outubro 11, 2017

[#1] Diálogo

"- A razão não é o único meio de dois seres se entenderem."
Robert Musil (1880-1942) | O Homem sem Qualidades |Dom Quixote | 2014 (4.ª Ed.)
(Trad. João Barrento)

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"Uma coisa fiquei a saber: é falso que alguém se entenda falando." 
Adolfo Bioy Casares (1914 -1999) | Dormir ao sol | Editorial Estampa |1980

Karlheinz Stockhausen - Mikrophonie 1 - Film 1966


outubro 09, 2017

é.... (h)uma partida de crianças...

outubro 04, 2017

 O SENHOR
No entanto, ao menos os corsos servem para qualquer coisa. São carteiros. Quem nos traria o correio se não houvesse corsos?
 
A SENHORA
São um mal necessário

O SENHOR
O mal nunca é necessário

A SENHORA
Sim, isso também é verdade.

O SENHOR
Não julgue que eu desprezo a profissão de carteiro.

A SENHORA
Não há profissões mesquinhas!

O SENHOR, levantando-se
Minha senhora, acaba de dizer uma grande verdade! Merece a honra de um provérbio. Permita-me que a felicite... (Beija-lhe a mão.) Aqui tem a cruz de honra!

    Pendura no peito da senhora uma cruz de honra de escola primária.

A SENHORA
Oh, Senhor... não passo de uma mulher, apesar de tudo!... Mas se é sincero!

O SENHOR
Garanto-lhe, minha senhora. A verdade pode brotar de qualquer cérebro...

Ionesco | A menina casadoira | Editorial Presença | 1963  (Trad. Luísa Neto Jorge)
Kafka Desiste! e outras histórias ilustradas por Peter Kuper | Mundo Fantasma | 2003


outubro 03, 2017

"Umas vezes as palavras partem-se,
outras, inteiras rejubilam,
onde estão os cães que ladram em qualquer intimidade?
em que praia desembarcará o medo rastejante?
Em que toca o cimento engolirá algumas décadas
até não apodrecer?
O futuro onde estamos tem a iníqua alegria dos sacanas.

*

A palavra, hoje, mutila.
A palavra, hoje, mutila."

Rui Nunes (2014) | Nocturno Europeu | Relógio D'Água

outubro 02, 2017


Dar por certo e não ter como acertar.

PLAY Portishead | Roads

EINE ART VERLUST
Gemeinsam benutzt: Jahreszeiten, Bücher und eine Musik.
Die Schlüssel, die Teeschalen, den Brotkorb, Leintücher und ein Bett.
Eine Aussteuer von Worten, von Gesten, mitgebracht, verwendet, verbraucht.
Eine Hausordnung beachtet. Gesagt. Getan. Und immer die Hand gereicht.

In Winter, in ein Wiener Septett und in Sommer habe ich mich verliebt.
In Landkarten, in ein Bergnest, in einen Strand und ein Bett.
Einen Kult getrieben mit Daten, Versprechen für undkündbar erklärt,
angehimmelt ein Etwas und fromm gewesen vor einem Nichts,

(- der gefalteten Zeitung, der kalten Asche, dem Zettel mit einer Notiz)
furchtlos in der Religion, denn die Kirche war dieses Bett.

Aus dem Seeblick hervor ging meine unerschöpfliche Malerei.
Vom dem Balkon herab waren die Völker, meine Nachbarn, zu grüßen.

Am Kaminfeuer, in der Sicherheit, hatte mein Haar seine äußerste Farbe.
Das Klingeln an der Tür war de Alarm für meine Freude.

Nicht dich habe ich verloren,
sondern die Welt.

Ingeborg Bachmann (1953) | O tempo aprazado | Assírio&Alvim | 1992 

Alfredo Marceneiro - É tão bom ser pequenino


fotograma de "Cavalo de Turim" | Béla Tarr
PLAY Charlotte Gainsbourg | Beauty Mark

"Paro diante de cada ameaça de ruína para me examinar tal como sou. Justamente o que queria evitar. Mas trata-se sem dúvida de uma única maneira. Depois deste banho de lama conseguirei admitir melhor um mundo onde não seja uma nódoa. Que maneira de pensar a minha. Abrirei os olhos, ver-me-ei tremer, engolirei a minha sopa, olharei para o pequeno amontoado dos meus haveres, darei ao meu corpo as velhas ordens que o sei incapaz de cumprir, consultarei a minha consciência caducada, estragarei a minha agonia para a viver melhor, já longe do mundo que por fim se dilata e me deixa passar."
(...)

"E talvez esteja nesse ponto do seu instante em que viver é errar só e vivo no fundo de um instante sem limites, onde a luz não muda e onde os destroços são todos semelhantes. "
(...)

"Ou então é preciso termos toda a noite à nossa frente, para seguirmos as lentas quedas e ascensões do outros mundos, quando as há, ou para ficarmos à espera dos meteoros, e eu não tenho a noite toda à minha frente."

Samuel Beckett | Malone está a morrer | Dom Quixote

setembro 26, 2017

julho 31, 2017

julho 20, 2017

#Paradoxos



legenda:  S  A  U  D  A  D  E   é o somatório de  infinitas S  A  U  D  A  D  E  S



julho 04, 2017

©Gerard Castello-Lopes
A OUTRA CIDADE
Há muitas solidões cruzadas - diz - em cima e em baixo
e outras no meio; diferentes e semelhantes, forçadas e impostas
ou como que escolhidas, como que livres - mas sempre cruzadas.
Mas no fundo, no centro, há apenas uma solidão - diz; 
uma cidade vazia, quase esférica, sem quaisquer
anúncios luminosos multicores, sem lojas, sem motocicletas,
com uma luz branca, vazia, brumosa, interrompida
por centelhas de desconhecidos semáforos. NEsta cidade
habitam desde há anos os poetas. Caminham silenciosos de braços cruzados,
recordam factos imprecisos, esquecidos, palavras, paisagens,
estes consoladores do mundo, sempre inconsolados, perseguidos
pelos cães, pelos homens, pelos vermes, pelos ratos, pelas estrelas,
perseguidos até pelas suas próprias palavras, ditas ou não ditas.

Giánnis Ritsos (1972) | Antologia | Fora do Texto | 1993

junho 10, 2017

©Ema Spencer | Kitten's Party (Child Study) | 1899 (ca)
PLAY Dido and Aeneas | Purcell

Escolhemos o segredo dos lamentos,
das descidas cromáticas 
que adensam a beleza de tudo o que nos dói.
Inventamos escalas 
que nos sustentam os sorrisos modelados,
enquanto nos distraimos em infinitos círculos.

Degrau a degrau,
corrigimos a sombra dos passos,
prevemos as quedas.
   [e escolhemos cair]
PLAY Fernando Lopes-Graça | Acordai

"Hoje, como ontem, continuamos discípulos obedientes das escolas e processos mais ou menos marcantes lá de fora. E muita sorte quando essas escolas e processos não são já velhos cinquenta anos! - o que sucede na maioria dos casos. Os poucos artistas que entre nós têm coragem de ser de hoje, de afirmar uma titubeante personalidade, aqueles que possuem, na realidade, alguma originalidade (e alguns há) não contam: o meio asfixia-os; e eles acabam ou por transigir, ou por renunciar, ou por se matar.
Depois, a verdade é esta: Em Portugal não existe o problema artístico. Pode existir o problema a existência ou da subsistência material do artista. Mas aquilo a que pròpriamente se pode chamar problema artístico, isto é: a investigação das condições, determinantes e possibilidades de criação e da contemplação artísticas, donde resulta a vida real da arte - não, esse problema não existe cá. É doloroso, mas é assim mesmo." 

Fernando Lopes-Graça (1935) | Cultura, educação, arte, etc.  in "Disto e Daquilo" | Edição Cosmos | Lisboa | 1973

PLAY Fernando Lopes-Graça | Três Esconjuros