|Assim repito o nome e sinto ainda o incêndio no rosto :|| paul celan |Porque é com nomes que alguém sabe | onde estar um corpo| por uma ideia, onde um pensamento | faz a vez da língua.| herberto helder
agosto 04, 2016
"apadrinha-o com tanto zelo maternal que é capaz de caminhar sobre cadáveres para defender o pacifismo."
(...)
"O pacifismo é um negócio de armamento duradouro e seguro, enquanto a guerra é um risco!
(...)
"O pacifismo é um negócio de armamento duradouro e seguro, enquanto a guerra é um risco!
Robert Musil (1880-1942) | O Homem sem Qualidades - Livro Segundo | Dom Quixote | 2008 | 2.ª Ed. | Trad. João Barrento
"Não estamos em condições de nos salvar a nós próprios, sobre isso não restam dúvidas. Falamos em democracia, mas ela é apenas a expressão política para um estado de ‹‹Pode ser assim, mas também pode ser de outro modo››. Vivemos na época do boletim de voto. Até votamos todos os anos no nosso ideal sexual, a rainha da beleza, e o facto de termos transformado a ciência no nosso ideal intelectual não significa mais do que pôr na mão dos chamados factos um boletim de voto, para que eles escolham por nós. Este tempo é antifilosófico e cobarde: não tem coragem para decidir o que tem ou não tem valor, e a democracia, reduzida à sua expressão mais simples, significa: Fazer aquilo que acontece! Diga-se de passagem que é um dos mais desonestos círculos viciosos que alguma vez existiu na história a nossa raça."
(...)
"Se quisermos traduzir isso para a linguagem chã e profana de hoje, podemos chamar-lhe a percentagem, que actualmente é assustadoramente baixa, da participação dos indivíduos nas suas experiências e nos seus actos. No sonho ficamos com a impressão de que ela é de cem por cento, nos estados de vigília nem a meio por cento chega! (...) Chamei a isso um dia-(...)- a acústica do vazio."
Robert Musil (1880-1942) | O Homem sem Qualidades - Livro Segundo | Dom Quixote | 2008 | 2.ª Ed. | Trad. João Barrento
agosto 03, 2016
RITUAIS
as memórias são facturas em teu nome
sei que o adeus tem os seus rituais e o teu
é deixar-me vazia a despensa dos sonhos
às vezes pergunto o que fizemos mal
vou enviar-te flores todos os outonos podes vir
pelas facturas pelo menos as da luz
estou às escuras por causa dos teus rituais
Pablo García Casado (1997) | Faróis à procura do oceano | do lado esquerdo | 2016 | Maria Sousa (trad.)
Ritos
los recuerdos son facturas a tu nombre / sé que el adiós tiene su ryto y el tuyo/ es dejarme vacía la despensa de los sueños// a veces me pregunto qué hicimos mal/ te mandaré flores cada otonõ puedes venir/ por las facturas al menos las de la luz// estoy a oscuras por culpta de tus ritos
as memórias são facturas em teu nome
sei que o adeus tem os seus rituais e o teu
é deixar-me vazia a despensa dos sonhos
às vezes pergunto o que fizemos mal
vou enviar-te flores todos os outonos podes vir
pelas facturas pelo menos as da luz
estou às escuras por causa dos teus rituais
Pablo García Casado (1997) | Faróis à procura do oceano | do lado esquerdo | 2016 | Maria Sousa (trad.)
Ritos
los recuerdos son facturas a tu nombre / sé que el adiós tiene su ryto y el tuyo/ es dejarme vacía la despensa de los sueños// a veces me pregunto qué hicimos mal/ te mandaré flores cada otonõ puedes venir/ por las facturas al menos las de la luz// estoy a oscuras por culpta de tus ritos
agosto 02, 2016
julho 26, 2016
julho 25, 2016
----PELO TRILHO ENSOPADO DE CHUVA
o pequeno sermão ilusório do silêncio.
É como se pudesses ouvir,
como se eu ainda te amasse.
---- AUF ÜBERREGNETER FÄHRTE
die kleine Gauklerpredigt der Stille.
Es ist, als könntest du hören,
als liebt ich dich noch
O indizível passa, sussurado, sobre esta terra:
é já meio-dia.
--------FRÜHER MITTAG
(...)
Das Unsägliche geht, leise gesagt, übers Land:
o pequeno sermão ilusório do silêncio.
É como se pudesses ouvir,
como se eu ainda te amasse.
---- AUF ÜBERREGNETER FÄHRTE
die kleine Gauklerpredigt der Stille.
Es ist, als könntest du hören,
als liebt ich dich noch
Paul Celan (1955) | Sete Rosas Mais Tarde | Cotovia | 1996
--------MEIO-DIA, CEDO
(...)O indizível passa, sussurado, sobre esta terra:
é já meio-dia.
--------FRÜHER MITTAG
(...)
Das Unsägliche geht, leise gesagt, übers Land:
schon is Mittag
Ingeborg Bachmann (1953) | O tempo aprazado | Assírio&Alvim | 1992
julho 22, 2016
![]() |
| ©André Kertész (1894-1985) |
---------------------------------------PRAIA BRETÃ
Reunido está o que vimos,
para despedida de ti e de mim:
o mar, que nos lançava noites por terra,
a areia, que as atravessou connosco,
a urze vermelho-ferrugem além
onde o mundo nos aconteceu.
BRETONISCHER STRAND
Versammelt ist, was wir sahen,
zum Abschied von dir und vom mir:
das Meer, das uns Nächte an Land warf,
der Sand, der sie mit uns durchflogen,
das rostrote Heidekraut droben,
darin die Welt uns geschah.
Paul Celan (1955) | Sete Rosas Mais Tarde | Cotovia | 1996
--------------------------------------UMA ESPÉCIE DE PERDA
Usámos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lencóis de linho e uma cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados, gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissémos. Fizémos. E estendemos sempre a mão.
Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis,
idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,
(- o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um apontamento)
sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.
De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.
Não te perdi a ti,
perdi o mundo.
EINE ART VERLUST
Gemeinsam benutzt: Jahreszeiten, Bücher und eine Musik.
Die Schlüssel, die Teeschalen, den Brotkorb, Leintücher und ein Bett.
Eine Aussteuer von Worten, von Gesten, mitgebracht, verwendet, verbraucht.
Eine Hausordnung beachtet. Gesagt. Getan. Und immer die Hand gereicht.
In Winter, in ein Wiener Septett und in Sommer habe ich mich verliebt.
In Landkarten, in ein Bergnest, in einen Strand und ein Bett.
Einen Kult getrieben mit Daten, Versprechen für undkündbar erklärt,
angehimmelt ein Etwas und fromm gewesen vor einem Nichts,
(- der gefalteten Zeitung, der kalten Asche, dem Zettel mit einer Notiz)
furchtlos in der Religion, denn die Kirche war dieses Bett.
Aus dem Seeblick hervor ging meine unerschöpfliche Malerei.
Vom dem Balkon herab waren die Völker, meine Nachbarn, zu grüßen.
Am Kaminfeuer, in der Sicherheit, hatte mein Haar seine äußerste Farbe.
Das Klingeln an der Tür war de Alarm für meine Freude.
Nicht dich habe ich verloren,
sondern die Welt.
EINE ART VERLUST
Gemeinsam benutzt: Jahreszeiten, Bücher und eine Musik.
Die Schlüssel, die Teeschalen, den Brotkorb, Leintücher und ein Bett.
Eine Aussteuer von Worten, von Gesten, mitgebracht, verwendet, verbraucht.
Eine Hausordnung beachtet. Gesagt. Getan. Und immer die Hand gereicht.
In Winter, in ein Wiener Septett und in Sommer habe ich mich verliebt.
In Landkarten, in ein Bergnest, in einen Strand und ein Bett.
Einen Kult getrieben mit Daten, Versprechen für undkündbar erklärt,
angehimmelt ein Etwas und fromm gewesen vor einem Nichts,
(- der gefalteten Zeitung, der kalten Asche, dem Zettel mit einer Notiz)
furchtlos in der Religion, denn die Kirche war dieses Bett.
Aus dem Seeblick hervor ging meine unerschöpfliche Malerei.
Vom dem Balkon herab waren die Völker, meine Nachbarn, zu grüßen.
Am Kaminfeuer, in der Sicherheit, hatte mein Haar seine äußerste Farbe.
Das Klingeln an der Tür war de Alarm für meine Freude.
Nicht dich habe ich verloren,
sondern die Welt.
Ingeborg Bachmann (1953) | O tempo aprazado | Assírio&Alvim | 1992
julho 21, 2016
julho 20, 2016
[#1] "furibunda melancolia" | "ironia furibunda"
![]() |
| fotograma de "Nostalgia" | Andrei Tarkovsky (1983) |
"Uma gota, mais uma gota fazem uma grande gota, não duas gotas." ("Nostalgia")
------------------------------------------------------------------- 4.
Coloca uma palavra
no vale da minha mudez
e planta florestas de ambos os lados,
para que a minha boca
fique toda à sombra.
In die Mulde meiner Stummheit
leg ein Wort
und zieh Wälder groß zu beiden Seiten,
daß mein Mund
ganz im Schatten liegt.
Ingeborg Bachmann (1953) | O tempo aprazado | Assírio&Alvim | 1992
-------------------------------------------------AQUELE QUE NOS CONTAVA AS HORAS
Aquele que nos contava as horascontinua a contar.
Que estará ele a contar, diz?
Conta e torna a contar.
Não faz mais frio,
nem mais noite,
nem mais húmido.
Só aquilo que nos ajudava a escutar
agora escuta
para si sozinho
DER UNS DIE STUNDEN ZÄHLTE
Der uns die Stunden zählen, sag?
Er zählt und zählt.
Nicht hühler wirds,
nicht nächtiger,
nicht feutchter.
Nur was uns lauschen half:
es lauscht nun
für sich allein
Paul Celan (1955) | Sete Rosas Mais Tarde | Cotovia | 1996
31.10.1951, Paris
Meine liebe Inge,
dieses Leben scheint nun einmal aus Versaumnissen gemacht, und man tut vielleicht besser daran, nicht allzu lange an diesen herum- zuraetseln, sonst will kein Wort von der Stelle.
(...)
Lass mich alles wissen, was mitteilbar ist, und darueber hinaus vielleicht manchmal eines von den leiseren Worten, die sich einfinden, wenn man allein ist und nur in die Ferne sprechen kann. Ich tue dann dasselbe.
Das Lichtest dieser Stunde!
Paul
Ingeborg Bachmann & Paul Celan | Herzzeit: Briefwechsel | 2015 | 4. Ed | Suhrkamp


