|Assim repito o nome e sinto ainda o incêndio no rosto :|| paul celan |Porque é com nomes que alguém sabe | onde estar um corpo| por uma ideia, onde um pensamento | faz a vez da língua.| herberto helder
setembro 13, 2018
agosto 22, 2018
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| *Wim Wenders, "Paris, Texas" |
"Eu costumava fazer-te longos discursos depois de te teres ido embora.
Costumava estar sempre a falar contigo, muito embora estivesse sozinha.
Durante meses andei de um lado para o outro a falar para ti.
Agora não sei o que dizer.
Era mais fácil quando só te imaginava.
Até imaginei que tu também falavas comigo.
Que tínhamos longas conversas, nós os dois.
Era quase como se estivesse ali, eu via-te, cheirava-te. Eu conseguia ouvir a tua voz.
Por vezes, a tua voz acordava-me.
Acordava-me a meio da noite, como se tu estivesses ali no quarto, comigo.
Depois...
desvanecia-se lentamente, eu não conseguia imaginar-te.
Eu tentava falar alto contigo como costumava fazer, mas não havia nada ali.
Eu não conseguia ouvir-te.
Então... simplesmente desisti.
Tudo parou.
Tu... simplesmente desapareceste.
Agora trabalho aqui.
Ouço a tua voz a toda a hora.
Todos os homens têm a tua voz."
"Paris, Texas" (Wim Wenders)
Out 2017
Agos 2018
agosto 20, 2018
agosto 17, 2018
"A eterna atracção para o que é obscuro e indeterminado, para a reflexão especulativa que foi chamada Grübelei, encontra a porta aberta e vem a originar a doutrina apocalíptica do estilo expressionista.
(...) À primeira vista, este expressionismo de estilo telegráfico, que explode em frases curtas, em exclamações breves onde se destruiu a sagrada ordem de sintaxe e se suprimiu o dédalo das proposições secundárias parece ter simplificado os complexos modos de expressão próprios dos alemães. Mas esta clareza é só aparente. O objectivo da fraseologia expressionista é potenciar ao máximo o significado "metafísico" das palavras: forjando neologismos ou cadeias de palavras em difíceis combinações, inventam-se alegorias místicas, sem qualquer espécie de lógica. Esta linguagem, carregada de símbolos e de metáforas, é obscurecida de propósito, para que só os iniciados se consigam aperceber do seu significado.
(...) O expressionismo não vê, não tem "visões". Segundo Edschmid, "a cadeia dos factos: fábricas, casas, doenças, prostitutas, gritos, fome" não existe; só existe a visão interior que eles produzem. Os factos e objectos nada são em si próprios: é preciso aprofundar a sua essência, discernir o que há neles para além da sua forma acidental. É a mão do artista que, através deles, se apossa do que está por detrás deles para permitir conhecer a sua forma verdadeira, liberta dos limites sufocantes de uma "falsa realidade". O artista expressionista, não receptivo mas verdadeiramente criador, procura, em vez de efeito momentâneo, a "significação eterna" dos factos e objectos."
Lotte Eisner (1893-1983) | O ecran demoníaco | Editorial Aster | 1960
agosto 16, 2018
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| fotograma Cartas de um homem morto | Konstantin Lopushansky | 1986 |
"Hoje quero falar-vos de morto para morto. Quero falar com franqueza. Permitam-me um pequeno discurso em defesa da humanidade como género biológico. Este foi um género trágico que, possivelmente, estava condenado de antemão. O nosso fatal e maravilhoso destino consistiu em pretender alcançar o inalcançável, em queremos ser melhores do que nos fez a natureza. Achávamos forças para ser compassivos, contrariamente às leis da sobrevivência, para nos sentirmos dignos de nós mesmos, embora sempre fossemos espezinhados, por criarmos obras de arte, conscientes de que eram inúteis e efémeras. Achávamos forças para amar. Meus Deus, o que nos custou tudo isto! Pois o tempo implacável destruía corpos, ideias e sentimentos. Mas o homem continuava a amar. E o homem criou a arte, uma arte que reflecte o nosso anseio insuportável pela perfeição ideal, o nosso infinito desespero e clamor pelo horror. Um lamento de seres pensantes e solitários, neste gélido e indiferente deserto do Cosmos. (...) Direi que amei a humanidade. E amo ainda mais, agora que não existe, precisamente pelo seu trágico destino. (...) Cada um tem o seu próprio salto de consciência, possivelmente, este será o meu".
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| fotograma Cartas de um homem morto | Konstantin Lopushansky | 1986 |
"Meu filho querido, imagine, estou a trabalhar, e o engraçado é que trabalho para o bem comum. Calculei o novo dia: 7200 minutos segundo a unidade antiga. Não é tão absurdo como possa parecer, pois os crepúsculos são uniformes. Mas até Deus, ao criar este mundo, teve de orientar-se no tempo. Ele inventou os dias e as noites e neles havia diversidade. Eu propus outra unidade de tempo: o crepúsculo, pois já não há diversidade no mundo."
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| fotograma Faust | F. W. Murnau | 1926 |
E há dez anos que o mundo me vê
Levando atrás de mim a eito
Fiéis discípulos a torto e a direito -
E afinal vejo: nosso saber é nada!
É de ficar com a alma amargurada.
Sei mais, é claro, que todos os patetas,
Mestres, doutores, escribas e padrecas;
Nem escrúpulos nem dúvidas eu temo,
E não receio nem Inferno nem demo -
Não me resta réstia de alegria,
Nem me iludo com vã sabedoria,
Nem creio que tenha nada a ensinar
À humanidade que a possa salvar.
Johann W. Goethe (1749 -1832) | Fausto | Relógio D'Água | 2013
agosto 08, 2018
Quis ser, à sombra de ti, a um passo, e fui-o: a um passo, em falso, de mim.
Que se fodam as réguas e esquadros, as fitas métricas, taxímetros, micrómetros e aristos; que ardam os mapas e GPS's; que se extingam a trigonometria e todas as técnicas antropométricas: não há arte que estime, fiel, a distância de segurança da sombra de nós.
Que se apague a luz; que se esconda o sol; que se parem os ponteiros ao meio dia; que os passos sejam largos sem sombra que se lhes arraste; que o voo seja pleno sem figura terrestre que o acompanhe: livre é ser só.
agosto 01, 2018
"(...) o engenho do primeiro romancista consistiu em compreender que no aparelho das nossas emoções, como a imagem é o único elemento essencial, a simplificação que consistiria em suprimir pura e simplesmente as personagens reais seria um aperfeiçoamento decisivo. Um ser real, por muito profundamente que simpatizemos com ele, é em grande parte apreendido pelos nossos sentidos, o que quer dizer que permanece para nós opaco, que apresenta um peso morto que a nossa sensibilidade não pode levantar. Se é atingido por uma infelicidade, só numa pequena parte da noção total que dele temos é que ele mesmo pode comover-se. O achado do romancista foi ter a ideia de substituir essas partes impenetráveis à alma por uma quantidade igual de partes imateriais, isto é, que a nossa alma pode assimilar a si mesma. Que importa então que as acções, que as emoções desses seres de uma nova espécie, nos surjam como verdadeiras, visto que as tomámos nossas, visto que é em nós que acontecem, que mantêm sob o seu domínio, enquanto viramos febrilmente as páginas do livro, a rapidez da nossa respiração e a intensidade do nosso olhar?"
Marcel Proust (1871 -1922) | Em busca do tempo perdido - Do lado de Swann | 3ª Ed. | Relógio D'Água | Trad. Pedro Tamen | p. 93
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©Elliot Erwitt | Ceremony for the crowning of the Shah | 1967 | Teheran
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"Mas uma vassoura, podereis vós dizer-me, é o símbolo de uma árvore que se sustenta sobre a própria cabeça; e eu respondo-vos: o que é o homem senão uma criatura virada ao contrário, com as suas faculdades animais perpetuamente a cavalo das suas faculdades racionais e com a cabeça no sítio dos calcanhares a rastejas pelo chão? E mesmo assim, com tantas deficiências, ele erige-se em reformador universal, em destruidor de abusos, cavaleiro andante de todos os agravos, sempre a esquadrinhar os esquálidos recantos da natureza, a trazer para a luz do dia as podridões ocultas, a erguer poeiras consideráveis nos locais onde nem sequer elas existem deixando-se tomar muitas vezes da sujidade que deseja limpar; os seus últimos dias passa-os escravizado às mulheres, que como sua irmã vassoura, gasto até aos restos, é deitado pela porta fora ou empregado em acender fogueiras a que outros se vêm aquecer."
Jonathan Swift (1667-1745) | Meditações sobre uma vassoura | in Antologia do Humor Negro | fernando ribeiro de melo - edições afrodite | 1973
julho 30, 2018
O infinito
Sempre gratas me foram esta colina tão só
E esta sebe alta e extensa
Que não deixa ver o último horizonte.
Mas quando me demoro a contemplá-la
O meu espírito gera para além dela
Intermináveis espaços, silêncios sobre-humanos
Uma paz escura, profunda; e pouco falta
Para o terror me assaltar o coração. E quando
Ouço o vento sussurrar nas plantas
Comparo o infinito de tanto silêncio
A esta voz, e lembro-me da eternidade
Das estações mortas, do tempo presente
E vivo, do seu murmúrio brando. Assim
Se aniquila o meu espírito na imensidão:
E é-me grato naufragar neste mar.
Giacomo Leopardi (1798 - 1837) | in Rosa do Mundo | Tradução de Ernesto Sampaio | Assírio&Alvim | 2001
E esta sebe alta e extensa
Que não deixa ver o último horizonte.
Mas quando me demoro a contemplá-la
O meu espírito gera para além dela
Intermináveis espaços, silêncios sobre-humanos
Uma paz escura, profunda; e pouco falta
Para o terror me assaltar o coração. E quando
Ouço o vento sussurrar nas plantas
Comparo o infinito de tanto silêncio
A esta voz, e lembro-me da eternidade
Das estações mortas, do tempo presente
E vivo, do seu murmúrio brando. Assim
Se aniquila o meu espírito na imensidão:
E é-me grato naufragar neste mar.
Giacomo Leopardi (1798 - 1837) | in Rosa do Mundo | Tradução de Ernesto Sampaio | Assírio&Alvim | 2001











