Rubens | "Aus Liebe will mein Heiland sterben - St. Mt. Passion

"Qual o significado do choro? O que significa em nós? "
"A tristeza é sempre um espaço na nossa vida... que está sempre ali, mas não entramos... até que algo nos leva para um lugar onde... temos de nos render, desistir e dizer: não sei a resposta. Isto é demasiado para mim. E esse lugar de rendição significa que... temos de perder a ilusão de que temos o controlo. Temos de reconhecer que... não traçamos o rumo da nossa vida, não somos o autor do guião. E que depois de nos rendermos e irmos para o lugar mais fundo há uma abertura radical. A vida está organizada de tal forma que chegamos a um lugar que nos faz deter. E a dor e o lugar inconsolável da melancolia faz-nos ir procurar algo ainda mais profundo.
     
O que tem esta música que atinge as pessoas no seu inconsciente colectivo? Grande parte da nossa música preferida, que ouvimos repetidamente ou de que nos lembramos vezes sem conta, é música amargamente triste. É música bem mais triste do que nós. Faz-nos ter noção que a nossa tristeza não é afinal tão profunda. Mas consola-nos porque há alguém ainda mais triste do que nós. É uma das funções mais importantes da música que nos faz seguir em frente. Intenção. Julgo que a música é uma abertura. A música é a abertura para uma experiência cujo fim desconhecemos e não conheceremos o fim. Penso que esse é o encanto da estrutura de Bach. É dizer: 
"- Por favor, venham ajudar-me a chorar. "
E a mera ideia de que ninguém deve chorar sozinho é realmente forte. Não é apenas:
 "- Por favor, não chores."
É: 
"- Por favor, vem ajudar-me a chorar. Ajuda-me a libertar disto."
 E a peça é um convite para nós partilharmos este lugar insuportável e triste e abrir esse lugar, em vez de o manter encerrado, privado, um lugar secreto do nosso sofrimento pessoal." Peter Sellars

Transcrição extraída do documentário "Erbarme Dich: Histórias da Paixão de Mateus"

maio 16, 2016

Abschied
Aber du kamst nie mit dem Abend -
Ich saß im Sternenmantel

...Wenn es an mein Haus pochte,
War es mein eigenes Herz.

Das hängt nun an jedem Türpfosten,
Auch an deiner Tür;

Zwischen Farren verlöschende Feurrose
Im Braun der Girlande.

Ich färbte dir den Himmel brombeer
Mit meinem Herzblut.

Aber du kamst nie mit dem Abend -
...Ich stand in goldenen Schuhen.   


Despedida

Mas tu nunca vinhas com a noite - 
E eu sentada com casaco de estrelas.

... Quando batiam à minha porta
Era o meu próprio coração.

Agora pendurado em todas as ombreiras,
Também na tua porta;

Entre touros rosa-de-fogo a extinguir-se
No castanho da grinalda.

Tingi-te o céu cor de amora
Com o sangue do meu coração.

Mas tu nunca vinhas com a noite
... E eu de pé com sapatos dourados.   

Else Lasker-Schüller (1917) | A Alma e o Caos: 100 poemas expressionistas | Relógio D´Água | 2001 | Trad. João Barrento
WAGNER:
Mas - e o mundo? A alma e a mente humanas?
Quem há que não aspire a conhecê-las?

FAUSTO:
Pois é, se conhecer a isso chamas...
Essas coisas, quem pode nomeá-las?
Os raros eleitos que um pouco a conheceram
E, loucos, abriram os seus corações,
À plebe revelando sentimentos, visões,
Esses sempre pelo fogo ou na cruz morreram.

Johann W. Goethe (1749 - 1832) | Fausto  | Relógio D'Água | 2ª Ed. | 2013