julho 01, 2016

"Um ‹caso limite››, como Ulrich mais tarde lhe chamaria, com um alcance limitado e particular, e que lembrava a liberdade com que a matemática por vezes se serve do absurdo para chegar à verdade".

Robert Musil (1880-1942) | O Homem sem Qualidades - Livro Segundo | Dom Quixote | 2008 | 2.ª Ed. | Trad. João Barrento

Nina's Dream


Benjamin Clementine | I Want Complain

junho 30, 2016


©raquelsav | 29 de Junho 2016 | Exposição "Avesso" de Ana Vidigal

 R   E   C   O   M   E   Ç   O

rima com

A   V   E   S   S   O

junho 29, 2016

 PLAY Neu! | Hallogallo (1972)

HELIAN

Nas horas solitárias do espírito
É bom caminhar ao sol
Ao longo dos muros amarelos do verão.
Leves ecoam os passos na erva; mas o filho de Pã
Dorme sempre no mármore cinzento.

À noite, no terraço, embriagámo-nos com vinho castanho.
Vermelho arde o pêssego na folhagem;
Doce sonata, alegre riso.

Belo é o silêncio da noite.
Na planície negra
Encontramo-nos com pastores e estrelas brancas. (...)

HELIAN

In den einsamen Stunden des Geistes
Ist es schön, in der Sonne zu gehn
An den gelben Mauern des Sommes hin.
Leise klingen die Schritte im Gras; doch immer schläft
Der Sohn des Pan im grauen Marmor.

Abends auf der Terrasse betranken wir uns mit braunem Wein.
Rötlich glüht de Pfisich im Laub;
Sanfte Sonate, frohes Lanchen.

Schön ist die Stille der Nacht.
Auf dunklem Plan
Begegnen wir uns mit Hirten und weißen Sternen. (...)

Georg Trakl (1887-1914) | Outono Transfigurado | Assírio & Alvim | 1992  | Tradução João Barrento

PLAY Pere Ubu | Final Solution

"Don't need a cure
Need a final solution."

junho 26, 2016

©raquelsav | Junho 2016
PLAY Tigran Hamasyan & The Yerevan State Chamber Choir | Luis i Luso Full Concert

(Em)quanto te elevas e um fio e um rasto e os deuses moribundos e cansados. E tu sobes em montanhas inclinadas de ouro e há luz e há luz. E os deuses fazem-se morros e as montanhas precipitam-se e o ouro e a luz voam como pássaros pelas escarpas. Jazem rochas cristalinas e élitros de besouro imóveis para te ver passar. E sobes e sobes e a montanha desce. (Em)quanto te elevas e um fio e um rasto e um silêncio. (Em)quanto te elevas e um mundo a ficar pequeno.
17.
Pois a pobreza é um grande clarão que vem do interior...

Denn Armut ist ein großer Glanz aus Innen....

Rainer Maria Rilke (1903 |  O Livro de Horas (O livro da pobreza e da morte) | Assírio&Alvim | 2009 | Trad. M. T. Dias Furtado

junho 24, 2016

© Pawel Kuczynsk

junho 22, 2016

junho 18, 2016

Murcof | Una

junho 15, 2016

PLAY Teho Teardo + Blixa Bargeld | The Beast


"-Então não é bom ser-se bom? - perguntou ao irmão, com um brilho nos olhos semelhante ao de uns dias antes, ao manipular as condecorações do pai de um modo que provavelmente não seria visto como bom por toda a gente.
-Tens razão - respondeu ele com vivacidade. - É preciso realmente formar de novo uma frase como essa para lhe sentir o sentido original! Mas as crianças ainda gostam de ser boas, como gostam de gulodices...
- Mas também de ser más - completou Agathe.
- MAs será que ser bom é uma das paixões dos adultos? - perguntou Ulrich. - É um dos seus princípios! Não são bons, porque isso lhes soaria infantil, mas praticam o bem. Um homem bom é aquele que tem bons princípios e pratica boas acções: mas isso não impede - e este é um segredo sem segredos - que possa ser a mais repugnante das pessoas!
- Como o Hagauer - finalizou Agathe.
- Há nessas pessoas boas um paradoxo absurdo: transformam a situação em exigência, a graça em norma, o ser em objectivo. Nesta família dos bons só se comem restos durante toda a vida, enquanto corre o boato de que em tempos houve um dia festivo do qual todos descendem! É certo que de tempos a tempos aparecem algumas virtudes que se tornam moda, mas assim que isso acontece elas perdem logo a frescura.
- Uma vez disseste que uma acção pode ser boa ou má, dependendo do contexto - inquiriu Agathe.
  Ulrich concordou. A sua teoria era a de que os valores morais não são grandezas absolutas, mas conceitos funcionais. Mas quando nos pomos a moralizar e a generalizar arrancamo-los ao seu todo natural.
- E provavelmente é esse o ponto em que, no caminho da virtude, alguma coisa está errada - disse ele.
- Se não fosse assim, como é que os moralistas podiam ser tão aborrecidos - continuou Agathe - , quando o seu propósito de serem bons devia ser a coisa mais deliciosa, difícil e divertida que se possa imaginar?
   O irmão hesitou. Mas de repente saiu-lhe a afirmação que em breve os iria levar a uma relação inusitada.
  - A nossa moral - explicou - é a cristalização de um movimento interior completamente diferente dela. Nada do que dizemos faz sentido. Pensa numa frase qualquer, ocorre-me, por exemplo, esta: ‹‹Numa prisão deve imperar o arrependimento!›› É uma frase que se pode pronunciar com a melhor das consciências, mas ninguém a toma à letra, senão estávamos a pedir o fogo do inferno para os encarcerados! Como é que a entendemos, então? Há com certeza muito poucos que saibam o que é o arrependimento, mas todos dizem onde ele deve imperar. Ou então pensa em algo exaltante: como é que isso se mistura com a moral? Quando é que estivemos com o rosto tão mergulhado no pó que isso nos faça sentir a bem-aventurança do arrebatamento? Ou então toma à letra uma expressão como ‹‹ser assaltado por um pensamento››: no momento em que sentisses no corpo tal contacto já estarias no limiar da loucura! Cada palavra quer então ser lida na sua literalidade para não degenerar em mentira, mas não podemos tomar nenhuma à letra, sob pena de o mundo se transformar num manicómio! Há uma qualquer grande embriaguez que se eleva daí sob a forma de uma obscura recordação, e de vez em quando imaginamos que todas as nossas experiências são partes soltas e destruídas de uma antiga totalidade que um dia se foi completando de maneira errada.".

Robert Musil (1880-1942) | O Homem sem Qualidades - Livro Segundo | Dom Quixote | 2008 | 2.ª Ed. |Trad. João Barrento
20

A minha vida não é esta hora inclinada
em que a apressar-me vês.
Sou uma árvore sobre o meu fundo desenhada
sou apenas uma das minhas bocas já calada
quando chegada foi a sua vez.

Sou silêncio que entre dois sons circula
que um ao outro mal se habituam
pois o som da morte quer levantar-se...

Mas nesse sombrio intervalo vêm reconciliar-se
ambos a tremer.
                E a canção a embelezar-se.

Mein Leben ist nicht diese steile Stunde
darin du mich so eilen siehst.
Ich bin ein Baum vor meinem Hintergtude,
ich bin nur einer meiner vielen Munde
und jener, welcher sich am frühsten schließt.

Ich bin die Ruhe zwischen zweien Tönen,
die sich nur schlecht aneinander gewöhnen:
denn der Ton Tod wil sich erhöhn -

Aber im dunklen Intervall versöhnen
sich beide zitternd.
                Und das Lied bleibt schön.

Rainer Maria Rilke (1875 -1926) |  O Livro de Horas | Assírio&Alvim | 2009 | Trad. M. T. Dias Furtado

junho 14, 2016



©Maria-Helena-Vieira-da-Silva | La-Scala-ou-Les-Yeux | 1937

PLAY Erik Truffaz + Murcof | The Eye

Esta elegia lenta de corpo em ferida.
Este poema de despojos, lido em voz alta.
Esta voz que ouvimos, como quem nos beija.
Esse primeiro beijo, nesse primeiro poema.
Esse primeiro poema, nessa voz que nos beija.
E nós, humanos, a sermos humanos.

junho 08, 2016


©Roger Fenton | Furness Abbey | 1860

CODA

Conhecíamos-lhe a fama de subitâneo,
Mas não o inesperávamos assim,
Ao amor.

Nuno Rocha Morais (1973 - 2008) Últimos Poemas | Quasi Edições | 2009