agosto 05, 2016

APESAR DE TUDO
Passou muito tempo. O que trouxemos connosco das nossas casas,
tudo se rompeu, se gastou, se sumiu.

O som do bater da porta no ardor-do-sol
a voz que dizia no corredor "como vens tarde",
o pente branco com que se penteava a mulher em frente ao espelho,
um cigarro que fumávamos à janela numa noite de-primavera
empurrando a cauda da Ursa Menor,
a sombra de duas mãos por sob a lâmpada, entre dois pratos de fruta, -

Tudo quanto trouxemos connosco dentro de nossas trouxas,
aquelas peúgas brancas que usávamos outrora de verão na praia,
e as ceroulas brancas e as camisolas desportivas que se diriam assentar-bem no corpo de Abril,
e ainda a tesourinha com que cortava outrora a nossa irmã mais-nova as unhas no peitoril-da-janela
e os reflexos das vidraças que tremiam sobre suas faces e suas mãos,
tudo isso se desfiou, se despedaçou, se gastou,
enferrujou também a tesourinha, quebraram--se-lhe as pontas,
é como a andorinha morta - ali no chão sobre a pedra -
ao lado da máquina de barbear e do sabão do mar -
não reparamos nela - cortamos as unhas dos pés, cortamos os calos
 é como uma chave ferrugenta - não serve - as fechaduras quebraram-se.

Tudo quanto trouxemos connosco em nossas trouxas e em nossas malas
tudo se rompeu, se gastou. Não resta nada.

Apesar de tudo, de vez em quando, à hora em que anoitece
e a Ursa Menor pendura seu pequenino-farol à entrada da tenda
cavando uma pequena vala com suas unhas na terra seca,
o Petros e o Vassílis ou o Ti' Andónis
procurando dentro da trouxa certa colher perdida ou o púcaro,
suas mãos ficam-lentas - esquecem-se
e à sua volta o ar torna-se redondo e imóvel como o azeite dentro da dorna
e o silêncio fica como a pedra-de-moinho quando lhe cortam a água.

Então ouvimos de súbito aquele esquecido som
como se cortassem com esta tesourinha os papéis do guarda-pratos em véspera de Natal,
como se erguidos nas pontas dos pés acendêssemos na lua o nosso cigarro.

E então sabemos que lá-bem-no-fundo das nossas malas,
por debaixo das não-lavadas camisas e das esburacadas peúgas,
resta ainda uma toalhinha bordada de familiar serenidade
e aquela sombra de duas mãos amadas como duas grandes secas parras.

E é estranho. Queremos chorar.              
                   
Giánnis Ritsos (1909 - 1990) | Antologia | Fora do Texto | 1993 | Trad. Custódio Magueijo
A OUTRA CIDADE
Há muitas solidões cruzadas - diz - em cima e em baixo
e outras no meio; diferentes e semelhantes, forçadas e impostas
ou como que escolhidas, como que livres - mas sempre cruzadas.

Mas no fundo, no centro, há apenas uma solidão - diz;
uma cidade vazia, quase esférica, sem quaisquer
anúncios luminosos multicolores, sem lojas, sem motocicletas,
com uma luz branca, vazia, brumosa, interrompida
por centelhas de desconhecidos semáforos. Caminham silenciosos de braços cruzados,
recordam factos imprecisos, esquecidos, palavras, paisagens,
estes consoladores do mundo, sempre inconsolados, perseguidos
pelos cães, pelos homens, pelos vermes, pelos ratos, pelas estrelas,
perseguidos até pelas suas próprias palavras, ditas ou não ditas.       

Giánnis Ritsos (1909 - 1990) | Antologia | Fora do Texto | 1993 | Trad. Custódio Magueijo

agosto 04, 2016

Em Der Mann ohne Eigenschaften [O homem sem qualidades], de Musil, encontramos uma das mais fascinantes, originais, espirituosas e ricamente abastecidas mentes da literatura alemã. (...) O seu romance serve o liberalismo ao focar-se na consciência de Ulrich, cuja aguda percepção da possibilidade e da contingência o distancia ironicamente das estreitas ideologias que a maioria das pessoas confunde com a realidade. Encarando a realidade como provisória, ele tira um ‹‹sabático em relação à vida›› e observa uma rica série de falsos profetas, polímatos e descontrolados entusiastas de coisas superiores, exigindo ou proclamando novas certezas. Hostil por igual à verborreia deles e à violência latente nos sistemas filosóficos, Ulrich pratica uma abordagem à experiência chamada ‹‹ensaísmo››, que é em simultâneo experimental e rigorosa. Um matemático experimentado (como Musil), ele deseja aplicar a precisão científica a realidades tão evanescentes como as emoções e o misticismo. Longe de ser redutor, Musil emprega uma riqueza de metáforas para captar as mais fugazes tonalidades emocionais. O seu romance funciona da melhor maneira quando as reflexões ensaísticas se entrelaçam com a comédia social"
 
Ritchie Robertson | Do naturalismo ao nacional-socialismo (1890-1945) in História da Literatura Alemã de Helen Watanabe-O'Kelly | EditorialVerbo | 2003
©raquelsav | Fotograma de Kárhozat (Damnation) 1987 | Béla Tarr | Midas

DESENLACE
Talvez eu esteja no meio.
Talvez seja noite. Talvez, crepúsculo.
Uma certeza: faz-se tarde.

Pilinszky János (1921 - 1981) | Antologia da poesia húngara | Âncora Editora | 2002 | Trad. e Selec. Ernesto Rodrigues
"Se o pai é pobre, os filhos gostam de dinheiro, se o papá tem dinheiro, os filhos amam a humanidade."

Robert Musil (1880-1942) | O Homem sem Qualidades - Livro Segundo | Dom Quixote | 2008 | 2.ª Ed. | Trad. João Barrento
"apadrinha-o com tanto zelo maternal que é capaz de caminhar sobre cadáveres para defender o pacifismo."

(...)
"O pacifismo é um negócio de armamento duradouro e seguro, enquanto a guerra é um risco!

Robert Musil (1880-1942) | O Homem sem Qualidades - Livro Segundo | Dom Quixote | 2008 | 2.ª Ed. | Trad. João Barrento
"Na cultura, o mais importante é aquilo que ela proíbe, o que não faz parte dela, e pronto. Um homem de cultura nunca comerá o molho com a faca, sabe Deus porquê. "

Robert Musil (1880-1942) | O Homem sem Qualidades - Livro Segundo | Dom Quixote | 2008 | 2.ª Ed. | Trad. João Barrento
"Não estamos em condições de nos salvar a nós próprios, sobre isso não restam dúvidas. Falamos em democracia, mas ela é apenas a expressão política para um estado de ‹‹Pode ser assim, mas também pode ser de outro modo››. Vivemos na época do boletim de voto. Até votamos todos os anos no nosso ideal sexual, a rainha da beleza, e o facto de termos transformado a ciência no nosso ideal intelectual não significa mais do que pôr na mão dos chamados factos um boletim de voto, para que eles escolham por nós. Este tempo é antifilosófico e cobarde: não tem coragem para decidir o que tem ou não tem valor, e a democracia, reduzida à sua expressão mais simples, significa: Fazer aquilo que acontece! Diga-se de passagem que é um dos mais desonestos círculos viciosos que alguma vez existiu na história a nossa raça."

(...)

"Se quisermos traduzir isso para a linguagem chã e profana de hoje, podemos chamar-lhe a percentagem, que actualmente é assustadoramente baixa, da participação dos indivíduos nas suas experiências e nos seus actos. No sonho ficamos com a impressão de que ela é de cem por cento, nos estados de vigília nem a meio por cento chega! (...) Chamei a isso um dia-(...)- a acústica do vazio."
Robert Musil (1880-1942) | O Homem sem Qualidades - Livro Segundo | Dom Quixote | 2008 | 2.ª Ed. | Trad. João Barrento
"Parece-me que a verdade, no sentido em que a usas, é uma força que trata mal as pessoas."

Robert Musil (1880-1942) | O Homem sem Qualidades - Livro Segundo | Dom Quixote | 2008 | 2.ª Ed. | Trad. João Barrento

agosto 03, 2016

Na mesa, divides o pão.
No corpo, a palavra.
Mas nunca entenderás a justiça dessa partilha.
 
RITUAIS
as memórias são facturas em teu nome
sei que o adeus tem os seus rituais e o teu
é deixar-me vazia a despensa dos sonhos

às vezes pergunto o que fizemos mal
vou enviar-te flores todos os outonos podes vir
pelas facturas pelo menos as da luz

estou às escuras por causa dos teus rituais

Pablo García Casado (1997) | Faróis à procura do oceano | do lado esquerdo | 2016 | Maria Sousa (trad.)

Ritos
los recuerdos son facturas a tu nombre / sé que el adiós tiene su ryto y el tuyo/ es dejarme vacía la despensa de los sueños// a veces me pregunto qué hicimos mal/ te mandaré flores cada otonõ puedes venir/ por las facturas al menos las de la luz// estoy a oscuras por culpta de tus ritos

agosto 02, 2016

Como quem rega um nado morto

fotograma "Sacrifício" | Andrei Tarkovsky | 1986 | Leopardo Filmes

julho 26, 2016

julho 25, 2016

----PELO TRILHO ENSOPADO DE CHUVA
o pequeno sermão ilusório do silêncio.
É como se pudesses ouvir,
como se eu ainda te amasse. 

---- AUF ÜBERREGNETER FÄHRTE
die kleine Gauklerpredigt der Stille.

Es ist, als könntest du hören,
als liebt ich dich noch 

Paul Celan (1955) | Sete Rosas Mais Tarde | Cotovia | 1996 


--------MEIO-DIA, CEDO
(...)
O indizível passa, sussurado, sobre esta terra:
é já meio-dia. 

--------FRÜHER MITTAG
(...)
Das Unsägliche geht, leise gesagt, übers Land:
schon is Mittag
Ingeborg Bachmann (1953) | O tempo aprazado | Assírio&Alvim | 1992