agosto 04, 2016

"Parece-me que a verdade, no sentido em que a usas, é uma força que trata mal as pessoas."

Robert Musil (1880-1942) | O Homem sem Qualidades - Livro Segundo | Dom Quixote | 2008 | 2.ª Ed. | Trad. João Barrento

agosto 03, 2016

Na mesa, divides o pão.
No corpo, a palavra.
Mas nunca entenderás a justiça dessa partilha.
 
RITUAIS
as memórias são facturas em teu nome
sei que o adeus tem os seus rituais e o teu
é deixar-me vazia a despensa dos sonhos

às vezes pergunto o que fizemos mal
vou enviar-te flores todos os outonos podes vir
pelas facturas pelo menos as da luz

estou às escuras por causa dos teus rituais

Pablo García Casado (1997) | Faróis à procura do oceano | do lado esquerdo | 2016 | Maria Sousa (trad.)

Ritos
los recuerdos son facturas a tu nombre / sé que el adiós tiene su ryto y el tuyo/ es dejarme vacía la despensa de los sueños// a veces me pregunto qué hicimos mal/ te mandaré flores cada otonõ puedes venir/ por las facturas al menos las de la luz// estoy a oscuras por culpta de tus ritos

agosto 02, 2016

Como quem rega um nado morto

fotograma "Sacrifício" | Andrei Tarkovsky | 1986 | Leopardo Filmes

julho 26, 2016

julho 25, 2016

----PELO TRILHO ENSOPADO DE CHUVA
o pequeno sermão ilusório do silêncio.
É como se pudesses ouvir,
como se eu ainda te amasse. 

---- AUF ÜBERREGNETER FÄHRTE
die kleine Gauklerpredigt der Stille.

Es ist, als könntest du hören,
als liebt ich dich noch 

Paul Celan (1955) | Sete Rosas Mais Tarde | Cotovia | 1996 


--------MEIO-DIA, CEDO
(...)
O indizível passa, sussurado, sobre esta terra:
é já meio-dia. 

--------FRÜHER MITTAG
(...)
Das Unsägliche geht, leise gesagt, übers Land:
schon is Mittag
Ingeborg Bachmann (1953) | O tempo aprazado | Assírio&Alvim | 1992 


julho 22, 2016

©André Kertész (1894-1985)


---------------------------------------PRAIA BRETÃ
Reunido está o que vimos,
para despedida de ti e de mim:
o mar, que nos lançava noites por terra,
a areia, que as atravessou connosco,
a urze vermelho-ferrugem além
onde o mundo nos aconteceu.

BRETONISCHER STRAND
Versammelt ist, was wir sahen,
zum Abschied von dir und vom mir:
das Meer, das uns Nächte an Land warf,
der Sand, der sie mit uns durchflogen,
das rostrote Heidekraut droben,
darin die Welt uns geschah.

Paul Celan (1955) | Sete Rosas Mais Tarde | Cotovia | 1996 



--------------------------------------UMA ESPÉCIE DE PERDA
Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lencóis de linho e uma cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados, gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissémos. Fizémos. E estendemos sempre a mão.

Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,

(- o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um apontamento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.

De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.

Não te perdi a ti,
perdi o mundo.


EINE ART VERLUST
Gemeinsam benutzt: Jahreszeiten, Bücher und eine Musik.
Die Schlüssel, die Teeschalen, den Brotkorb, Leintücher und ein Bett.
Eine Aussteuer von Worten, von Gesten, mitgebracht, verwendet, verbraucht.
Eine Hausordnung beachtet. Gesagt. Getan. Und immer die Hand gereicht.

In Winter, in ein Wiener Septett und in Sommer habe ich mich verliebt.
In Landkarten, in ein Bergnest, in einen Strand und ein Bett.
Einen Kult getrieben mit Daten, Versprechen für undkündbar erklärt,
angehimmelt ein Etwas und fromm gewesen vor einem Nichts,

(- der gefalteten Zeitung, der kalten Asche, dem Zettel mit einer Notiz)
furchtlos in der Religion, denn die Kirche war dieses Bett.

Aus dem Seeblick hervor ging meine unerschöpfliche Malerei.
Vom dem Balkon herab waren die Völker, meine Nachbarn, zu grüßen.

Am Kaminfeuer, in der Sicherheit, hatte mein Haar seine äußerste Farbe.
Das Klingeln an der Tür war de Alarm für meine Freude.

Nicht dich habe ich verloren,
sondern die Welt.

Ingeborg Bachmann (1953) | O tempo aprazado | Assírio&Alvim | 1992 


julho 21, 2016

julho 20, 2016

[#1] "furibunda melancolia" | "ironia furibunda"

fotograma de "Nostalgia" | Andrei Tarkovsky (1983)


"Uma gota, mais uma gota fazem uma grande gota, não duas gotas." ("Nostalgia")



------------------------------------------------------------------- 4.

Coloca uma palavra
no vale da minha mudez
e planta florestas de ambos os lados,
para que a minha boca
fique toda à sombra.

In die Mulde meiner Stummheit
leg ein Wort
und zieh Wälder groß zu beiden Seiten,
daß mein Mund
ganz im Schatten liegt.

Ingeborg Bachmann (1953) | O tempo aprazado | Assírio&Alvim | 1992 

-------------------------------------------------AQUELE QUE NOS CONTAVA AS HORAS
Aquele que nos contava as horas
continua a contar.
Que estará ele a contar, diz?
Conta e torna a contar.

Não faz mais frio,
nem mais noite,
nem mais húmido.

Só aquilo que nos ajudava a escutar
agora escuta 
para si sozinho


DER UNS DIE STUNDEN ZÄHLTE
Der uns die Stunden zählen, sag?
Er zählt und zählt.

Nicht hühler wirds,
nicht nächtiger,
nicht feutchter.

Nur was uns lauschen half:
es lauscht nun
für sich allein

Paul Celan (1955) | Sete Rosas Mais Tarde | Cotovia | 1996 


31.10.1951, Paris

Meine liebe Inge,
dieses Leben scheint nun einmal aus Versaumnissen gemacht, und man tut vielleicht besser daran, nicht allzu lange an diesen herum- zuraetseln, sonst will kein Wort von der Stelle. 
(...)
Lass mich alles wissen, was mitteilbar ist, und darueber hinaus vielleicht manchmal eines von den leiseren Worten, die sich einfinden, wenn man allein ist und nur in die Ferne sprechen kann. Ich tue dann dasselbe.
Das Lichtest dieser Stunde!
Paul


Ingeborg Bachmann & Paul Celan  | Herzzeit: Briefwechsel | 2015 | 4. Ed | Suhrkamp

[#3] manual de sobrevivência

@raquelsav | Algés | 8 Julho 2016

julho 08, 2016

julho 05, 2016

"viver por conta própria e a sonhar por conta de alguém"

"(...) cor de minério púrpura, polidos em barros, saibos, humidade, por milénios de paciência geológica.
    Assisto (assistimos os dois) em silêncio à ressurreição das florestas, também silenciosa. Ralanti desfocado (imagem por imagem) e contudo nítido no conjunto. Examino a ideia (é-me imposta de fora: não fui eu a elaborá-la) duma catástrofe serena, planeada, às avessas, e isso assusta-me ainda mais. Exacerbando sentimentos comuns (espanto, medo), mas inserindo-se numa experiência nova (signos doutra lógica e doutra realidade), a ideia insinua que estou a viver por conta própria e a sonhar por conta de alguém."

Carlos de Oliveira (1978) Finisterra | 1979 | Sá da Costa


II
Desloca-a o frémito
do fogo: lava
explodindo lentamente;
afastando as águas
marginais; endurecendo-as
na raiz dos álamos;
enquanto ganha 
fluidez: transmutação?
paciência geológica?
fábula da terra com os seus módulos 
minerais? e líquida; liberta
irrompe, deixa
sobre os flancos 
uma espuma de chão.
       
Carlos de Oliveira (1921 - 1981)| Cristal em Sória in Trabalho Poético, 2003, Assírio&Alvim
VI
O pássaro; a sua anatomia
rápida: forma cheia de pressa,
que se condensa
apenas o bastante
para ser visível no céu,
sem o ferir;
modelo doutros voos: nuvens;
e vento leve, folhas;
agora, atónito, abre as asas
no deserto da mesa;
tenta gritar às falsas aves
que a morte é diferente:
cruzar o céu com a suavidade
dum rumor e sumir-se.
       
Carlos de Oliveira (1921 - 1981)| Cristal em Sória in Trabalho Poético, 2003, Assírio&Alvim
  "As trovoadas não param. Raios que matam gente e gado, incendeiam casa, fendem pinhais inteiros. O inferno a mudar-se, com armas e bagagens. É o que dizem nas igrejas.
   O riso franze-lhe o canto dos olhos.
   Aí tens a intuição. Aceita-a sem reservas.
   Mesmo que lamente o êxodo (e desconfio), dunas sobre dunas, a perder de vista, não lhe desagrada ver sua febre confirmada nos peregrinos, ter alguma razão.
   E as mulheres? Ficaram a cuidar do inferno?
   Não blasfemes. Partiram para sul, de filhos agarrados às saias. Têm santos a dois passos da porta. Nós escolhemos o norte, por ser mais longe.
   Pedem o quê?
   Clemência e chuva. Trazemos gado como oferenda.
   Ad petendam pluviam, claro.
  Um silêncio breve (a vibração da sala desaparece). Quando recomeçam, as vozes soam com rudeza.
   Fogo de sol a sol, relampejando nas enxadas que remédio. Na areia germina pouco pão e as regas, além da chuva, precisam de suor. Mas os lugares malignos em nossa casa, não os merecemos. Tanto sítio para pôr o inferno, e logo nos calhou a nós."
(...)

   "Vamos ao trabalho. Tragam-me um cordeiro, faz favor. E não se esqueçam: tosquiado.
   O amigo da família dirige-se à orla da floresta. Comprar um cordeiro aos peregrinos: fácil, à primeira vista; à segunda, nem tanto: existe um problema religioso importante.
   O gado já pertence aos santos e arriscar a alma, arriscamos, se valer a pena. Por trinta dinheiros, só quem nós sabemos.
   Quando fecha o negócio (tosquia incluída, de má vontade), não bate a cabeça contra as árvores, por vergonha: na feira, o mesmo dinheiro (e metade do esforço) davam sem exagero para um rebanho.
   Regressa, com o cordeiro ao colo (a criança continua a espreitar): cambaleia, sobre a álea aos ziguezagues; sapatos de calfe esfolados, meias de lã enroladas sobre os sapatos (Que largam um rasto de suor, uma baba de caracol). Nos últimos passos, levanta os joelhos à altura do queixo: única forma de aguentar o peso do cordeiro. Chegam, enovelados um ao outro. O amigo da família mal pode respirar.
   Aqui o tem. E não me agradeça (não é possível)."

Carlos de Oliveira (1978) Finisterra | 1979 | Sá da Costa

"O relógio dá horas, nós damos-lhe corda. E apenas nós podemos adiantar, atrasar, os ponteiros. Muito pouco, aliás. Mesmo resvalando na pior corrupção..."

Carlos de Oliveira (1978) Finisterra | 1979 | Sá da Costa