junho 01, 2016


©Cartier Bresson | Srinagar, Kashmir | 1948
Auf Erden
Gelassen schau ich diesen Himmel an.
Natur. Natürlich fallen mir Vergleiche ein.
Ein Alpenveilchentöpfchen könnt es sein
was hochhinaus am Horizont erglüht.

Es ist mir trotzdem kalt. Die Wiesen weiß
vereist. Die Sonne schwach. Auf Autodach
fiel Schnee und auf die Felder fallen
strenge Metaphern ohne Reim herein.

Die Krähen schrein. Natürlich ziehn
sie schwirren Flugs zur Stadt. Wer
keine Heimat hat schaut sich
den Himmel an.   

 Nesta Terra

Serena olho para este céu. Natureza.
Naturalmente as comparações vão ocorrer.
Um vaso de violetas dos Alpes podia ser
aquilo que se ergue em fogo no horizonte.

Apesar disso tenho frio. Os prados brancos
gelados. O sol fraco. No tejadilho do carro
caiu neve e sobre os campos caem
rigorosas metáforas sem rima.

As gralhas gritam. Naturalmente voam
em voo vibrante para a cidade. Quem
não tem pátria olha
para o céu.
     
Ulla Hahn (1988) | A sede entre os limites| Relógio D'Água | 1992 |Trad. João Barrento
Vorgeschrieben
Diese Sehnsucht
dich beim Namen zu nennen
Diese Angst
dich beim Namen zu nennen

Diese Sehnsucht
Wort zu halten
Diese Angst
nur Wort zu halten

Diese Sehnsucht nach einem Leben
das kein Gedicht wird
Diese Angst vor einem Gedicht
das ein Leben vorwegnimmt.

Pre-scrita
Esta saudade
de te chamar pelo nome
Este receio
de te chamar pelo nome

Esta saudade
de manter a palavra
Este receio
de apenas manter a palavra

Esta saudade de um vida
que não dê em poema
Este receio de um poema
que antecipe uma vida.
        
Ulla Hahn (1988) | A sede entre os limites| Relógio D'Água | 1992 |Trad. João Barrento
©Novembro
- Na saída do ombro, ao nível da cabeça.... Não, recomecemos. Entre o peito e o ventre...
- Onde?
- Esternocleidomastoideo!
- Mas o que é que te deu?
- Certo, algures mais abaixo.
- Abaixo? Quanto? Acima do umbigo?
- Da lombalização.
- Ou da sacralização?
- Com toda a certeza acima do joelho.
- Ah, por baixo da nádega.
-    ______________
- Estranha anatomia.
- Em forma.
- Em forma?
- Cilíndrica.
- Não.
- Esférica.

- Estavas a dizer o quê?
- Está bandeira amarela, é melhor não nadar.
- Ah sim. Rebolar.

maio 30, 2016

[#9] palimpsesto

- Talvez um dia entendas que sempre foste fome e sede em estado terminal.
- Mais valia acabar com a vida.
- Ou com a morte: mais valia acabar com a morte.
- De qualquer forma, eu lá sou pessoa de entender!
- Nisso tens razão. Não és pessoa de entender, de viver, de morrer.
- Concordo.
- Nem parece teu. Desde quando? Desde quando és pessoa de concordar?
- Eu, agora, concordo com tudo.
- Ou com nada! Concordar com tudo é como concordar com nada.
- Talvez seja melhor magoares-me como quem me belisca.
- Eu? Eu não sou pessoa de magoar. Mas posso sempre gritar, tentar acordar-te.
- Eu adormeci eternamente.
- Adormeceste ou acordaste?
- Adormeci, no dia em que acordei, adormeci.
- Isso é porque não sabes romper com o passado.
- Já te disse que não acredito em passado.
- Acreditas e tudo o que sobra é cobardia: não queres é rompê-lo.
- Se eu acreditasse nele, saberia como o romper.
- A sério? E isso seria como?
- Com os dentes. Só se pode romper com os dentes.
- Até deixar marca?
- Sim, especialmente a marca. Até deixar sangue. Veia. Fractura exposta.
- Tão exposto assim, não há como fazê-lo passado.
- Por isso não acredito nele.
- Acreditas em quê, podes dizer-me?
- Não!
- Porquê?
- Porque vou mudificar.
- Agora até erros ortográficos dás?
- Não é erro, muito menos ortográfico.
- Modificar escreve-se com um O.
- Sim, um O tão redondo como tu: nunca aprenderás a ler para além da letra que aprendeste.
- E tu continuas fome e sede em estado terminal.
- Mudificar: acto de ficar muda.
- O quê?
- _______________________. -
[Gesticulo como quem puxa, imaginária e continuamente, um fio de palavras da garganta: fosse a torrente de pensamentos tão fácil de estancar].
- Definitivamente: fome e sede em estado terminal!

maio 28, 2016

©Heinrich Kühn (1866 -1944)*
"Ulrich fixava a irmã, com a testa enrugada. ‹‹Um homem que não sente a necessidade de alisar um poema antigo, preferindo deixá-lo ecoar na decrepitude de um sentido meio destruído, assemelha-se àquele que jamais aplicará um nariz de mármore novo a uma velha estatueta a que falta o nariz››, pensou. ‹‹Podia chamar-se a isso ter sentido do estilo, mas não é disso que se trata. Nem do facto de o homem ter a imaginação tão viva que a falha não o incomoda. Estamos, isso sim, perante alguém que não dá qualquer valor à perfeição e por isso também não exigirá que os seus sentimentos sejam "totais".›› E, numa transição brusca, concluiu: ‹‹Ela deve beijar sem perder logo o domínio de si!›› Nesse momento, parecia-lhe que não precisava de conhecer a irmã para lá daqueles versos ditos com paixão, para saber que ela ‹‹nunca se entregava completamente a uma coisa››, que também ela era, como ele, um ser de ‹‹paixões fragmentadas››. Até se esqueceu da outra metade de si próprio, aquela que lhe pedia medida e contenção.
(...)
Ela continuava a abraçar a ombreira, com o braço erguido, e um segundo a mais estragaria certamente toda a cena. Ulrich detestava as mulheres que se comportam como se tivessem sido criadas por um pintor ou um encenador, ou que, depois de uma excitação como a de Agathe, acabam num piano artificial. ‹‹Talvez ela pudesse deslizar do seu climax de entusiasmo com a expressão um pouco idiota e sonâmbula de um médium que desperta; não terá outra saída, e também isso vai ser penoso!›› - pensou. Mas Agathe parecia saber disso, ou adivinhara no olhar do irmão o perigo que espreitava: deixou-se cair das alturas do seu entusiasmo com um salto e deitou a língua de fora a Ulrich! Mas depois ficou séria e calada..."

Robert Musil (1880-1942) | O Homem sem Qualidades - Livro Segundo | Dom Quixote | 2008 | 2.ª Ed. |Trad. João Barrento

[*sugestionada e gentilmente roubada dos ponteiros parados]
"Concentrar-se significa ultrapassar em permanência o nosso próprio comodismo."

Robert Musil (1880-1942) | O Homem sem Qualidades - Livro Segundo | Dom Quixote | 2008 | 2.ª Ed. |Trad. João Barrento

maio 27, 2016

15
Com o suspiro da amiga,
a noite inteira estremece 
porque uma carícia breve
percorre o céu deslumbrado.

Tal como se no Universo
uma força primitiva
voltasse a querer ser mãe
de todo o amor que se perde.      

Rainer Maria Rilke (1875 -1926) | Frutos e apontamentos | Relógio D'Água | 1996 | Trad. M. Gabriela Llansol

maio 26, 2016

"Na nossa língua, denken (pensar) e danken (agradecer) são palavras da mesma raiz. Quem lhes seguir o sentido, depara com o campo semântico de gedenken (lembrar), eingedenke sein (rememorar), Andenken  (recordação), Andacht (devoção). Permitam-me que vos agradeça a partir daqui."

Paul Celan (1958) | Arte Poética: O Meridiano e outros textos | Cotovia | 1996 | Trad. João Barrento e Vanessa Milheiro

Dunkles Lied

Rings ist das Leid
Und rings die Welt die dunkel fällt.
Ich bin im schwarzen Strom ein einsam hingespieltes Wiegen
Im mir ist Nacht.
Stern ohne
Tod
und Gräber.  


Canção Sombria

Em redor há a dor
E em redor o mundo que cai sombrio.
Eu sou no negro rio um embalar, para ele jogado em solidão.
Em mim há noite.
Estrela sem
Morte
nem túmulos.

Kurt Heynice (1918) | A Alma e o Caos: 100 poemas expressionistas | Relógio D´Água | 2001 | Trad. João Barrento